Este ano tive a oportunidade de participar de um evento de premiação global, realizado na matriz da Ajinomoto, no Japão. Falamos um pouco sobre nossas iniciativas e projetos no Brasil para área de laticínios. Mas, muito além da oportunidade profissional, a experiência foi uma imersão em um país que une tradição, disciplina e tecnologia de forma única. Aproveitei a oportunidade para visitar supermercados japoneses e conhecer os produtos de perto, com especial atenção aos lácteos. Ficou claro como a tecnologia e inovação, aliadas à cultura local e à modernidade regulatória, podem moldar um mercado inteiro. Essa vivência me trouxe uma questão inevitável: o que falta para que o Brasil também dê passos mais ousados em direção a um portfólio de lácteos atraente, funcional e inovador?
Ao caminhar pelas lojas japonesas, chamou atenção a riqueza de opções. Destaco aqui algumas.
Bem-estar
Grande variedade de leites fermentados e iogurtes com alegações de saudabilidade no rótulo. Todas pautadas em evidências robustas da ciência (“melhoria da saúde intestinal”, “melhoria do sistema imunológico”, “contribuição para a tolerância digestiva de consumidores com sensibilidade leve à lactose” entre outros vários exemplos). As marcas, em grande parte, trazem no painel frontal esses dizeres e também as cepa ou combinação específica das culturas lácteas utilizadas na produção (Exemplos: culturas lácteas BB536, LB81, entres várias outras).
A gôndola de leites também estava repleta de opções. Observei exemplos interessantes de marcas que reforçam não só aspectos de qualidade, como no caso de leite A2A2, mas também trazem um forte apelo à origem e rastreabilidade. No quesito origem, a região grande produtora do Japão é Hokkaido, ao norte da ilha. Iniciativas assim fazem com que o consumidor urbano olhe com mais atenção para a origem dos alimentos.
Figura 1. Leite fermentado “recomendado por 94% dos médicos”
Figura 2. Leite A2A2 de “única fazenda”.
Embalagens
Com grande variedade, buscam atender diferentes estilos e fases da vida. O consumidor japonês encontra produtos que unem sabor, funcionalidade e praticidade em um mesmo produto. Aqui destaco algumas categorias.
Queijos para famílias com crianças em idade escolar
As gôndolas de lácteos para o universo infantil aqui no Brasil costumam estar repletas de leites fermentados e iogurtes. Quando o assunto é queijo, geralmente encontramos apenas Petit Suisse. Por lá, os queijos têm maior espaço no universo kids. As embalagens contêm porções realmente pequenas para crianças de 0 a 3 anos. Isso evita desperdício, são muito práticas e atrativas. Além do tamanho da porção, algumas marcas reforçam no rótulo a composição nutricional natural (conteúdo de vitaminas do complexo B e cálcio, por exemplo). Outras têm queijos processados infantis suplementados com ferro, ômega-3 (DHA, etc).
Figura 3. Queijo processado e suplementado, para infância
Figura 4. Algumas marcas que não tem personagens licenciados, podem utilizar animais que remetem o campo e as fazendas produtoras.
Iogurtes em sachês, tipo pouch.
Visual mais atrativo que a versão “barriga mole”. Gostei da ideia simples e funcional de algumas marcas que trabalham com este tipo de embalagem. Fica a inspiração para o nosso mercado nacional.
Figura 5. Iogurte tipo pouch.
Detalhes que encantam
Além da experiência sensorial e atributos de saudabilidade, muitos produtos trazem o cuidado que envolve o design criativo e o storytelling. Isso vai além da função de proteger o produto, criando uma conexão emocional através da estética e da narrativa, que diferencia a marca e a torna memorável para o consumidor. Delicadeza nos detalhes define minha impressão sobre alguns destes produtos.
Figura 6. Iogurte: os dizeres conectam a suavidade das nuvens à textura do produto.
Comprei vários deles. Gostei bastante da qualidade sensorial de cada um. Voltei para o Brasil refletindo sobre o que vi. Penso que esse cenário japonês reflete uma combinação poderosa: empresas atentas às tendências globais, um público mais consciente e disposto a experimentar. Aliado à tudo isso uma regulação que permite inovar e explorar com muito mais detalhes e responsabilidade as diferentes qualidades dos produtos lácteos.
No Brasil, embora o consumo de lácteos seja expressivo, ainda nos deparamos com um portfólio mais limitado, onde barreiras regulatórias, questões econômicas e hábitos de consumo retardam a chegada de novidades. Sobre o tema regulatório em especial, acredito que o intercâmbio de ideias, com exemplos práticos usados em países desenvolvidos e seguros, ajuda a melhorar o diálogo com as autoridades nacionais para que possamos vislumbrar um cenário mais favorável e moderno para os lácteos nas próximas décadas.
