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AgTech Breakfast, o leite e a troca de informações entre a Nova Zelândia e o Brasil

RAQUEL MARIA CURY RODRIGUES

EM 27/07/2018

10 MIN DE LEITURA

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A Nova Zelândia tem uma longa história no agronegócio. Mais do que qualquer outro país desenvolvido, a economia, as pessoas e o ambiente do país dependem do sucesso das indústrias baseadas na agropecuária. Hoje mais de 95% da produção de leite é exportada, e esse cenário promoveu uma cultura de inovação permanente, com empresas neozelandesas demonstrando habilidades inatas para comercializar tecnologias. O país tem grande know how em soluções para sistemas de produção em pastagens, sendo este o foco de muitas empresas de tecnologia, visando atender à crescente demanda global por alimentos seguros e confiáveis.

As fazendas neozelandesas são tão eficientes que os sistemas tecnológicos tornaram possível uma única pessoa manejar a ordenha de até 400 vacas por hora. Como as fazendas aumentaram em escala ao longo dos anos, a tecnologia permitiu aos fazendeiros lidar com mais animais, reduzindo ao mesmo tempo os custos com a mão de obra.

A fim de estreitar relações com o Brasil, o Consulado da Nova Zelândia realizou em São Paulo/SP, o AgTech Breakfast, no dia 25 de julho, um evento com o intuito de proporcionar um intercâmbio entre produtores brasileiros e neozelandeses com foco nas tendências, tecnologias e ferramentas para melhor gestão de mudanças no agronegócio.

O MilkPoint foi um dos parceiros do encontro, que ocorreu das 8h30 às 11h30, e contou com a palestra de Ben Allomes, considerado um dos jovens líderes do setor produtivo neozelandês. Também palestraram Roberto Hugo Jank Jr., Diretor presidente da Agrindus S/A e Mauricio Silveira Coelho, gestor da Fazenda Santa Luzia, em Passos, Minas Gerais. O debate foi moderado por Claudio Antônio Pinheiro Machado, Professor Doutor da Faculdade de Economia Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) na área de Administração Geral.

O evento contou, ainda, com a presença do Embaixador da Nova Zelândia no Brasil, Chris Langley (Embaixada da Nova Zelândia no Brasil), do Consul Geral da Nova Zelândia em SP, Nick Swallow, e de representantes das empresas neozelandesas CRV Lagoa, Tru-Test Brasil, Qconz America Latina, Milk Bar do Brasil, LIC (representada localmente pela Gensur Brasil) Oritain e SIMCRO.


A fim de estreitar relações com o Brasil, o Consulado da Nova Zelândia realizou em São Paulo/SP, o AgTech Breakfast, no dia 25 de julho

A produção de leite na Nova Zelândia

Os produtores da Nova Zelândia vivem em um ambiente altamente competitivo, estimulados pelo livre comércio e ausência de subsídios. Atualmente, o país enfrenta dois importantes desafios no setor de produção: tornar a atividade rural atrativa para os jovens e atender às exigências do Zero Carbon Act – lei neozelandesa que visa equilibrar as emissões de carbono até 2050, o que tem motivado mudanças, sobretudo, no setor da pecuária.

Terra escassa, vulnerabilidade diante de condições climáticas variáveis e exposição a mercados globais são algumas das razões pelas quais as empresas do país desenvolveram tecnologias e sistemas altamente eficientes, aplicáveis em todo o mundo. Os sistemas de gestão são flexíveis (capacitando os agricultores a gerenciar as flutuações nos preços das commodities) e sustentáveis, com ênfase na gestão dos recursos terra, nutrientes e água.

A propriedade de Ben Allomes possui 480 hectares dedicados à produção de leite e outros 470 destinados à animais de corte e agricultura. No leite, são 1250 vacas kiwi cross, que produzem 6 milhões de litros ao ano. Seu sistema de produção é baseado em pastagens, que representam 95% do aporte nutricional das vacas.


A propriedade de Ben Allomes possui 480 hectares dedicados à produção de leite e outros 470 destinados à animais de corte e agricultura.

Além da excelência técnica, Ben procura criar um ambiente de trabalho diferenciado para os funcionários.”O desemprego é de apenas 3% no país, sendo fundamental atrair boas pessoas”, explica. Em sua palestra, ele destacou que um dos desafios atuais é melhorar as habilidades da equipe e flexibilizar horários de serviço.

