InterleiteSul 2010: Wagner Beskow, da CCGL TEC, fala sobre competitividade do Rio Grande do Sul

Num resumo da sua apresentação sobre "A competitividade do Rio Grande do Sul", Wagner Beskow falou da ineficiência de fazendas leiteiras atuais e como a produção do Rio Grande do Sul pode se tornar um modelo, da capacidade fabril ociosa no Estado, e da importância da bacia leiteira do RS no cenário nacional.

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Figura 1

 


O conteúdo desse entrevista é referente à palestra que Wagner Beskow, pesquisador em produção de leite pela CCGL Tecnologia, ministrará no Interleite Sul 2010 (2º Simpósio sobre Produção Competitiva de Leite - Região Sul, que será realizado de 27 a 29 de outubro, em Chapecó-SC. O evento terá como ponto de partida um grande debate sobre a competitividade dos vários estados brasileiros e Argentina.
 

Figura 2



Num resumo da sua apresentação sobre "A competitividade do Rio Grande do Sul", Wagner Beskow falou da ineficiência de fazendas leiteiras atuais e como a produção do Rio Grande do Sul pode se tornar um modelo, da capacidade fabril ociosa no Estado, e da importância da bacia leiteira do RS no cenário nacional.

MilkPoint: O que você pretende passar para os participantes do Interleite Sul 2010 na sua apresentação?

WB: Minha missão será apontar um caminho que temos a nossa frente, mas que não era percebido até há pouco tempo. Por ele sairemos do escuro que tem sido a ineficiência do setor produtivo do leite e chegaremos a uma nova realidade, onde poderemos nos tornar exemplo mundial por elevada renda líquida por hectare, com qualidade e competitividade internacionais. Isso, hoje, só depende de nós e mostrarei, em Chapecó, com exemplos de campo, como está se delineando.

MilkPoint: Como você vê a competitividade do Rio Grande do Sul com outras regiões brasileiras?

WB: Vou abordar esta questão do ponto de vista do produtor que visa renda, do produtor investidor que visa retorno sobre o capital investido, da indústria que necessita qualidade, constância e baixo custo de matéria prima e dos governos estaduais e municipais que buscam investimentos externos e retorno em impostos. Cada caso é um caso e é necessário distinguir bem estes pontos de vista.

O Rio Grande do Sul é uma terra riquíssima que recém está se autodescobrindo. Infelizmente, quanto mais olhos se abrirem para este fato, mais se inflacionará o preço de suas terras. Na avaliação de produtores investidores este fenômeno já é, hoje, uma desvantagem do estado frente a outras unidades da federação com semelhante potencial produtivo.

Muito se compara o RS com a Nova Zelândia. Como vivi quase sete anos naquele país, farei um paralelo dos dois, comparando-os sob vários aspectos da cadeia do leite. Os números que mostrarei poderão surpreender alguns.

MilkPoint: Como analisa o setor lácteo no Estado?

WB: Após os investimentos em ampliações, transformações e construções de novas plantas feitos nos últimos três anos, a estrutura fabril gaúcha está parcialmente ociosa. Isto é um fenômeno normal que sucede períodos áureos que, por sua vez, antecedem quedas de preços. Para o produtor de leite, esta supercapacidade é considerada positiva, porque resulta em maior concorrência por matéria prima. No entanto, por ser onerosa para as indústrias, acaba, na verdade, se refletindo em reduzida remuneração ao produtor.

Por outro lado, se projetarmos os aumentos em produtividade que temos alcançando no estado nos últimos dois anos, logo sua capacidade instalada será novamente insuficiente.

MilkPoint: O que ainda precisa ser melhorado?

WB: Estradas, em todas as esferas de responsabilidade, mas em particular, as municipais. Só os freteiros e a logísitca sabem o que é coletar leite com os péssimos acessos às propriedades que temos. Lá fora, nossos concorrentes têm asfalto ou pedra britada até o resfriador na propriedade e chegam a ela com um caminhão bitrem. Aqui temos lama, pedras, buracos, desmoronamentos, quedas de pontes, atoleiros, poeira e, quando chegamos a elas (se chegamos), chegamos de caminhão toco. Isso é verdadeiro para a maioria dos municípios e custa ao país, à indústria, ao freteiro, ao produtor e ao consumidor, impactando diretamente na nossa competitividade.

Outro ponto é resfriador de expansão. Chega de geladeira, freezer e até mesmo resfriador de imersão. Isso tudo é uma vergonha para o setor no país. Leite é um alimento nobre e altamente perecível que tem que ser baixado para menos de 4oC imediatamente após a ordenha. A grande maioria do produtor gaúcho (e por sinal do Brasil) ainda não tem um resfriador de expansão. Hoje não há nem mais desculpas para isso, pela facilidade de financiamento que surgiu. No entanto, o produtor escolhe comprar trator moderníssimo e superdimensionado que atenderia 300 ha com folga, quando possui 20 ha, e escolhe continuar sem resfriador. Felizmente isto vai acabar por força de mercado e da Instrução Normativa 51, hoje em pleno estado de cobrança no RS pelas autoridades do MAPA e pelas indústrias sérias. Não é mais possível esperar.

MilkPoint: A região Sul, e o Rio Grande do Sul principalmente, estão tendo cada vez mais importância na produção de leite nacional, esse comportamento deve continuar?

