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O caminho é exportar

POR PAULO DO CARMO MARTINS

PANORAMA DE MERCADO

EM 28/05/2004

4 MIN DE LEITURA

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Esta última quinzena trouxe duas novidades ao mundo lácteo nacional. A primeira foi a pesquisa do IBGE, que desvendou como as famílias brasileiras distribuem o seu gasto com consumo. A segunda é o quase equilíbrio na balança comercial da rubrica leite, no Balanço de Pagamentos. Juntando as duas, a conclusão é inexorável. Se quisermos continuar a crescer a renda láctea nacional, resta somente um caminho: mercado externo.

Embora subversão à ordem esteja fora de moda desde os anos oitenta, vamos começar pela segunda. Entre janeiro e abril último, o déficit que o leite impôs à balança comercial foi de apenas US$ 5,5 milhões. Importamos a mais que exportamos o equivalente a 2,4 mil toneladas. Você pode estar achando estranho esta notícia. Como comemorar um resultado deficitário? Mas é importante registrar que, no mesmo período, em 2000, o déficit foi de US$ 121,4 milhões ou de 106,7 mil toneladas. Este é o melhor desempenho quadrimestral desde que o Governo deixou de controlar os preços do leite, ainda em 1991.

Esse resultado auspicioso mostra que as previsões feitas no início deste ano pelos economistas Vicente Nogueira (CBCL), Marcelo Martins (CNA), Marcelo Barroso (OCB) e eu próprio, pela Embrapa Gado de Leite, tem grandes chances de se confirmar. É possível que o Brasil torne-se exportador líquido de leite já em 2004. Por importador líquido entenda-se exportar mais que importar.

Quanto à primeira novidade, esta não é nada auspiciosa. Refiro-me à Pesquisa de Orçamento Familiar - POF, divulgada pelo IBGE. Este é um trabalho muito importante para entender a renda do brasileiro e como ele distribui o seu consumo. A POF é feita com um espaço razoável de tempo entre uma e outra, porque o padrão de consumo quase não muda de um ano para outro. O que muda é a quantidade consumida. Ademais, é uma pesquisa muito cara e delicada, pois pessoas são selecionada em todo o Brasil, aleatoriamente, e convidadas a anotarem todos os gastos da família ao longo de um ano. Nesta última versão a pesquisa ficou muito mais representativa, exatamente porque buscou amostrar a população brasileira, cobrindo quase todos os estados, à exceção de alguns da Região Norte.

Para o Governo, a POF é importante, pois dá base à formulação de políticas públicas. Para as empresas, auxilia na definição de estratégias de mercado. E na sua vida também. A POF interfere diretamente no seu bolso, pois é dela que saem os pesos para o cálculo dos Índices que reajustam os seus contratos, desde salários até mensalidade escolar e plano de saúde, ou seja, a POF é que dá origem a índices como IPCA e INPC.

Uma primeira conclusão importante que os dados da pesquisa mostram é que a onda de globalização fez mal para a renda do brasileiro. Veja o Gráfico 1. Atualizei os valores da POF/1996 e agrupei os dados. Em 1996, uma em cada três famílias brasileiras ganhava até 5 salários mínimos. Agora são três em cinco. Por outro lado, em 1996, um em cada quatro famílias tinha renda acima de 15 salários mínimos (ou R$ 3.600,00, portanto), contra uma em cada dez, atualmente. Quando a pesquisa estiver totalmente divulgada, será possível verificar algo que já é possível supor: o Índice de Gini deverá demonstrar que a renda concentrou nestes últimos oito anos.

Gráfico1. Percentual de famílias por estrato de renda, tendo por base o salário mínimo.. Brasil. 1996 e 2004.
 


A pesquisa demonstra que também espacialmente a distribuição da renda é disforme. No Gráfico 2, perceba que os maiores percentuais de famílias com renda até cinco salários mínimos encontram-se nas regiões Norte e Nordeste. É difícil encontrar famílias que tenham rendimento mensal acima de R$ 3.600,00 (ou mil e cem dólares) nessas regiões. No Norte é uma em cada vinte famílias, enquanto que, no Nordeste, é uma em cada vinte e cinco.

Gráfico 2. Percentual de famílias por estrato de renda, tendo por base o salário mínimo.. Brasil. 2004

 


O comprometimento da renda com alimentos caiu nas últimas décadas pela metade, considerando os dados da POF. É muito provável que seja em função da redução do preço dos alimentos, motivada pelo aumento da oferta. Afinal, o Brasil aumentou produção e produtividade em todos os produtos e de modo significativo entre 1996 e 2004. Se isso não suaviza o grau de desigualdade, pelo menos minimiza o impacto das informações reveladas no Gráfico 3, que mostra que as famílias de até cinco salários mínimos dispendem menos de um terço, em valores monetários, em relação àquelas que têm renda acima do equivalente a mil dólares. Numa livre interpretação, ao se juntar os gráficos 1 e 3, é de se supor que a população de mais baixa renda fique à margem do consumo de bens alimentares de maior valor agregado.

Gráfico 3. Dispêndio mensal com alimentos, por estrato de renda. Brasil 2004

 


Mas o que preocupa mesmo é o velho assunto: o consumo de leite. Conforme o Gráfico 4, em média, no Brasil, uma família dispende por mês somente R$ 27,58 com o produto. Isso equivale a US$ 0,30 por dia!!!! E o que é pior: somente 15% com queijos. Mesmo as famílias com renda superior a R$ 4.000,00 consomem apenas R$ 61,03 por mês com todos os derivados lácteos. Gastam mais com energia elétrica, gasolina ou com o lazer, o que inclui canal pago de televisão.

Gráfico 4. Dispêndio mensal com leite e derivados, por estrato de renda. Brasil 2004

 


Contra fatos não há argumentos. O Brasil tem renda per capita baixa, historicamente. Além disso, extremamente mal distribuída entre famílias, o que deprime o consumo de leite e derivados da maior parte da população. Portanto, ter grande contingente populacional não basta. Por outro lado, não se vislumbram mudanças nestas duas características estruturais no curto prazo. Mesmo sendo o setor de laticínios o mais importante na indústria alimentícia brasileira, se quisermos continuar a crescer a produção de leite e de derivados de modo sustentável, há somente um caminho: o empuxe terá de vir do mercado externo.

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