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O leite-fantasma: faltam 5 bilhões de litros na conta...

Por Marcelo Pereira de Carvalho (MilkPoint)
postado em 28/03/2016

16 comentários
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De acordo com os dados oficiais do IBGE, o Brasil produziu em 2014 cerca de 35,17 bilhões de litros de leite, dos quais 70,3% ou 24,75 bilhões, representam o mercado inspecionado. Por consequência, a produção informal chega a 10,43 bilhões de litros ao ano (também dados de 2014). Se analisarmos os efeitos da balança comercial na disponibilidade de leite por habitante, teremos:



Está é, evidentemente, uma conta simplificada, já que não considera estoques de passagem entre os anos. Todavia, analisando uma série mais ampla, a metodologia é confiável e aponta que nosso consumo atingiu algo próximo a 175 kg/pessoa no pico, em 2013.

Pois bem. O questionamento que se faz aqui é: até que ponto esse consumo de fato representa a realidade? Há consideráveis implicações de mercado caso, por exemplo, encontremos subsídios para apontar valores bem mais altos ou bem mais baixos do que este: caso os valores sejam mais altos, isso significa que estamos mais próximos do consumo de países de renda mais alta, apresentando potencial de mercado futuro, menor. Já o oposto, se os dados indicarem que, na realidade, nosso consumo é menor do que o apontado acima, teremos a situação inversa: o potencial de expansão do mercado será maior do que aquele hoje considerado.

Mas porque os dados oficiais não estariam corretos? O IBGE é uma instituição séria, referência em estatísticas para diversos setores da economia. Ocorre, porém, que a estimativa do setor informal de qualquer segmento é, por definição, sujeita a aproximações, uma vez que obviamente não há controle dessa atividade, seja pela via tributária, seja pela via da produção. E, como todos sabemos, temos um déficit de informações estatísticas que nos forçam a estimar os dados faltantes a partir de outras variáveis mais ou menos conhecidas.

Antes, é importante definirmos o que está embutido no leite informal. Sem dúvida, o leite “de canequinha”, bem como queijos informais, entram nessa conta. Mas não só eles: há o leite que permanece nas fazendas, seja na alimentação de bezerros, seja para consumo do produtor, sua família e funcionários. Assim, ao contrário do senso comum, o leite informal não é somente aquele que é vendido. Uma parte deles – a dos bezerros – não deveria entrar na conta do consumo. Mas acaba entrando.

Vamos inicialmente estimar o produto informal que vai para o mercado. A consultoria Canadean estimou, para 2013, um mercado de leite fluido informal da ordem de 1,25 bilhão de litros/ano. Esse valor, segundo a mesma empresa, caiu 44% entre 2004 e 2013. Consideremos, então, que em 2014 o mercado de leite fluido informal foi de 1,2 bilhão de litros, supondo que a queda anual desse segmento tenha permanecido para 2015.

Há, também, os queijos. Estimativas de profissionais ligados a esse mercado estimam que o mercado informal varia de 180 a 260 mil toneladas, dependendo do ano. Isso seria equivalente a cerca de 18 a 20% da produção total de queijos, o que nos parece crível. Ainda no campo das suposições do bom senso, consideremos que cerca de metade dessa produção seja de queijos tipo minas frescal, com consumo de 6 kg leite/kg de queijo, enquanto a outra metade seja de muçarela e afins, com 10 kg de rendimento. Fiquemos, então, com a média de 8 kg de leite para cada kg de queijo. Temos então que, considerando 220 mil toneladas de queijo sem fiscalização, multiplicadas por 8 litros de leite, encontraremos o total de 1,76 bilhão de litros de leite destinado a queijos informais.

Para fins de simplificação vamos considerar que, por ser provavelmente negligenciável, o valor de iogurtes informais seja zero, o mesmo para leites em pó (nesse caso de fato é zero).

Desta forma, chegamos ao valor final de 1,2 + 1,76 = 2,96 bilhões de litros de leite destinados à venda informal. Vejam que, dos 10 bilhões oficiais, apenas 3 bilhões são efetivamente vendidos. Um número bem mais baixo do que o apontado oficialmente, mas que faz sentido se considerarmos que o acesso a produtos sob inspeção tem se tornado cada vez mais frequente.

