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Hidratação de bezerros acometidos por diarreia

Por Carla Maris Machado Bittar e Evangelina Miqueo
postado em 08/02/2017

6 comentários
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Embora seja comum a ocorrência de diarreias na maior parte dos bezerreiros, o tratamento quase nunca é adequado, pois a administração de antibióticos e anti-inflamatórios não corrige os desequilíbrios hidroeletrolíticos e ácido-base, que são as principais causas da alta taxa de mortalidade.

A manutenção do fornecimento da dieta líquida para bezerros que mostram sinais de diarreia leve a moderada é geralmente recomendada para manter o crescimento e apoiar a reparação da mucosa intestinal danificada. Isso ocorre porque o conteúdo de energia em soluções de reidratação é insuficiente para atender às necessidades do bezerro, mesmo em soluções que contêm proporções elevadas de glicose. Assim, estes animais devem receber sua dieta líquida normalmente, além das soluções de reidratação de forma a repor água (Tabela 1), eletrólitos e também energia.

Tabela 1. Efeito da diarreia no balanço de água em bezerros. *Clique na imagem para ampliar

Efeito da diarreia no balanço de água em bezerros

O equilíbrio osmótico entre o líquido intracelular e o líquido extracelular é mantido pelos eletrólitos (sódio, potássio, cloro, bicarbonato, e fosfato). Para manter a homeostase do organismo é necessário que haja neutralidade entre os meios, ou seja, deve haver uma equivalência entre cátions e ânions. A manutenção do equilíbrio eletrolítico nos fluidos e tecidos é importante porque afeta o processo de absorção e metabolismo, podendo assim afetar o crescimento e a saúde do animal. Quando não existe equilíbrio nas concentrações intra e extracelular destes eletrólitos ocorre entrada ou saída de água das células de forma a manter a pressão osmótica. O desequilíbrio de eletrólitos ocorre em bezerros diarreicos devido à perda destes pelas fezes. As diarreias causam redução no volume extracelular de até 50%, particularmente afetando o volume plasmático.

O sódio é o principal eletrólito presente no líquido extracelular e a diminuição na concentração do mesmo pode levar a diminuição do líquido extracelular e desidratação. O Na+ é transportado de forma passiva, mas precisa da presença de glicose ou aminoácidos para que possa ser absorvido pelas células do intestino. Daí a importância de glicose ou aminoácidos nas soluções de reidratação. O balanço deste eletrólito no fluído corporal é mantido pela sua ingestão e eliminação através das fezes, sendo que sua absorção ocorre associado ao movimento de outras partículas que são transportadas ativamente através do intestino delgado.

O potássio, presente principalmente no líquido intracelular é perdido nas fezes, portanto aqueles animais que se encontram com um quadro de diarreia são propensos a sofrer deficiência de K+. Este íon tem sua distribuição associada ao sódio e em casos de diarreia pode haver aumento da concentração de Na+ intracelular e de K+ extracelular. O cloro está presente principalmente no líquido extracelular, mas também pode ser encontrado no fluido intracelular, embora em menores quantidades. O transporte ativo do sódio gera um gradiente elétrico que permite o transporte passivo do cloro, outro eletrólito. Animais com acidose metabólica podem apresentar concentrações elevadas deste íon, o que é conhecido como hipercloremia. No soro sanguíneo sua concentração tem um comportamento inverso à concentração de bicarbonato (FREITAS et al., 2010).

Alguns aminoácidos também têm ação no equilíbrio osmótico entre os líquidos intra e extracelular. Glicina, alanina e glutamina, são aminoácidos neutros que também podem facilitar a absorção de sódio no intestino delgado, por um mecanismo semelhante ao da glicose. A utilização de glicina aumenta a absorção de água no intestino, enquanto a glutamina favorece a absorção de sódio nas células do intestino e mantém a forma e função das vilosidades.

A terapia de hidratação oral é realizada para restabelecer o nível de eletrólitos em animais que sofrem de redução do volume sanguíneo, acidose metabólica ou hiponatremia (baixo sódio no sangue), como consequência de quadro de diarreia. Este tipo de terapia utiliza baixas concentrações de glicose (2%) para promover a absorção de sódio no intestino. As soluções orais de eletrólitos devem prover suficientes quantidades de sódio para normalizar o conteúdo extracelular, além de agentes como glicose, acetato, propionato ou glicina, que facilitam a absorção de sódio e água no intestino. Deve também prover agentes alcalinizantes, como acetato, propionato ou bicarbonato para tratar a acidose metabólica e deve prover energia suficiente.

