A agropecuária mundial tem sido eficiente no uso de nitrogênio?

O nitrogênio (N) é um elemento fundamental para a composição das espécies, a diversidade, a dinâmica e funcionamento de muitos ecossistemas terrestres, aquáticos e marinhos. Embora seja utilizado para atender às necessidades humanas, tais como a produção agrícola, as suas consequências ambientais são sérias e de longo prazo. O uso excessivo de fertilizantes pode contribuir para a contaminação dos solos e das águas com nitrato, com a acidificação do solo, e com a emissão de dióxido de carbono, óxido nitroso e de amônia para a atmosfera.[...]

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O nitrogênio (N) é um elemento fundamental para a composição das espécies, a diversidade, a dinâmica e funcionamento de muitos ecossistemas terrestres, aquáticos e marinhos. Embora seja utilizado para atender às necessidades humanas, tais como a produção agrícola, as suas consequências ambientais são sérias e de longo prazo. O uso excessivo de fertilizantes pode contribuir para a contaminação dos solos e das águas com nitrato, com a acidificação do solo, e com a emissão de dióxido de carbono, óxido nitroso e de amônia para a atmosfera. A poluição por nitratos tem sido uma preocupação atual na Europa e América do Norte.

A importância do esterco como fonte de nutrientes para as culturas vegetais é reconhecida há milênios. A gestão adequada dos sistemas de produção pecuária mostra que as combinações de intensificação, melhor utilização dos dejetos animais na produção agrícola, o suprimento preciso de N e de outros elementos para se atender às exigências nutricionais dos animais, podem efetivamente reduzir os fluxos desses nutrientes, reduzindo os impactos ambientais.

Mas como tem sido a eficiência da agropecuária mundial - e da brasileira em específico - no uso de N?

Em artigo científico recentemente publicado, pesquisadores franceses e italianos procuraram responder à essa importante pergunta. Neste texto procurarei resumir as principais conclusões obtidas e alertar para a necessidade de que a agropecuária brasileira veja com mais cuidado a questão.

A primeira reflexão é que a maioria do N aplicado na agropecuária é perdida para o ambiente. No mínimo duas conclusões se podem tirar deste fato: i) estamos jogando dinheiro fora; e ii) estamos causando danos ambientais.

Os pesquisadores Luis Lassaletta e Gilles Billen, junto com seus colaboradores, analisaram criteriosamente a eficiência no uso do N em 124 país no período de 50 anos (1961 a 2009), considerando as 178 culturas vegetais mais importantes (Lassaletta et al., 2014). Mais especificamente, eles estudaram a relação entre a produtividade da agricultura (chamemos de “P”) e a quantidade de N utilizada para obtê-la (chamemos de “N”). A produtividade foi expressa em quantidade de N na produção (quilo de N por hectare e por ano). Assim, obteve-se um indicador chamado “Eficiência no Uso do Nitrogênio” (EUN) originado pela relação entre P e N. Assim: EUN = P/N.

Pode parecer um pouco complicado, mas é relativamente fácil de entender: quanto maior a eficiência no uso do nitrogênio, significa que mais produção foi obtida para uma mesma quantidade de nitrogênio utilizada (↑EUN). Por outro lado, se a eficiência no uso do N for baixa significa que uma quantidade maior de N teve de ser utilizada para se conseguir a mesma produção (↓EUN).

Para o cálculo da quantidade de N, foram consideradas as quatro fontes mais importantes: esterco animal, fertilizantes sintéticos, fixação simbiótica e disposição da atmosfera. A fonte principal das informações foi o banco de dados da FAO (FAOStat). Diversos critérios e coeficientes técnicos foram definidos para as estimavas. Detalhes metodológicos podem ser obtidos no artigo, que está publicamente disponível (open access).

Os resultados mostram que a evolução da eficiência no uso do N foi distinta para os diferentes países. Dessa forma, os pesquisadores organizaram os países em quatro principais grupos, que eles chamaram de “tipos”. Procurei organizar em um único quadro, o perfil desses países, alguns exemplos e a explicação para o comportamento observado.

Quadro: comportamento histórico da relação entre produtividade agrícola (veja no eixo vertical) e a utilização de nitrogênio (veja no eixo horizontal).

Fonte: elaborado a partir de Lassaletta et al. (2014).

Nota: os gráficos são reproduções dos originais; as cores dos pontos representam o tempo, seguindo a escala:



Considerando o mundo como um todo, o estudo mostrou que há uma queda na EUN de 1961 até o início dos anos 80. Em 1961 a eficiência no uso do N era de, aproximadamente, 68%, tendo caído para 45% em 1980. De 1980 até os dias atuais, houve estabilização na EUN, com uma média mundial em torno de 47%.

Além da eficiência em si, a pesquisa procurou mostrar a origem do N utilizado na agricultura. E neste ponto os resultados são ainda menos animadores, uma vez que a fonte que vem crescendo mais rapidamente é a dos fertilizantes sintéticos, que supostamente causam os maiores impactos ambientais (especialmente por serem de origem não-renovável).