Resta saber, então, aonde estão os outros 7 bilhões que perfazem a estimativa oficial.
Nesse ponto, a análise fica um tanto mais complicada, mas ainda assim é possível de ser feita.

Comecemos com o leite que fica para consumo próprio. Inicialmente, consideraremos o número de produtores de leite que estimamos a partir de trabalho realizado em julho de 2013, junto com a Leite Brasil. Naquela ocasião, amostramos 33% do leite inspecionado, a partir de 55 laticínios, e chegamos ao número de 251.000 produtores de leite, com produção média de 244 kg/dia.

Vamos arredondar para 300.000 produtores no sistema formal, admitindo que nossa amostragem talvez tenha puxado um pouco para baixo. Assim, 300.000 produtores no sistema formal, com média de 204 kg/dia. Parece sensato, para a realidade atual, lembrando que o último Censo data de 2005/06, 10 anos atrás, portanto. Muita coisa ocorreu de lá para cá na economia brasileira, sendo pouco provável que continuemos com algo próximo aos 900.000 produtores que vendiam leite naquela época.

Vamos supor ainda que essa produção de 204 kg/dia é realizada por 1 família, em média, tomando 2 litros de leite por dia (na forma de queijo, leite, coalhada, etc), leite este que não vai ao mercado. Temos então 300.000 produtores x 2 litros x 365 dias = 219 milhões de litros, que são produzidos mas não vão ao mercado, compondo assim também o volume informal.

Com esse pequeno acréscimo, atingimos 3,18 bilhões de litros no mercado informal. Temos, ainda, o leite consumido por produtores informais. Aqui, temos um problema, porque a variável de partida para se calcular esse dado – a produção total informal – é justamente a variável que queremos calcular. Para efeito de simplificação, vamos considerar que temos ainda outros 300.000 produtores (incluindo aqueles que possuem uma vaquinha como lazer do sítio de final de semana), também consumindo 2 litros/dia. Teremos assim mais 219 milhões de litros, o que perfaz um total de 3,40 bilhões de litros vendidos ou consumidos nas fazendas.

Resta, por fim, contabilizar o leite dos bezerros, exceto aquele mamado diretamente da vaca que, para fins de produção, não existe, já que não pode ser ordenhado e, portanto, quantificado.

De início, quantifiquemos o número de vacas e de partos anuais. Supondo uma média de 7 kg vaca/dia, para produzirmos os 28,19 bilhões até agora calculados, precisaríamos de 11 milhões de vacas leiteiras. Supondo, digamos, 70% de vacas em lactação (baixa eficiência média), são 15,6 milhões de vacas no rebanho. Supondo ainda um intervalo entre partos de 16 meses (má reprodução), são 11,7 milhões de partos ao ano.

Dentro de nossas suposições, vamos considerar que 5% são natimortos – caímos então para 11,1 milhões de partos. Estão acompanhando?  Vamos ainda admitir que 100% das fêmeas são criadas e que apenas 50% dos machos são criados, o que daria então um total de 8,36 milhões de bezerras(os) alimentados por ano.

Para tentar estimar o volume de leite consumido, vamos utilizar alguns dados do trabalho feito pela equipe da Profa. Carla Bittar, da ESALQ, que amostrou 179 produtores com variados perfis tecnológicos.

De acordo com este trabalho, 35% dos rebanhos mantêm os bezerros com as mães. Como esse leite não é quantificado, para efeitos estatísticos vamos desconsiderar essa produção. Assim, passamos a falar apenas de 65% dos rebanhos que, de fato, recebem leite ou sucedâneo. Como estes rebanhos provavelmente são maiores do que os que mantém os bezerros com a vaca, o correto seria ajustarmos para, por exemplo, 80-90% dos bezerros, já que estes rebanhos teriam mais bezerros. Por outro lado, como a amostragem foi pequena e talvez concentrada em um perfil tecnológico médio superior à média nacional, é provável que, na realidade, mais de 35% dos bezerros ficam com as vacas, consumindo um leite que, estatisticamente, não existe. Mantemos, então, os 35%. Assim, estamos falando de 5,43 milhões de bezerros alimentados.

