FAZER LOGIN COM O FACEBOOK ESQUECI MINHA SENHA SOU UM NOVO USUÁRIO
Buscar

Utilização de dietas de baixo amido para vacas leiteiras

POR MARINA A. CAMARGO DANÉS

E LUIZ FELIPE FERRARETTO

MARINA A. CAMARGO DANÉS

EM 27/09/2012

8 MIN DE LEITURA

10
1
Carboidratos consistem a principal fonte de energia para ruminantes, podendo chegar a 70% da matéria seca da dieta. As forragens são fontes de carboidratos fibrosos (CF, celulose e hemicelulose) que, por apresentarem baixa densidade energética, têm seu consumo limitado por enchimento ruminal. Dessa forma, os carboidratos não fibrosos (CNF, principalmente amido), provenientes de grãos de cereais, consistem na principal fonte de energia para esses animais, devido à sua maior densidade energética e rápida fermentação ruminal em relação aos CF. Além de atender à demanda de energia da vaca, os carboidratos de rápida fermentação ruminal são importantes também para fornecer energia aos microorganismos ruminais e permitir a utilização da proteína degradável no rúmen para síntese de proteína microbiana. Isso é especialmente importante quando a forragem utilizada tem alto teor de proteína bruta, como silagem de alfafa ou pastos bem manejados.

A demanda energética da vaca leiteira varia de acordo com o estágio da lactação e isso é consequência de uma série de alterações metabólicas relacionadas à partição de nutrientes no organismo do animal. Por exemplo, no início da lactação a energia que não é usada para mantença é direcionada para produção de leite, enquanto que com o decorrer da lactação, a concentração de insulina no sangue e a sensibilidade dos tecidos à insulina aumentam e o direcionamento da energia para condição corporal, isto é, acúmulo de gordura, passa a ser cada vez maior a medida que a produção de leite vai se reduzindo. O entendimento desse processo é importante para possibilitar o ajuste da disponibilidade de energia para vaca de acordo com sua demanda, evitando desbalanços que, além de desperdiçar dinheiro, podem trazer problemas relacionados ao ganho de peso excessivo no final da lactação.

Diversas são as fontes de CNF, entretanto a mais utilizada na alimentação de vacas leiteiras é o grão de milho, que contém cerca de 70% de amido e está disponível na grande maioria das regiões produtoras de leite. A quantidade de energia que o milho pode disponibilizar ao animal depende do cultivar e do processamento físico-químico do grão (por exemplo, moagem, ensilagem de grão úmido, floculação, etc). Estratégias para aumentar a digestibilidade de amido na silagem e no grão de milho e sua utilização por vacas leiteiras serão tema do próximo artigo deste radar.

A vasta utilização do milho em dietas para vacas leiteiras deixa o produtor suceptível às flutuações de preço do milho, que por sua vez são afetados por fatores fora do nosso controle, como clima ou mercado internacional. Neste ano, por exemplo, devido à forte seca enfrentada pelas principais regiões produtoras de milho dos EUA, o preço do milho teve aumento marcante, como mostra o gráfico do CEPEA, abaixo.



Como a alimentação tem forte impacto no lucro do produtor de leite, uma vez que é o componente de maior importância no custo, é interessante ter alternativas para que não se dependa tanto do milho e, consequentemente, dessa flutuação nos preços. Além disso, como mencionado no início do texto, o suprimento de energia deve ser ajustado à demanda energética da vaca, o que amplia as opções de utilização de fontes de CNF alternativas ao amido.

Diferentes alternativas podem ser utilizadas para se reduzir amido (milho grão) da dieta e consequentemente baratear o custo da mesma em períodos de alta do preço do milho ou reduzida demanda energética da vaca. Duas das formas mais utilizadas serão abordadas neste artigo: a substituição de milho por sub-produtos fibrosos; e o aumento da quantidade de forragem na dieta. Bons resultados podem ser obtidos por meio de ambas as formas, porém certos cuidados devem ser tomados.

Substituição de milho por sub-produtos fibrosos

Sub-produtos fibrosos podem ser encontrados a preços acessíveis em diversas regiões do país, podendo fazer frente a alta do milho. Além disso, sub-produtos ricos em fibra de alta digestibilidade podem proporcionar benefícios à saúde ruminal e aumento na concentração de gordura do leite. Uma série de artigos sobre os principais sub-produtos, incluindo informações sobre os alimentos, bem como resultados de alguns experimentos de substituição do milho pelo sub-produto, foi publicada nesse mesmo radar técnico há alguns anos e os artigos podem ser acessados nos links abaixo:

- Polpa cítrica
- Casca de soja e farelo de amendoim
- Farelo de trigo e caroço de algodão
- Farelo de gluten de milho e raspa e farelo de mandioca