“Os meus funcionários decidem o número de horas e a forma que essas horas serão cumpridas. Eles mesmo planejam as suas agendas. Assim, eu os ‘empodero’ para atuarem como acharem melhor, visto que cada um tem um perfil e um horário ótimo de rendimento. Posso classificar o meu sistema como flexível, modular e rotativo”, disse ele, que reforçou o foco em ações diferenciadas e encorajamento da equipe para mudanças. “Saúde mental é uma das grandes questões, por isso, oferecemos todo o apoio necessário à nossa equipe”, disse ele, dizendo-se assustado com o fato de suicídios entre produtores de leite terem dobrado no último ano no país.

“Saúde mental é uma das grandes questões, por isso, oferecemos todo o apoio necessário à nossa equipe”

A produtividade da mão-de-obra, porém, é muito alta. No total, Ben tem 17 funcionários, sendo 8 em tempo integral e 9 temporários. Cerca de 7 pessoas tomam conta de 700 vacas em uma das propriedades.

Ao público presente, Ben divulgou os valores, a visão e a missão da propriedade:

  • Valores: unidade, realização, integridade e conexão;
  • Visão: nutrir e apoiar o pessoal para alcançar seu propósito e potencial;
  • Missão: nosso sucesso é ter uma família feliz e saudável com um negócio de agricultura sustentável e de baixo estresse, proporcionando liberdade e segurança.

“O que me move a permanecer na atividade leiteira é participar de uma comunidade unida, em família, e fornecer a minha produção para uma indústria de laticínios forte. A ideia é nos concentrarmos nas mudanças estratégicas, criando também um ambiente para as futuras gerações. Inclusive, meus quatro filhos já estão participando das atividades diárias da fazenda. Minha visão sobre o negócio é bem humana, pois sem pessoas engajadas, as coisas não funcionam”.

O produtor neozelandês frisou a importância das preocupações com o meio ambiente e compartilhou as suas principais ações para contribuir com a sustentabilidade. “Assuntos como bem-estar animal, gestão da água, biossegurança e mudanças climáticas são componentes fundamentais para qualquer empresário do campo nos dias de hoje. Jamais podemos deixar de dar a nossa contribuição nestes temas. Não devemos nos esquecer de olhar as novas exigências dos consumidores e os avanços da tecnologia no campo. Esta última, tem o poder de auxiliar e muito na eficiência e redução dos custos”. 

Na sequência, Roberto Jank, gestor da fazenda Agrindus, em Descalvado/SP, falou sobre a produção de leite na 3ª maior propriedade leiteira do Brasil, de acordo com o levantamento Top 100 2018. Acompanhado da família, Roberto primeiramente mostrou a sua satisfação em agora poder contar com a terceira geração da família no negócio, que dará um enfoque no e-commerce dos produtos Letti e mudança da embalagem e do rótulo.


Roberto Jank, gestor da fazenda Agrindus

Investimentos em bem-estar animal

Jank investe em bem-estar animal e segundo os dados apresentados na sua palestra, a resposta positiva disso é muito clara, especialmente no verão. A fazenda tem climatização com ventilação e aspersão, em um sistema com termostato e controle de temperatura, com o objetivo de resfriar o animal, para que ele não atinja os 39,2oC de temperatura máxima. Com isso, a Agrindus tem melhores resultados na reprodução e na produção de leite.

“De todos os investimentos que podem ser feitos na pecuária leiteira, o mais bem-sucedido e prioritário talvez seja o bem-estar animal por uma razão muito simples: a vaca é um dos animais que mais responde ao conforto”, comentou. Segundo ele, a Agrindus agrega valor ao negócio por meio da verticalização e genética, negócio que ocorre paralelamente à produção de leite. 

Abordando os custos, Roberto deixou claro que hoje o que mais pesa no orçamento são os gastos com a alimentação dos animais. “Para controlar tudo o que entra e sai, temos um inventário dos alimentos e todos os valores que dispendemos. Além dos alimentos, precisamos usar da melhor maneira possível a água e a terra, pensando na redução das pegadas de carbono. A intensificação da produção por área deve ser um compromisso com a sociedade e o meio ambiente”. Roberto mencionou ainda que eles têm uma margem de 60 a 65% do faturamento livre dos custos de alimentação. Essa margem paga os custos fixos da operação e é de onde sai o resultado final. 