Ainda, o trabalho verificou que 87% do consumo destes bezerros é composto de leite de vaca, seja leite que iria para o mercado, leite descarte (mas que foi produzido e ordenhado) e leite de transição. O restante, 13%, representam os sucedâneos.  Assim, chegamos a 4,7 milhões de bezerras alimentadas com leite por ano. É evidente que o número real não é esse, mas entendemos que esse número é defensável, considerando as premissas adotadas.

Resta saber, então, quantos litros de leite diários essas bezerras tomam, e por quanto tempo. O mesmo trabalho aponta que 41% dos rebanhos utiliza o equivalente a 4 litros/dia ou menos até os 30 dias (valor que sobe para 58% após esse período), de forma que 4 litros diários nos parece uma boa estimativa.

Já para o período de aleitamento, vamos considerar 90 dias. Por fim, consideremos ainda que a taxa de mortalidade nos primeiros 90 dias é de 8% e, para facilitar a análise, o período médio de vida desses bezerros será de 45 dias até o momento em que morrem. Desta forma, corrigiremos o valor total, reduzindo 4% o número de bezerros: (50/90)*8% = 4,512 milhões.

Assim, esses 4,512 milhões milhões de bezerros consumiriam 1,62 bilhão de litros de leite (4,512 x 4 litros x 90 dias). Ainda, precisamos fazer um último ajuste, já que essa quantidade de 1,62 bilhão foi feito com base em uma produção de 28,19 bilhões, o que não é a realidade já que adicionamos até agora mais 1,62 bilhão (e portanto teríamos mais partos e mais bezerros). Assim, façamos o seguinte cálculo: 1,62/28,19 = 5,75% do leite vai para bezerros. Desta forma, esses 1,62 bilhão de litros demandariam o equivalente a 1,6/(1-0,0575) = 1,72 bilhão – 1,60 bilhão = 120 milhões de litros a mais para esses bezerros. Assim, 1,60 bilhão + 120 milhões = 1,72 bilhão para bezerros ao ano, praticamente o mesmo valor dos queijos informais, e que não é consumido! 

No total, temos então 5,12 bilhões de litros informais, assim distribuídos:



Desta forma, a produção brasileira em 2014 teria sido de 29,87 bilhões de litros ao invés de 35,17 bilhões. A informalidade seria de 17,1%, mas apenas 11,4% seriam consumidos e somente 10,0% efetivamente vendidos. É importante fazer a ressalva que, se colocarmos uma lupa nas várias regiões do país, certamente os dados variarão muito; falar em 10% de informalidade em alguns estados é algo fora da realidade, mas é preciso olhar a floresta antes de olhar cada árvore.

Principal implicação

A principal implicação destes números, caso estejam corretos ou próximos da realidade, é que nosso consumo seria significativamente menor do que os números com os quais temos trabalhado.

Para calcular o consumo diante destes números, , é necessário ainda subtrair o total do leite que vai para os bezerros. Assim, a produção total consumível pela população seria de 28,20 bilhões de litros.

Refazendo a tabela inicial, teríamos:

Evidentemente, os números relativos ao consumo per capita para trás também estariam errados (Gráfico 2). Porém, se considerarmos que a informalidade era maior no passado, faz sentido inferir que o erro era menor, isto é, levando em conta que o consumo por pessoa em 2001, por exemplo, de acordo com a análise acima, seria menor do que os dados oficiais, é pouco provável que tivesse uma diferença de 20% como agora. Isso significa que, muito provavelmente, nosso consumo per capita cresceu menos do que estimamos, ficando esta análise para uma próxima oportunidade.

Gráfico 2. Consumo per capita a partir dos dados oficiais e do fluxo de importações e exportações. Fonte: MilkPoint Inteligência.



Como consequência positiva dessa análise, tem-se o fato de que, analisando o mercado potencial futuro, este é bem maior do que hoje estimamos. Supondo por exemplo uma meta de 200 kg/pessoa/ano e a população atual, teríamos um potencial de expansão de 12,24 bilhões de litros de consumo anual (e não 5 bilhões, como se consideraria a partir de dados oficiais), sem considerar um crescimento populacional, de cerca de 0,9% ao ano.

