O Brasil mantém um dos mais altos potenciais para expansão da produção de leite no mundo, mas o desenvolvimento traz novos desafios, como a valorização da moeda e a competição com outras alternativas. Nossas vantagens naturais não são mais suficientes - é preciso trabalhar a eficiência na produção e a coordenação na cadeia produtiva. Essa será uma das abordagens do Interleite Sul 2012.
"Faremos uma completa e atualizada radiografia das inovações e tendências do universo do leite com os melhores especialistas e as maiores lideranças do segmento", resume o coordenador geral Marcelo Pereira de Carvalho. A realização é do MilkPoint e AgriPoint, em parceria com o Núcleo Oeste de Médicos Veterinários.
Carvalho é engenheiro agrônomo formado pela ESALQ/USP com mestrado em Ciência Animal e Pastagens. É membro do Comitê de Política Econômica da Federação Internacional de Lácteos (FIL-IDF), International Milk Promotion Group e fundador e gestor do Global Dairy Economists Group, que reúne cerca de 20 economistas atuantes no mercado de leite em diversos países.

Por que o Interleite tornou-se o principal evento científico da cadeia do leite?
Marcelo Pereira de Carvalho - O Interleite é um dos mais tradicionais eventos do setor no País. Sua primeira edição ocorreu em 1994, em São Paulo. De lá para cá, foram 11 edições no Sudeste e duas no Sul do país. Chapecó recebeu o primeiro Interleite Sul em março de 2009, com uma temática focada nas necessidades da região.
O que distingue este simpósio dos demais eventos da área?
Carvalho - O evento procura reunir assuntos de "fora da porteira" com assuntos de "dentro da porteira". No primeiro grupo, são apresentadas palestras sobre tendências de mercado, sistemas de produção e gestão. No segundo, palestras técnicas aplicadas envolvendo nutrição, qualidade do leite, pastagens, reprodução, genética, conforto e bem-estar e sanidade. Com esse formato amplo, o Interleite converte-se em um grande radar do que de mais relevante ocorre no setor, característica fundamental nesse momento de grandes mudanças no mercado.
Quais são essas mudanças?
Carvalho - O Brasil vem passando por um período de forte crescimento na produção de leite. De uma taxa anual de aumento de 3,18% (de 1990 a 2000), cresceu significativamente na década seguinte: 4,43% de 2000 a 2010, atraindo investimentos na indústria e na produção.
Esse crescimento será sustentável e de longo prazo ou trata-se de uma bolha?
Carvalho - Vários são os fatores que explicam esse aumento da taxa de crescimento, destacando-se no início da década passada um movimento de redução das importações e aumento das exportações, resultando em um inédito superávit na balança comercial já em 2004, com auge em 2007 e 2008; aumento do consumo interno decorrente do incremento da renda nas classes menos favorecidas. Houve um extraordinário e sólido crescimento da região Sul do país, que teve 96% de aumento entre 2000 e 2010, contra um avanço de 55% do Brasil como um todo.
Como manter a competitividade externa com o real sobrevalorizado?
Carvalho - Exatamente por isso, de dois anos para cá a situação parece estar mudando. A valorização do real tirou a competitividade externa novamente, e o Brasil voltou a ser deficitário: consome mais leite do que produz e as exportações praticamente minguaram. As importações passaram de 1,1 bilhão de litros em 2011 e só não foram maiores porque o país fez acordos de limitação da entrada de leite com a Argentina, além de aplicar impostos de 28% sobre a entrada de leite de fora do Mercosul.
E o mercado se apresenta equilibrado, neste momento?
Carvalho - O Brasil conseguiu manter seu mercado equilibrado, porém com preços mais altos do que os praticados no mercado internacional. Essa situação de relativa estabilidade de preços em patamares elevados deveria ser suficiente para aumentar a produção, ao menos nos níveis recentes. No entanto, dados preliminares de 2011 sugerem que isso não ocorreu.
O que explica a produção não responder mesmo em um ambiente de mercado favorável?
Carvalho - Essa á questão que queremos discutir no primeiro dia do Interleite, mais especificamente na primeira tarde do evento. Acreditamos que há um conjunto de fatores que poderia explicar essa contradição. Um deles é que o leite concorre com outras alternativas de renda, tanto na área rural como na área urbana. No Sudeste e no Centro-Oeste, por exemplo, atividades como a silvicultura e principalmente a cana-de-açúcar avançam, oferecendo possibilidades de ganhos atrativos. Isso pode explicar o baixo crescimento do Sudeste: apenas 27% em 10 anos, metade do índice nacional. No Sul do país, a realidade é um pouco diferente, e o leite tem menos competidores.
O elevado custo da mão de obra continua sendo um óbice ao crescimento do setor
Carvalho - Sim. O aumento do custo da mão de obra é apontado como um dos principais fatores que travam a expansão da atividade. O mesmo aumento de renda das classes C, D e E tem uma contrapartida para o setor rural: a competição com o emprego na área urbana, muitas vezes remunerando mais do que na área rural. Assim, não basta mais a atividade ser rentável; ela precisa ser mais rentável do que alternativas na área rural e urbana para manter um crescimento saudável.
O que é necessário para que mais produtores e empresários rurais ingressem na produção leiteira?
Carvalho - É necessário trabalhar o ambiente de investimentos para atrair novos produtores. Como ambiente de investimentos consideramos uma série de fatores como transparência no mercado, disponibilidade de capitais a custos baixos, disponibilidade de matrizes com bom padrão genético e sanitário, existência de ferramentas para gestão de riscos etc. O Brasil mantém um dos mais altos potenciais para expansão da produção de leite no mundo, mas o desenvolvimento traz novos desafios, como a valorização da moeda e a competição com outras alternativas. É necessário cada vez mais analisar essa nova realidade de forma a criar as condições para que continuemos a crescer como nos 10 anos anteriores. Nossas vantagens naturais não são mais suficientes - é preciso trabalhar a eficiência na produção e a coordenação na cadeia produtiva.
A matéria é de Marcos A. Bedin, adaptada pela Equipe MilkPoint.
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