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Como as influências sociais interferem nos tratamentos de mastite clínica?

POR MARCOS VEIGA SANTOS

E RENATA DE FREITAS LEITE

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 02/06/2015

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 Por Renata de Freitas Leite* e Marcos Veiga dos Santos

A influência social é entendida como o ato de levar alguém ou um grupo de pessoas a pensar, sentir ou fazer algo, em princípio, desconhecido. As pessoas são constantemente influenciadas umas pelas outras, pelas suas atitudes e seus pensamentos. As normas e uniformidades sociais de um grupo surgem do relacionamento e da interação entre seus membros. Assim, se um grupo de pessoas acredita e concorda com uma determinada atitude, esta possui confiabilidade.

A mastite bovina na grande maioria dos casos está associada a um agente bacteriano. Portanto, o tratamento deve ser efetuado com o uso de antimicrobianos. As bulas dos medicamentos trazem recomendações gerais sobre como aplicar o medicamento, a dosagem e a duração. Entretanto, muitas vezes, os produtores ou veterinários prolongam os tratamentos, ou seja, aumentam o período de aplicação recomendado pelo fabricante por acreditarem na maior eficácia da terapia estendida.

Ao relacionar as interações sociais à produção leiteira, em especial à mastite bovina, pesquisadores da Holanda e da Alemanha estudaram como os produtores de leite são influenciados (por outros produtores, veterinários, vendedores, governos e a sociedade) na decisão quanto ao período de tratamento da mastite bovina. Para isso, 17 rebanhos holandeses (com média de 89 vacas) e 21 rebanhos alemães (com média de 88 vacas) foram avaliados por meio de questionários com perguntas abertas, para melhor se expressarem, relacionadas à mastite bovina, ao tratamento ministrado e grupos sociais (referências positivas e negativas).

Nos dois países onde o estudo foi realizado, a duração do tratamento indicada nos rótulos da maioria dos medicamentos mais vendidos era de 1,5 a 2 dias. Assim, os produtores responderam sobre a média dos dias de tratamento utilizada por eles e também se a terapia estendida era utilizada rotineiramente (protocolo padrão) ou ocasionalmente (em algumas exceções).
Quanto ao uso da terapia estendida, 37 fazendas confirmaram praticá-la, sendo que em 30 destas a prática era rotineira e, em 7 fazendas, apenas utilizada em casos clínicos mais graves. Apenas uma fazenda negou o uso deste tipo de terapia. O fato de ser bastante utilizada sugere que a terapia estendida é uma prática socialmente aceita e independente de outras variáveis e as principais razões para seu uso são relacionadas à continuidade dos sinais clínicos após o término do tratamento, receio de recorrências, uso por outros produtores e recomendações feitas por veterinários.

Diversos estudos tem mostrado que os produtores têm insegurança em relação ao tratamento da mastite. Para muitos deles, a cura da mastite ocorre quando há desaparecimento da sintomatologia inflamatória e quando não há recorrência dos casos clínicos. Entretanto, alguns estudos apontam que a cura bacteriológica é o critério de referência para detectar se o caso foi realmente resolvido. Mas, mesmo cientificamente, o melhor critério para avaliar a necessidade de terapia estendida ainda não está definido.
Muitos produtores utilizam e julgam a sua experiência como base na tomada de decisão do tratamento a ser empregado. Foi notado que oferecer o melhor tratamento possível às vacas fazia os produtores mais seguros e com a sensação de serem bons produtores, tanto que não foram constatadas preocupações com os custos de medicamentos mais elevados da terapia estendida e nem os custos com o leite descartado pelo uso de antibióticos.

Uma divergência de opiniões foi verificada quanto à longevidade das vacas. Para um grupo, os produtores com vacas de maior longevidade são mais cuidadosos, já para o outro, para trabalhar de modo econômico, o descarte e o abate de animais com muitas recorrências é a melhor opção, pois assim são selecionados animais que não sofrem de mastite. Portanto, os proprietários que são mais preocupados com a longevidade dos animais, provavelmente utilizam mais antibióticos que os demais.
Quanto aos grupos de referências sociais, estes são heterogêneos e divididos em duas categorias. A referência social positiva é aquela que um determinado grupo aceita, tem afinidade. Como referências positivas foram apontadas, neste estudo, os produtores de gado de corte (os quais, na percepção da sociedade, utilizam muitos antibióticos), produtores de leite que afirmam ter problemas com a mastite, veterinários e outros assessores. Quanto às referências negativas, ou seja, aquelas que são rejeitadas foram citados os produtores de gado de corte (em relação à quantidade de antibiótico utilizada e do uso preventivo versus curativo), produtores de leite que negam problemas com mastite e a sociedade, os quais rejeitam o uso intensivo de antibióticos.
Para os produtores entrevistados, a terapia estendida é um instrumento para ausência de culpa, caso a mastite recorra. Eles afirmaram que esta terapia demonstra cuidados e é um sinal de preocupação com o bem estar dos animais. Eles ainda revelaram que admitir os problemas enfrentados com a mastite pode levar os outros a pensarem que são “maus produtores”, portanto preferem não discutir este problema com outros produtores.