É evidente que essa análise parte de uma série de premissas, logicamente passíveis de crítica. Mesmo assim, nos parece que eventuais ajustes não mudariam a conclusão de que nosso consumo é menor do que o estimado. Significativamente menor, diga-se de passagem.

Pós-artigo: revisitando o início do MilkPoint...

A real quantificação do mercado informal tem sido motivo de discussões há muito tempo. Nos primórdios do MilkPoint, tivemos um interessante debate de ideias entre os Professores Sebastião Teixeira Gomes, Elizabeth Farina e Luis Fernando Laranja da Fonseca. Na ocasião, o Prof. Sebastião levantou a polêmica de que o mercado informal não passava de 15% do total, ante os 40% estimados oficialmente. Já o grupo do Pensa/USP, do qual faziam parte a Profa. Beth e os pesquisadores André Meloni Nassar (hoje secretário de política agrícola do MAPA), Marcos Jank (hoje na BRF) e Fátima Ribeiro, questionaram a metodologia do professor Sebastião, apontando que o número correto seria 28%, ainda assim abaixo dos 42% oficiais.

Aqui, alguns artigos dessa discussão, da época em que havia, paradoxalmente, um maior debate de ideias do que hoje no leite brasileiro:

Leite clandestino: um problema real!, Elizabeth Farina, Marcos Jank, André Nassar e Fátima Ribeiro

O outro lado do leite clandestino, Sebastião Teixeira Gomes

Mais um dedo de prosa sobre o leite informal, Luis Fernando Laranja da Fonseca
 

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Comentários

Reginaldo Campos

Jaboticabal - São Paulo - Técnico
postado em 28/03/2016

Parabéns pela revisão. Apesar do potencial latente de mercado consumidor, a atividade historicamente enfrenta altos e baixos cíclicos, com muitos produtores tentados ou forçados a sair da atividade.

Wagner Beskow

Cruz Alta - Rio Grande do Sul - Pesquisa/ensino
MyPoint Pro - postado em 29/03/2016

Este artigo expõe a crítica realidade de nossas estatísticas oficiais.

Semana passada precisei levantar dados para um relatório solicitado por empresa estrangeira interessada em investir em nosso setor e me deparei com essas questões. Tudo eu precisava explicar e ponderar, pois nada fecha.

No meu entendimento a PPM do IBGE é um chutaço coletivo. Basta acessar o relatório, ler sobre a metodologia e ver o formulário utilizado para coletar os dados. Um chute absurdo, deixando margem para todo tipo de erro e distorções.

Aqui um exemplo, para quem deseja entender melhor a preocupação do Marcelo:
http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/84/ppm_2014_v42_br.pdf

Acredito ser este o mais recente, publicado em 2015, coletado em 2014. Agora em 2016 deve sair o de 2015. Vejam o parágrafo "Metodologia da coleta", vejam a definição do que é "leite de vaca" e, no final, os formulários utilizados.

Me parece uma piada. Dependendo da UF, órgãos como Emater tem aproximações boas, mas nem mesmo estes órgãos têm condições de saber o total produzido. Se consultarem cooperativas, laticínios, Emater e secretaria municipal da agricultura irão obter números discrepantes ao extremo, tanto no total como no que é considerado (produzido, vendido, descontando o consumido, não etc).

Tudo indica que o mais próximo é, realmente, o leite inspecionado (inspeções federal, estadual e municipal). Este é mais difícil ter erros grosseiros. Agora, qualquer coisa a partir daí "is anybody's guess".

Poderíamos usar o censo agropecuário para aferir as estimativas a cada 10 anos, mas mesmo este sabemos ser um absurdo, pois contém um saco de gatos, misturando quem tira leite de uma vaca para consumo, as vezes animal de corte, com quem é produtor profissional, especializado.

Por estes motivos, estimativas como as tentadas por Marcelo são necessárias e jogam luz no caminho. Espero que um dia consigamos ter dados mais confiáveis. O que realmente nos falta é todos sentarmos juntos para planejar uma única iniciativa nacional, correta, bem planejada, com sentido, útil e confiável. Estamos longe disso.

Boa Marcelo. Parabéns pelo artigo e vídeo.

