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Duração do período seco e saúde da glândula mamária

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 14/01/2004

5 MIN DE LEITURA

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É inegável a grande evolução em termos de produção leiteira/vaca que ocorreu nas últimas décadas, visto que atualmente existem disponíveis tecnologia e conhecimentos suficientes para elevadas produtividades por animal ou por área. Neste sentido, pode-se dizer que o tipo de sistema a ser utilizado para produção leiteira depende, portanto, de uma decisão econômica. No entanto, em termos de manejo e a despeito de toda esta evolução ocorrida, a duração do período seco de vacas leiteiras praticamente não sofreu alteração ao longo do tempo, sendo recomendado de forma geral um período seco entre 51 a 60 dias como duração ótima.

Em termos de manejo, o encurtamento do período seco traria potenciais vantagens quanto a maior produção de leite por lactação, devendo-se, entretanto levar em consideração os possíveis efeitos negativos sobre a lactação seguinte e a saúde da glândula mamária. Portanto, pode-se questionar se o embasamento científico e de manejo para as atuais recomendações de duração do período seco são válidas para os modernos sistemas de produção leiteira e se existe oportunidades de ganho neste sentido. A título de ilustração, alguns livros sobre produção de leite da década de 30-40 já recomendavam que a vaca leiteira durante o seu ciclo produtivo deveria ter um período seco entre 4 a 10 semanas, e a maioria recomendava este período entre 6 e 8 semanas, coincidentemente as mesmas recomendações atuais.

Os estudos científicos que embasaram as recomendações sobre a duração do período seco podem ser desenvolvidos por meio de estudos retrospectivos de dados de rebanhos comerciais ou através de experimentos planejados com este objetivo. Inicialmente é necessário destacar que os estudos retrospectivos baseados em observações de rebanhos comerciais apresentam limitações e podem levar a erros de interpretação, pois em termos gerais, os animais que apresentam períodos secos mais curtos (< 30 dias) ou mais longos (> 70 dias) são aqueles que apresentam problemas de manejo durante a lactação e conseqüentemente sofrerão efeitos negativos destes erros de manejo na lactação seguinte, o que dificulta a sua comparação com animais normais. Por exemplo, vacas leiteiras com períodos secos longos (> 70 dias) normalmente são animais de baixa produção leiteira e/ou baixa persistência de lactação e que devido a esta característica própria apresentarão menor produção na lactação seguinte. Esta menor produção não pode, no entanto, ser atribuída diretamente ao período seco, mas sim a uma característica genética do animal, a qual está confundida com a duração do período seco, o que prejudica em muito o uso destes dados de forma correta. Deve-se destacar ainda que a produção leiteira durante a lactação é dependente de inúmeros fatores e não apenas da duração do período seco. Logo, nos estudos retrospectivos podemos esperar muitas dificuldades de controle de todos estes fatores para que possamos ter conclusões corretas.

Antes de considerar qual a duração ótima do período seco é importante ressaltar a sua fundamental importância em termos fisiológicos para o ciclo produtivo da vaca leiteira, já que se trata de um período de transição entre duas lactações. Neste período ocorrem grandes alterações no tecido mamário buscando suportar a lactação após o parto. Resultados de experimentos que avaliaram a ausência total de período seco apontam para reduções de 25 a 38% da produção leiteira nas lactações seguintes, ilustrando assim a necessidade de um período seco mínimo.

Desta forma, considerando que toda vaca leiteira deve ter um período seco, a próxima questão é qual a sua duração mínima que não traga efeitos negativos no tocante a saúde da glândula mamária e da produção futura. A maioria dos estudos realizada é baseada em dados retrospectivos, os quais têm sérias limitações, conforme já discutido anteriormente.

Paralelamente, existem estudos especialmente desenvolvidos com grupos de animais submetidos a diferentes durações de períodos secos, sendo avaliada a produção futura de leite nas lactações seguintes. Conforme já apontado, as recomendações atuais de duração do período seco são de 50 a 60 dias, justificando-se assim que o leite que deixaria de ser produzido no período seco seria recuperado na lactação seguinte.

Na maioria das fazendas leiteiras, a duração do período seco é uma decisão de manejo que é influenciada por uma série de fatores como: produtividade da vaca, status reprodutivo e sanitário, disponibilidade de alimentos, instalações e de animais para reposição, assim como situações não controláveis como antecipação do parto, aborto no final da gestação e erros de anotação de dados da concepção. Por exemplo, vários rebanhos usam como critério para secagem uma produção mínima, o que normalmente resulta em maiores períodos secos para os animais geneticamente menos selecionados para produção leiteira. Desta forma, cria-se um ciclo no qual as vacas com menores produções tendem a serem secadas mais cedo, apresentando período secos maiores, o que pode sua vez pode resultar em maior condição corporal ao parto e maiores dificuldades de desenvolver uma boa lactação seguinte.

As estimativas dos experimentos mais antigos apontavam que comparando-se vacas com períodos secos entre 50-57 dias e 30-24 dias, ocorria uma redução entre 1-10% na produção subseqüente de leite das vacas com períodos secos mais curtos. Mais recentemente, outros resultados apontam para uma pequena ou nenhuma perda para vacas com períodos secos próximos a 40 dias. Desta forma, a duração ótima do período seco em termos de produção leiteira subseqüente a secagem deve ser considerada como a duração mínima necessária para o desenvolvimento e diferenciação celular na glândula mamária entre duas lactações.

Mais recentemente, um experimento americano, utilizando 82 vacas Holandesas testou o efeito da duração do período seco curto (30 dias) e longo (60 dias) sobre a produção leiteira. Os resultados mostraram que não houve diferença em produção leiteira entre o período seco curto e longo e que esta duração já é suficiente para a maximização da capacidade secretora das células mamárias. Concluiu-se que o período seco curto poderia ser utilizado como uma ferramenta de manejo sem perdas de produção na lactação subseqüente. Deve-se considerar ainda que uma pequena margem de redução de produção leiteira na lactação seguinte após um período seco mais curto pode ser totalmente compensada por 3-4 semanas a mais de produção na lactação anterior. São necessários mais estudos de forma a avaliar se a redução do período seco pode ser empregada sem efeitos negativos sobre a lactação e a saúde da glândula mamária, uma vez que a maioria dos produtos para tratamento de vaca seca foi desenvolvida para períodos secos com duração média de 60 dias.

Fonte: J. Dairy Science 86: 3027-3037, 2003.

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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RONALDO MENDONÇA DOS SANTOS

UBERABA - MINAS GERAIS

EM 28/04/2009

Muito bom o artigo, parabéns pela dedicação!

Att,
Ronaldo M. dops Santos
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