O atual limite de CCS do leite no Brasil está adequado?
A decisão do MAPA em prorrogar por seis meses a entrada em vigor dos novos limites máximos microbiológicos e de células somáticas do leite intensificou a discussão sobre os critérios para definição dos atuais limites utilizados na legislação.
Publicado em: - 5 minutos de leitura
Dentro deste cenário de prorrogação, alguns representantes do setor produtivo e das indústrias têm questionado a viabilidade da adoção de um limite de 400.000 células/ml para o leite do Brasil. Os principais argumentos contrários são de que este limite é excessivamente rígido e, consequentemente, não seria atendido por uma grande parcela dos produtores. De acordo com dados compilados dos laboratórios da Rede Brasileira de Qualidade do Leite (RBQL), cerca de 50% dos produtores avaliados em 2010 não atenderiam ao critério de produção de leite com < 400.000 células/ml, 30% estariam entre 400.000 e 750.000 células/ml, e 20% acima de 750.000 células/ml.
Um pouco de história
No Brasil, a adoção de limites máximos de CCS do leite foi definida pela IN 51/2002 (MAPA), a qual estabeleceu um período de adaptação inicial de 3 anos para entrada em vigor do limite de 1.000.000 células/ml, em 2005, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste. Este legislação previa ainda que haveria reduções deste limite para 750.000 células/ml, em 2008 e, finalmente, para 400.000 células/ml, em 2011 (prorrogado para 01/2012). Para as demais regiões (Norte e Nordeste), os limites entrariam em vigor dois anos após as primeiras regiões. É importante lembrar que desde dezembro/1999, o assunto de mudança de legislação já era discutido, uma vez que pela Portaria MAPA 56/1999 foi submetida à consulta pública os regulamentos técnicos de qualidade do leite, que posteriormente foram adotados na legislação.
Com base cronograma proposto, a IN 51/2002 buscava, dentro de um período de 6 anos, sair de uma situação de ausência total de limites para um patamar similar ao padrão europeu de CCS do leite, o que indica um enorme desafio para a cadeia produtiva. A IN 51/2002 estabelece que a avaliação da CCS dos produtores seja feita com base na média geométrica dos últimos 3 meses. Como definição, a média geométrica de três amostras nada mais é do que a raiz cúbica da multiplicação dos três valores em questão. Para facilitar a compreensão deste conceito, exemplificaremos a média geométrica de 3 valores: 10, 100 e 1000. Aplicando-se o conceito acima, inicialmente é necessário calcular o produto (multiplicação) entre os valores (10 x 100 x 1000 = 1.000.000) e posteriormente calcular a raiz cúbica deste produto (1.000.0001/3 = 100). Desta forma, a média geométrica dos valores 10, 100 e 1000 é igual a 100.
Nos EUA, o primeiro limite legal de CCS foi de 1.500.000 células/ml, adotado em 1970. Esta legislação somente foi alterada em 1986, passando para 1.000.000 células/ml, e em 1991 foi estabelecido o limite atual de 750.000 células/ml. Os estados podem definir limites diferenciados de CCS, como a Califórnia que adota o 600.000 células/ml. Desde 1997, entidades como o National Mastitis Council (NMC, Conselho Nacional de Mastite dos EUA) vêm propondo a redução deste limite para 400.000 células/ml, sem obter sucesso. Contudo, é necessário destacar que a definição de limites de CCS nos EUA é decidida por votação dos representantes de serviços de inspeção dos estados e não por representantes da cadeia produtiva. Mesmo com o limite de 750.000 células/ml, a média de CCS dos rebanhos norte americanos em 2010 foi de 228.000 células/ml (97% dos rebanhos sob controle de CCS) e apenas dois estados apresentam média acima de 400.000 células/ml.
Na União Europeia, foi adotado em 1985 o limite de 400.000 células/ml para o leite fluido de consumo humano, comercializado dentro da UE. Em 1992, este mesmo padrão foi estabelecido para todos os derivados lácteos, além do leite fluido (Council Directive 92/46/ECC). Considerando a grande influência dos padrões europeus sobre o mercado lácteo internacional, os principais países exportadores também adotaram padrão semelhante, entre os quais Nova Zelândia e Austrália.
Reduzir ou não o limite?
Os limites máximos de CCS são usados para definir se o leite está ou não adequado para o consumo humano. A definição de um limite legal máximo de CCS do leite tem como pressuposto a proteção da saúde do consumidor. No entanto, a maioria dos especialistas concorda que o limite de CCS não está associado com riscos a saúde pública, pois as células somáticas estão naturalmente presentes no leite. Deste modo, não se pode considerar que haja diferença de segurança quanto ao consumo de leite com 400.000 ou 750.000 células/ml. Por outro lado, pesquisas científicas indicam que fazendas leiteiras com alta CCS apresentam risco aumentado de ocorrência de resíduos de antibiótico no leite. Considerados estes dois aspectos, pode-se questionar quais as razões e potenciais benefícios da adoção de limites mais rígidos de CCS no Brasil.
A CCS do tanque é um indicativo da ocorrência de mastite subclínica no rebanho. Além disso, está ligada às condições higiênicas de produção de leite e a qualidade/rendimento industrial da fabricação dos derivados lácteos. Desta forma, ainda que não tenha relação com riscos à saúde pública, a CCS do leite está intimamente associada com a qualidade industrial do leite, com prejuízos aos produtores e indústria processadora, além de ter trazer restrições a entrada no mercado internacional. Além dos potenciais benefícios econômicos gerados pela redução da CCS do leite, pode-se citar algumas vantagens adicionais: a) aumento da confiança de consumidores no fornecimento de leite de alta qualidade para o consumo; b) harmonização de padrões internacionais de qualidade para o comércio de leite entre países; c) aumento da competividade dos produtos lácteos no mercado internacional; d) redução do risco de resíduos de antibióticos no leite; e) redução de custos de produção do leite em nível de rebanho.
Dentre todos os potenciais benefícios da redução do limite legal da CCS, um dos mais significativos para a cadeia produtiva é a harmonização do limite legal com aquele adotado por outros países exportadores, o que poderia aumentar a competividade do leite brasileiro. Contudo, se o mercado externo não for uma das metas a serem buscadas pelo agronegócio do leite, a adoção de limites mais rígidos de CCS não parece ser limitante do ponto de vista de segurança e saúde pública para consumo interno.
Para os produtores, independentemente dos limites legais máximos a serem adotados para o leite, os atuais programa de pagamento por qualidade bonificam aqueles que entregam leite com menos de 400.000 células/ml. Em algumas empresas os maiores valores de bonificação somente são atingidos quando o leite apresenta CCS 200.000 células/ml e ocorre forte penalização do preço quando este valor ultrapassa 400.000 células/ml. Estes dados sobre os sistemas de pagamento por qualidade, cada vez mais comuns, indicam que o mercado se antecipa e define padrões de excelência de qualidade muito mais rígidos do que a legislação estabelece. Contudo, a legislação além de proteger a saúde da população, deve também criar condições para maior competividade do setor.
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Material escrito por:
Marcos Veiga Santos
Professor Associado da FMVZ-USP Qualileite/FMVZ-USP Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225 Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP Pirassununga-SP 13635-900 19 3565 4260
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GUARANTÃ DO NORTE - MATO GROSSO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 30/07/2012
Sou médica Veterinária e estou fazendo uma especialização em Gestão em Saúde e minha monografia será sobre Qualidade do leite, gostaria que se fosse possível, o senhor me enviasse via e-mail algum trabalho para que eu pudesse usar na confecção da mesma.
Meu e-mail é lorenrif@hotmail.com
Desde já agradeço.
Loren REnata
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 04/07/2012
Atenciosamente, Marcos Veiga dos Santos
FRANCISCO BELTRÃO - PARANÁ - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 03/07/2012
Me pego pensando nas ultimas linhas de seu artigo "a legislação além de proteger a saúde da população, deve também criar condições para maior competividade do setor." e na sua resposta ao Jose Renato. A qualidade do leite vem melhorando sem duvidas, talvez não na rapidez que nos tecnicos gostariamos. O produtor hoje sabe o que é ou já ouviu falar de CCS/CBT, Já temos propriedades que não perdem em nada para Europa em qualidade, mas me pergunto se o consumidor sabe o que é qualidade em lacteos (de fato) e fico com a nitida impressão que enquanto a industria não for cobrada energicamente, não vai fluir.
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 10/04/2012
Minha opinião é de que o leite de alta qualidade acaba formando um pool com o leite de baixa qualidade, e o mix geral é o padrão da empresa.Acho que somente considerando esse efeito, o leite de melhor qualidade já traz benefícios para a empresa.
Atenciosamente, Marcos Veiga

