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Um pouco sobre associações fortes e representativas

Nesta segunda-feira, 7 de junho, a UNICA (União da Indústria da Cana-de-Açúcar) realizará em São Paulo o evento Prêmio Top Etanol, que homenageará os melhores trabalhos acadêmicos, fotográficos e jornalísticos do ano de 2009 sobre o tema "Agroenergia e Meio Ambiente". Ainda, serão destacadas as lideranças que contribuíram de forma decisiva com o desenvolvimento e a sustentabilidade do setor.

Segundo convite recebido, o evento contará com a participação dos principais candidatos à Presidência da República (Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva), já confirmados. Os candidatos apresentarão suas propostas relacionadas ao futuro do setor sucroenergético brasileiro, dos biocombustíveis, além de políticas públicas para a sua competitividade e sustentabilidade.

No ano passado, a mesma UNICA realizou o Ethanol Summit, que contou com palestra de ninguém menos do que Bill Clinton, o ex-presidente norte-americano. Na semana passada, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma matéria a respeito do "lobista" que a UNICA tem nos Estados Unidos. Joel Velasco, ex-assessor de Clinton, tem atuado junto à entidade visando derrubar as barreiras norte-americanas em relação ao etanol brasileiro.

Não sei não, mas acho que o pessoal da cana está bem organizado. Também não sei não, mas acho que tudo isso acima significa que a UNICA (e o setor) tem prestígio político. Afinal, atrair os três principais presidenciáveis para um mesmo evento não é algo tão simples. Será que isso é importante para os pleitos setoriais? Acredito que sim. Será que isso é importante para defender o setor de possíveis ameaças (muitas vezes infundadas) como a questão ambiental? Também diria que sim.

Mas o que nós, atuantes na cadeia do leite, temos a ver com isso?

O que temos a ver é que também dependemos em parte de pleitos junto ao governo; também temos de negociar acesso a mercados; também sofremos ameaças cada vez mais complexas, como a questão nutricional e também a ambiental, de forma crescente; também precisamos ser competitivos; também sofremos com o câmbio. A diferença é que não temos uma organização que centralize os anseios do setor e que esteja alinhada com o que a sociedade dele espera.

Mas a cana é diferente, dirão alguns. No leite, temos centenas, milhares de empresas. É verdade. Porém, as 15 maiores processam mais de 40% do leite inspecionado. No caso da UNICA, são 60 empresas que processam 50% do álcool e 60% do açúcar brasileiro. Ou seja, parece-me que a cana é menos concentrada ainda e, mesmo assim, foi possível reunir 60 empresas em uma "única" entidade em prol do setor.

Quanto à importância política, pode-se argumentar que isso se dá em função do tamanho do agronegócio sucro-alcooleiro, muito maior do que o lácteo. Outro engano. O negócio sucro-alcooleiro é grande, sem dúvida. De acordo com a UNICA, o faturamento da safra 08/09 atingiu US$ 23 bilhões, gerando 845.000 empregos diretos. Porém, o leite não fica muito atrás. Somente na produção, se considerarmos 20 bilhões de litros inspecionados (fora o produto não inspecionado), supondo um preço médio de venda de R$ 1,75 por litro (é uma estimativa, considerando a agregação de valor em torno do produto "leite"), o faturamento seria de R$ 35 bilhões, ou cerca de US$ 19,5 bilhões. O PENSA/USP, em estudo realizado a partir de dados de 2004, chegou a valores ainda maiores: o agronegócio leite movimentaria R$ 66,3 bilhões anuais.

Em relação a geração de empregos, ganhamos de lavada: os dados variam de 3,6 a 4,0 milhões de empregos diretos. Quatro a cinco vezes mais.

Pode-se argumentar que a questão energética é crítica e que o etanol está no centro desse debate. É, portanto, um setor estratégico para o país e para o governo. Esse argumento procede, evidentemente. Mas é pouco provável que o setor iria receber a atenção que recebe caso fosse desarticulado ou descontextualizado da realidade atual, em que os diversos atores (mídia, ONGs, governos, empresas, etc) interagem constantemente, exigindo explicações e ações imediatas.

