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Será que meu processo de mistura da ração total está eficiente e consistente?

MARINA A. CAMARGO DANÉS

EM 25/01/2013

7 MIN DE LEITURA

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No artigo mais recente de seu blog no MilkPoint, o Prof. Paulo R. F. Mühlbach fez uma abordagem bastante interessante sobre a enorme variabilidade que ocorre durante os processos de alimentação em uma propriedade leiteira (clique aqui para ler). Algumas das dificuldades citadas no artigo fogem do nosso controle, como a variabilidade na composição dos alimentos, tanto volumosos produzidos na propriedade, que sofrem efeito de clima, colheita, processamento e armazenamento, como concentrados, que muitas vezes apresentam composição nutricional diferente de acordo com fornecedor e lote (ou até mesmo dentro do mesmo lote). Por outro lado, muitos dos processos que consistem no manejo alimentar da propriedade são manipuláveis e passíveis de monitoramento por parte do produtor ou nutricionista. Por exemplo, como o Prof. Paulo citou, desde que haja monitoramento frequente da composição nutricional dos ingredientes, é possível/recomendável fazer ajustes na dieta para contornar a variação e buscar estabilidade no fornecimento de nutrientes aos animais.

A estabilidade e consistência no fornecimento de nutrientes é essencial para um bom funcionamento do rúmen, produção e composição do leite constantes e saúde da vaca. Além da variação na composição nutricional dos ingredientes, que pode ser contornada com ajustes na formulação da dieta, outra fonte de variação é a mistura dos ingredientes em um sistema de ração completa misturada (total mixed ration – TMR). Esse é outro exemplo de processo que podemos controlar, monitorar e ajustar para garantir o bom funcionamento. Uma TMR misturada correta e consistentemente irá garantir que todas as vacas sejam ofertadas com a mesma dieta, assim como reduzir a seleção no consumo. A edição de Dezembro do seminário on-line promovido pela revista Hoard’s Dairyman e pela Universidade de Illinois abordou o tema “Fornecimento de TMR consistente e eficiente”. Durante a palestra, Dr. Tom Oelberg deu algumas dicas interessantes sobre como monitorar a TMR na fazenda e comentou sobre os principais erros cometidos. Dr. Oelberg trabalha para uma empresa que faz auditoria do processo de TMR nas fazendas, incluindo armazenamento dos ingredientes, preparação e mistura da batida e fornecimento da ração completa. Os dados apresentados por ele mostram que 70% das batidas de ração analisadas pela empresa apresentam problemas de mistura.

O primeiro passo é descobrir se existe um problema, monitorando a variabilidade na TMR. O método mais utilizado para monitoramento de TMR é a caixa de peneiras conhecida como Penn State shaker box. (Para quem não conhece o equipamento, fotos, manual de como utilizá-lo e planilhas para os cálculos estão disponíveis no site da Universidade da Pensilvania – clique aqui para acessar). Dez amostras da TMR por batida devem ser coletadas ao longo de todo o(s) cocho(s) em que aquela batida foi distribuída, em intervalos aproximadamente equidistantes (postes do free-stall podem ser utilizados como referência para marcar a distância). As amostras devem ser coletadas logo após o fornecimento, antes do animal ter acesso à ração. Cada amostra deve ser coletada do topo, meio e base do monte de ração naquele ponto de coleta e armazenadas individualmente em sacos plásticos com fecho ziploc até o momento da análise com as peneiras. Após a separação de cada amostra com a caixa das peneiras, calcula-se o coeficiente de variação (CV) entre as 10 amostras para a peneira do meio e a de baixo (fundo da caixa). A amostra retida na peneira de cima não é utilizada pois como a quantidade é pequena, o coeficiente de variação tende a ser muito grande naturalmente. Condições de mistura excelentes apresentam CV de 1 a 2%, enquanto CV de 3 a 5% indicam condições muito boas. CV acima de 5% indica algum problema na mistura, que pode estar relacionado a diversos fatores que serão discutidos a seguir. Outras formas de monitoramento também podem ser adicionalmente empregadas, como peneiras para grãos, gravação em vídeo do processo ou câmeras com capacidade infravermelho para acessar a temperatura da mistura, mas a caixa de peneiras é sem dúvida a ferramenta mais prática para se utilizar com frequência na propriedade.