Fernando Ferreira Pinheiro

Belo Horizonte - Minas Gerais - Logística de Leite e Derivados
postado em 29/03/2016

Excelente revisão. Realmente precisamos aperfeiçoar os dados para as estatísticas do setor.

Murilo Rodrigues Shibata

Abatiá - Paraná - Consultoria/extensão rural
postado em 29/03/2016

Parabéns pela abordagem! Excelente ainda que tenha sido feita em estimativas, foram estimativas técnicas factíveis. Recentemente  fiz um levantamento da produção de leite no município de Mercedes (oeste paranaense). Contactei todas as empresas que coletam leite no território municipal,  cheguei ao  valor de 12, 7 milhões de litros/ano em 2015 (somado ao leite informal, pois o tamanho do município favorece essa estimativa). O que me chamou atenção foi que o levantamento do ano anterior realizado por um colega de trabalho, estimava em 29 milhões de litros anuais a produção municipal, ao mesmo tempo em que o DERAL (departamento de economia agrícola do Paraná) e IBGE, estimaram algo em torno de 20 milhões/ano, também dados de 2014. A pergunta que fica é: como os profissionais destes diversos órgãos públicos estão buscando realizando estimativas?

Luiz Henrique Dias de Toledo Pitombo

São Paulo - São Paulo - Mídia especializada
postado em 29/03/2016

Caro Marcelo, Como jornalista que se debruça com frequência sobre estes mesmos números brutos, percebo que suas estimativas estão muito boas !!

Vou  imprimir o artigo e ler com mais calma depois.

abraço

Luiz H. Pitombo

João Bosco Ferreira

Patos de Minas - Minas Gerais - OUTRA
postado em 29/03/2016

Marcelo, parabéns pelo artigo.

É bastante instigador quando debate-se sobre leite informal, pois as estatísticas no Brasil carecem de estudos mais profundos a esse respeito.

Suas considerações foram fantásticas e podem despertar em nossos doutorandos várias teses e profícuos estudos sobre a matéria.

Acredito que se debruçarmo-nos um pouco mais sobre o assunto, teremos mais questionamentos e despertaremos para a identificação do que verdadeiramente seja leite informal no Brasil.

Sempre comunguei dessa tese, de que o consumo per capta seria muito inferior ao mencionado pelo IBGE, de 1,76 litros por habitante/ano. Sua forma de raciocínio nos leva a acreditar para a proximidade da verdade, em torno de 140 litros por habitante/ano.

Um abraço.

João Bosco Ferreira - Presidente da CEMIL.

Airton Spies

Florianópolis - Santa Catarina - Instituições governamentais
postado em 29/03/2016

Amigo Marcelo,
Tua revisão sobre os números da produção de leite no Brasil é muito importante e nos conduz a uma reflexão sobre a qualidade das estatísticas da agropecuária brasileira em geral.
Porém me permita fazer um questionamento, que na minha opinião pode responder onde estão os 5 bilhões de leite "fantasma". Salvo engano meu, a tua estimativa de autoconsumo levou em conta 300 mil famílias de produtores de leite, com consumo 2 litros famílias dia. Se considerarmos 4 pessoas por família, seriam 1,2 milhão de pessoas. Ocorre que o Brasil tem aproximadamente 15% de seus 202 milhões de habitantes morando no meio rural, o que dá 30,3 milhões de consumidores de leite, que produzem seu próprio leite. Se consideramos que essa população de 29,1 milhões tem um consumo anual pela média de 175 kg/hab/ano, serão 5,092 bilhões de litros que não vão para as indústrias, mas são consumidos pela população rural. Lembre-se que esses são agricultores, em sua maioria familiares, que produzem leite mas não vendem leite e consomem sem ir ao supermercado comprar esse produto.  Aqui em Santa Catarina a maioria das propriedades rurais têm 2  a 3 vacas para produzir o leite para seu próprio consumo. Na tua análise eu não encontrei onde está o leite consumido pela população rural que não produz leite para o mercado. Por favor me corrija se estiver errado.
Parabéns pelo teu excelente trabalho. Airton Spies, Coordenador Geral da Aliança Láctea Sul Brasileira.

Roberto Jank Jr.