Ainda não há certeza sobre as concentrações ideais de eletrólitos, o tipo de tampão, e o tipo, quantidade e fonte de energia, bem como o pH e a pressão osmótica da solução de reidratação. Por isto existem diversas recomendações na bibliografia de como deve estar composta a solução de hidratação “ideal” (Tabela 2).

Tabela 2. Formulação de soluções orais de eletrólitos para a reidratação de bezerros. *Clique na imagem para ampliar 

Formulação de soluções orais de eletrólitos para a reidratação de bezerros

Soluções eletrolíticas orais hiperosmóticas (>312 mOsm/L) proporcionam maior suporte nutricional do que soluções iso-osmóticas (280-300 mOsm/L). Quando administradas a bezerros recém-nascidos saudáveis, soluções hiperosmóticas não têm efeitos deletérios, particularmente em relação à manutenção do estado adequado de hidratação, osmolaridade intestinal, concentração de glicose sérica e intestinal. Em relação a soluções iso-osmóticas, soluções hiperosmóticas minimizam a perda de peso corporal, que ocorre quando os bezerros saudáveis são privados de leite.

Num estudo realizado por Garthwaite e colaboradores (1994), foram testados três métodos de reidratação: fornecimento apenas de solução de reidratação oral, seguido de um gradual retorno ao leite após dois dias; interrupção parcial do fornecimento de leite, onde os animais recebiam pequenas quantidades (2.5% do peso corporal por dois dias seguido de 5% do peso corporal por dois dias), com solução oral de eletrólitos; e o fornecimento contínuo de leite (10% do peso vivo por dia) com solução oral de eletrólitos. Não houve diferença significativa na severidade ou duração da diarreia entre os diferentes tratamentos. No entanto, aqueles animais que receberam leite e a solução com eletrólitos ganharam mais peso do que os animais do primeiro método de reidratação. Os animais que continuaram recebendo leite ganharam mais peso durante o período experimental, e os animais dos outros tratamentos perderam peso. Assim, é importante não interromper o fornecimento da dieta líquida para animais acometidos por diarreia.

Durante o período de diarreia os animais tendem a aumentar o consumo de água como consequência das perdas deste fluído nas fezes. Existem evidências de que animais recebendo soluções eletrolíticas orais misturadas com a dieta líquida consomem maior quantidade de água em comparação com aqueles que recebem a terapia de hidratação oral separada da dieta líquida. Isso ocorre por que estas soluções provocam sensação de sede, incrementando o consumo de água voluntário. No entanto, este tipo de tratamento demanda o fornecimento de água a vontade.

As soluções eletrolíticas fornecidas junto com a dieta líquida com disponibilidade de água, são um método simples de reidratação para animais com quadro de diarreia, que simplificam o trabalho do produtor. Em contrapartida, outras soluções orais eletrolíticas devem ser fornecidas num horário afastado daquele utilizado para o aleitamento dos animais de modo que não seja comprometida a formação do coágulo no abomaso, o que significa trabalho extra para o produtor.

Algumas considerações devem ser feitas quanto a ocorrência de diarreias que levam a desidratação e morte de bezerros leiteiros:

1) Quando animais são colostrados de maneira adequada (tempo, volume e qualidade), a ocorrência de diarreia, assim como sua duração e severidade são bastante reduzidas.
2) A manutenção de ambiente seco e ventilado, assim como baldes e cochos devidamente higienizados, também reduz estes problemas.
3) Fornecer água à vontade para bezerros desde a primeira semana de vida auxilia não só na recuperação de animais diarreicos, como aumenta o consumo de concentrado e, portanto, o desempenho dos animais.
4) Não se deve interromper o fornecimento da dieta líquida para animais diarreicos, de forma que mantenham seu consumo de energia para crescimento e para atender a demanda, agora aumentada, do sistema imune.


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Comentários

Evandro Ferreira

Heliodora - Minas Gerais - Produção de leite
postado em 09/02/2017

Muito boa a matéria, trata de um problema sério em propriedades leiteiras.

Creio que faltou uma fórmula simplificada para a produção do soro de reidratação de bezerros(as).

Bom, vou relacionar, abaixo, a fórmula que utilizamos em nossa propriedade e que tem nos dado um ótimo resultado:

Fornecimento de soro oral

Preparo do soro oral

1) Ingredientes:
Bicarbonato de sódio;
Cloreto de potássio (Adubo);
Glicose de milho (ou Glucose de milho);
Sal branco (Sal de cozinha);

2) Material necessário:
Luvas de procedimentos;
Balança;
Sacos plásticos (utilizamos para embalar várias porções prontas para uso).