A primeira fonte de variação que afeta a composição da TMR é a retirada da silagem do silo. O manejo do painel do silo é importante para que se reduza a variação na composição química da forragem em diferentes pontos do painel e também para evitar regiões mofadas que podem se desenvolver com entrada de ar e umidade no silo. A recomendação é que se tire de 15 a 30 cm diários do painel do silo e que a retirada seja feita de forma vertical, mantendo o painel o mais compactado possível. Após a retirada do material, o ideal é que se misture a pilha de silagem retirada com a pá carregadeira algumas vezes antes de carregá-la no vagão. Para se ter uma ideia do efeito dessa prática, a variação no teor de proteína bruta de uma silagem de alfafa em 10 amostras foi reduzida de 7 para 2.5 pontos percentuais quando as amostras foram retiradas no painel do silo ou na pilha de silagem após a mistura, respectivamente.

Outro fator que afeta a consistência da TMR e é um dos problemas mais comuns nas propriedades é a mistura incompleta do último ingrediente da batida decorrente de um tempo insuficiente de mistura. De modo geral, são necessários de 3 a 5 minutos após a adição do último ingrediente para que se obtenha uma mistura adequada, entretanto é comum observarmos propriedades misturando por apenas 30-60 segundos. Vale lembrar também que conforme as brocas e facas do misturador se desgastam, o tempo necessário para que a mistura fique adequada aumenta. Por isso também é alta a correlação entre TMR inconsistente e equipamentos desgastados.

Sobrecarga do vagão é mais uma importante causa de TMR inconsistente. Em sua palestra, Dr. Oelberg apresentou dados muito interessantes mostrando como a sobrecarga aumenta não somente o coeficiente de variação na análise das peneiras, mas também na composição nutricional da dieta, como mostra a figura 1.

Figura 1. Coeficientes de variação dos nutrientes em amostras de TMR de um vagão sobrecarregado (over-filled) ou com a carga normal recomendada (normal filled). Fonte: Oelberg, 2011.

A ordem de carregamento dos ingredientes no vagão também é importante. Recomendações específicas para ordem dos ingredientes dependem do tipo de vagão, dos ingredientes utilizados e também devem ser ajustadas de acordo com a experiência do operador em trabalhar com aqueles ingredientes. Algumas recomendações gerais, no entanto, devem ser seguidas. Se feno fizer parte da dieta, o fardo deve ser pré-processado para redução no tamanho de partícula (picado) antes de ser adicionado ao vagão. Ingredientes de difícil mistura, como o feno, milho de alta umidade, silagem de capim, devem ser adicionado antes na batida (mas alguns tipos de vagão têm recomendações diferentes, então sempre siga as recomendações do fabricante e vá fazendo ajustes necessários). Ingredientes adicionados em pequenas quantidades devem ser colocados o mais cedo possível na batida, para permitir mais tempo de mistura, e por último a silagem de milho. Obviamente quando a silagem de milho for o único volumoso da dieta, ela deve ser colocada primeiro pois o carregamento de concentrados no vagão vazio irá causar acúmulo dos mesmos nos cantos do vagão.

Ingredientes líquidos também podem ser adicionados à dieta e, quando bem manipulados, reduzem a seleção da dieta consumida pelo animal. É importante que os líquidos sejam adicionados por último no vagão e distribuídos de forma equilibrada, de preferência com uma mangueira ou um aplicador (ao invés de um balde derramado em um ponto específico do vagão). Quando alimentos líquidos são adicionados de maneira imprópria, os efeitos são opostos e a consistência da TMR piora, assim como a seleção pelos animais aumenta.