WB: Sim, deve. Para que se tenha idéia, nossos trabalhos de pesquisa demonstraram que o produtor gaúcho tem um rebanho em suas mãos geneticamente capaz de produzir 100% mais leite do que produz hoje. Isto foi primeiro demonstrado em nosso Tambo Experimental em Cruz Alta e hoje já se encontra validado por unidades demonstrativas em propriedades comerciais e por experiências de produtores que a cada dia se somam. Antes deste trabalho se defendia que o limitante era genética. Será, logo ali na frente para estes produtores, mas ainda não era.

Outro fator ocioso é a terra. Os produtores de leite são unânimes em dizer que lhes falta mais terra para terem melhor renda. No entanto, retiram 5.000 L/ha/ano com alto custo por litro quando poderiam já estar colhendo 17.000 L/ha/ano com baixo custo, ainda sem irrigação. Ou seja, temos recursos já instalados nas propriedades para três vezes mais leite e de cinco a oito vezes mais renda líquida (mostrarei estes dados em mais detalhes na palestra).

Paradoxalmente, a vantagem do Rio Grande do Sul se reduzirá na medida proporcional de seu sucesso, pois sucesso gera novos interessados, que geram inflação de preços das terras. Este fator tirará, num futuro próximo, o RS dos holofotes para produtores de fora que queiram investir aqui. No entanto, os aumentos em produção de baixo custo e alta qualidade seguirão sendo atrativos para as indústrias e para as famílias daqui.

Se interessou? As inscrições estão com preços promocionais até 13 de outubro.

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Wagner Beskow
WAGNER BESKOW

CRUZ ALTA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 11/10/2010

Prezado Clemente:

Realmente é árduo para todos nós envolvidos no processo, mas já está sendo frutífero. Esta é a boa notícia. Temos casos a campo de 60-100% mais leite, 25% menos custo, 400-800% mais renda líquida e tudo isso com menos trabalho, menos esforço e investimento zero!

É um trabalho muito encorajador, sobretudo porque ainda há muito a avançar, mesmo com estes avanços.

Muito obrigado por tuas considerações.

Atenciosamente,

Wagner Beskow

Clemente da Silva
CLEMENTE DA SILVA

CAMPINAS - SÃO PAULO

EM 05/10/2010

Muito interessante esta entrevista. Parabéns Wagner, você é bastante corajoso e conhece esse "país riograndense", tão cheio de contrastes. Quando eu era menino, todas as noites, por volta de 0 hora, passava bem encima de minha casa um quadrimotor cargueiro da saudosa VARIG, e os mais velhos diziam que era um avião tanque, que transportava leite do Rio Grande para o Rio de Janeiro. Nunca soube se isso éra verdade ou lenda. Entretanto, de uma coisa eu tenho certeza: o Rio Grande do Sul, tem mais tradição como produtor de leite, que qualquer outro estado brasileiro. Lamentavelmente, é também o estado onde os contrastes são os mais gritantes. Durante o tempo em que trabalhei na área de qualidade do leite por este país afora, tive a oportunidade de conhecer muito bem o Rio Grande e me surpreendia muito o fato de encontrar propriedades independente de tamanho, produzindo com qualidade de dar inveja a qualquer americano ou europeu e alí do lado, um vizinho, produzindo leite que nem para alimentar porcos servia. De todos esses contrastes, Três coisas me chamavam a atenção: ordenhadeiras, empresas e assistência técnica. Foi no RS onde encontrei a maior variadade de marcas de "odenhadeiras" em toda a vida e também, de marcas sem nome e sem condições de produzir um leite de qualidade, por falta de tudo, desde dimensionamento das bombas até a quelidade do material usado na confecção.
Nas Missões, certa ocasião, visitei uma fazenda que estava com problema de limpesa numa máquina do tipo canalizada em sala 4x4, cuja máquina tinha capacidade de transporte de 400ts de ar atmosférico, com comporta a vácuo. Isso não era tudo! o balão da comporta foi instalada num nível mais alto que a linha de leite, razão pela qual tiveram que suspender a linha de leite para mais 2 metros, afim de oferecer condições do leite descer para a comporta. Que maravilha! o leite era transportado por mangueiras, desde os conjuntos extratores e tinham que subir quatro metros. Não subia. Ficava borbulhando, virando manteiga e não subia enquanto a mangueira não enchia e muitas vezes, sob força da sucção e peso do leite, a manguera fechava e não transportava o leite. Conclusão, havia oito quilos de queijo dentro daquela rede toda e na comporta a vácuo, e o cara que cuidava da limpeza dizia que todas as semana abria a comporta... uma piada. Em compensação, na região de Carazinho, Passo Fundo e lá na região de domínio da cooperativa da Santa Clara, encontrei propriedades que dão show em qualidade e eficiencia. Então concluí, que no Rio Grande do Sul, apesar da tradição, faltam além de consciência profissional por parte de fabricantes de equipamento, Assistência técnica de qualidade, com fiscalização no sentido de orientar para melhor qualidade e, interesse das industrias de laticinios, por um produto de melhor qualidade, já que não pagam. Infelizmente o seu trabalho é muito áduo e não temos certeza de que será frutífero algum dia. Mesmo assim, o parabenizo mais uma vez. Abraços,
Clemente
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