ALÉM PARAÍBA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 09/04/2012
O que não me fiz entender, é saber o que adianta para a indústria o leite produzido por mim ser de qualidade excepcional se no final das contas será misturado com outros às vezes nem tão bons assim.
Sou produtor de leite a mais de 20 anos e prezo por qualidade a mais de 10. Será que não seria hora de começar a coleta seletiva, pra que as indústrias tirassem realmente proveito da qualidade de alguns produtores e com isso os remunerasse melhor???
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 06/04/2012
Obrigado pela sua participação e comentários. Concordo que ainda temos muito a avançar em termos de pagamento por qualidade e de melhoria da qualidade do leite.
Do ponto de vista do produtor, eu entendo que se o laticínio não faz a coleta separada do leite, o produtor não tem como influenciar nisso, pois todas as análises do leite em termos de qualidade do leite do produtor são feitas em amostras do tanque antes da coleta. Sendo assim, quando é feito o pagamento por qualidade o leite analisado é somente do produtor. Obviamente, nesta situação o produtor não perde por ter o leite misturado aos demais produtores.
Atenciosamente, Marcos Veiga

BOM DESPACHO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 04/04/2012
O fato da coleita ser coletiva em nada afeta o pagamento individual, as amostras são coletadas em frascos individuais e identificados na propria fazenda. Cada um recebe uma bonificação ou penalização de acordo com seu leite.

