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Mastite clínica por Streptococcus uberis: Falhas no tratamento ou nova infecção?

POR MARCOS VEIGA SANTOS

E RENATA DE FREITAS LEITE

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 24/04/2014

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Renata de Freitas Leite* e Marcos Veiga dos Santos

A mastite é uma das doenças infecciosas mais frequentes nos rebanhos leiteiros e, em aproximadamente 90% dos casos, é causada por bactérias. De acordo com a bactéria causadora, a mastite pode ser classificada como contagiosa ou ambiental. Na mastite contagiosa, o agente causador é encontrado no úbere e transmitido entre as vacas durante a ordenha. Já na mastite ambiental, as vacas se infectam por microrganismos encontrados no ambiente. Dentre as principais bactérias ambientais causadoras de mastite bovina, Streptococcus uberis está associado principalmente aos quadros clínicos da doença e pode ser encontrado no solo, na cama e também na pele e no úbere das próprias vacas.

Nos casos de mastite causada por Streptococcus uberis nem sempre os resultados obtidos pela antibioticoterapia, principal ferramenta para o controle da mastite, são satisfatórios. Além disso, os estudos sobre vacinação para controle desta bactéria também têm apresentado dificuldades, o que ressalta a necessidade de um programa de controle baseado nos padrões de transmissão. Assim, com base neste cenário, recidivas da doença em uma vaca pela mesma bactéria ou por uma nova cepa de Streptococcus uberis são comuns.

Técnicas específicas, como a eletroforese em gel de campo pulsado (pulsed-field gel electrophoresis - PFGE) são capazes de detectar alterações genômicas em rápida evolução, sendo utilizadas para avaliação epidemiológica de patógenos, em especial no curto prazo. Estudos realizados em diversos rebanhos leiteiros no mundo e que utilizaram esta técnica encontraram uma ampla variedade de cepas de Streptococcus uberis em um mesmo rebanho. Além disso, também foram observados casos de uma mesma cepa isolada de diferentes vacas e recidivas de mastite pela mesma cepa.
Devido ao considerável número de recidivas de mastite clínica causada por Streptococcus uberis, pesquisadores australianos realizaram um estudo com a finalidade de determinar se estas recorrências estavam relacionadas a uma mesma cepa da bactéria (por possível falha no tratamento, persistência da cepa ou ainda por outra via de transmissão) ou por diferentes cepas (indicativo de uma nova infecção, possivelmente relacionada a susceptibilidade imunológica das vacas).

Este estudo utilizou isolados de Streptococcus uberis de vacas com mastite clínica, no início da lactação, de sete rebanhos leiteiros localizados na Austrália. Tais isolados foram obtidos de amostras de leite, coletadas assepticamente pelos produtores para cultura microbiológica. Um subconjunto de 60 Streptococcus uberis provenientes de 27 vacas, de seis dos sete rebanhos, incluindo isolados de casos de recidiva, foi escolhido por apresentarem crescimento moderado ou intenso. Os isolados foram submetidos à eletroforese em gel de campo pulsado (PFGE) para análise do material genético e as cepas, ou tipos PFGE, foram estabelecidas conforme as semelhanças dos fragmentos genéticos. De 60 isolados, foram identificados 47 tipos PFGE.

Assim, as recidivas que ocorreram devido a mesma cepa presente em casos anteriores foram definidas como infecções persistentes, já as infecções recorrentes por cepas diferentes foram definidas como novas infecções. Quanto à frequência de episódios de mastite clínica causada por Streptococcus uberis, das 27 vacas, 22 apresentaram 2 episódios, 4 tiveram 3 episódios e uma vaca apresentou 4 episódios durante o período de estudo. Já os intervalos entre os episódios variavam de 10 dias a 1 ano (em um novo período de lactação).

De acordo com os dados obtidos pela PFGE, a maioria dos casos recorrentes de mastite clínica eram reinfecções, enquanto que poucos ocorriam devido a persistência da cepa original, conforme descrito na Tabela 1. Casos clínicos de reinfecções foram observados em 20 vacas (em 14 delas em quarto mamário diferente e em 6 delas no mesmo quarto), enquanto que infecções persistentes ocorreram em 5 vacas. Em duas vacas, o segundo episódio ocorreu em quarto diferente após 10 dias e 5 semanas, respectivamente, mas com o mesmo tipo PFGE do episódio inicial. Os terceiros episódios de mastite foram todos reinfecções e, no único caso de quatro episódios, o segundo e o terceiro eram reinfecções, enquanto que o quarto foi persistência, possivelmente associada a falha no tratamento, uma vez que ocorreu no mesmo quarto, com intervalo de apenas duas semanas do terceiro episódio.



Assim, foi observado que episódios secundários ou subsequentes de mastite clínica causada por Streptococcus uberis são normalmente relacionados a uma outra cepa desta bactéria adquirida do ambiente onde o animal vive. Entretanto um pequeno, porém considerável, número de casos recorrentes, o mesmo tipo PFGE ou muito semelhante foram isolados do mesmo úbere ou quarto mamário oito semanas após a primeira infecção. Nesses casos, pode ter ocorrido cura clínica após o tratamento, mas não cura microbiológica o que resultou em recidiva.

Foi também verificada transmissão direta entre as vacas ou infecção ambiental, ressaltando assim que a ocorrência de mastite está relacionada a práticas de manejo, fatores ambientais e da patogenicidade das cepas presentes no ambiente das vacas. Portanto, é necessário atenção para os possíveis focos ambientais da infecção, boas práticas de higiene durante a ordenha e o uso de um protocolo de tratamento específico para Streptococcus uberis, uma vez identificado como agente causador dos quadros clínicos.

Fonte: Abureema, et al. (2014). Journal of Dairy Science. 97:285-290, 2014.

* Mestranda do Programa de Pós-graduação em Nutrição e Produção Animal, FMVZ-USP.
 

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

RENATA DE FREITAS LEITE

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SILVIO QUINTÃO BRAGA-EDUCAMPO

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 25/07/2018

Marcos, gostaria de saber se em casos subclínicos existe eficiência no tratamento de vaca seca.
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 08/12/2016

Prezado Gustavo, não temos nenhum protocolo específico para tratamento de Strep. uberis.
De forma geral, não recomendaria o tratamento de Strep. uberis quando a mastite for subclínica. Se o problema for de mastite clínica, a recomendação é um protocolo de 3-4 dias de antibiótico intramamário de amplo espectro, mas não existe um antibiótico específco para recomendação.

atenciosamente, Marcos Veiga
GUSTAVO PÁDUA LOPES

ORIZONA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/12/2016

Marcos gostaria de saber como seriam as opções para tratamento especifico para S.uberis. Sou produtor e nas culturas que fiz deu essa bactéria. Muito obrigado pela oportunidade
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 09/03/2015

Prezada Julia, no nosso laboratório realizamos a identificação de Strep. uberis a partir de leite de vacas com mastite, mas não trabalhamos com o isolamento de Strep. parauberis.

Atenciosamente, Marcos Veiga
JULIA PIRES ESPÍNDOLA

ESTUDANTE

EM 09/03/2015

Olá, tudo bom?
Gostei muito do artigo.
Estávamos tentando trabalhar no laboratório com Streptococcus uberis, procurando o parauberis, mas não encontramos por enquanto, em mais ou menos umas 50 amostras, já que acompanhamos o aumento dos casos na nossa região (central do RS). Mas agora vejo que ja está bem mais evoluído. Gostaria de saber se tem alguma ideia.. ou se vocês trabalham com o S. uberis por aí.
Até mais