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Mastite por coliformes

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 30/01/2004

8 MIN DE LEITURA

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Costuma-se denominar de coliformes causadores de mastite, algumas espécies de microrganismos Gram negativos como: E. coli, Enterobacter aerogenes, Klebsiella pneumoniae e Serratia sp. Estas espécies habitam naturalmente o solo e o trato gastrintestinal das vacas leiteiras e outros animais apresentando grande capacidade de multiplicação nestes locais. Além disso, a Klebsiella pode se multiplicar em camas orgânicas a base de serragem, o que aumenta os riscos de mastite causada por este agente. Geralmente as infecções intramamárias por coliformes são mais prevalentes em vacas com baixa CCS (menos de 150.000 células/mL) e sem outra infecção por outro microorganismo na glândula mamária. Este mesmo raciocínio pode ser usado para rebanho com baixa CCS e com baixa prevalência de infecções causadas por Gram positivos.

A infecção inicia-se, de forma geral, pela invasão da glândula mamária pelo canal do teto entre as ordenhas através do contato dos tetos com o ambiente, considerando-se assim que a transmissão não ocorre entre animais (a partir de um animal infectado para um animal sadio). Após a invasão da glândula mamária, os coliformes podem se multiplicar rapidamente ou permanecer em latência por alguns dias. Durante a multiplicação pode ocorrer a produção de endotoxinas, que podem ser liberadas e absorvidas pela corrente sanguínea. Nestes casos, a vaca afetada pode apresentar os seguintes sinais: febre, depressão do apetite, desidratação e perda de peso e intensa redução da produção de leite em questão de horas, o que caracteriza o quadro agudo.

As vacas mais susceptíveis à manifestação severa de mastite por coliformes são aquelas no início de lactação (menos de 60 dias), mais velhas e de maiores produções. Das infecções que ocorrem na lactação cerca de 50% se iniciam durante o período seco, podendo ocorrer a cura espontânea ou mais raramente permanecer latentes e apenas ocasionalmente desenvolver sinais clínicos.

Quando as condições climáticas e de conforto do ambiente são desfavoráveis (calor, chuva, acúmulo de lama, áreas com esterco ou barro) ocorre aumento do risco de novos casos, independentemente do estágio de lactação das vacas.

Prejuízos da mastite ambiental

Podem ocorrer desde prejuízos pequenos (pequena redução da produção de leite) até a morte do animal em casos de mastite ambiental, dependendo principalmente da rapidez com que o caso clínico é detectado e tratado. Cerca de 10% dos casos severos resultam em morte da vaca, mesmo com todo o suporte de tratamento. Na grande maioria, ocorre recuperação e retorno a produção de leite, enquanto que uma pequena parcela pode se tornar crônica, mas com sintomas menos severos.

Nos casos mais típicos e severos de mastite por coliformes, a vaca tem redução drástica do consumo de alimento, apresentando sinais de depressão e dificuldade de locomoção. No início da infecção ocorre intensa migração de leucócitos para a glândula mamária. A secreção láctea apresenta aspecto aquoso e os quartos ficam inchados, endurecidos ao toque e doloridos. A partir de então a vaca pode desenvolver intensa desidratação e alterações da temperatura corporal.

Antes do início do tratamento com antibiótico é recomendável a coleta de uma amostra de leite do quarto afetado para a identificação do microrganismo causador da infecção. Entretanto, para os casos de coliformes a cultura microbiológica do leite nem sempre isola o agente, uma vez que o número de microrganismos viáveis na amostra pode ser muito baixo, o que dificulta o seu isolamento. Sendo assim, o reconhecimento dos sinais clínicos e início imediato do tratamento são importantes para a rápida recuperação da vaca. Os casos mais severos de mastite por coliformes demandam tratamento e muitas vezes cuidados veterinários imediatos. Isto inclui o uso de antibióticos de amplo espectro, administração endovenosa de fluidos ou soluções hipersaturadas para reduzir a desidratação e uso de anti-inflamatórios. O objetivo do uso de antibióticos de amplo espectro é combater complicações secundárias, pois apresentam pouco resultado nos casos tóxicos. Adicionalmente recomenda-se a ordenha freqüente dos quartos buscando remover leucócitos, bactérias e toxinas da glândula mamária. A identificação do caso e o rápido início do tratamento da mastite por coliformes são os elementos críticos para o sucesso da terapia.

Os casos da mastite por coliformes podem ser controlados através de várias medidas de manejo. Recomenda-se a limpeza das ��reas que podem ser fontes potenciais de contaminação, em especial o local de parição (baia ou piquete) instalações de confinamento (cama) e demais áreas de permanência dos animais. As camas de sistemas de confinamento são áreas críticas e merecem especial atenção evitando-se o acúmulo de esterco, barro e lama, pela limpeza e reposição periódica do material. As camas de areia têm a vantagem de não favorecer a multiplicação de microrganismos como nas camas de origem orgânica. É importante que após a ordenha as vacas tenham acesso ao alimento fresco objetivando mantê-las de pé nas horas iniciais após o final da ordenha, evitando que a extremidade dos tetos entre em contato direto com o solo. Ainda como medida de manejo importante na prevenção de novos casos de mastite ambiental, a utilização da desinfecção dos tetos antes da ordenha (pré-dipping) reduz em até 50% os novos casos, além de ter efeito benéfico na qualidade microbiológica do leite.