Descalvado - São Paulo - Produção de leite
postado em 29/03/2016

Marcelo, ótima abordagem. Ha tempos tenho notado que nossa produção informal permanece em 10 bi de litros, sem alteração por anos a fio, enquanto o formal cresce de forma expressiva (exceto em 2015). Acredito que boa parte desse crescimento tenha sido, de fato, formalização da parcela clandestina. Dessa forma, houve apenas um substituição do informal pelo formal e não um crescimento tão expressivo da produção nacional.
Seus números são perfeitamente críveis e devem ser considerados pela CNA, Leite Brasil e USDA no prognostico da produção Brasileira.
abraços,

Marcelo Pereira de Carvalho

Piracicaba - São Paulo - Mídia especializada/imprensa
MilkPoint - postado em 30/03/2016

Olá Spies,

Obrigado pelos comentários, sua visão é sempre importante e nos faz refletir. A ideia do artigo foi levantar a lebre de que nossa produção e nosso consumo talvez não sejam tão grandes assim, embora tenham crescido, sem dúvida. Acho que o ponto que você colocou tem validade: eu considerei 600.000 produtores produzindo 2 litros/dia para suas famílias, mas não considerei aqueles que não são produtores de leite efetivamente (no sentido de terem como atividade comercial), mas produzem o leite para consumo próprio. Por outro lado, acho que o número de 30 milhões de pessoas produzindo o próprio leite é muito alto. Acho que é uma realidade de Santa Catarina e talvez parte do RS e PR, mas não me parece que seja uma condição generalizada.O Censo Agropecuário de 2005/06 apontou 400.000 produtores que não vendiam o leite, além dos 900.000 que vendiam, totalizando 1,34 milhão de produtores. Entendo que esses 400.000 produtores são os que representam essa situação que você reportou. Se considerarmos esses 400 mil x 2 litros/família/dia (o que daria 182 kg/pessoa/ano, para 4 famílias), daria mais 292 milhões de litros, o que não mudaria muito a análise (aumentaria 1,5 litros/pessoa/ano). Claro que são suposições. Parabéns também pelo trabalho e conte conosco!

Grande abraço,

Obrigado também Reginaldo, Wagner Beskow, Fernando, Murilo, Pitombo, João Bosco e Roberto pelos comentários.

Marcelo

Marcelo Pereira de Carvalho

Piracicaba - São Paulo - Mídia especializada/imprensa
MilkPoint - postado em 30/03/2016

Apenas complementando o artigo, o próprio Censo Agropecuário do IBGE, de 2005/06 (último realizado), apontou 21 bilhões de litros de leite à época, contra 25,4 bilhões calculados pela Pesquisa Pecuária Municipal, para o mesmo ano. O Censo em tese visitou todas as propriedades, sendo uma pesquisa bem mais precisa do que a PPM. Assim, o valor "real" seria equivalente a 84% da PPM em 2006, praticamente a mesma % que propus agora (85%).

Paulo Tadatoshi Hiroki

Londrina - Paraná - Consultoria/extensão
postado em 30/03/2016

Muito boa a abordagem sobre o assunto, melhor ainda as conclusões..independente das trapalhadas, temos um cenário bem promissor.
A falta de consistência das informações, principalmente as oficiais, têm causado erros maiores ainda quando ocorrem tentativas de analisar os números.
Ressalto algumas questões relevantes:
1 - Nº de produtores formais? Citados 300.000 no Brasil. Você considerou quantos no estado do Paraná...oficialmente (formais e não formais) são 95.000 produtores de leite...na
2 - Na sua lógica, você dobrou o nº de produtores (600.000), será que só no Paraná temos algo em torno de 15% dos produtores?
3- Em 2003, foi feito uma tentativa de conhecer a produção do Município de Londrina. Na época a CATIVA (Cooperativa que atuava no Município) apresentava como mercado formal de leite para Londrina 90.000 litros por dia...foram cadastrados os produtores de leite clandestino..se apresentaram 108, com a produção estimada de 18.500 litros/dia, ou com números próximos a 20% do mercado...  
4- Em 2005, uma iniciativa diferente..Houve um grande evento no Município de Jaguapitã (cerca de 60 km de Londrina). Realizamos a Jagualeite, cujo grande objetivo era o de chamar a atenção para a atividade leiteira. A ação relevante para o tema, foi o levantamento feito pelos alunos das escolas públicas municipais e estaduais..a pergunta era quantos litros de leite, queijo e iogurte a família consumia e onde adquiria. De forma resumida, as famílias consumiam 0,8 litros por dia..e 45% era clandestino...Na época o leite era o segundo produto mais importante na geração de renda para o município...