Veterinários foram considerados fontes confiáveis e verídicas de informações técnicas que reforçam o uso de terapia estendida, o que pode caracterizá-los como uma influência social normativa. Nesses dois países, no entanto, os veterinários ganham pelo que vendem dos medicamentos aos produtores, mas estes, em nenhum momento da entrevista, mencionaram o interesse financeiro dos veterinários na recomendação da terapia estendida.
Tanto na Holanda quanto na Alemanha, o uso preventivo de antibióticos já é proibido, mas pretende-se reduzir drasticamente a utilização de antibióticos nos dois países devido a segurança da saúde pública e à resistência bacteriana. Todos os entrevistados demonstraram contrariedade quanto a esta possibilidade. Assim, tanto a sociedade quanto os governos são vistos pelos produtores como referências negativas, uma vez que, para eles, a argumentação utilizada é incoerente, já que sustentabilidade e longevidade das vacas sem tratamento com antibióticos é inviável, pois os antibióticos ainda são a melhor ferramenta para cura de determinados casos. Portanto, neste cenário, é necessária uma conversa entre os dois lados, na qual haja compreensão e respeito mútuos para uma decisão.

O estudo concluiu que os entrevistados se esforçam para serem reconhecidos como bons produtores e que se preocupam com as normas sociais dos outros produtores (referências positivas). Por apresentarem insegurança quanto ao tratamento ideal para a mastite, preferem realizar a terapia estendida, a qual se tornou uma norma social, mesmo com os altos custos com o descarte do leite e a maior quantidade de antibióticos. Para que o pensamento sobre os tratamentos seja modificado, grupos positivos de referência precisam mostrar novas evidências. Portanto, estudos relacionados ao uso de antibióticos, a cura e a recorrência da mastite ainda são necessários.

Fonte: SWINKELS, J.M. et al., 2015. Journal of Dairy Science, 98:2369-2380, 2015.
*Médica Veterinária e Mestranda do Departamento de Nutrição e Produção Animal (VNP) – FMVZ/USP

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

RENATA DE FREITAS LEITE

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ELIAS LUIZ DE PAULA

CARATINGA - MINAS GERAIS

EM 26/01/2016

OK MUITO OBRIGADO, QUALQUER INFORMAÇÃO ENTRAREMOS EM CONTATO.
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 21/01/2016

Prezado Elias, este assunto já foi bastante discutido em postagens anteriores. Sugiro que faça uma busca, mas no momento não temos estudos que suportem o uso de produtos homeopáticos para mastite, atenciosamente, Marcos Veiga
ELIAS LUIZ DE PAULA

CARATINGA - MINAS GERAIS

EM 21/01/2016

Tudo bem,gostaria de saber se o uso do tratamento homeopatico tem sido bom em vossa regiâo e se posso indicar em minha regiâo.grato
LORAINE GOMES RODRIGUES

SÃO MIGUEL DO OESTE - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 30/06/2015

Muito interessante o estudo. Da parte do produtor, o sentimento de alívio para o possível sentimento de culpa e necessidade de ser bem visto, e da parte do veterinário, o possível ganho com venda de produtos, são fatores de natureza cultural. Trata-se de forte manifestação do empírico frente ao científico ... há que se encontrar comprovação suficiente sobre o melhor critério para avaliar a necessidade de terapia estendida e, se e quando encontrado - o critério - promover a mudança cultural necessária, o que, com certeza, não se dará de um dia para o outro.
SERGIO CHAVEZ

INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 15/06/2015

Cada productor debe tener un protocolo de trabajo, para los casos particulares, como por ejemplo la mastitis. Y ne debe cometerse el error en el uso de antibióticos como preventivo, si queremos usar un preventivo debemos buscar uno que refuerce el sistema inmunologico de la vaca, como el caso de la incorporación de levaduras en la alimentación, o la incorporacion de algun refuerzo inmunologico (inyectable) como cultivo de celulas atenuadas. Otro paso del protocolo de trabajo, es el funcionamiento de la maquina de ordeño (pezones, vacio, etc), que son las que causan las lesiones iniciales, por donde comienza la mastitis. Los tratamientos no son preventivos, y tienen que tener una base cierta como un antibiograma, para saber que bacteria infecta los pezones y aplicarle el antibiotico adecuado. Este tratamiento debe ser vigilado con sistemas como el CMT o el RCS, porque una vaca que repite a los 28 dias un RCS alto (+ de 400.000), es repetitiva, puede tener una mastitis cronica, y sera necesaria descartarlo. Hay que tener en cuenta que la aplicacion de antibiotivos, sin un antibiograma previo, en el futuro tendremos bacterias causante de mastitis resistentes a los mismos y los tratamientos no daran resultado.
EDINALDO DE SOUZA TEIXEIRA

SALVADOR - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/06/2015

Não gostei, se não curou ,por que não continuar o tratamento? E qual a alternativa ?
Concordo plenamente com o Dr.Gabriel Esnaola.























GABRIEL ESNAOLA

PASSO FUNDO - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/06/2015

Eu trato as vacas enfermas como atletas, só retorna ao time quando curada clínicamente e com avaliações negativas no microbiologico. Por isso sou a favor das terapias estendidas.
Caso contrário fica difícil até mesmo a credibilidade de infecções cruzadas na linha de oredenha quando o animal retorna ao lote de origem.
Acredito tambem que tratamento de mastite não é exclusivo o uso de antibiotico, mas atenção e segregação do animal, uso de antinflamatórios (junto a bisnaga intramamária ou parenteral). Excelente artigo para muitas reflexões. Parabens!
ISAIAS SANTIAGO SIQUEIRA

GRAMADO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/06/2015

Importante o estudo para enriquecer a mente de todos que almejam ser bons produtores...to correndo atrás.
ANDERSON SANTOS GALVÃO

RIO VERDE - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/06/2015

Ótimo conteúdo!!
GUILHERME FERNANDO MATTOS LEÃO

CASTRO - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/06/2015

Interessante, creio que aqui no Brasil estes aspectos não são distintos dos encontrados no trabalho. Parabéns pelo texto.