Apesar das diversas vantagens ocasionadas pela utilização de sub-produtos em dietas de vacas leiteiras, sua utilização parece ser mais eficiente quando fornecidas a vacas de média ou baixa produção. Resultados de pesquisa de curta duração sugerem que a substituição de milho por sub-produtos fibrosos é viável, porém, pesquisas de longa duração são mais apropriadas para a avaliação de eficiência alimentar (kg de leite/kg de ingestão de matéria seca), ganho de peso e gordura corporal e retorno sobre capital investido em vacas de alta produção. Resultados recentes de 4 estudos realizados com vacas de alta produção (média de 40 kg/d) na University of Wisconsin-Madison demostraram que a substituição de milho grão por sub-produtos (20-21% vs. 27-30% de amido na dieta) pode não ser viável para vacas de alta produção. Nesses estudos foi observado que vacas de alta produção consumindo dietas de baixo amido podem apresentar queda na produção de leite e proteína do leite. Além disso, nas pesquisas em que a produção de leite foi mantida, a ingestão de matéria seca foi maior para as dietas de baixo amido. Esses resultados demonstram que a menor densidade energética de dietas substituindo milho por sub-produtos podem diminuir a eficiência alimentar e o retorno sobre capital investido.

Em contrapartida vacas do meio para final da lactação, ou vacas em pasto que de modo geral produzem menos leite individualmente, podem fazer melhor uso energético das dietas de baixo amido. Experimentos conduzidos com vacas produzindo em média 30 kg de leite/d apresentaram aumento na gordura do leite e menor ganho de peso e gordura corporal para vacas recebendo dietas contendo maior concentração de FDN em substituição ao amido. Produção de leite foi similar entre as dietas. Menor ganho de peso e gordura corporal do meio para o final da lactação podem reduzir a susceptibiliade a desordens metabólicas na próxima lactação e são causadas pelo direcionamento de nutrientes quando vacas leiteiras são alimentadas com fontes energéticas precursoras de insulina, como o milho.

Em resumo, a substituição de milho grão por sub-produtos fibrosos pode ser benéfica para vacas de menor produçao de leite ou em estágio mais avançado da lactação. Para vacas de alta produção e/ou início de lactação, dietas de alto amido, quando formuladas e executadas com níveis adequados de fibra fisicamente efetiva e tamponamento ruminal, permitem maior produção de leite e eficiência alimentar. Portanto, é importante que as dietas sejam formuladas para grupos de vacas na propriedade de acordo com estágio de lactação e produção de leite, para que os específicos balanços entre demanda e suprimento de nutrientes sejam mais precisos e economicamente vantajosos.

Substituição de milho por forragem

O menor custo das forrages em relação aos concentrados faz com que produtores e nutricionistas busquem aumentar a concentração de forragens na dieta para contenção de gastos. Porém, algumas considerações devem ser feitas. Dietas de alta forragem geralmente resultam em limitação física na ingestão. O maior tamanho de partícula e menor digestibilidade das forragens comparado com concentrados exige maior tempo de ruminação e digestão, resultando em menor taxa de passagem e enchimento do rúmen. Menor ingestão de matéria seca e, consequentemente, de energia, somada à menor densidade energética das forragens resultam em menor produção de leite e proteína do leite por falta de energia disponível.

Além disso, deve-se considerar a qualidade e disponibilidade das forragens. Forragens de baixa qualidade podem acentuar os efeitos negativos na ingestão e produção de leite. Forragens de alta qualidade, além de apresentar alto valor nutritivo, devem apresentar características físicas (tamanho de partícula, no caso de forragens conservadas; estrutura do dossel, no caso de pastagens) que maximizem ingestão e minimizem seleção. A disponibilidade também é essencial, visto que, forragens compradas podem encarecer a dieta ou ser de qualidade duvidosa, portanto antes de mudar para uma dieta de alta forragem o inventário da propriedade deve ser consultado.

Pesquisadores de Ohio avaliaram a substituição de grão por silagem de milho em vacas de alta produção (40 kg de leite/d). O aumento na quantidade de forragem na dieta resultou em queda na ingestão de matéria seca, provavelmente causada por limitação física no rúmen e, consequentemente, em menor produção de leite.

Assim como nas dietas substituindo milho por sub-produtos, dietas de alta forragem devem ser usadas do meio para o final da lactação ou com vacas de menor potencial de produção. Nestas condições a demanda energética é menor e a possibilidade de limitação da ingestão e queda na produção de leite menos provável. Além disso, pode ser um excelente alternativa para atenuar um possível acúmulo de gordura corporal no final da lactação.

Forragens de alta qualidade podem mudar esse cenário, pois além de interferir diretamente na quantidade de concentrado necessária para atender às exigências dos animais, na maior parte das vezes aumentos significativos na qualidade da forragem são conseguidos com melhores práticas de manejo, exigindo pouco investimento financeiro. Silagem de milho, por exemplo, pode ser adicionada em maior quantidade na dieta quando apresentando alta digestibilidade de fibra. A alta digestibilidade de fibra reduz o efeito de enchimento ruminal e consequentemene a queda na ingestão e produção de leite. Além disso, um questionário realizado em Wisconsin mostrou que fazendas de alta produção tem adotado dietas com 50-60% de forragem na dieta e que as forragens contribuem com cerca de 45% da proteína bruta e 40% do amido da dieta. O diferencial desses rebanhos é que as forragens utilizadas são de altíssima qualidade, possibilitando um aumento na quantidade de forragem fornecida e consequentemente uma redução nos custos com alimentação.