“De todos os investimentos que podem ser feitos na pecuária leiteira, o mais bem-sucedido e prioritário talvez seja o bem-estar animal por uma razão muito simples: a vaca é um dos animais que mais responde ao conforto”

De acordo com os números apresentados, a produtividade da Agrindus melhorou muito nos últimos anos e hoje, a fazenda produz mais em uma menor área. “Como tabulamos todos os dados de maneira insistente, isso nos permite entender claramente quando a propriedade demanda novos investimentos. Para otimizar mais ainda o nosso negócio, hoje estamos buscando verões cada vez melhores por meio de investimentos em conforto”. O produtor explicou que, nos últimos anos, o rebanho tem pedido mais investimento em conforto, já que a distância das médias entre verão e inverno não têm diminuído como ocorria até alguns anos. Pensando nisso, ele trabalhará com túnel de vento para as vacas em início de lactação.

Em relação à discussão sobre sistemas de produção, Roberto diz que isso não é o mais importante. “Na Nova Zelândia, tudo o que você coloca a mais no sistema, gerra custos marginais mais altos do que o ganho marginal. É o oposto do que ocorre aqui, o que determina sistemas certamente diferentes. O importante é analisar o comportamento das variáveis econômicas e não o sistema em si”, explicou.

Finalizando as apresentações do dia, Mauricio Silveira Coelho, da Fazenda Santa Luzia (Passos/MG) pertencente ao Grupo Cabo Verde, explanou sobre o histórico da fazenda, que iniciou as atividades em 1943, está indo para a 4ª geração e desenvolve além do leite, a agricultura (milho safra e safrinha) e a suinocultura.


Mauricio Silveira Coelho, da Fazenda Santa Luzia (Passos/MG) pertencente ao Grupo Cabo Verde, explanou sobre o histórico da fazenda, que iniciou as atividades em 1943

“Hoje produzimos 36 mil litros de leite por dia com 1800 vacas em lactação,  com animais da raça Girolando. Em 2017, totalizamos 11,3 milhões de litros e a meta para este ano é alcançar os 14 milhões. A diluição dos nossos custos fixos ocorre pelo ganho de escala. Trabalhamos com o pastejo rotacionado irrigado (pivot e malha) e compost barn para pré e pós-parto. Temos uma preocupação imensa com o bem-estar dos nossos animais (que começa já no manejo das bezerras). Inclusive, além de irrigar, o pivot tem a função refrescamento. Também, buscamos ser autossuficientes em energia elétrica”.

Na Santa Luzia, e venda de leite representa 70% do negócio, seguida da venda de animais de produção (15%), venda de genética (15%), doadoras (7%), sêmen (1%) e embriões (1%). “Nosso foco é diferenciar os nossos produtos no mercado com agregação de valor e o nosso maior desafio é equilibrar o perfil conservador do setor rural com a necessidade de investimentos para adequação do negócio dentro das normas estabelecidas. Queremos ganhar escala e eficiência, incorporando as tecnologias disponíveis”.

Maurício informou que, nas condições da Santa Luzia, não é suficientemente rentável trabalhar com 4500 kg de leite/vaca/ano, com suplementação mínima. “Para nós, é necessário buscar 6000 kg/vaca/ano, o que se consegue com suplementação extra de 3 kg de MS de volumoso. Sem isso, as contas não fecham”, explicou ele, mostrando a diferença para o sistema neozelandês, que se viabiliza com produtividades por animal mais baixas.

Mauricio discorreu sobre os números divulgados recentemente sobre a saída de muitos produtores de leite da atividade. “O número de produtores reduziu drasticamente no mundo todo, e no Brasil está acontecendo o mesmo. Temos que ser competitivos para permanecer na atividade”. Ele reforçou que o plantio direto, a agricultura de precisão, sementes transgênicas e várias outras tecnologias, permitiram um grande salto de produtividade e competitividade ao agricultor brasileiro.

“O número de produtores reduziu drasticamente no mundo todo, e no Brasil está acontecendo o mesmo. Temos que ser competitivos para permanecer na atividade”.

“As mudanças estão acontecendo numa velocidade muito maior do que tudo que vimos até aqui. Agora chegou a vez da pecuária de precisão. A Fazenda Santa Luzia busca o crescimento sustentável da produção de leite com foco na exploração mais racional dos recursos naturais como terra, água e rebanho. Busca ainda a integração entre as atividades, maior qualificação da mão de obra e melhor uso das tecnologias disponíveis, tornando a leiteria mais competitiva e atraente”, concluiu.

Esta matéria foi escrita pela Equipe MilkPoint. 

RAQUEL MARIA CURY RODRIGUES

Zootecnista pela FMVZ/UNESP de Botucatu.

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