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Importadores cobram, na maior feira de alimentos do mundo, postura ambiental do Brasil

De volta, após dez anos, a uma edição da Anuga, a maior feira de alimentos e bebidas do mundo que acontece a cada dois anos na Alemanha, a agora ministra da Agricultura, Tereza Cristina, foi cobrada por importadores europeus sobre as queimadas na Amazônia e alertada sobre possíveis impactos do problema sobre as compras de produtos do agronegócio brasileiro, principalmente carnes.

Por causa dos incêndios e do aumento do desmatamento no bioma amazônico — e depois do desgaste adicional provocado pelos embates sobre entre os presidentes Jair Bolsonaro e o francês Emmanuel Macron sobre esses temas —, grandes companhias europeias importadoras de alimentos deixaram claro que estão ainda mais preocupadas com a origem dos produtos agropecuários do Brasil.

Encerrada sua participação na abertura da feira, no fim de semana, Tereza Cristina também foi diretamente questionada pela ministra alemã da Agricultura e Alimentação, Julia Klöckner, a respeito da questão ambiental no Brasil — em sua primeira passagem pelo evento, em 2009, Tereza era secretária estadual de Agricultura de Mato Grosso do Sul e estava às voltas com problemas ainda causados pela febre aftosa.

À colega alemã e a importadores e tradings de carnes, soja, açúcar, cacau e óleos vegetais, a ministra respondeu com a tranquilidade que a caracteriza. Procurou mostrar que o governo está trabalhando para proteger a Amazônia e garantiu que os produtos exportados pelo Brasil estão longe da crise.

“A imagem do país ainda está ruim, e há muita desinformação que reforçam essa imagem negativa. Os importadores estão preocupados, mas querem importar mais carne, por exemplo”, disse a ministra ao Valor no estande que promove a carne bovina brasileira na Anuga, um dos mais concorridos.

A preocupação de Tereza Cristina com a postura desses importadores procede. De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pelo Ministério da Agricultura, a União Europeia foi o destino de quase 18% das exportações brasileiras do agronegócio entre setembro de 2018 e agosto de 2019, com compras que chegaram a US$ 17,4 bilhões, e perdeu apenas para a Ásia (US$ 47,6 bilhões).

Perto do local onde Tereza Cristina concedeu a entrevista, um banner grande da Associação Brasileira das Exportadoras de Carne (Abiec) e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), anunciava, em inglês: “Carne bovina brasileira. Segura. Saborosa. Sustentável. Aproveite”.

Enquanto isso, dezenas de importadores, sobretudo chineses, muçulmanos e britânicos, negociavam com empresas brasileiras e degustavam carne, com arroz e farofa — e caipirinha —, mas sem esquecer dos problemas ambientais brasileiros, que continuam a ter destaque na mídia europeia.

A última edição da revista de uma da principais companhias aéreas do continente com voos diários para Colônia, por exemplo, dedicou uma página ao Brasil: “Amazônia: cerca de 5.500 km2 de floresta, a maior, mais diversa e mais amada do mundo, apesar de muito ameaçada...”, escreveu.

A ministra não fugiu do tema, mas lembrou que a Europa “sempre foi e continua sendo protecionista” e disse haver, hoje em dia, um grande preconceito, principalmente do jovem europeu, em relação ao consumo de carnes de maneira geral. “Falar mal do agronegócio brasileiro virou discurso fácil, mas ninguém diz que temos práticas sustentáveis como integração-floresta-lavoura-pecuária, por exemplo”.

Segundo Tereza Cristina, não é coincidência que as críticas da comunidade e da mídia europeias tenham se intensificado após a celebração do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul. E mandou uma mensagem aos importadores que ainda têm dúvidas sobre os produtos brasileiros: “Se possível, peguem um avião e vão ao Brasil conhecer nossa realidade”

Conforme a ministra, algumas empresas brasileiras de carnes já mostram “desinteresse” em vender para a Europa por entenderem que o bloco endureceu suas exigências nos últimos anos e se tornou “complicado”. O embaixador brasileiro em Berlim, Roberto Jaguaribe, e o presidente da Apex-Brasil, Sergio Ricardo Segovia, também ouviram questionamentos de importadores e do executivo responsável pela organização da Anuga, Gerad Boese.

O Brasil conta com 114 empresas expositoras na Anuga, desde startups a grandes empresas como JBS, Marfrig, BRF, Minerva e Citrosuco. “Os alemães de fato estão muito preocupados com a questão ambiental. Eles compram cacau sustentável de países africanos e querem comprar do Brasil, mas também nesse caso perguntaram como está o desmatamento da floresta amazônica”, disse Segovia ao Valor. “Temos problemas e temos que buscar soluções”, afirmou.

Fernando Galletti, CEO da Minerva Foods, terceira maior indústria de carne bovina do Brasil e maior exportadora da América do Sul, observou que não só importadores europeus, mas também grandes redes de supermercados e redes de fast food do mundo todo passaram a ser muito mais exigentes com a adoção de práticas sustentáveis e a exigir a rastreabilidade de fazendas que fornecem gado para os frigoríficos.

Há cerca de quatro anos, afirmou, a Minerva passou a contar em seu quadro de acionistas com o IFC, braço do Banco Mundial que auditou a empresa na seara ambiental e estabeleceu metas para que o grupo aumentasse suas práticas sustentáveis. “Todas essas cadeias globais estão preocupadas. Elas não querem correr o risco de que um hambúrguer que está sendo consumido na França, por exemplo, tenha vindo da Amazônia desmatada”, disse ele.

Os exportadores de carnes de frango e suína também estão atentos, e pregam reforço na batalha da comunicação: “Somos contra queimadas e não compramos grãos do bioma amazônico”, reiterou Ricardo Santin, diretor-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (BPA).

Ao mesmo tempo, concorrentes da carne brasileira destacavam todo o cuidado que dizem ter com o ambiente. Enquanto Liz Kramer, ministra de Indústria e Comércio do Paraguai — país homenageado na edição deste ano da feira — ressaltava que os alimentos do país são sustentáveis, o governo uruguaio estampava em um outdoor sua vegetação nativa, com os seguinte dizeres: “Carne uruguaia, você merece e nós preservamos isso para você”.

Mas também há quem ignore a temperatura do debate e considere a crise da Amazônia um fato político. “Isso é um jogo político e não afeta nosso negócio. É preciso olhar para a sua casa primeiro antes de criticar outro país”, afirmou o italiano Giuseppe Comparoni, sócio-fundador da Agro Comp, uma das maiores importadoras de carne da Itália.

Para a Agro Comp, que importa carne brasileira de diversos frigoríficos há mais de 30 anos, o produto do Brasil não é só volume, mas também qualidade. A empresa vende para indústrias da Itália, da Alemanha e da Holanda sobretudo a carne que é usada na fabricação de “bresaola”, embutido de carne bovina que se assemelha ao presunto de parma.

A perspectiva de alta no consumo dessa iguaria na Itália puxa as compras de carne bovina in natura do Brasil, mas também dos vizinhos Paraguai e Uruguai. “A cada ano importamos mais do Brasil, e vamos continuar assim — se é que não vai faltar produto por causa da China”, brincou Comparoni.

As informações são do Valor Econômico.

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