Cálculo para a produção de soro:

- Cada bezerro(a) que apresentar diarreia deve tomar, no mínimo, 4 litros de soro
por dia (como na propriedade nós criamos as bezerras em casinhas individuais, disponibilizo o soro na vasilha de água).

Quantidade de soro a ser produzida:

- Número de animais que estão com diarreia X 4 litros.

Fórmula para produção do soro oral:

Fórmula para produção de 5 litros de soro oral:
100 gramas de glicose;
25 gramas de sal;
20 gramas de bicarbonato de sódio;
5 gramas de cloreto de potássio;

Fórmula para produção de 10 litros de soro oral:
200 gramas de glicose;
50 gramas de sal;
40 gramas de bicarbonato de sódio;
10 gramas de cloreto de potássio;

Fórmula para produção de 15 litros de soro oral:
300 gramas de glicose;
75 gramas de sal;
60 gramas de bicarbonato de sódio;
15 gramas de cloreto de potássio;

Fórmula para produção de 20 litros de soro oral:
400 gramas de glicose;
100 gramas de sal;
80 gramas de bicarbonato de sódio;
20 gramas de cloreto de potássio;

Formula para produção de 25 litros de soro oral:
500 gramas de glicose;
125 gramas de sal;
100 gramas de bicarbonato de sódio;
25 gramas de cloreto de potássio;

Fórmula para produção de 50 litros de soro oral:
1 quilo de glicose;
250 gramas de sal;
200 gramas de bicarbonato de sódio;
50 gramas de cloreto de potássio;

Fórmula para produção de 75 litros de soro oral:
1,5 quilos de glicose;
375 gramas de sal;
300 gramas de bicarbonato de sódio;
75 gramas de cloreto de potássio;

Fórmula para produção de 100 litros de soro oral:
2 quilos de glicose;
500 gramas de sal;
400 gramas de bicarbonato de sódio;
100 gramas de cloreto de potássio;

Finalizando, o cloreto de potássio e o bicarbonato de sódio, eu compro de uma cooperativa da minha região (o cloreto é o adubo fertilizante e o bicarbonato é o utilizado nas formulações de ração); O sal branco é o sal de cozinha (compro em supermercados); A glicose ou glucose - é a mesma coisa, é um produto utilizado para a produção de sorvetes (eu compro de uma empresa de São Paulo, em sacos de 25,0 Kg por uma questão de custo, lojas de produtos para sorvete também vendem, mas, custa bem mais caro). Para os interessados, a empresa que eu compro a glucose é a "Tudo Sorvetes", de Marília/SP (www.tudosorvetes.com.br) e o produto chama-se "Glucose em Pó Glucodry Cargill "

Oderman Oliveira Lima

Itapetinga - Bahia - Indústria de insumos para a produção
postado em 09/02/2017

Parabéns pelo ótimo artigo, e a excelente contribuição de Evandro mostrando o lado prático do uso da soroterapia oral para as bezerras(os).

Wilson Bocardi Machado

Três Corações - Minas Gerais - Produção de café
postado em 09/02/2017

Tenho combatido a diarreia ( da côr verde) em bezerros utilizando um dente de alho crú, grande, após descasca-lo e aperta-lo, fazendo a ingestão forçada pelo bezerro, Mais de 10 animais reagiram positivamente e já no dia seguinte não apresentaram mais problemas. Também ha casos onde a diarreia é da côr amarela, onde há necessidade de vacinação contra paratifo (normalmente pego pela presença de galinhas nos cochos), limpeza completa de todos os locais, com cal e hipoclorito, com reforço da vacinação em todos os bezerros recem nascidos.

Vinícius Menezes Maia

Goiânia - Goiás - Produção de leite
postado em 13/02/2017

Parabéns pelo artigo e pela ótima contribuição do Evandro com as fórmulas. Obrigado.

José Antonio Jerez

São Paulo - São Paulo - Aposentado
postado em 13/02/2017

Parabéns pelo artigo e pelos comentários. Somente gostaria de lembrar que naqueles quadros clínicos de diarreias com participação de Rotavírus na etiologia das mesmas, o procedimento mais adequado seria a supressão do fornecimento de leite durante 3 dias, uma vez que os Rotavírus acometem os enterócitos das microvilosidades do intestino delgado responsáveis pela produção de lactase (ou beta-galactosidase). Como o leite é rico em lactose, há um aumento na pressão osmótica que pode ter como consequência o aumento do fluxo intestinal.
José Antonio Jerez
Aposentado São Paulo -SP

ALUIZIO ANTONIO BITELLO

Constantina - Rio Grande do Sul - Estudante
postado em 15/02/2017

Parabéns pelo artigo, e muitos bons os comentários.
Muito bom

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