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Porque a logística mudou a cadeia do leite

POR PAULO DO CARMO MARTINS

PANORAMA DE MERCADO

EM 03/04/2004

5 MIN DE LEITURA

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Desde a segunda metade da década de quarenta, por força de lei, leite no Brasil tem de passar por processo de pasteurização. Logo, algum desinformado poderia afirmar que temos implantado a lógica de cadeia produtiva há quase sessenta anos. Uma bobagem!

Bobagens assim são disseminadas e, se repetidas continuamente, correm o risco de virar verdade. Vejam o caso do salário-mínimo. Daqui a algumas semanas chegaremos ao primeiro de maio - Dia do Trabalho. Os quatro principais jornais de circulação nacional divulgarão, como sempre, duas inverdades comparativas. A primeira será afirmar que o salário-mínimo do Paraguai é maior que o salário-mínimo pago no Brasil. Esquecerão de afirmar que é difícil encontrar mão-de-obra não qualificada lá que ganhe salário-mínimo oficial. Ganham menos. Se fosse verdade, haveria fluxo migratório de brasileiros para lá...

A segunda inverdade é a tradicional comparação do salário-mínimo instituído por Getúlio Vargas e o atual. Chegarão à conclusão que era maior no passado. Mas quem ganhava salário-mínimo naquela época? Uns poucos privilegiados. Mas de bobagens também é feita a nossa vida...

A lógica de cadeia produtiva no Brasil começou a se popularizar no início dos anos noventa. No leite, efetivamente se iniciou na segunda metade daquela década. As grandes empresas reagiram a dois sinais vindos do mercado. A primeira, mais importante porque perene, derivada da abertura do mercado nacional. Com a definição da política do Governo Federal visando combater a inflação via entrada de produtos importados, somente seria competitiva a empresa de laticínios que promovesse amplas transformações em sua forma de se posicionar no mercado. A segunda, de efeito temporário mas importante, foi o aumento da demanda nos dois anos que sucederam ao Plano Real.

Como as grandes empresas de laticínios reagiram? Exatamente como todas as empresas que procuraram se mostrar competitivas. Buscaram ganhos de escala em todas as suas etapas produtivas. Investiram em plantas industriais de grande porte, redimensionaram os seus canais de distribuição, redefiniram estratégias de abordagem do mercado varejista, investiram na criação de diferenciação tangível e intangível de seus produtos junto ao consumidor (novos produtos e fixação de marca). Enfim, enxugaram custos, racionalizaram rotinas administrativas e processos de produção e distribuição. Encurtaram, portanto, a distância entre o consumidor e a empresa.

Mas a transformação visível para a maioria de nós se deu na captação de leite, com a granelização. Sua importância é inequívoca, pois a redução desses custos permitiu a redução do preço pago ao produtor. Estranho, não? Mas é verdade. Sempre vale lembrar que o laticínio compra leite a preço FOB, embora comunique ao produtor o preço CIF. Explicando melhor, a tradição nesse setor é o produtor pagar o frete do leite. Logo, quanto menor for o custo de captação, menor poderá ser o preço recebido pelo produtor, expresso na nota fiscal, sem os descontos.

No passado, os laticínios tinham dois pontos estratégicos para manterem-se competitivos na coleta de leite. O primeiro era o freteiro. Caso ele se indispusesse com a empresa, levava consigo todos os produtores de sua linha para o concorrente. O freteiro ou o carreteiro tinha poder de mercado nas negociações com o laticínio, porque tinha o cadastro dos produtores. Era ele o detentor do portfólio de fornecedores de leite. Detinha, portanto, informação. Algo semelhante acontecia nas distribuidoras de bebidas e de veículos. Todos nós, que crescemos em cidades pequenas, lembramos das famílias que detinham a reserva de mercado nesses ramos de atividade. Esse privilégio era concedido pela Coca-cola, Brahma, Antártica, GM e Fiat, dentre outras, porquê era de custo vultoso administrar as informações necessárias para estar junto aos seus clientes.

Voltando ao leite, ficar na mão do freteiro era terrível. Mas, o que fazer? Bom, os grandes laticínios entenderam que o único caminho era se aproximar do produtor, colocando-lhe à disposição técnicos de extensão da própria empresa. Mais do que a busca do aumento de produção e produtividade, buscava-se manter uma relação de proximidade, de fidelidade destes produtores. O custo desta operação não era problema. Afinal, com mercado fechado a importações, e com preços administrados pelo governo, o custo era bancado pelo refém - o consumidor.

