Hoje, sob a direção executiva de Gabriela J. Terrazas, filha de Maria Inês, a essência permanece intacta. “Desde então, o que permanece inalterado é o método de produção, o método artesanal”, afirma. E, na Do Tambo, artesanal não é discurso — é processo.
A seleção e a higienização das frutas são feitas manualmente. A cocção é própria. No envase, as frutas são colocadas de colher, potinho por potinho, por um colaborador. Um cuidado que não foi abandonado mesmo com o crescimento da marca. “É ali que a gente garante cuidado e, principalmente, a identidade da marca.”
Evoluir sem negociar a essência
Ao longo das três décadas, a Do Tambo evoluiu — mas sem alterar a integridade da receita. A principal mudança ocorreu na escolha dos edulcorantes. A marca começou com açúcar, migrou para aspartame, depois para sucralose e, hoje, utiliza estévia em grau máximo de pureza — superior ao padrão alimentar comum, que apresenta até três graus de pureza. A escolha reduz o sabor residual e mantém o perfil sensorial esperado.
“Esse foi o principal ajuste do nosso produto. Ao mesmo tempo, a receita e a integridade dos ingredientes são inalteradas. Isso é algo de que não abrimos mão: qualidade e seleção de cada ingrediente.” Outro ponto inegociável é o estilo de fermentação, responsável pela cremosidade que se tornou assinatura da marca.
O equilíbrio entre tradição e técnica de mercado é permanente. A Do Tambo mantém o método artesanal e o estilo de fermentação, mas revisita constantemente processos, ingredientes e movimentos de consumo. Essa postura se materializou, recentemente, na mudança para uma nova planta industrial em Porto Alegre/RS.
A “fantástica fábrica” e o crescimento consciente
Há menos de um ano, a empresa deixou um espaço pequeno e limitado para ocupar uma nova fábrica — descrita por Gabriela como “fantástica”. A planta recebeu investimento elevado em tecnologia, com tanques, painéis e equipamentos de última geração.
A capacidade atual permite produzir aproximadamente 60 mil litros por mês, considerando apenas um turno. Na planta anterior, a produção já havia atingido o teto operacional.
A mudança foi estratégica: ampliar capacidade sem alterar o método. “Crescer não significa virar uma grande multinacional. Significa ter uma estrutura melhor, investir mais em controle de qualidade, logística, equipe — mantendo intacto o que faz o consumidor reconhecer o nosso iogurte na primeira colherada.”
Mesmo com a nova estrutura, o ritmo é gradual. A empresa ainda está em fase de adaptação e consolidação na planta, priorizando que cada lote mantenha o padrão de qualidade que construiu a reputação da marca.
A qualidade começa na origem
Para a Do Tambo, qualidade não começa na fábrica — começa no fornecedor.
A empresa trabalha com parceiros que compartilham os mesmos valores de cuidado e responsabilidade. Todos são licenciados e certificados por seus órgãos fiscalizadores. No caso do leite, a prioridade é clara: excelente padrão microbiológico e boa composição de sólidos, proteína e gordura — fatores determinantes para a cremosidade do produto.
O manejo responsável das vacas e o bem-estar animal também entram na equação.
A proximidade geográfica é outro critério estratégico. Ela permite um relacionamento mais transparente e garante frescor. “Mais do que fornecedor, buscamos parceiros que entendam que a qualidade de qualquer produto nasce na origem.”
Clean label: o básico extremamente bem feito
O conceito de clean label impacta toda a operação diária. Trabalhar sem conservantes, sem corantes e sem adição de açúcar não permite atalhos tecnológicos para correção de sabor ou textura. Exige controle rigoroso de higiene, padronização de processos e atenção constante à matéria-prima.
Na logística, o cuidado é igualmente criterioso: controle de temperatura, prazos bem definidos e giro adequado para garantir frescor. “Na verdade, o clean label nos obriga a fazer um básico extremamente bem feito.”
Um produto nichado, dois perfis de consumidor
A Do Tambo se posiciona como marca premium, de alto valor agregado e custo de produção elevado. Dentro desse nicho, Gabriela identifica dois perfis principais de consumidores.
O público “mais, mais, mais” busca atributos adicionais: alto teor de proteína, fibras, colágeno, benefícios funcionais. Já o público “menos, menos, menos” valoriza o oposto — quanto menos ingredientes e mais natural, melhor.
A demanda por proteína é uma tendência consolidada. Os iogurtes da marca oferecem entre 10 e 11 gramas de proteína por pote, além de probióticos e cálcio. Em um contexto de uso crescente de medicamentos como os agonistas de GLP-1, que reduzem o apetite, surge uma nova dinâmica de consumo: menos volume ingerido, maior necessidade de densidade nutricional.
Nesse cenário, o iogurte pastoso, nutritivo e saciante ganha relevância.
Expansão com sinergia
A fábrica está localizada em Porto Alegre, o que concentra a maior parte dos lojistas e consumidores no estado. No último ano, porém, a Do Tambo expandiu para Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. Hoje, soma mais de 600 pontos de venda nesses estados.
A estratégia de canais combina proximidade e escala. Desde o nascimento da marca, há tele-entrega direta da fábrica para consumidores de Porto Alegre — um canal que cria relacionamento direto e coleta constante de feedbackS.
Ao mesmo tempo, grandes supermercados em pontos estratégicos são fundamentais para volume — desde que haja sinergia de público e posicionamento. “Não é crescer a qualquer custo. É estar em locais que combinem com a Do Tambo.”
A ambição é clara: ser uma grife de iogurte premium — mas ainda assim uma marca querida e acessível.
O futuro: proteína, porções e comportamento
Com a nova planta, abre-se uma gama de possibilidades em lácteos. A expansão geográfica é parte do plano, mas sempre com foco em entregar um bom produto.
A empresa também monitora mudanças de consumo. A linha microlote — com potes de 130 gramas, sabores especiais e produção ainda mais artesanal — nasceu nesse contexto. Enquanto os produtos tradicionais têm 200 gramas, a microlote dialoga com porções menores e novas ocasiões de consumo.
O radar está atento à proteína e às formas como o iogurte é consumido: com granola, whey protein, aveia e frutas. O produto deixa de ser apenas “iogurte pelo iogurte” e passa a integrar rotinas alimentares mais amplas.
Três décadas depois da fundação, a Do Tambo mostra que tradição não é imobilidade é convicção de que qualidade nasce na origem, de que processo importa e de que a cremosidade não é acaso — é método.
E o método, ali, continua sendo artesanal e de extrema qualidade.
