De uma maneira simplificada, os dois principais sistemas fisiológicos que respondem ao estresse são: o sistema nervoso simpático e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Além disso, as vacas respondem ao estresse agudo por meio de mudanças no comportamento, como vocalizar (berrar), defecar e urinar. Quando as vacas são submetidas a uma situação de estresse prolongado (crônico), a resposta desencadeada causa gasto de energia e limita as demais funções fisiológicas como o crescimento, a reprodução e a resposta imune. Em termos práticos, significa que nas situações de estresse a resposta imune não é adequada e, portanto a susceptibilidade a ocorrência de doenças é maior.
Um exemplo bastante comum do efeito deletério do estresse em vacas leiteiras ocorre durante a ordenha. A inibição da secreção da ocitocina em resposta ao estresse e a conseqüente ocorrência de leite residual após a ordenha pode ser uma forma simples de avaliar a intensidade do estresse a que as vacas estão submetidas. A resposta da inibição da secreção de ocitocina pode ocorrer de duas formas: pela inibição da secreção em nível central (sistema nervoso central) ou pela inibição periférica da ejeção do leite (mesmo com níveis adequados de ocitocina).
A primeira situação (inibição central) pode ser detectada pela ausência do pico de ocitocina na corrente sanguínea ou pelo aumento do volume de leite residual após a ordenha, tal como acontece quando uma vaca é ordenha em um ambiente não familiar. Este leite residual pode ser medido pela injeção de ocitocina exógena que resulta na expulsão completa do leite, demonstrando a deficiência da ocitocina de origem endógena.
Por outro lado, a inibição periférica ocorre pela atividade do sistema nervoso simpático (liberação de adrenalina), que reduz a irrigação sanguínea para a glândula mamária pela vasoconstrição local.
O efeito da mudança do local de ordenha para um local não familiar pode ser observado nas figuras abaixo (Figura 1 e 2). Pode-se perceber que as vacas ordenhadas em condições normais (controle) apresentam um pico de ocitocina logo após o início da ordenha (estimulação dos tetos), o que se traduz em maior volume de leite ordenhado e menor quantidade de leite residual. No entanto, quando estas vacas são ordenhadas isoladas em local estranho, verifica-se uma menor liberação de ocitocina o que reduz a quantidade de leite ordenha e aumenta o leite residual.

Figura 1 - Efeito do local de ordenha sobre as concentrações de ocitocina no sangue (Fonte: adaptado de Rushen e Passillé, 2005)

Figura 1 - Efeito do local de ordenha sobre a produção e o leite residual (Fonte: adaptado de Rushen e Passillé, 2005)
O manejo das vacas, em particular a forma como elas são conduzidas ("tocadas") durante todas as etapas da produção leiteira é uma das principais origens de situações de estresse. Isto pode ser verificado comparando-se as diferenças no tratamento das vacas nos diferentes rebanhos, o que em muitos casos pode explicar os níveis de produção. Um estudo da Austrália que comparou o tratamento oferecido aos animais durante a ordenha em 31 diferentes rebanhos estabeleceu que a produção leiteira está negativamente associada com manuseio agressivo durante a ordenha (bater, torcer o rabo, gritar, etc). Em outras palavras, vacas submetidas a maus tratos e agressões têm medo das pessoas que as manejam e desenvolvem reações de estresse. Segundo os autores, os efeitos da forma de manejar os animais durante a ordenha poderiam ser responsáveis por até 30% das diferenças entre produção de leite dos rebanhos analisados, o que significa uma parcela considerável.
Os resultados de pesquisa comprovam o que na prática muitos técnicos e produtores já sabem: o modo de tratamento das vacas durante o manejo de ordenha tem um impacto enorme na eficiência de ordenha e na produção de leite. Considerando este fato como de grande relevância - principalmente para rebanhos que empregam mão-de-obra de fora da fazenda - é fundamental que os responsáveis pelo rebanho desenvolvam e estimulem práticas de bons tratos aos animais e que proporcionem o seu bem-estar. É recomendável que cada funcionário seja treinado para manusear de forma calma e sem agressão os animais desde a fase de criação das bezerras até as vacas em lactação.
Fonte: Anais do Encontro Anual do National Mastitis Council, p. 149-159, 2005,adaptado de Rushen e Passillé, 2005.