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O que sabemos sobre a mastite? Detecção e diagnóstico

POR MARCOS VEIGA SANTOS

E TIAGO TOMAZI

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 30/04/2018

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Neste e nos próximos dois artigos de nossa coluna iremos revisar os principais conceitos sobre a mastite, especialmente em relação aos avanços obtidos nos últimos 100 anos referentes aos seguintes assuntos:

(1) detecção e diagnóstico;

(2) manejo e controle; 

(3) prevenção da doença.

Evidências históricas sugerem que os humanos passaram a ordenhar vacas para o consumo de leite há mais de 3.100 anos, e é provável que a mastite já existia desde aquele tempo. Por milênios, o contato íntimo exigido pela ordenha manual permitiu a detecção de anormalidades no leite e na glândula mamária das vacas, mas pouco se sabia sobre as causas e controle da mastite.

A melhor compreensão das causas desta doença só foi possível depois da invenção dos microscópios, os quais possibilitaram a detecção de microrganismos a partir de amostras de leite. Os primeiros estudos sobre a mastite surgiram na década de 1900, período em que foram identificados microrganismos no leite de vacas mesmo com a ausência de sintomas clínicos.

Streptococcus spp. foram a primeira causa conhecida de mastite, e no início do século passado, o conceito de mastite subclínica estava apenas se tornando conhecido. Desde então, tanto os patógenos, quanto as vacas e as formas de manejo mudaram significativamente, mas a mastite continua sendo uma doença importante em rebanhos leiteiros.

A principal preocupação da indústria de laticínios em relação à mastite bovina era com a saúde pública, sendo assim as primeiras estratégias de controle foram direcionadas para a redução da contagem bacteriana do leite cru. As principais bactérias responsáveis pelo aumento da contagem bacteriana do leite eram do gênero Streptococcus. Em 1927, Strep. agalactiae foi descrito como responsável por cerca de 90% das infecções intramamárias (IIM) em vacas leiteiras nos EUA, e a mastite subclínica foi considerada uma das principais causas do aumento da contagem bacteriana no leite. Streptococcus agalactiae foi considerado como a principal causa de mastite por várias décadas, embora a mastite causada por Micrococcus pyogenes (atualmente conhecido como Staphylococcus aureus) começou a ser melhor estudada a partir da década de 1950.

Em 1947, um estudo clássico descreveu que o desenvolvimento da mastite ocorre em três fases: (1) invasão de um microrganismo na glândula mamária; (2) estabelecimento da infecção (multiplicação bacteriana); e (3) desencadeamento de um processo inflamatório pelo sistema imune da vaca. Este conceito ainda serve de base para nossa compreensão sobre a mastite nos dias atuais.

Embora uma grande variedade de bactérias já era reconhecida como potencialmente causadora de IIM em meados do século passado, o interesse inicial sobre o controle da mastite foi direcionado para bactérias transmitidas de forma contagiosa (vaca-vaca). Por décadas (e ainda nos dias atuais), Strep. agalactiae e Staph. aureus foram considerados os patógenos contagiosos mais importantes da mastite. Nos anos seguintes, estratégias direcionadas de prevenção e tratamento foram implantadas em rebanhos leiteiros, o que levou a uma redução significativa na frequência de mastite causada por patógenos contagiosos, especialmente em países com pecuária leiteira desenvolvida (ex., EUA e países da Europa). Por outro lado, a mastite causada por Staph. aureus e Strep. agalactiae ainda é um desafio em países que não implantaram efetivamente estratégias de controle de patógenos contagiosos (ex., Brasil).  

Com o melhor controle de patógenos contagiosos, dados coletados em rebanhos dos EUA demonstraram avanços consideráveis na redução da CCS do leite de tanque, e o país atingiu uma média de 197.000 células/mL no ano de 2017 (https://queries.uscdcb.com/publish/dhi/current/sccrpt.htm); por outro lado, a incidência de mastite clínica aumentou de 13% em 1996 para 25% em 2014, o que foi atribuído ao aumento de mastite causada por patógenos ambientais, especialmente coliformes.

Até o final da década de 70, havia pouco interesse na avaliação de microrganismos de origem ambiental causadores de mastite. Uma revisão publicada em 1979 descreveu diversos fatores que possibilitaram o avanço no conhecimento sobre a associação de bactérias gram-negativas e a ocorrência de mastite: métodos laboratoriais para identificação de coliformes (incluindo E. coli e Klebsiella spp.), mecanismos de desenvolvimento de IIM (com ênfase na exposição e migração das bactérias através do canal do teto), patogenia e epidemiologia (incluindo fatores de risco associados com a doença), e recomendações de estratégias de controle destes patógenos. Esta revisão sinalizou a importância do melhor entendimento da mastite causada por microrganismos oportunistas de origem ambiental.

