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Uma radiografia do último ano: relembrar para não esquecer

POR MAURÍCIO PALMA NOGUEIRA

PANORAMA DE MERCADO

EM 25/01/2002

8 MIN DE LEITURA

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Em 2001, os produtores começaram o ano com boas expectativas para o setor leiteiro. Os preços nominais que o mercado de leite havia atingido em 2000, nos meses de pico, somado às medidas antidumping colocadas em prática no início do ano, proporcionaram uma perspectiva de preços acima da realidade de mercado para o produtor nacional.

No início do ano passado, com os preços nominais aumentando antecipadamente ao produtor, era comum conversar com produtores de leite, cansados de anos seguidos de condições adversas para produção, e notar o ânimo das pessoas: “Este é o ano do leite, ninguém segura”. Acreditavam que os fatores que derrubaram os preços em 2000, quebrando a expectativa, não ocorreriam em 2001.

Os mais realistas acreditavam que os preços não iriam a patamares exorbitantes, talvez nem atingissem os níveis de preços que foram pagos em 2000, porém todos estavam certos que a média do ano seria superior aos preços pagos em 2000.

Observe na figura 1 a comparação entre os preços em reais do leite em valores nominais (moeda
paga) e valores deflacionados pelo IGP-DI (também em reais), de janeiro de 1995 até dezembro de 2001.



Na figura 1, a linha vermelha (valores deflacionados) indica quanto os valores nominais (colunas verdes) valeriam hoje, de acordo com a inflação. Exemplificando, o preço do leite em janeiro de 95, de R$0,23/litro, valeria, na realidade de hoje, R$0,45/litro.

Pela figura 1, observa-se claramente o aumento dos preços do leite, em valores nominais, ao longo dos anos. No entanto, considerando a inflação, o preço do leite só tem reduzido seu valor ao longo dos anos. Analisando períodos mais longos, a queda observada é maior ainda – estima-se perda de valores em torno de 70% nos últimos 20 anos, considerando os preços deflacionados pelo IGP-DI.

Outro fator que animou os produtores foram os aumentos dos preços nominais em 2000. Naquele ano, constantemente quando apresentávamos palestras de mercado de leite aos produtores, muitos se levantam e anunciavam que o ano estava excelente para a pecuária leiteira. Chegou-se a dizer no mercado agrícola que 2000 era o ano do leite. No entanto, observe que o produto continuou perdendo valor em relação à inflação e aos preços pagos para se produzir: os custos de produção. Apesar dos custos, especialmente no caso dos alimentos, também se reduzirem ao longo dos anos, quando considera-se a inflação, a redução ocorre em proporções bem menores que as observadas para o leite pago aos produtores.

Observe na tabela 1, a variação dos preços dos principais insumos utilizados na pecuária leiteira durante o ano 2001 e em comparação com o ano 2000.

Tabela 1: Variações dos preços dos insumos em 2001



Em meados de 2001, antes da redução dos preços do leite, as estimativas mais modestas acreditavam em aumento ao redor de 7% a 8% nos valores médios do leite produzido no ano, quando comparado com o valor de 2000.

Neste período, a Centroleite, em Goiás e no Triângulo Mineiro, começou a pressionar os preços do leite no mercado “Spot”, defendendo os interesses de seus cooperados. A Centroleite buscou inovar a comercialização, realmente ganhava força e representatividade. As indústrias dependiam do leite nacional e a comum redução de oferta de leite nesta época favorecia a pressão por parte dos produtores. Além das medidas antidumping, uma conquista do setor, o mercado internacional inviabilizava a importação para pressionar preços. Todos os problemas pareciam resolvidos.

Porém, o mercado não responde a uma só variável e o produtor de leite pagou do bolso a experiência de conhecer esta realidade. O problema de preços não era só a importação. Outros interesses e fatores agem conjuntamente no mercado e o mais forte é o consumidor. O consumidor prefere o longa vida e prefere comprar em grandes redes varejistas. Atualmente o longa vida representa mais de 70% do mercado de leite fluído e estima-se que até o final da década, mais de 80% das compras no varejo serão feitas em grandes redes de supermercados.

Não se resolve problemas negligenciando a tendência dos consumidores e finalmente parece que todo o setor agrícola do país está aprendendo a ir de encontro com o interesse e as necessidades do consumidor. As novidades que aparecerão este ano confirmarão esta teoria.

No varejo, o interesse é que haja elevado giro de vendas e que se possa manter as margens brutas altas. Para haver elevado giro, partem do pressuposto que o preço deve ser baixo e pressionam as indústrias, pois as suas margens, na medida do possível, devem ser intocadas.

As indústrias, dificilmente conseguirão pressionar as redes varejistas. Segundo pesquisas de empresas de consultorias especializadas, 41% dos consumidores são influenciados diretamente pelo preços, enquanto apenas 2% sofrem influência das marcas.
Para gerar ganhos a indústria deve pressionar preços ao produtor, o que tem feito através de várias formas. No final dos anos 90, a importação era utilizada para pressionar preços, no início de 2001 outra estratégia foi utilizada.