MARINA A. CAMARGO DANÉS

Professora do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Lavras. Engenheira Agrônoma e mestre pela ESALQ/USP. PhD em Dairy Science pela Universidade de Wisconsin-Madison, WI, EUA. www.marinadanes.com

LUIZ FELIPE FERRARETTO

Zootecnista formado pela Unesp - Botucatu e mestre em Dairy Science pela University of Wisconsin - Madison. Atualmente é doutorando em Dairy Science pela University of Wisconsin - Madison.

10

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

ISAIAS

ITAIPÉ - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 31/03/2015

Luiz e Marina, gostaria enviar umas fotos de um milho que eu plantei e ouvir o que vocês acham, ele "perfilhou" como arroz. Dando muito volume/MS. Se tiver como me passar um e-mail ficaria grato.
GABRIELA CALAFATE

EM 12/04/2013

Bom artigo,parabéns
LUIZ FELIPE FERRARETTO

EM 24/10/2012

Prezado Daniel,



Referências de 3 dos 4 estudos de Wisconsin seguem abaixo:



- Gencoglu, H., R. D. Shaver, W. Steinberg, J. Ensink, L. F. Ferraretto, S. J. Bertics, J. C. Lopes and M. S. Akins. 2010. Effect of feeding a reduced-starch diet with or without amylase addition on lactation performance in dairy cows. J. Dairy Sci. 93:723-732.



- Ferraretto, L. F., R. D. Shaver, M. Espineira, H. Gencoglu, and S. J. Bertics. 2011. Influence of a reduced-starch diet with or without amylase on lactation performance by dairy cows. J. Dairy Sci. 94:1490-1499.



- Ferraretto, L. F., R. D. Shaver, and S. J. Bertics. 2012. Effect of dietary supplementation with live-cell yeast at two dosages on lactation performance, ruminal fermentation, and total tract nutrient digestibility in dairy cows. J. Dairy Sci. 95:4017-4028.





O quarto estudo ainda não está publicado. Porém uma comparação similar a que nós fizemos nesse radar técnico, assim como parte dos dados do estudo não publicado de Wisconsin podem ser encontrados no seguinte artigo:



- Akins, M., L. Ferraretto, S. Fredin, and R. Shaver. 2012. Balancing carbohydrate sources for dairy cows during a period of high corn prices. Proc. Southwest Nutr. Conf. Tempe, AZ. http://www.uwex.edu/ces/dairynutrition/documents/shaverarizonacarbos2-2012.pdf



Atenciosamente,



Luiz e Marina
DANIEL JUNGES

SAUDADES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 23/10/2012

Aos autores obrigado pelo artigo.



Acredito que diante dos elevados custos dos grãos e subprodutos a produção de forragens de qualidade, em especial silagens deverá de fato ser levado a sério, principalmente por possibilitar os custos de produção e atentar ao produtor a realizar as premissas básicas de produção de volumosos, que por si só, não é coisa de outro mundo, temos tecnologia para isso e usar o bom senso.

Por gentileza, é possível fornecer as referências da pesquisa realizada em Wisconsin?



Obrigado

CLÁUDIO HENRIQUE OLIVEIRA DE CARVALHO

CÁSSIA - MINAS GERAIS

EM 02/10/2012

Parabéns aos autores pelo artigo.



As informações servem de alerta para algumas situações em que se busca, equivocadamente, uma redução nos custos das dietas, sem que se verifiquem os resultados obtidos em termos de produtividade. Além disso, demonstra que devemos, sempre, buscar por produção de volumosos de alta qualidade, que nos trarão maiores níveis nutricionais vindos, aí sim, de um alimento de melhor relação custo/benefício.
RUBEM CINTRA

GRAVATÁ - PERNAMBUCO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/10/2012

Otimo o artigo , muito objetivo e de simples entendimento pelo criador/produtor.
JAIRO JOSÉ COSTA FERREIRA

BOA ESPERANÇA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/10/2012

PARABENS PELO ARTIGO. ABRAÇOS
FERNANDO STAGGEMEIER

TEUTÔNIA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/10/2012

Parabéns pelo artigo!
LUIS EINAR SUÑE DA SILVA

ANÁPOLIS - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 29/09/2012

Cumprimentos!!


Excelente artigo, aguardamos por outros.


Abs
ALBERT JOSÉ DOS ANJOS

PERDÕES - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 28/09/2012

Ótimo artigo!


Simples de entender, mas preciso em termos técnicos.


Parabéns aos autores!
MilkPoint AgriPoint