Mesmo que a maioria das novas infecções por coliformes ocorra entre as ordenhas, existem medidas aplicadas durante a ordenha que podem reduzir a mastite clínica. Algumas situações que podem aumentar o risco de novos casos de mastite ambiental durante a ordenha são: úbere molhados ou uso excessivo de água antes da ordenha, tetos molhados, deslizamento e queda das teteiras e teteiras deformadas ou gastas. Deve-se destacar que pulsadores com funcionamento inadequado aumentam os riscos de lesões nos tetos e conseqüentemente aumentam a chance de entrada de microorganismos nos tetos. Nesses casos, um adequado manejo de ordenha (pré-dipping) e a checagem e manutenção periódica dos equipamentos reduzem os riscos de mastite por coliformes.

Como medida adicional de controle, pode-se relacionar o adequado fornecimento de minerais visando o aumento da capacidade imune da vaca (vitaminas A e E, cobre, selênio e zinco) e o uso de programas de vacinação. O uso da vacina J5, uma cepa selecionada com boa capacidade antigênica, tem mostrado ser eficaz na redução da severidade de sintomas clínicos da mastite por coliformes, sendo economicamente viável quando a incidência destes casos de mastite é superior a 1%. Contudo, a vacina não previne casos de mastite e nem substitui as medidas de controle apontadas.

Alteração do perfil de agentes causadores de mastite

Em termos mundiais tem se observado mudanças no padrão de agentes causadores de mastite ao longo das últimas décadas. Para exemplificar esta situação, em alguns países desenvolvidos os microrganismos causadores mais importantes atualmente são E. coli e S. uberis, os quais apresentavam reduzida prevalência anteriormente. Estas mudanças têm relação direta com as modernas estratégias de controle, os quais priorizaram o controle dos agentes infecciosos (S. aureus, e S. agalactiae) e também por possíveis adaptações e mudanças nos agentes envolvidos.

No Brasil, em função da diversidade de sistemas de produção e da existência de enormes contrastes entre os rebanhos, pode-se estimar que estas alterações nos perfis de agentes causadores são importantes para rebanhos com controle de mastite mais eficaz e menos relevantes para a grande maioria dos rebanhos. Pode-se esperar, contudo, que com base na experiência internacional que à medida que houver redução de contagem de células somáticas (CCS) dos rebanhos leiteiros pode ocorrer concomitante aumento da importância dos coliformes como causadores de mastite, em especial da mastite clínica.

Tradicionalmente, considera-se que a mastite ambiental é causada por microrganismos que vivem no ambiente ou nos tetos e que para a ocorrência da doença é necessário que o agente penetre através do canal do teto no período entre ordenhas. Segue-se, após a invasão bacteriana a resposta inflamatória da vaca, a qual está diretamente relacionada com a severidade do caso. As estratégias de controle são baseadas na redução da exposição da vaca aos agentes e pela melhoria das condições higiênicas, além do aumento da capacidade imune da vaca.

No entanto, mesmo sob boas condições de manejo e higiene, rebanhos com bom controle de mastite contagiosa podem apresentar problemas de mastite ambiental. Vacas com alta CCS são geralmente afetadas por agentes contagiosos e têm grande risco de mastite clínica ocasionalmente. Por outro lado, em rebanhos com baixa medida de CCS, a maioria dos casos de mastite é de origem de agentes ambientais. Sendo assim, pode-se considerar que rebanhos com baixa média de CCS no tanque (menos de 150.000 células/mL) apresentam maior risco de mastite ambiental, com destaque particular para os casos de mastite aguda tóxica. Em resumo, tanto vacas com elevada CCS ou CCS muito reduzida podem ter risco de casos clínicos de mastite causada por agentes contagiosos e ambientais, respectivamente.

Recentemente uma importante descoberta para o entendimento da patogênese da mastite ambiental foi a da capacidade de persistência de alguns agentes na glândula mamária durante o período seco. Estudos demonstram que estas infecções podem permanecer latentes durante o período seco e somente apresentarem sintomas clínicos após o parto. Estima-se que até 50% de todos os casos clínicos de mastite ambiental ocorrido nos 100 primeiros dias de lactação pode ser originário de infecções que se iniciaram no período seco. A persistência pôde ser confirmada, pois quando se usa um tratamento de vaca seca eficaz contra microrganismos Gram negativo ocorre redução de até 50% da incidência de mastite ambiental no período pós-parto. Através do estudo de DNA de cepas causadoras de mastite ambiental persistente na lactação verificou-se que as diversas similaridades entre estas cepas podem indicar um mecanismo de adaptação da glândula mamária para maior capacidade de sobrevivência e invasão por parte de microorganismos.

Para persistir na glândula mamária o microorganismo causador deve ter mecanismos que evitem a sua retirada pela ordenha e para suportar a ação do sistema imune da vaca. Por exemplo, o S. uberis apresenta capacidade de resistir a fagocitose e morte intracelular nos leucócitos e algumas cepas apresentam capacidade de aderência ao epitélio da glândula mamária. A capacidade de aderência de algumas cepas de E. coli também foi demonstrada recentemente, o que comprova a alta capacidade adaptativa deste microrganismo, que pode existir tanto na forma de um microorganismo oportunista (não patogênico) como altamente patogênico.

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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