Finalmente, fatores associados ao vagão misturador também podem afetar a consistência da TMR. Inúmeros tipos de vagão estão disponíveis no mercado e podem funcionar muito bem desde que a manutenção seja feita sempre que necessário, principalmente no que diz respeito a afiamento de facas e desgaste das peças responsáveis pela mistura, e de que as recomendações de carregamento sejam seguidas. Independente do tipo de equipamento, é muito importante que o vagão esteja em nível durante o carregamento dos ingredientes e mistura da batida. Quando o vagão está desnivelado, além da mistura não ocorrer direito pois ingredientes podem acumular em um lado do equipamento, a balança também não funciona direito. As principais diferenças entre vagões horizontais e verticais são a ordem de carregamento dos ingredientes, o grau de processamento necessário para forragens e capacidades mínima e máxima de carregamento. Vagões horizontais misturam melhor pequenas quantidades e são preferencialmente utilizados quando o número de vacas a serem alimentadas é menor. Por outro lado, vagões verticais misturam muito bem cargas pesadas e com ingredientes úmidos. A escolha do vagão deve levar em conta o tipo de ingredientes disponíveis na propriedade, tamanho da carga que será misturada e também assistência técnica dos revendedores.

De acordo com os dados apresentados pelo Dr. Oelberg, das batidas de ração auditadas desde 2008, 29,9% estavam adequadas e 70,1% apresentaram algum tipo de problema, distribuídos da seguinte forma:

- 23,2% apresentavam partes dos equipamentos desgastadas
- 13,5% apresentavam tempo insuficiente de mistura após o último ingrediente
- 10% tinham problemas de processamento de feno para redução de partículas
- 6,2% estavam sobrecarregando os vagões
- 5,4% apresentavam uma combinação de problemas
- 5,1% mantinham os vagões desnivelados
- 4,3% apresentavam problemas com carregamento de alimentos líquidos
- 2,4% problemas com ordem de carregamento dos ingredientes no vagão.

Referências:
Oelberg, T. 2011. TMR AuditsTM Improve TMR Consistency. Penn State Dairy Cattle Nutrition Workshop.
Oelberg, T. 2012. Consistent, efficient TMR feeding. Hoard’s Dairyman Webinar. December 2012.

MARINA A. CAMARGO DANÉS

Professora do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Lavras. Engenheira Agrônoma e mestre pela ESALQ/USP. PhD em Dairy Science pela Universidade de Wisconsin-Madison, WI, EUA. www.marinadanes.com

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JOSE ROBERTO PEREIRA

ITUVERAVA - SÃO PAULO

EM 03/04/2013

Otimo  otimo estamos sempre aprendendo. Parabens.
PAULO FERNANDO ANDRADE CORREA DA SILVA

VALENÇA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 15/02/2013

Renato,

Por favor ligar para o Telefone da APLISI ( Ass. dos Produtores de Santa Isabel) 024 24571237 . O Delfin atenderá e eu retorno a sua ligação. Não tenho comunicação na fazenda aonde moro.

Obrigado. Paulo Fernando.
RENATO GARCIA GAMA

ALEGRE - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 15/02/2013

Marina,  Parabens pelo artigo. Realmente sao pequenos detalhes que podem ser ajustados dentro da fazenda e melhorar a performance da alimentação do rebanho. Muito bom tambem esse metodo de acuracia da eficiencia desenvolvido pela Universidade.



Sr. Paulo Fernando Andrade



Alem de produtor de leite aqui no ES, sou supervisor de Negocios da DeLaval, inclusive responsavel pela regiao do RJ. Se quiser me enviar seus contatos, posso lhe enviar informações sobre os misturadores, que tambem fazem parte do portfolio da DeLaval.



Abraços.



Renato Gama
BIOADITIVOS NUT. ANIMAL LTDA

SÃO LUÍS DE MONTES BELOS - GOIÁS - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 12/02/2013

Muito bom trabalho. Esses fatos realmente são quase comum em propriedades  ( mão de obra humana).   Jose Marcelino de Lima
ALEXANDRE GALLUCCI TOLOI

BAURU - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 01/02/2013

Fico Feliz pelo interesse em um assunto que a tão pouco tempo não era dado importancia em uma fazenda, não o tema de se ter um vagão de ração total e sim de se preocupar em o que estar oferecendo na dieta final aos animais.

dentro de alguns pontos muito importantes que temos que nos preocupar é o modelo do misturador que sera utilizado, e isso depende principalmente da dieta que sera utilizada e por isso que temos nessa linha modelos de mistura vertical, horizontal, com fresa, sem fresa, tombamento,rotormix (PAD) dentre os principais, e isso leva a ter diferenças gritantes em relação as analises feitas em laboratorio em relação ao que se oferece aos animais na boca do cocho, tendo influencia nesse contexto tambem ordem de carregamento, tempo de mistura, sistema misturador e outros fatores mais que podem influenciar na qualidade da dieta e tambem no tamanho e estrutura da fibra.



abraço a todos.