Os postos de resfriamento eram outro ponto estratégico, pois além de assegurar reserva de mercado para a empresa que captava, tinham as condições necessárias para a gestão daquela base produtiva, estimulando o aumento de produção, repassando tecnologia aos produtores e atraindo novos fornecedores de leite. Isso compensava um investimento em ativos de US$ 500 mil, em dinheiro dos anos oitenta (é sempre bom lembrar que há inflação também em dólar), para capacidade de resfriamento de 30 mil litros de leite/dia. Além de justificável, esse modelo encontrava dois grandes estímulos: o apoio financeiro do Governo, preocupado com o abastecimento de leite fluido nos grandes centros, e o consumidor, que sem opção face à escassa concorrência, submetia-se a pagar o custo de toda a operação.

Tudo isso hoje é passado! Preço diferenciado, granelização, ganhos de escala na captação, no processamento e na distribuição, racinalidade na roteirização de captação e distribuição são, efetivamente as grandes transformações da cadeia do leite, puxada pelos laticínios. Afinal, somente existe cadeia produtiva quando algum agente assume o papel de coordená-la. E não acredito na possibilidade desse papel ser cumprido por um agente de Estado, embora seja eu ardoroso defensor da utilidade das ações públicas. Todavia, tudo isso se fez com a geração e organização de informações, que, em essência, é a base da lógica de logística. Sem informação (que é diferente de dados), como perceber os sinais vindo do consumidor e adequar a cadeia aos seus anseios? Como reposicionar a empresa com agilidade?

Falta ainda efetivamente otimizar os processos. Falta o essencial: a informação disponível a baixo custo. Mesmo os grandes laticínios, que muito evoluíram, ainda tomam decisões incertas por demais, dado a carência de informações. Mas o avanço foi brutal em menos de uma década, o que qualifica a cadeia do leite a continuar o processo de consolidação logística e a abrir um novo capítulo. Refiro-me à busca do leite de qualidade e, o que é fundamental, ao estímulo monetário para os produtores que aderirem. Um novo capítulo começa a ser escrito. Muito desafiador e fundamental para a nova etapa que nos inserimos: a de participante do mercado internacional de modo ativo.

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ALUÍZIO LINDENBERG THOMÉ

CARANGOLA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/04/2004

É extremamente esclarecedor o confronto entre esse artigo do Professor Paulo Martins com a entrevista do Sr.Gary Romano, diretor da DPA. Em determinado momento o professor com muita clareza explica como as empresas se apropriaram dos lucros resultantes do esforço e do investimento efetuado pelos produtores, na granelização. Já o Sr. Gary explica os motivos pelos quais ele acredita que o Brasil irá exportar mais: preços baixos pagos aos produtores nos meses de verão. Para logo em seguida incentivar aos produtores a investir em qualidade, pagamento por sólidos etc... O professor Paulo termina seu artigo também enfatizando a necessidade desses investimentos, pelos mesmos motivos - exportar. O exemplo da granelização é emblemático, mas existem outros: todos os penosos esforços do sistema sindical na imposição de barreiras anti-dumping, os "estímulos" fiscais criados pela CPI do LEITE em Minas, acabaram antes de tudo beneficiando outros elos da cadeia produtiva muito mais que os produtores em si. É claro que os argumentos são de que estaríamos muito pior sem granelização,CPI,etc.. MAIS AINDA?

A última década nos ensinou que é preciso racionalizar, reduzir custos, melhorar qualidade, administrar empresarialmente, mas continuamos como o bandidinho da novela, morando em conjugado no subúrbio enquanto a vilã se enche de glórias e grana!

Então está tudo combinado: os produtores INVESTEM: granelizam, produzem leite com padrão europeu, brigam por tarifas internacionais justas, investigam a bandalheira das fraudes e dos monopólios dos supermercados, e a Nestlé, bem a Nestlé, LUCRA, comprando leite barato no verão. É essa a regra?

Eu pensei que exportar significaria regular mercado interno pela redução dos excedentes comercializáveis, gradativamente balizar os preços internos à partir de uma plataforma exportadora sólida, blá,blá,blá. Mas, não, existe já uma lei maior: independente de qualquer mercado, nos próximos dez anos no verão os preços baixam. Palavra da DPA!
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