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Como o estresse da vaca leiteira afeta o manejo de ordenha

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 19/04/2005

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Situações de estresse são comuns em vacas leiteiras e têm sérios efeitos negativos sobra a sua saúde, produtividade e conforto. O impacto do estresse nos animais de produção pode ser entendido considerando-se três diferentes componentes: a percepção do animal quanto a origem do estresse, a sua resposta fisiológica e as conseqüências de longo prazo da resposta do animal. Com relação à origem do estresse deve-se lembrar que o mais importante é a percepção do animal e não necessariamente a natureza da causa do estresse. Um exemplo disto é a simples mudança de uma vaca para um local estranho pode ser suficiente para desencadear reações no animal.

De uma maneira simplificada, os dois principais sistemas fisiológicos que respondem ao estresse são: o sistema nervoso simpático e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Além disso, as vacas respondem ao estresse agudo por meio de mudanças no comportamento, como vocalizar (berrar), defecar e urinar. Quando as vacas são submetidas a uma situação de estresse prolongado (crônico), a resposta desencadeada causa gasto de energia e limita as demais funções fisiológicas como o crescimento, a reprodução e a resposta imune. Em termos práticos, significa que nas situações de estresse a resposta imune não é adequada e, portanto a susceptibilidade a ocorrência de doenças é maior.

Um exemplo bastante comum do efeito deletério do estresse em vacas leiteiras ocorre durante a ordenha. A inibição da secreção da ocitocina em resposta ao estresse e a conseqüente ocorrência de leite residual após a ordenha pode ser uma forma simples de avaliar a intensidade do estresse a que as vacas estão submetidas. A resposta da inibição da secreção de ocitocina pode ocorrer de duas formas: pela inibição da secreção em nível central (sistema nervoso central) ou pela inibição periférica da ejeção do leite (mesmo com níveis adequados de ocitocina).

A primeira situação (inibição central) pode ser detectada pela ausência do pico de ocitocina na corrente sanguínea ou pelo aumento do volume de leite residual após a ordenha, tal como acontece quando uma vaca é ordenha em um ambiente não familiar. Este leite residual pode ser medido pela injeção de ocitocina exógena que resulta na expulsão completa do leite, demonstrando a deficiência da ocitocina de origem endógena.

Por outro lado, a inibição periférica ocorre pela atividade do sistema nervoso simpático (liberação de adrenalina), que reduz a irrigação sanguínea para a glândula mamária pela vasoconstrição local.

O efeito da mudança do local de ordenha para um local não familiar pode ser observado nas figuras abaixo (Figura 1 e 2). Pode-se perceber que as vacas ordenhadas em condições normais (controle) apresentam um pico de ocitocina logo após o início da ordenha (estimulação dos tetos), o que se traduz em maior volume de leite ordenhado e menor quantidade de leite residual. No entanto, quando estas vacas são ordenhadas isoladas em local estranho, verifica-se uma menor liberação de ocitocina o que reduz a quantidade de leite ordenha e aumenta o leite residual.


Figura 1 - Efeito do local de ordenha sobre as concentrações de ocitocina no sangue (Fonte: adaptado de Rushen e Passillé, 2005)


Figura 1 - Efeito do local de ordenha sobre a produção e o leite residual (Fonte: adaptado de Rushen e Passillé, 2005)

O manejo das vacas, em particular a forma como elas são conduzidas ("tocadas") durante todas as etapas da produção leiteira é uma das principais origens de situações de estresse. Isto pode ser verificado comparando-se as diferenças no tratamento das vacas nos diferentes rebanhos, o que em muitos casos pode explicar os níveis de produção. Um estudo da Austrália que comparou o tratamento oferecido aos animais durante a ordenha em 31 diferentes rebanhos estabeleceu que a produção leiteira está negativamente associada com manuseio agressivo durante a ordenha (bater, torcer o rabo, gritar, etc). Em outras palavras, vacas submetidas a maus tratos e agressões têm medo das pessoas que as manejam e desenvolvem reações de estresse. Segundo os autores, os efeitos da forma de manejar os animais durante a ordenha poderiam ser responsáveis por até 30% das diferenças entre produção de leite dos rebanhos analisados, o que significa uma parcela considerável.

Os resultados de pesquisa comprovam o que na prática muitos técnicos e produtores já sabem: o modo de tratamento das vacas durante o manejo de ordenha tem um impacto enorme na eficiência de ordenha e na produção de leite. Considerando este fato como de grande relevância - principalmente para rebanhos que empregam mão-de-obra de fora da fazenda - é fundamental que os responsáveis pelo rebanho desenvolvam e estimulem práticas de bons tratos aos animais e que proporcionem o seu bem-estar. É recomendável que cada funcionário seja treinado para manusear de forma calma e sem agressão os animais desde a fase de criação das bezerras até as vacas em lactação.

Fonte: Anais do Encontro Anual do National Mastitis Council, p. 149-159, 2005,adaptado de Rushen e Passillé, 2005.



MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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RAFAELA FERREIRA FRANCO

NAZARENO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/03/2017

No caso de vacas que participam de torneios leiteiros, exposições agropecuárias, que ficam durante dias em ambiente com muito barulho, de pessoas e som até a madrugada, qual o grau de estresse pode causar e qual % de queda pode haver na produção de leite? E ainda pode causar mais danos na vida produtiva e reprodutiva do animal?