E, não esqueçamos, o leite também é estratégico e importante sob o ponto de vista econômico e social, ao distribuir a riqueza entre grande número de famílias no campo. O leite é, de certa forma, o Bolsa-Família rural, o que seria suficiente para alçá-lo à condição de produto/setor altamente sensível e para o qual todos os políticos deveriam olhar constantemente.

Claro que parte disso tem sido capitalizada pelo setor lácteo. Claro que conseguimos, em algum grau, mobilizações visando defender o setor e melhorar sua competitividade. Mas, reconheçamos, bem aquém do que poderíamos dada a importância do setor para o país. E bem abaixo do que outros setores igualmente relevantes, como a cana-de-açúcar, têm conseguido.

Há os que argumentarão que o setor lácteo tem passado por grandes mudanças, por novas empresas entrando no mercado, levando um tempo até que a poeira baixe e se consiga pensar no longo prazo. Em tese, faz sentido, mas a cana-de-açúcar também tem passado pelo mesmo processo e continua com suas ações visando desenvolver o mercado aqui e lá fora, por ações que passam também pela questão da comunicação. Desenvolveram, a propósito, o projeto AGORA, que contempla uma estratégia de comunicação para o setor sucro-alcooleiro. O projeto AGORA é uma espécie de Láctea Brasil da cana.

O que faz, então, a cana-de-açúcar ser diferente do leite? Será que as indústrias envolvidas com etanol (mudaram até o nome, repararam? Não é mais álcool) e açúcar não precisam pensar no curto prazo, podendo se dar ao luxo de só investir em ações de longo prazo? É evidente que não. Será que eles não têm conflitos internos entre os agentes participantes, demandando maturidade e profissionalismo para separá-los das metas de longo prazo, que garantirão sobrevivência do setor? Também, ninguém acreditaria nisso, correto? Será que são as pessoas?

Enfim, o que faz com que o setor sucro-alcooleiro tenha conseguido reunir a maior parte da produção brasileira em uma entidade forte, representativa e atuante, além de ter melhorado a relação com o produtor (através do Consecana, que é realmente referência de mercado, além de contratos transparentes de longo prazo)?

Fica a questão aberta para discussão.

PS1: falando em relacionamento indústria/produtor, recebemos da produtora Maria Lucia Garcia, da Fazenda Cauyaba, uma interessante matéria publicada na Folha de SP/Valor Econômico, mencionando que o produtor Carlos Viacava, aos 69 anos, assumiu a diretoria corporativa da Cutrale, até então maior produtora de suco de laranja do mundo. Entre os desafios de Viacava, estão "a melhoria das relações com os fornecedores independentes de laranja, a maior integração da cadeia, o aprofundamento das discussões sobre o futuro da citricultura, o estímulo ao incremento das vendas de suco no mercado doméstico e a abertura de novas fronteiras para o produto, tendo em vista as dificuldades dos últimos anos nos destinos tradicionais"....

PS2: esse artigo ressaltou associações de empresas processadoras, uma vez que, pela posição na cadeia, são quem realmente têm o desafio de desenvolver o mercado e a competitividade. Porém, o mesmo acima vale para associações de produtores. Não temos, hoje, uma associação focada em leite, que de fato represente boa parte da produção nacional. E, nesse caso, o desafio é ainda maior.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 08/07/2010

José Humberto e Ramon,

Aguardem que em breve retomaremos isso de forma mais objetiva!

