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Método de secagem afeta ocorrência de mastite na lactação seguinte

POR MARCOS VEIGA SANTOS

E TIAGO TOMAZI

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 08/03/2012

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Tiago Tomazi* e Marcos Veiga dos Santos

O período seco é a fase do ciclo produtivo das vacas que tem por objetivo a manutenção da sanidade do úbere, bem como, garantir a produção de leite após o parto. Alcançar este objetivo é sempre um desafio, pois as vacas são altamente susceptíveis a infecções intramamárias (IIM) durante o início do período seco e a colostrogênese.

Estudos recentes demonstram que a taxa de novas IIM é maior durante o período seco que durante a lactação. Infecções iniciadas durante o período seco são normalmente causadas por agentes ambientais, e algumas destas infecções persistem durante a lactação seguinte.

Dois métodos de secagem são normalmente utilizados em propriedades leiteiras: o método de secagem abrupta, no qual, a ordenha é cessada no dia da aplicação do antibiótico para vacas secas; e o método de ordenha intermitente, com redução da frequência de ordenhas na última semana de lactação. O método de secagem tem relação com a produção de leite no momento de secar as vacas e exerce influência sobre a presença de IIM no início da lactação seguinte.

Ordenhas intermitentes podem reduzir a produção de leite, o que pode facilitar a involução dos tecidos mamários e aumentar os fatores de defesa naturais contidos no leite como a lactoferrina. Mesmo assim, a forma de secagem mais recomendada em rebanhos leiteiros é a paralisação abrupta da ordenha ao final da lactação. Em vacas de alta produção, este método pode causar pressão excessiva na glândula mamária e canal do teto, o que leva ao gotejamento de leite e permanência do canal dos tetos abertos por períodos prolongados.

Em estudo recente, pesquisadores dos EUA avaliaram a influência da produção de leite e da ocorrência de infecção no momento da secagem sobre a probabilidade de IIM no início da lactação seguinte por meio da comparação de dois métodos de secagem. Cento e vinte sete vacas das raças Jersey e Holandesa, em fase final de lactação, fizeram parte do estudo que teve duração de dois anos. As vacas foram agrupadas por raça e separadas ao acaso em dois grupos durante a semana antecedente a secagem: grupo de ordenha intermitente e grupo controle (procedimento de ordenha de rotina).
As vacas do grupo de ordenha intermitente foram ordenhadas pela manhã nos primeiros quatro dias, pulava-se o quinto dia, eram ordenhadas na manhã seguinte, não eram ordenhadas por mais um dia inteiro, e por fim, eram ordenhadas na manhã que antecedia a secagem. As vacas do grupo controle eram normalmente ordenhadas duas vezes ao dia até o dia da secagem, quando eram ordenhadas somente de manhã. Após a última ordenha, os quartos mamários de todas as vacas foram infundidos com antibiótico para vacas secas contendo cefapirina benzatina.

As coletas de amostras de leite dos quartos mamários foram realizadas no dia da escolha dos animais (pré-secagem), na secagem e três dias após o parto. O leite foi então transportado ao laboratório para identificação microbiológica, a fim de caracterizar a ocorrência da infecção no quarto mamário. A concentração de lactoferrina nos quartos mamários foi quantificada a partir das amostras coletadas uma semana antes e no momento da secagem. Este procedimento foi realizado para avaliação do efeito da ordenha intermitente sobre os níveis deste fator de defesa natural no leite bovino. A produção diária de cada vaca durante a semana final de lactação foi registrada por meio de sistema de gerenciamento e controle leiteiro. Amostras dos quartos mamários foram coletadas e enviadas para análises CCS.

Ao final do estudo, os dados de 112 vacas foram analisados, 56 com secagem abrupta e 56 com secagem intermitente. As vacas submetidas à ordenha intermitente produziram em média de 74 Kg, enquanto as vacas do grupo controle tiveram produção de 129 kg durante a última semana de lactação. A maioria dos quartos que estavam sadios na pré-secagem permaneceram desta forma na secagem. A porcentagem total de quartos infectados, curados, persistentemente infectados, bem como os agentes causadores de mastite de ambos os grupos estão presentes na Tabela 2.

A proporção de quartos infectados no parto não diferiu entre os grupos avaliados. Nas vacas com secagem intermitente , 84% das infecções presentes na secagem curaram-se durante o período seco. Da mesma forma, 85% das IIM do grupo controle curaram-se neste período. A menor taxa de cura foi observada nas infecções por S. aureus. Não foram observadas diferenças no número de infecções novas ou persistentes entre os grupos (Tabela 2).

Tabela 2: Distribuição de diferentes microrganismos isolados de quartos mamários de vacas dos grupos tratamento (ordenha intermitente) e controle (ordenha usual) provenientes de amostras coletadas na pré-secagem, secagem e três dias após o parto.

ECN – Estafilococos coagulase negativa; PI – Quartos mamários persistentemente infectados; IIM – Infecções intramamárias; Outras – Arcanobacterium pyogenes, Nocardia spp. e leveduras. FONTE: Adaptado de Newman et al. (2010).

