No entanto, apesar dos avanços ao longo dos anos, vários desafios são enfrentados pelo produtor nessa fase de criação. Os principais problemas enfrentados são: a septicemia, diarreia, pneumonia e tristeza parasitária. Contudo, a alta taxa de mortalidade e morbidade estão relacionadas, em sua maioria, à grande incidência de diarreia nas bezerras nas primeiras quatro semanas de vida. No Brasil, a diarreia é de alta prevalência em todos os rebanhos e é considerada como principal causa de perda econômica na atividade. Devido ao gasto com veterinário e medicamentos e o baixo desenvolvimento do bezerro - como menor ganho de peso durante o período - os custos de criação aumentam significativamente.
O manejo utilizado na propriedade pode ser um dos fatores relacionados à diarreia; a manutenção de um ambiente confortável e com boa higiene é muito importante nessa fase. Além disso, a nutrição animal também pode influenciar: uma boa colostragem nas primeiras horas de vida, o fornecimento de um leite de boa qualidade e uma ração balanceada são essenciais para o bom desenvolvimento das bezerras. A contaminação por patógenos, como protozoários, bactérias, vírus e helmintos, podem causar inflamações e doenças intestinais, assumindo papel importante na diarreia.
Dentre as explicações para a causa da diarreia estão os distúrbios osmóticos e secretores, má absorção e alteração da motilidade intestinal. Durante a diarreia, os animais estão perdendo, principalmente, minerais, como: sódio, cloro, potássio e bicarbonato. As perdas de fluidos nas diarreias leves estão em torno de 6% do peso corporal da bezerra, mas em casos severos podem atingir uma faixa de 13 a 18%; e em casos críticos essas perdas podem chegar até 21% em 24 horas, aumentando de 22 a 40 vezes o volume fecal.
Grande parte das diarreias tem sintomas clínicos semelhantes que incluem desidratação, redução do volume plasmático e degradação da função renal. Além disso, pode evoluir para choque hipovolêmico (o coração deixa de bombear o sangue necessário para o corpo), balanço energético negativo de minerais e energia, hiponatremia (desequilíbrio hidroeletrolítico devido à baixa quantidade de sódio no sangue), perda do peso corpóreo, acidose metabólica e hipercalemia (relacionado a distúrbios no equilíbrio intra e extracelular de potássio).
Para realizar o tratamento de forma eficiente é necessário que o responsável esteja disposto a entender todas as etapas do sistema de criação. É necessário o desenvolvimento de ferramentas que permitam monitorar o ambiente que as bezerras se encontram, desde o nascimento, a colostragem e a criação como um todo. De forma geral, os tratamentos utilizados nas propriedades brasileiras visam controlar a diarreia por meio de antimicrobiano e quimioterápicos que são recomendados logo no início da diarreia. O uso constante desses produtos, além de aumentar os custos operacionais, favorecem a seleção e proliferação de cepas bacterianas mais resistentes. Os antimicrobianos devem ser utilizados quando observamos sinais de depressão, febre e anorexia, atrelado a casos mais graves e presença de sangue nas fezes.
O método da fluidoterapia é o indicado para o tratamento das diarreias em bezerras até as quatro primeiras semanas de vida. As soluções orais contêm sódio suficiente para suprir o déficit e normalizar o fluido extracelular, dois ou mais agentes que facilitam a absorção de água e sódio pelo trato gastrointestinal, podendo ser: glicose, citrato, acetato, propionato ou glicina, um agente alcalinizante como acetato ou bicarbonato e um fonte de energia, uma vez que a diarreia causa balanço energético negativo nos animais. Com isso, haverá correção do desequilíbrio hídrico e eletrolítico, mantendo a hidratação e o equilíbrio ácido-base dos animais. A solução eletrolítica deve ser fornecida, sempre que possível, via oral, por ser facilmente manuseada, mais barata e rapidamente administrada.
De acordo com a organização mundial de saúde, o desenvolvimento da terapia de reposição hídrica oral foi o mais significativo avanço na medicina do século XX. Primeiramente sugerida para crianças, evitou a morte de milhares delas que foram afetadas por diarreias em países subdesenvolvidos. Devido ao grande sucesso com crianças, a fluidoterapia oral se tornou um dos protocolos de tratamento para diarreia em bezerras.
Para determinar a quantidade de fluido a ser administrado é necessário estimar o déficit de água corporal, ou seja, o grau de desidratação da bezerra. O grau de desidratação pode ser estimado de acordo com o comportamento da bezerra, posição do globo ocular, elasticidade da pele, aparência da mucosa e produção de urina. O volume fornecido deve ser suficiente para repor a perda diária de fluidos que ocorrem nas fezes, na urina, expelidos pelo ar e através da pele. A média varia entre 120 a 150 mL/kg/dia nas bezerras nascidas. Em casos de desidratação grave, maior que 10% de perdas, a fluidoterapia deve ser feita via intravenosa, intraperitoneal, subcutânea ou intraóssea, para reposição dos fluidos o mais rápido possível.
Uma das dúvidas mais frequentes sobre a terapia oral é se devemos continuar ou não com o fornecimento do leite. Estudos mostram que, quando o leite foi totalmente retirado durante o período de hidratação, os bezerros continuaram a perder peso. Quando o leite foi parcialmente retirado durante a hidratação, a perda de peso foi menor; e quando o fornecimento de leite foi mantido, os bezerros continuaram a crescer e ganhar peso normalmente (Gonçalvez et al., 2015).
O tratamento das bezerras com a fluidoterapia é indispensável. Quanto mais rápido for iniciado o tratamento da diarreia com a terapia oral, melhor será o prognóstico, permitindo um crescimento otimizado e possibilitando que a bezerra que está sendo criada seja uma forma de expansão do rebanho e melhoramento genético. Apesar disso, é importante lembrar que o melhor remédio é a prevenção de fatores que pré-dispõem o animal a diarreia, mantendo o local limpo e bem higienizado e fornecendo um alimento de qualidade.
Ana Carolina Verdugo é consultora de serviços técnicos de bovinos leiteiros na Agroceres Multimix.