Alexandre G. Toloi
MARINA A. CAMARGO DANÉS

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 30/01/2013

Tiago e João Paulo (Blog Porteira Adentro), obrigada pelos comentários. É muito legal ficarmos conhecendo outras experiências, compartilharmos os problemas e as soluções que cada um encara nas suas realidades!



Paulo, infelizmente não tenho nenhuma recomendação de vagão. Atualmente moro fora do Brasil então não tenho tido contato com muitas propriedades para coletar algumas opiniões. Mas acho que você deve fazer uma pesquisa levando em conta preço e as epecificações do produto (para ver o que melhor combina com sua situação) e também  perguntar a outros produtores que você conheça, dando ênfase na questão de assistência técnica que a empresa oferece e na qualidade do serviço deles.



Um abraço,

Marina
JOÃO PAULO V. ALVES DOS SANTOS

LENÇÓIS PAULISTA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 29/01/2013

Marina, parabéns, excelente artigo!



Apesar de vagões TMR representarem o "top" da tecnologia em termos de alimentação para bovinos leiteiros em regime de confinamento, além dos aspectos muito bem apresentados por você no artigo, tenho encontrado, na prática muita dificuldade no treinamento e capacitação da mão-de-obra para operar o mesmo, com balanças programáveis.



Eu utilizo muito essa ferramenta (programação de dietas com diferentes saídas e lotes). Trabalho com planilhas auxiliares e efetuo controle com uso da ferramenta de memória de carregamento de diferentes ingredientes. Isso ajuda a "pressionar" funcionários a executar o carregamento de forma correta. Sem esse controle, a quantidade de volumoso carregada varia muito, principalmente, em equipamentos auto-carregáveis (providos de rotor). O rotor, associado ao tempo de mistura excessivo gera muito problemas com o perfil/frações da mistura no teste da Penn State (peneira). Mesmo programando tempo de mistura, sem controle, muitos funcionários deixam ao invés de 4 min, 7 a 10 min de mistura e, em silagem bem feitas, com tamanho de partícula reduzida, os efeitos são danosos. A acidose subclínica explode em função do aumento da taxa de passagem. A claudicação aumenta, a produção cai. Alguns casos de laminite aparecem e lesões como úlcera de sola e sola dupla também. Mesmo monitorando bem dietas com adequados teores de fibra (> 20% efFDN), controlando níveis de NFC% e FDN x FDA% e % de amido, encontro alguns problemas. Tudo isso com dietas misturadas com feno e/ou fibra longa (forragens picadas).



Enfim, não é fácil. Apertamos de um lado, surgem problemas de outro. Os dados apresentados por você foram interessantes e úteis.



Um abraço, até!
PAULO FERNANDO ANDRADE CORREA DA SILVA

VALENÇA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/01/2013

MARINA.


Produzo 1700 l/dia em uma propridade perto de Volta Redonda, RJ, Devo  iniciar em 3 meses o uso de TMR com a compra de um vagão misturador. Este equipamento deverá fazer o trato de até 160 vacas em lactação.


Estou sondando o mercado para a aquisição do vagão. Alguma recomendação?


Grato. Paulo Fernando.APLISI.
THIAGO GOLEGA ABDO

CAMPO GRANDE - MATO GROSSO DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 28/01/2013

Importantíssimo o artigo, pois costumo dizer que existem três tipos de rações em uma, ou seja, a ração que a gente formula, a ração que é batida e a ração que é distribuída, ocorrem variações graves e depois a gente fica "doido" tentando achar onde está o furo da ração formulada. Além também de sempre termos que verificar a qualidade bromatológica da dieta pois com o tempo podem ocorrer variações na mesma, podendo prejudicar o desempenho dos animais.
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