Quartos infectados por agentes primários na secagem apresentaram 7,6 vezes mais chance de permanecerem infectados no pós-parto quando comparados com quartos não infectados. Quartos infectados com agentes secundários na secagem demonstraram 3,3 vezes mais chance de permanecerem infectados no parto que os quartos sadios.
Quartos não infectados de vacas com produção acima de 115 kg durante a última semana de lactação tiveram 7,1 vezes mais chance de estarem infectados no parto que quartos com produção inferior a 75 kg, no mesmo período. Vacas com produção por quarto entre 75 e 115 kg durante a última semana de lactação também demonstraram tendência a apresentarem IIM na ordenha pós-parto quando comparadas a vacas com produção inferior a 75 Kg. Em contrapartida, vacas ordenhadas intermitentemente antes da secagem foram 4,2 vezes mais predispostas a estarem infectadas no pós-parto que vacas do grupo controle.

Os resultados deste estudo sugerem que o efeito protetor desencadeado pela produção reduzida na secagem deixa de atuar em vacas que já estão infectadas. Volumes menores na secagem permitem a formação do tampão de queratina e acelera o fechamento do canal do teto, o que forma uma barreira contra agentes causadores da mastite.

Quartos não infectados que foram ordenhados intermitentemente antes da secagem tiveram maior tendência a estarem infectados no parto que os quartos sadios das vacas do grupo controle, quando se avaliou a produção de leite no final da lactação. A ordenha intermitente parece ter dois efeitos opostos: enquanto este método de secagem reduz a produção de leite e promove um efeito protetor, parece aumentar o risco de IIM no parto. Este estudo foi limitado a um único rebanho e estilo de manejo, entretanto, seus resultados confirmam a observação de outros estudos anteriores que relatam que alta produção de leite na secagem é um fator de risco para IIM no início da lactação seguinte.

Mesmo que as concentrações de lactoferrina na secagem foram superiores no grupo de ordenha intermitente que no grupo controle, este fator de defesa natural do leite não demonstrou relação com IIM na secagem e pareceu não ter efeito sobre a taxa de cura de infecções existentes ou desenvolvimento de novas infecções.

O status de infecção do quarto mamário na secagem foi um fator de risco significativo sobre a ocorrência de mastite após o parto. Isto é interessante, pois todos os quartos de todas as vacas incluídas neste estudo foram tratadas com antibiótico para vacas secas, e em geral, as taxas de cura foram relativamente altas (84-85%). Para maximizar o benefício da terapia de vaca seca e minimizar a frequência de tratamentos durante a lactação, que normalmente não são efetivos, é importante identificar cuidadosamente as vacas que têm alta probabilidade de cura. Sugere-se que vacas velhas, com alta CCS, histórico de mastite clínica e infecções crônicas por S. aureus sejam candidatas ao descarte. Além disso, a redução da produção de leite antes da secagem das vacas é uma prática que pode ser utilizada como uma estratégia de manejo para a redução de IIM no início da próxima lactação.

Fonte: Newman et al.; Journal of Dairy Research (2010) 77 :99–106.

*Tiago Tomazi é médico veterinário e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Produção Animal da FMVZ-USP (http://www2.fmvz.usp.br/nutricaoanimal/)


MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

TIAGO TOMAZI

Médico Veterinário e Doutor em Nutrição e Produção Animal
Pesquisador do Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP

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MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 26/06/2012

Prezado Alan, neste caso o estudo uso o mesmo tipo de medicamento para tratamento de vaca seca de todos os animais (cefapirina). A diferença entre os grupos avaliados foi grupo de ordenha intermitente e grupo controle (procedimento de ordenha de rotina).

Atenciosamente, Marcos Veiga
ALAN DANIEL RIGOTTI

SÃO CARLOS - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/06/2012

Ola Dr, esta maior incidencia dos microorganismos nao curados e porcentagem de cura de S Aureus nao estaria associada ao princípio ativo do medicamento Dry Cow utilizado?
LOIVE BERGONCI

SANTIAGO - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 14/05/2012

Muito bom seus artigos. Gostaria de recebe-los via e-mail. Grato
Loive
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 01/04/2012

Prezado Wallace,

Sim, minha opinião é de que a melhor maneira de reduzir a produção de leite antes da secagem de vacas com elevada produção (>20 kg/dia) seria cortar o concentrado das vacas, cerca de uma semana antes da data prevista de secagem. Isso reduzirá a produção e o risco de novas infecções durante a secagem.

Associado a este manejo, recomenda-se fazer o tratamento de vaca seca e observação das vacas após a secagem.

Atenciosamente, Marcos Veiga
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 01/04/2012

Prezada Daniela, quando é feito o uso de ordenhas intermitentes (deixar a vaca sem ordenhar por mais de um dia), ocorre acúmulo de leite no úbere e risco de novacs infecções. Esse risco é tanto maior, quanto maior for a produção de leite da vaca. Sendo assim, quando é feita a secagem abrupta, mesmo com acúmulo de leite no úbere, é feita a infusão de medicamento para tratamento de vaca seca, o que reduz o risco de novas infecções.

Atenciosamente, Marocs Veiga
WALLACE

BARRA DO PIRAÍ - RIO DE JANEIRO - PESQUISA/ENSINO

EM 01/04/2012

Wallace Carraro

Barra do Piraí - RJ.

Prof. podemos concluir que a melhor estratégia seria a redução da produção de leite diária através manejo alimentar, chegando a uma produção menor dia e ai realizar a secagem abrupta. Tudo isso acompanhado de um histórico do animal pois como relatado no trabalho animais com CCS alta, mastite clínica e infecções cronicas po S. aureus a probabilidade de sucesso seria pequena.
DANIELA NEIVA LIBOREIRO

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 09/03/2012

Prof. Marcos Veiga, de que forma a ordenha intermitente antes da secagem definitiva pode elevar o risco de IIM no pós- parto imediato?