Abraços

Marcelo
JOSÉ HUMBERTO ALVES DOS SANTOS

AREIÓPOLIS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/07/2010

Alguma coisa andou depois disso tudo?
Não vamos continuar o debate?
Não vamos fazer nada?
RAMON BENICIO LIMA DA SILVA

NITERÓI - RIO DE JANEIRO

EM 23/06/2010

Prezados amigos,

Outra sugestão: Não podemos usar o milkpoint para esta enquete sugerida pelo Roberto? Pediriamos ao Marcelo para estudar um pequeno questionário 3 ou 4 perguntas no máximo, que ficaria disponível na página inicial durante 30 dias para que os associados respondessem e as respostas depois seriam tabuladas e o resultado publicado pelo milkpoint. Perguntas do tipo "SIM ou NÃO" que são facilmente tabuladas.

Um grande abraço a todos
Ramon Benicio
JOSÉ HUMBERTO ALVES DOS SANTOS

AREIÓPOLIS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 21/06/2010

Bom dia amigos
O produtor de leite, como qualquer outro, precisa ter a certeza que estão trabalhando para ele.
Todos nós temos espírito gregário.
Mas como diziam alguns "não existe almoço de graça".
Considero um fator agregador o preço do produto. E a maneira de ter melhor preço é ter volume. Se não se pode ter volume sozinho, reunem-se diversos produtores de uma mesma região que delegam ao conjunto a negociação do volume para ter melhor preço.
Esse era o princípio que foi levado a Leite Brasil na época em que se encontrou grande resistência para que habilitasse as Associações Regionais a terem representatividade naquela associação nacional.
Surpreendo-me com a afirmação do Vice-Presidente da Leite Brasil, "que por ele nada contra.... mas que é preciso fazer uma pesquisa p/saber o que os outros acham...."
A ideía não é ter uma representatividade para que possamos ter dinheiro e poder ouvir a música? E por que não aceitar Associações Regionais que possam ter voz ativa na entidade nacional?
FAZENDA FURNAS DO AMPARO

PASSOS - MINAS GERAIS

EM 21/06/2010

Fechado. Mesa Redonda na Interleite com um documento previamente estruturado com um possível plano de ação
ROBERTO JANK JR.

DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 21/06/2010

Zé, não tenho visão minúscula; acredito que estamos falando a mesma coisa mas vou me explicar melhor:
Quando sugeri "...uma pesquisa p/saber o que os outros acham": não é para autorizar ou não entidades regionais como sócias da nacional; é para saber se de fato desta vez os produtores querem investir (recursos próprios) para que suas entidades sejam atuantes como é a Única; daí o "no money no music".
Você e eu sabemos que no passado nunca conseguimos (nosso setor) de fato viabilizar uma verba, mínima que seja, para representar com força os anseios do produtor. O que fizemos (alguns poucos fizeram) até hoje foi na raça e no gogó.
Isso vale para Leite Brasil, Láctea Brasil, Leite SP e qualquer outro exemplo.
Eu gostaria de doar meu tempo para um projeto que de fato tivesse apoio da classe produtora, quiçá de outros segmentos da cadeia láctea e pudesse seguir o exemplo da Única. Obviamente qualquer entidade que tenha apoio forte de seus membros é benvinda em um projeto desse tipo.
Por outro lado acho importante que a democracia prevaleça; de minha parte estarei atuante se entender que o projeto é moderno e abrangente, mas principalmente apenas se o associado quiser; assim refiro-me ao "no trust".
MARCELLO DE MOURA CAMPOS FILHO

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 21/06/2010

Recomendações para o setor leiteiro

Vejam no "giro lácteo" a matéria "UE: grupo apresenta recomendações para o setor leiteiro", que mostra que o Comissário de Agricultura e Desenvolvimento Rural da UE parabenizou o Grupo de Alto Nivel sobre o Leite, criado pela Comissão Européia, pelas deliberações e recomendações contidas no relatório que concluiram.

Recomendam relações comerciais entre produtores e a indústria de lácteos baseados em contratos escritos, bem como o aumento do poder de negociação dos produtores com a indústria através de organizações de produtores em conjunto as cláusulas desses contratos, inclusive o preço.