Para atuar no mercado, a informação é fundamental. As indústrias, sabendo do problema que viria na entressafra, manejaram estoques e se preparam para adequar oferta e demanda. Aparentemente visavam não permitir aumentos exorbitantes nos preços do leite, como ocorrido em 2000. É fácil lembrar das notícias veiculadas na mídia, quando tanto se falou que havia uma corrida para produzir leite em pó. No período de safra de 2000/2001, o volume de leite ofertado no mercado formal aumentou 12% em relação ao período de safra do ano anterior e praticamente não houve extra cota naquele ano.

Com a consolidação da crise de energia elétrica no país, criou-se um forte argumento para reduzir a captação de leite, principalmente nas bacias de Goiás. Algumas indústrias reduziram em até 30% os volumes de leite adquirido dos produtores e das cooperativas no mercado “Spot”.

Neste período, os preços do leite chegaram a cair 35% aos produtores de algumas bacias. O preço do leite “Spot”, que era cerca de R$0,48/litro no meio do ano, chegou em outubro e novembro a R$0,25.

Dizia-se que a crise energética reduzira a demanda por refrigerados, além do que as indústria teriam que economizar energia, como se fossem deixar faltar produtos de sua marca na prateleira.

Curioso que enquanto relatava-se redução na demanda por refrigerados, uma indústria fechou o ano com aumento no volume de vendas de refrigerados acima de 12%, quando comparado ao exercício de 2000, segundo pesquisa da Nilsen. Parte deste resultado foi atribuído ao não repasse de preços ao consumidor, sendo que o produtor acabou pagando a conta.

Nesta época a Centroleite virou um bode expiatório quando jogou-se todas as culpas pela queda dos preços no mercado sobre suas ações.

Também no meio do ano, muitas indústrias passaram a penalizar produtores mais especializados, com base em análises de qualidade de leite, abandonando a coleta de seu produto ou pressionando preços. Em contrapartida, aumentou-se a coleta de leite em bacias mais distantes com qualidade de matéria prima bem inferior à dos produtores penalizados. Reforçou-se então o debate de que, inicialmente, a base do programa nacional de melhoria da qualidade do leite seria, indevidamente, utilizada pela indústria para pressionar preços. Hoje ainda é um dos assuntos mais polêmicos entre os especialistas do setor.

Enfim, o que era possível quanto à existência de manipulação de mercado, tornou-se uma certeza, tanto que as CPIs do leite começaram a “pipocar” por todo o país. A formação de um oligopsônio, como o da indústria da laranja, no mercado de leite passou a ser provável chamando a atenção dos políticos regionais.

Voltando às expectativas de preços do início do ano, quando esperava-se valores superiores de preços em 2001, os preços fecharam em média 2% a 3% abaixo dos valores de 2000. Em reais deflacionados, os preços foram até 12% inferiores em 2001, um verdadeiro balde de água fria no produtor. A inflação (IGP-M) no período foi de 9,7%.

No últimos anos temos tido acréscimo na produção de leite no país, porém os especialistas podem estar superestimando o aumento do volume. Recente divulgação do IBGE confirma a tese, apoiada pela Scot Consultoria, que parte do leite do mercado informal tem migrado para o mercado formal.

Observe na tabela 2 a evolução mensal da recepção diária de leite nos estabelecimentos fiscalizados.

Tabela 2: Recepção mensal de leite nos laticínios e cooperativas fiscalizados



Em 2000, a recepção nos estabelecimentos fiscalizados aumentou 6,5% em relação ao ano anterior (1999). Na época estimava-se um aumento da produção em torno de 5%, com base na recepção do mercado formal. No entanto, segundo levantamento do IBGE, a produção de 2000 foi apenas 3,6% superior à de 1999.

Em 2001, até o mês de setembro, a recepção mensal superava em 14% quando comparada ao volume receptado no mesmo período de 2000. No entanto, a produção não deve ter aumentado nestas proporções. Observe que apenas em 2001 a recepção mensal em todos o meses superou o volume de 1,0 bilhão de litros de leite.

Dentre os motivos que levam o produtor a migrar para o mercado formal, estão as maiores dificuldades no mercado de queijos e o próprio aumento nos valores nominais do leite (figura ou gráfico 1). Lembre-se que os produtores do mercado formal, geralmente pequenos, dificilmente analisam preços de acordo com a inflação.
Em 2000, muitas queijarias passaram a repassar o leite de pequenos produtores no mercado formal, guardando uma margem para si, ou seja, passaram a funcionar como entrepostos.

Para 2002, a crise na Argentina é um dos fatos que tem causado medo nos produtores. No entanto, a princípio, espera-se que não haja efeito maléfico no mercado brasileiro. A importação de leite em pó ainda está protegida dentro das medidas antidumping e a valorização da moeda argentina, causará impacto, inicialmente, nos Estado do Sul que sofrerão maior concorrência dos produtos argentinos (longa vida, queijos, iogurtes, etc).

Há uma linha acreditando que o péssimo ano de 2001 venha a influenciar negativamente na produção de 2002, porém ainda é preciso esperar para ver. Este ano os desafios são grandes, pois o setor precisa buscar importância no mercado internacional e, principalmente, promover maior consumo de leite no mercado interno. O mercado brasileiro tem um potencial, como poucos, dentro do cenário mundial.

MAURÍCIO PALMA NOGUEIRA

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