Triste recomeço

Em algumas oportunidades, conversando com colegas de profissão, escutei relatos de propriedades que - por algum motivo - geralmente por questões de sanidade, tiveram que reconstruir todo seu rebanho. Particularmente, nunca havia sentido tão de perto este triste recomeço.

Publicado em: - 2 minutos de leitura

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Em algumas oportunidades, conversando com colegas de profissão, escutei relatos de propriedades que - por algum motivo - geralmente por questões de sanidade, tiveram que reconstruir todo seu rebanho. Particularmente, nunca havia sentido tão de perto este triste recomeço.

Em um dos casos, ao realizar provas de sensibilidade a tuberculina, nos deparamos com resultados positivos e metade do rebanho testado apresentou reação, imaginem só: um produtor de leite ter que descartar 50% de seus animais? Comento, a todos que estão lendo minhas palavras, as difíceis etapas que passou este produto.

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Choque: a primeira reação - acredito que como toda má noticia – é de um grande choque. Não posso descrever o que sentiu este produtor, mas consigo imaginar tudo que passou por sua cabeça neste período, os anos de trabalho árduo, as gotas de sangue e suor, enfim, a vida de dedicação.

Informação: superado o trauma, iniciou-se a busca por informação. Todo tipo de informação possível retirada da internet a respeito da doença foi pesquisada pelo produtor. Ele ainda recorreu a outros profissionais para obter mais informações. 

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Questionamento: várias dúvidas recorrentes a sua pesquisa surgiram, mas o maior questionamento foi relativo ao método utilizado, diagnóstico e suas possíveis falhas, casos de falso positivo, relatos de outros produtores, enfim, uma série de tentativas para tentar mudar o fato de abater metade de seus animais. Neste momento se sacrificou um animal, onde lesões características da doença foram encontradas e alguns questionamentos foram sanados.

Desespero: creio que esta etapa não necessita comentários.

Busca por um culpado: quem trouxe a doença para a propriedade? Aquela vaca que foi comprada do vizinho? Ou aquela outra que foi comprada de longe? Alguém? Mas quem? Nesta etapa se iniciou um trabalho junto com o órgão competente, de busca em outras propriedades por possíveis animais infectados, neste caso não se constatou nenhum outro foco da doença.

Aceitação: a fase mais dolorosa, quando as lágrimas comovem a todos, sendo a família e os amigos um pilar muito importante nesta etapa.

Recomeço: como profissional, muitas vezes quando percebemos, estamos envolvidos de forma pessoal, afinal nosso trabalho e nossa dedicação são as mesmas que as dos proprietários destes animais. Sinto-me de certa forma feliz em poder participar de todas estas etapas, acredito que todos aprendemos muito com esta experiência. Sobre a etapa de recomeço, ainda estamos trabalhando nela, às vezes temos que dar um passo para traz para poder dar dois para frente. O importante acima de tudo é nunca desistir, e de alguma forma, buscar forças para recomeçar.

Observação:

Este fato ocorreu a um certo tempo, rápidas medidas de controle foram realizadas, não havendo riscos para as pessoas envolvidas e nem para a população como um todo, por se tratar de uma zoonose. Resolvi compartilhar esta experiência justamente para alertar as pessoas sobre a importância desta doença e os impactos que podem vir a causar para toda a atividade leiteira. Enfatizo minhas palavras colocando-me no lugar dos produtores que passaram por situações como esta ou por aqueles que - por eventualidade - venham a passar por este problema.

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Material escrito por:

Rodrigo Luis Sechi

Rodrigo Luis Sechi

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Paulo Tadatoshi Hiroki
PAULO TADATOSHI HIROKI

LONDRINA - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 09/06/2019

Em nossa proposta de Assistência Técnica, começamos em 1998 a fazer os testes de Brucelose e Tuberculose. Já foram muitas propriedades (acho que já fizemos mais de 15.000 exames). Pelo menos em 5 propriedades, tivemos estes momentos descritos, não bem na sequência mas tristes. Sabe o lado bom, na maioria superaram e estão mais fortes!
Davi Herrera Magalhaes
DAVI HERRERA MAGALHAES

INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 07/06/2019

Excelente texto, história comovente.
Nao existe algum tipo de seguro para tais situações?
Simone valeria rocha de  sousa
SIMONE VALERIA ROCHA DE SOUSA

ATIBAIA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 05/06/2019

Boa tarde...realmente me vi no texto nao sou proprietaria da fazenda e sim funcionaria sofri muito com o ocorrido aqui pensei q nao iria ter força pra recomeçar pensei em desisti de trabalhar com vacas...mas apesar de tudo o q houve aqui e do sofrimento ainda restavam as que precisavam de mim...foi dolorido, desesperador....
Roberto Costa
ROBERTO COSTA

POÇOS DE CALDAS - MINAS GERAIS

EM 04/06/2019

Bom dia! Excelente texto.
Vejo como importante o fomento do fundo de defesa sanitária nos estados. Este fundo em muito ajuda nos controles e na segurança que efetivamente rebanhos contaminados não se propaguem.
E tem um lado social que é garantir a sustentabilidade e suporte ao recomeço do profissional
abraços!
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