Será que essas recomendações não seriam boas também aqui no Brasil? Será que precisamos uma criar uma comissão de alto nivel para discutir a validade dessas recomendações para o nosso setor leiteiro? Será que as entidades que representam produtores não deveriam dar o primeiro passo e discutir essa questão? Não seria um passo importante na busca de um bom relacionamento comercial entre a indústria e produtores e para o restabelecimento de um clima de confiança fundamental para o desenvolvimento do setor leiteiro?

Gostaria muito de ouvir a opinião do Milkpoint e de seus leitores sobre a resposta a essas perguntas.

Abraço a todos

Marcello de Moura Campos Filho
Presidente da Leite São Paulo

SAVIO

BARBACENA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 21/06/2010

Boa noite amigos;

Concordo que é necessário saber de onde viriam os recursos para a obtenção de sucesso parecido com o alcançado pela única.

Porém, acredito que a fase inicial de projeto e levantamento dos gargalos não necessita de aporte financeiro, somente das nossas cabeças e do auto financiamento de cada um para execução dos estudos e debates. Em resumo, custos pessoais em encontros e outras atividades.

Para um próximo passo partindo para o trabalho, pode ser pensada uma forma de contribuição direto na fonte de pagamentos. Então esbarraremos na ja dita precária relação produtor / indústria dentre outros fatores.

Para resolvermos esse problema teremos tempo de sobra na fase inicial para quebrarmos nossas cabeças. Me vem um questionamento inevitável: No que o antigo FUNRURAL ou INSS contribuiu para os produtores e o que essa contribuição te à nos ensinar.

Sei que uma contribuição previdenciária não tem nada haver com contribuição sindical ou contribuição associativista, mas comparo o sistema de captação de recursos.

O funrural com seus 2,3% ou 2,8% é um grande arrecadador de recursos na cadeia produtiva, envolvendo produtores e indústrias. Aí dirão: Mas é (ou era) obrigatório por ser regulamentado por legislação previdenciária etc. Concordo, mas continuo achando que serve de exemplo. Se conquistarmos a confiança do produtor de leite mostrando à ele que será realizado um trabalho relevante ao setor sem precedentes conseguiremos com certeza grande adesão de contribuições voluntárias seja via laticínios ou não.

Aos amigos meu apoio como voluntário nessa empreitada;

Abraço à todos,

Sávio Santiago
ROBERTO TRIGO PIRES DE MESQUITA

ITUPEVA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 18/06/2010

Amigos,

Sem dúvida alguma foi absolutamente precisa a referência do Roberto Jank "no money, no music" como ferramenta indispensável para o sucesso de associações fortes e representativas. Melhor ainda quando complementada com a "no trust, no money, no music" pelo José Humberto.

Mas a meu ver, a ÚNICA chance para a estruturação de uma entidade verdadeiramente forte na cadeia láctea nacional exige a superação do principal entrave enfrentado pelas atuais associações pois, "no marketing, no music" e via de consequência, "no money, no trust".
RAMON BENICIO LIMA DA SILVA

NITERÓI - RIO DE JANEIRO

EM 18/06/2010

Prezados amigos,

Acredito que será necessária uma boa dose de desprendimento de todos os lados para que seja moldada uma entidade com o mesmo carater da "Unica", tendo em vista que os esforços realizados no passado para o surgimento de uma associação nacional dos produtores de leite esbarraram numa série de dificuldades operacionais, políticas e financeiras. Estamos nos aproximando do Interleite 2010, quem sabe não pode ser agendada uma primeira conversa durante o evento com as principais lideranças do setor, para pelo menos alinhavar as dificuldades iniciais.

Um grande abraço
Ramon Benicio
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 17/06/2010

Renato, obrigado pela sua carta e aproveito para dizer que o seu trabalho foi fundamental para a Láctea se transformar em OSCIP.