Estudos posteriores, realizados nas décadas de 80 e 90, reconheceram a importância de reduzir a exposição dos tetos a bactérias ambientais, além de destacarem as diferenças na susceptibilidade entre as vacas em relação a bactérias gram-negativas (coliformes) e gram-positivas (principalmente Streptococcus spp.). Neste período, também foram descritas diferenças epidemiológicas entre os patógenos ambientais, a relação destes patógenos e a mastite durante o período seco, a maior taxa de cura espontânea de IIM causadas por bactérias gram-negativas e o aumento da taxa de casos clínicos (vs. subclínicos) associados com patógenos ambientais. Atualmente, em rebanhos nos quais os patógenos contagiosos já foram controlados, ou até erradicados (ex., Strep. agalactiae), houve aumento de frequência de mastite causada por microrganismos oportunistas de origem ambiental (ex., coliformes, Streptococcus spp., Staphylococcus coagulase-negativa, Lactococcus spp., Prototheca spp., e outros).

Durante o último século, o desenvolvimento de testes confiáveis para detecção de mastite foi prioridade das primeiras pesquisas que buscaram garantir a segurança dos alimentos, produzir derivados lácteos de alta qualidade, e ter métodos de identificação para direcionar o manejo/tratamento das vacas afetadas. Os métodos de detecção incluíram contagem bacteriana no leite, contagem de leucócitos, cultura microbiana, e testes que avaliavam alteração dos constituintes do leite (ex., teor de cloretos). Dentre estes testes, a contagem de leucócitos (ou contagem de células somáticas) rapidamente se tornou um dos principais testes, pois era prático e reprodutível. Porém, a falta de conhecimento sobre as respostas inflamatórias causadas pela mastite dificultou a definição de um ponto de corte para diferenciar uma vaca sadia (sem mastite) de uma vaca doente. Embora os limiares utilizados para definir a mastite foram altamente variáveis (chegando a 3.000.000 células/mL), um estudo comparativo observou que a maioria das amostras de leite de glândulas mamárias saudáveis apresentou <100.000 células/mL. Atualmente, o limite de CCS amplamente aceito para diferenciar uma vaca saudável de uma vaca com IIM é de 200.000 células/mL.

Antes do desenvolvimento de técnicas modernas para estimar a CCS, o teste de CMT (California Mastitis Test) foi uma opção de método rápido e barato para detectar e manejar infecções subclínicas em vacas leiteiras. Porém, esse teste permite apenas uma avaliação subjetiva do grau de inflamação do quarto mamário. Com o desenvolvimento de métodos quantitativos automatizados (a partir de 1960), autoridades governamentais reguladoras passaram a estabelecer limites para CCS do leite de tanque. Atualmente os limites aceitáveis de CCS em rebanhos são de 750.000 células/mL nos EUA, e de 400.000 células/mL na União Europeia. O limite de 400.000 células/mL é o padrão global para o leite comercializado no mercado internacional. No Brasil, o limite preconizado pela legislação vigente é de 500.000 células/mL. 

Além da avaliação da CCS do leite de tanque, este teste passou a ser usado em nível de rebanho para identificação de vacas com mastite. A necessidade de redução da CCS do leite de tanque exigiu a identificação de vacas infectadas, o que levou à incorporação da CCS individual em programas mensais de controle leiteiro. O uso da CCS individual mensal permitiu a identificação de vacas com mastite de forma mais rápida e rotineira, sem a necessidade de realizar culturas microbiológicas de todas as vacas. Atualmente, diversos rebanhos monitoram a saúde do úbere e direcionam estratégias de manejo com o uso de testes mensais de CCS individual (ex., segregação de vacas em lotes).

Fonte: Ruegg (2017). Journal of Dairy Science. 100:10381–10397. (https://doi.org/10.3168/jds.2017-13023). 

Saiba como diagnosticar e tratar a mastite clínica e subclínica,  bem como prevenir sua ocorrência, com corretas práticas de manejo de ordenha e terapia de secagem. Clique aqui e confira os cursos ministrados pelo Prof. Dr. Marcos Veiga no EducaPoint!

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MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

TIAGO TOMAZI

Médico Veterinário e Mestre em Nutrição e Produção Animal pelo Departamento de Nutrição e Produção Animal da FMVZ-USP. Atualmente é aluno de doutorado da mesma instituição e está realizando estágio de pesquisa na Cornell University, NY, EUA.

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JOSE FLAUZINO MACHADO BARBOSA

RIBEIRÃO PRETO - SÃO PAULO

EM 02/05/2018

Será que consigo erradicar a mastite em meu rebanho e pequeno mais atrapalha pde me dar uma sugestão.
AMANDA LUIZA GROFF

EM 03/05/2018

O que o senhor já faz para tentar eliminar a mastite? Como é realizado o pré e pós dipping? Depois da ordenha as vacas vão para o cocho ou logo se deitam?
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 03/05/2018

Prezado José Flauzino, infelizmente, a mastite não é uma doença que pode ser erradicada, em razão da existência de inúmeras causas da mastite e de diferentes reservatórios destes agentes causadores.
Atualmente, o que se deve buscar é controlar a doença por meio de medidas preventivas. Atenciosamente, Marcos Veiga