ALÉM PARAÍBA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 03/04/2012
Temos condições de ter este tipo de coleta???
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 23/11/2011
CAÇU - GOIÁS
EM 17/11/2011
Abraços a todos
Estêvão Domigos de Olivera - Médico Veterinário - Caçu e Quirinópolis - GO
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 18/10/2011
Atenciosamente, Marcos Veiga

IJUÍ - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 14/10/2011

CÁCERES - MATO GROSSO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 05/10/2011
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 01/10/2011
Caso o nível de CCS não esteja no padrão adequado quais serão as providencias tomadas em relação ao produtor e laticínio ?
Infelizmente, ainda não foram deifnidos os critérios e penalidades para os produtores e laticínios que apresentarem não conformidades em relação a CCS. Essa é uma competência do Ministério da Agricultura.
Atenciosamente, Marcos Veiga
PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 28/09/2011
Primeiramente gostaria de parabeniza-lo pelo ótimo artigo. Creio que o futuro da cadeia produtiva do leite no Brasil, a médio e longo prazo, está sendo traçado/discutido atualmente. Cada vez está mais evidente que o Brasil tem um grande potencial de se tornar exportador de lácteos num futuro até próximo. E sem qualidade, isso não é possível.
Não acredito que seja necessário ficarmos reclamando vários aspectos deficientes na cadeira em nosso país, como a falta de auxílio, falta de mão-de-obra qualificada, entre outros aspectos. Devemos seguir exemplos que deram certo e tentar se aproximar disso. Tudo isso, de maneira bastante organizada, palavra chave quando se busca qualidade.
Antes de mais nada, o produtor precisa entender sobre qualidade do leite, pra definir metas e objetivos e querer melhorar. A partir disso, aparece a indústria, que precisa incentivar e querer um produto de qualidade superior, oferecendo auxílio aos produtores para que melhorem cada vez mais. Por fim, o Estado também precisa incentivar não só os produtores, mas também a indústria e o consumidor a procurarem um produto melhor.
Ainda assim, temos grande parte da produção em pequena escala, por produtores familiares e/ou com muito pouca instrução. Esse é outro ponto fundamental, visto que ou estarão excluídos da cadeira produtiva, ou sofrerão um "choque" muito grande.
Essa questão, de certo modo, cultural é um dos maiores entraves para que possamos atingir um padrão de qualidade de leite. Precisamos de mudanças sutis e constantes hoje que refletirão a curto, médio e longo.
Abraços!
MUTUM - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 27/09/2011
JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 27/09/2011
Um abraço,
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 26/09/2011
Minha opinião é de que do ponto de vista de saúde pública, a CCS não é o problema principal de qualidade do leite. Isso pode ser confirmado pelos diferentes limites que existem entre os diferentes países e que não significam que o leite com menor limite de CCS seja mais seguro para o consumo. Isso não quer dizer que não seja um assunto importante, mas sim que não é uma questão de risco para a saúde pública de quem consume leite.
A CCS é uma questão econômica tanto do ponto de vista do produtor, que perde com a redução da produção de leite, quanto para a indústria que perde com a redução de qualidade, rendimento e composicão.
Atenciosamente, Marcos Veiga
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 26/09/2011
Obrigado pela mensagem. Seguem algumas considerações sobre a sua mensagem:
1) Relação entre CCS do rebanho e condições higiênicas e produção: existe uma relação indireta entre fazendas que apresentam condições inadequadas de higiene e alta CCS. Basicamente, deficiências de higiene favorecem o aumento de novas infecções. Isso não quer dizer que a CCS avalia as condições de higiene (que deve ser avaliada pela CBT do Leite), mas pode ocorrer esse tipo de relação, ainda que indireta.
2) Concordo que o pagamento por qualidade ainda não é uma realidade disseminada, mas vem aumentando de forma gradativa. Esse é um tipo de relacionamento entre empresa e produtor e ocorre de forma livre. Escrevi sobre este assunto em um outro radar técnico.
3) Sobre a diferenciação de limites de CCS e CBT, concordo que poderiam ser diferentes e com cronogramas separados, pois são duas variáveis com diferença de velocidade de melhorias.
Atenciosamente, Marcos Veiga

NOVA VENÉCIA - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 24/09/2011
Também concordo que há falta de profissionalismo por parte das indústrias em coletar e até mesmo de dar transparência ao processo. O mercado vende vacina para redução da CCS. A Embrapa gado de leite ainda não se manifestou sobre a eficiência dessas prevenções. Enfim, estamos num País sem destinação de recursos para a pesquisa científica - infelizmente.