Os autores ainda concluem que, apesar do volume de esterco animal gerado mundialmente ser bastante expressivo, essa fonte de N não tem sido utilizada eficientemente, havendo enorme desperdício da mesma, que não chega nas lavouras como poderia. Em outras palavras, a adoção de sistemas integrados de produção, entre animais e vegetais, pode ser um dos melhores caminhos para elevar essa eficiência. Nesse mesmo sentido, priorizar a utilização do N de fontes simbióticas (como a produção de leguminosas) é outro caminho com grande potencial a ser explorado.

Referências:

Lassaletta, L., Billen, G.; Grizzetti, B.; Anglade, J.; Garnier, J. 50 year trends in nitrogen use efficiency of world cropping systems: the relationship between yield and nitrogen input to cropland. Environmental Research Letters, v.9, 9pp, 2014.
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abrahão gomes de holanda
ABRAHÃO GOMES DE HOLANDA

CAMPO GRANDE - MATO GROSSO DO SUL

EM 13/08/2015

Esse tema é fascinante,até as primeira chuvas de verão descarrega nitrogênio na terra.

Há mais leguminosas nativa do que melhoradas nem mesmo os campos de soja ultrapassa.Mas o final de tudo isso é a busca de proteína, o primeiro precursor da  vida

desde dos primórdios.O curioso é que a fome reina no mundo e ninguém da jeito.

A soja fornece mais energia do que proteína através do óleo.O homem  destroe o capim

do boi e por isso é obrigado e lhe dá a soja com seu farelo.Mas o boi toma do porco  e do frango .      Se aumentar o capim do boi  e melhorar a qualidade melhora para todos

nos.Tal o destino do nitrogênio possa permear por aí.Caros colegas desculpem pela

a linguagem filosófica.Mas peço-lhes refletir um que não estou caducando.



Grato,Abrahão
Augusto Hauber Gameiro
AUGUSTO HAUBER GAMEIRO

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 11/08/2015

Caros Colegas Abrahão e Kátia, agradeço seus  comentários e colocações. Sem dúvida ainda temos que evoluir nossas pesquisas e tecnologias visando sistemas mais integrados: solo - planta - animal - ambiente. Confesso que isso me preocupa, porque nossa Ciência Animal no Brasil ainda foca primordialmente no animal, e visando quantidade (produtividade). Se assim continuarmos, não evoluiremos como precisaríamos para lidar com questões maiores, como o ambiente, por exemplo.
Kátia Feltre
KÁTIA FELTRE

PIRACICABA - SÃO PAULO - ESTUDANTE

EM 27/07/2015

Um dado interessante é que as taxas de fixação de N podem variar de 70 a 200 kg/ha/ano, dependendo da cultivar de leguminosa utilizada, representando considerável economia de recursos financeiros. Uma das espécies de leguminosas utilizada no sistema consorciado é o amendoim forrageiro (Arachis pintoi) o qual se adapta bem às condições de clima tropical, sendo indicado seu uso com diversas gramíneas (Brachiaria, Panicum, Cynodon, etc). Complementando a opinião do colega Abrahão Gomes, de fato, o maior gargalo do uso do consórcio entre gramíneas e leguminosas é o manejo simultâneo das forrageiras. As diferenças morfo e fisiológicas dificultam o avanço no uso dessa técnica. Mas vale lembrar que muitas das informações obtidas nas pesquisas nem sempre alcançam os pecuaristas e muitos ainda não consideram a pastagem como uma cultura semelhante à soja ou milho, por exemplo, que necessita de determinado manejo todos os anos. Com certeza faz-se necessário o uso de práticas de manejo (incluindo o uso de esterco de animais) não só para reduzir o uso de fertilizantes sintéticos, mas para otimizar a recuperação de áreas de pastagens que se encontram em degradação (praticamente 50% da área de pastagem nacional) e a produção animal como um todo.
abrahão gomes de holanda
ABRAHÃO GOMES DE HOLANDA

CAMPO GRANDE - MATO GROSSO DO SUL

EM 27/07/2015

Comenta-se que a utilização das leguminosas em consorcio com as gramíneas tem sido a forma mais eficiente e econômica para a manter o equilíbrio ambiental entre solo planta animal através do fenômeno simbiótico.

A pesquisa em geral tem desenvolvido diversas alternativas na escolha de cultivares adequados para o consorcio. Entretanto o manejo de pastagem é o gargalo para a manutenção duradoura.O manejo só das gramíneas já é difícil imagine das duas forrageiras.São poucas as propriedades que adotam um manejo correto das pastagem.

Tentei por muitos anos estabelecer o uso das leguminosas em consorcio com as gramíneas. Confesso que as dificuldade encontradas foi a preferencia pelo bovino simultaneamente. Outo fator agravante é que estas duas especies forrageiras tem características edafológicas diferentes.

Na minha opinião deve- se adotar urgentemente práticas adequadas de manejo das pastagens  de forma abrangente pelo brasil à fora ,preservação das nascentes,combate às erosões ,preservar as florestas com plano de manejo intenso .São práticas básicas que envolve campanhas de educação   persistentes e cada um de nós fazer a nossa parte. Aproveitei este espaço para emitir essa opinião. Quero servir ao meu pais apesar dos 72 anos de vida lidando com a terra.
Qual a sua dúvida hoje?