A taxa de desgaste da sola depende da resistência e da concentração de água no tecido córneo. Já a quantidade de água no tecido córneo, depende da estrutura do casco, do ambiente e do manejo dos animais. Suspeita-se que exista uma correlação entre a quantidade de túbulos no tecido córneo e absorção de água. Em condições ambientais com grande umidade foi demonstrado que o casco do membro anterior pode ter até 70% de água.
Nos sistemas intensivos de confinamento o casco é continuamente exposto à elevada umidade e, desta forma, altas taxas de desgaste podem ser esperadas. Os fatores que, particularmente, contribuem para altas taxas de desgaste no casco são:
- Concreto: Vacas que percorrem grandes distâncias sobre um piso de concreto até a ordenha, principalmente nos casos de 3 ordenhas, têm maior desgaste do casco. Além disso, sabe-se que concretos ainda novos causam um maior desgaste do casco sendo cerca de 83% mais abrasivos.
- Fatores sociais: A disputa social entre os animais, como por exemplo, entre vacas jovens e velhas; entre vacas recém colocadas em um lote, contribui para o desgaste da sola.
- Baixo conforto animal: lotes com excesso de animais, instalações mal dimensionadas, insuficiente número de camas no "Free Stall" e o estresse térmico colaboram para a redução do período em decúbito e, consequentemente, para o desgaste da sola.
- Qualidade do casco: a laminite está associada com o casco de baixa qualidade e mais frágil. Solas finas foram observadas, mesmo antes do parto, em novilhas acometidas com laminite.
- Manejo: forçar os animais a se locomover rapidamente durante o manejo (ordenha, vacinação, etc.) é também fator importante para aumentar a taxa de desgaste da sola. Na grande maioria das vezes, a pessoa que conduz os animais para a ordenha sabe que os animais preferem andar em certos pontos do corredor, geralmente áreas menos abrasivas do piso; por isso, esta "preferência" dos animais deve ser respeitada.
- Casqueamento: a remoção excessiva de tecido córneo durante o casqueamento pode tornar a sola mais frágil e predisposta à lesões.
Já foi observado que cascos com crescimento excessivo e solas espessas apresentam alteração na dinâmica de distribuição do peso. Quando o comprimento da pinça aumenta e a sola nesta região torna-se espessa, há um deslocamento do centro de apoio durante a locomoção, que irá se concentrar no talão do casco. Estas alterações predispõem a injúrias no tecido córium, principalmente na região abaixo do tubérculo flexor da terceira falange. Estes insultos no tecido córium podem levar à ocorrência de Hematomas de sola e até Úlceras de sola nos casos mais severos.
Um estojo córneo, de uma vaca holandesa adulta, que apresenta uma adequada proteção das estruturas internas (córium), possui em média:
- 5 a 7 mm de espessura na sola
- 7,5 cm de comprimento da muralha dorsal
Sabe-se que a espessura da sola na região próxima à pinça é um pouco menor que a espessura da sola na região próxima ao talão, considerando cascos normais sem alterações de conformação. Por exemplo, pesquisadores relataram em estudos com peças de casco uma espessura na sola de 5 à 10 mm próximo à pinça e 8 à 15 mm próximo ao talão.
No estudo abordado neste artigo, pesquisadores submeteram os cascos a três diferentes tipos de casqueamento, sendo eles:
- Grupo 1: Não foram casqueados
- Grupo 2: Foram submetidos ao casqueamento preventivo com 4 cortes, sendo
Corte 1 - Aparar as pinças das unhas maiores que 7,5 centímetros de comprimento
Corte 2 - Rebaixar a região da sola próxima à pinça para que o animal se apóie mais na sola do que na região do talão
Corte 3 - Abertura das unhas próximo à região do espaço interdigital: (facilita a saída de sujidades e previne gabarros, podridão de casco, verrugas de casco)
Corte 4 - Alinhar os talões (distribuindo melhor o peso do animal) (OBS. Os cortes foram detalhados no artigo sobre Casqueamento Preventivo publicado nesta seção em 2002)
- Grupo 3: Foram submetidos ao casqueamento preventivo similar ao do Grupo 2, com exceção do corte 2. Neste caso, a sola foi rebaixada até o momento no qual aparece o contorno total da Linha Branca na região próxima à pinça. (Observe o desenho da Figura 3).
Após os casqueamentos descritos acima, os cascos de todos os grupos foram seccionados aproximadamente 3 cm atrás da pinça, desta forma, a espessura da sola nesta região foi mensurada. No próximo artigo, serão apresentados os resultados da pesquisa e serão discutidas as vantagens e as aplicações dos dois tipos de casqueamento preventivo abordados acima. Até lá!

Figura 1- Casco com o comprimento da pinça aumentado e a sola, nesta região, mais espessa.

Figura 2- Casco com a conformação adequada.

Figura 3 - Esquema ilustrando o contorno da linha branca nos dois tipos de casqueamento preventivo. À direita a linha branca aparece em todo o contorno da sola próximo à pinça do casco.
Fonte:
VAN AMSTEL, S.R.; PALIN, F.L.; SHEARER, J.K.; ROBINSON, B.F.Anatomical Measurement of Sole Thickness in Cattle Following Application of Two Different Trimmimg Techniques. The Bovine Practitioner, v.36, p.136, 2002.