(Só uma pequena correção: os pioneiros foram o Roberto, o Wiliam Tabchoury, o Paulo Portilho e o Pico Ribeiro. Eu entrei bem depois).
MARCELLO DE MOURA CAMPOS FILHO

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/06/2010

A respeito da força e representatividade das associações

Parabéns ao Marcelo Carvalho pelo editorial "Um pouco sobre associações fortes e representativas"

O Marcelo Carvalho tem razão, o setor de açúcar e álcool é bem organizado, tem prestígio e força política. Também tem razão quando mostra que ao se comparar o setor leiteiro com o de açúcar e álcool, em tamanho econômico e geração de empregos, a balança pende para o setor leiteiro. E pergunta: o que faz a diferença entre o setor de açúcar e álcool e o setor leiteiro?

E também tem razão quando responde: uma boa relação da indústria com seus fornecedores e arrendatários, relação comercial regida por contrato e regras transparentes através do Consecana, e entidades fortes, representativas e atuantes.

Vou fazer as minhas considerações a partir dessa resposta, com a qual concordo, e de algumas cartas de leitores.

No setor leiteiro pode-se contar nos dedos os contratos entre produtores e indústrias e não existem regras justas e transparentes estabelecidas por um órgão similar ao Consecana. Isso torna de forma geral o relacionamento comercial da indústria com os produtores muito ruim. E também penso que deixa a desejar o relacionamento das cooperativas com os produtores. Não há confiança dos produtores nas indústrias e nas cooperativas.

Também falta confiança dos produtores nas suas entidades representativas. Há motivo para isso? Penso que sim. Existe um verdadeiro abismo entre os dirigentes dessas entidades e os produtores.

Vou citar um exemplo. Que produtor não desconfiaria de uma entidade que se posicionasse a favor de um regulamento de identidade e qualidade que permitisse adicionar 20% de soro ao leite fluido e ao leite em pó para um produto que usasse o nome de leite? Pois a CNA e a Leite Brasil fizeram isso, como citou a Daniela Rodrigues Alves em entrevista ao Milkpoint, e que tive oportunidade de ver o documento que ela citava assinado por representantes dessas entidades. E o que é pior, um assunto como esse não foi amplamente debatido com os produtores por essas entidades. Vejam bem, não estou afirmando que a entidades que assinaram esse documento tiveram segundas intenções. Acredito mesmo que julgassem naquele momento que isso poderia trazer, de alguma forma, uma contribuição positiva para os produtores. A crítica é que a decisão do posicionamento dessas entidades para um assunto da maior importância foi tomada a portas fechadas, sem ampla discussão com os produtores. São situações como essa, que ao longo do tempo, vão estabelecendo o abismo entre dirigentes e produtores, e fazem o produtor perder a confiança nas entidades.

Considero que a Associação dos Produtores de Leite B foi uma entidade representativa e atuante, com a maioria dos associados de São Paulo e alguns de Minas e do Rio. Mas quando se transformou em Leite Brasil, sem efetiva representatividade nacional, se enfraqueceu, e perdeu a confiança muito dos produtores de leite B que a ela eram filiados. Na época, um grupo de produtores paulista discutindo em dois seminários realizados em anos consecutivos, no auditório de CEPEA, concluíram que era preciso a Leite Brasil realmente ter dimensões nacionais, com entidades estaduais filiadas, e estas com agências regionais, para que fosse forte e representativa. Uma comissão foi criada e encaminhou sugestões para alterações no Estatuto da Leite Brasil para que isso pudesse acontecer. O José Humberto lembrou disto numa de suas cartas, citando a mim e a Leite São Paulo, e incitando a me manifestar. Um esclarecimento importante é que a Leite São Paulo - Associação dos Produtores de Leite do Estado de São Paulo só foi criada depois dessas duas tentativas frustradas de transformar a Leite Brasil numa entidade efetivamente de abrangência nacional.

Quero deixar claro que reconheço que a CNA e a Leite Brasil contribuíram fortemente para muitas conquistas para os produtores de leite, e essas colocações que fiz foi por acreditar que havendo mais confiança e maior aproximação dos produtores com a direção das entidades elas poderão fazer muito mais.