Jair Da Silva Mello

Ijuí - Rio Grande do Sul - Indústria de laticínios
postado em 30/03/2016

Boa tarde Marcelo. Realmente, seu excelente artigo levanta muitas reflexões e dúvidas sobre o processo de coleta de informações. Aqui no RS, venda de leite fluído e queijo informal, nas cidades, é pouco comum de se ver, pois a grande maioria dos municípios tem regras e inspeções atuantes. Claro que existe, mas é muito pouco. Acredito que o consumo das famílias do meio rural e dos terneiros(as) é mais impactante. Quanto as estatísticas, realmente, temos muito a evoluir. A PPM que é a informação mais rápida, é compilada a partir das informações das Entidades que atuam na agropecuária no município (Emater, Cooperativas, Laticínios, Sec. Municipal de Agricultura, Inspetorias,  SAA, etc.), a partir de dados aproximados. Abraço.

Marcelo Pereira de Carvalho

Piracicaba - São Paulo - Mídia especializada/imprensa
MilkPoint - postado em 30/03/2016

Olá Paulo e Jair, obrigado pelos comentários!

Paulo, o Paraná tem 12% da produção brasileira. Assim, 15% dos produtores não seria algo assim tão fora, a meu ver. Mas vamos supor que são 12% dos produtores e que os 95.000 produtores permanecem um número válido. Teríamos, desta forma, 800 mil produtores no Brasil e não 600 mil. Isso alteraria o número de produtores, mas não mudaria muito a quantidade de leite consumida (e produzida), que é o intuito do artigo. Teríamos mais 146 milhões de litros, o que não muda a análise.

Em relação ao leite informal, certamente vão haver variações entre municípios. É provável que existam municípios com mais de 50% de consumo de produtos sem fiscalização, in natura. Mas se formos por exemplo para São Paulo, que é o mercado, essa porcentagem certamente será menor do que 10%. Por isso, procurei fazer uma análise mais macro.

O mesmo vale para a produção de leite informal, ainda que o dado de Londrina seja significativo. Por fim, eu colocaria que, de 2003 para 2016, é provável que tenhamos tido alguma mudança no quadro, dado o maior grau de informação da população e acesso mais disseminado a produtos com SIF. Mas suas observações ajudaram a me fazer refletir mais sobre o tema, obrigado!

Duarte Vilela

OUTRA - OUTRO - Pesquisa/ensino
postado em 19/04/2016

Para béns Marcelo pelas informações e quando se trata de leite todas dicas e dados são relevantes. O que me intriga e não estou muito seguro, é que os dados oficiais do IBGE não levam em conta o auto consumo na fazenda e nem o consumo de bezerros. Sendo assim e se essa afirmativa for verdadeira, como ficaria então suas conclusões?

Marcelo Pereira de Carvalho

Piracicaba - São Paulo - Mídia especializada/imprensa
MilkPoint - postado em 19/04/2016

Caro Duarte,

Obrigado pelo comentário. Pelo material da PPM, está colocado "Quantidade total de leite (em litros) produzida, durante o ano de referência da pesquisa, pelas vacas ordenhadas no município". Não fala em leite comercializado, ainda que o material seja bem restrito na descrição de como é feito.

Se não incluir o leite que fica nas fazendas, neste caso permanece a dúvida: o mercado informal teria de ser 3,5 maior do que as estimativas dos agentes do mercado.

Duarte Vilela

OUTRA - OUTRO - Pesquisa/ensino
postado em 20/04/2016

Caro Marcelo,
Esse é um problema que carregamos à décadas, a falta de dados oficiais e quando existem ainda deixam dúvidas. O correto seria incluir mais informações nos relatórios de levantamento do IBGE e creio que não seria tão difícil assim. O problema é que por falta de recursos o censo pecuário 2016/2017 está comprometido.

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