O Roberto Jank Jr. Numa de suas cartas sugere, para fortalecer as entidades, começar pelo orçamento, pela vontade individual de contribuir: "no money, no music". Mas acho que o José Humberto numa das suas cartas teve uma percepção maior da realidade: "no trust, no money, no music". Sem confiança não haverá entidade de produtores fortes. E é preciso lembrar que confiança não se impõe, se conquista. E essa conquista de confiança dependerá das atitudes dos dirigentes das entidades e não será conseguida de um momento para outro.

O relacionamento na cadeia produtiva do açúcar e álcool não aconteceu de uma hora para outra, foi construído ao longo do tempo. Por isso não concordo que no setor leiteiro estamos a um passo do setor de açúcar e álcool, estamos a quilômetros de distância.

Mas eu não tenho dúvidas que se dermos os primeiros passos nessa direção, trabalhando para construir um bom relacionamento entre indústrias, cooperativas e produtores de leite, que seja justo e transparente, para superar o abismo entre dirigentes e produtores, para fortalecer e tornar atuantes nossas entidades, chegaremos lá, teremos um setor leiteiro com a força que tem o setor de açúcar e álcool.

Para finalizar, quero manifestar que vejo enorme dificuldade no desenvolvimento de entidades só de produtores. Penso que é fundamental entidades que congreguem técnicos e produtores para que a confiança e o relacionamento dos produtores com as entidades seja fortalecido, a exemplo do que aconteceu nos USA, e de certa forma aqui mesmo no setor de açúcar a álcool.

Por esse motivo, depois de um ano de discussão entre produtores e técnicos, a Leite São Paulo deixou, no final do ano passado, de ser uma associação só de produtores, para ser a Associação dos Técnicos e Produtores de Leite do Estado de São Paulo, congregando técnicos e produtores, passo considerado fundamental para a fortalecimento representatividade e da atuação da entidade. No Estatuto da Leite São Paulo consta como um dos seus objetivos incentivar a formação de associações de técnicos e produtores de leite em outros estados, e havendo uma massa critica de associações similares em outros estados, incentivar a formação de uma confederação nacional dessas associações.

Marcello de Moura Campos Filho
Presidente da Leite São Paulo
JOSÉ HUMBERTO ALVES DOS SANTOS

AREIÓPOLIS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/06/2010

Amigos:
Não acredito em entidades nacionais que não representem a aglutinação de interesses regionais.
Muitos anos atras foi feita uma tentativa de representação de Associações regionais que se filiariam a Leite Brasil e não foi possível. Sabem porque?
O estatuto da Leite Brasil não permitia filiação de associações regionais, mas tão somente de produtores individuais.
Foi solicitado na época a alteração do estatuto e houve grande resistência da direção da Leite Brasil.
Não sei como esta hoje.
Concordo com o Roberto que o trabalho do Edson, na Leite Brasil, foi na época de grande relevancia.
Mas e hoje? Como estamos?
Na época a idéia é que as associações regionais se aglutinassem em associações estaduais (daí a Leite São Paulo) e estas tivessem lugar na direção da Leite Brasil.
Não andou, não sei porque, mas era uma idéia.
Com a palavra a Leite São Paulo (Dr. Marcelo) e os dirigentes da Leite Brasil.
RENATO LUCIO DE TOLEDO LIMA

RIBEIRÃO PRETO - SÃO PAULO

EM 16/06/2010

Testemunhei a transformação da Láctea Brasil (mercê dos esforços e da paciência especialmente dos pioneiros Marcelo Carvalho, Roberto Jank Jr.). A congregação do setor avançou muito quanto à estruturação jurídica da entidade, certificada pelo Ministério da Justiça como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), e cujo estatuto social hoje comporta uma participação plural dos segmentos da cadeia láctea, incluindo de produtores a confederações nacionais, passando pela indústria. A previsão de representação nos órgãos da associação abriga ainda os fornecedores de insumos, como embalagens, por exemplo. Essas condições, somadas a regras de gestão democrática e transparente, constituem importantes instrumentos que fazem da Láctea Brasil, hoje, uma entidade legalmente preparada para a adesão maciça que o setor precisa, com a qual poderá assumir papéis mais ativos na sociedade brasileira.
ROBERTO JANK JR.

DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/06/2010

De minha parte não vejo o menor problema na proposta do Zé Humberto.
Vou falar com o Jorge mas sugiro uma enquete para saber se realmente isso é o que o setor quer, uma vez que a LB tem orçamento bastante restrito e quem estiver lá não receberá nada pelo tempo disponibilizado, duas variáveis bastante diversas da Única e que demandam grande desprendimento em esforço pessoal individual. Coloco dessa forma porque estou lá a 25 anos e neste período nunca assisti um verdadeiro apoio ou uma real sensibilização da classe produtora e menos ainda quando tal apoio veio desacompanhado do auxílio dos agentes arrecadadores (laticínios) para o repasse de contribuição compulsória ou optativa dos produtores.
Como exemplo, lembro que com apenas R$ 10,00/mes de cada produtor o valor já significa um orçamento de R$ 12 milhões/ano, apenas com os produtores dos 15 maiores laticinios do país, levantados pela Leite Brasil; com R$ 30/mes já seríamos uma Única, apenas com esse grupo de produtores.
RAMON BENICIO LIMA DA SILVA

NITERÓI - RIO DE JANEIRO

EM 15/06/2010

Prezados amigos Roberto e Marcelo.

Será que não poderia ser aproveitada a estrutura já existente da Leite Brasil para molda-la como a "Unica" do leite? Algumas etapas já seriam queimadas. Aliado ao fato que existe um corpo de associados que poderia impulsionar o projeto.

Um abraço.
Ramon Benicio
FAZENDA FURNAS DO AMPARO

PASSOS - MINAS GERAIS

EM 14/06/2010


Caro Marcelo,

Antes de mais nada creio que seja consenso a necessidade de uma mobilização real e isenta de politicagens e vaidades. Sendo assim vamos a obra. Com certeza se tem muita coisa válida nas açoes desenvolvidas pela Leite Brasil e Láctea Brasil a serem aproveitadas. Qual seria o seu modelo para a "UNICA" Leiteira? Vamos angariar sugestões para que possamos esboçar algo concreto. Já recebi algumas sugestões pelo e-mail da mudaleitebrasil@yahoo.com.br. Se não fizermos nada continuaremos escravos da nossa inércia.
ROBERTO JANK JR.

DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/06/2010

Caro Ramon,

A chamada nova Láctea Brasil está hoje estabelecida em Brasilia, na sede da CNA e é presidida pelo Rodrigo Alvim, também presidente da comissão de leite da CNA e tem como diretor financeiro o Vicente Nogueira, também presidente da Fepale.
Os membros são alguns laticinios privados e cooperativas, a maior delas a Itambé, de MG, todos com enorme mérito vanguardista na idéia de promover o setor frente a outros líquidos que concorrem no "stomach share" do consumidor.
O enfoque do projeto tem tido enorme ajuda do Marecelo Carvalho, do Milkpoint, apoiado também pela Manuela Gama, da Láctea.
Acredito que a nova Láctea, se contasse com arrecadação de recursos dos laticinios (que, no fundo, é dinheiro dos produtores), poderia fazer um belíssimo trabalho de marketing institucional (sem marca).
Não creio que o caráter de "confederação" dos produtores de leite que você sugere seja hoje necessário, visto o ótimo trabalho que tem sido feito pela comissão nacional do leite, organismo que, no topo, unificou todas as iniciativas de representação do produtor que existiam.
Mas também não creio que a proposta da Láctea como está hoje possa substituir uma iniciativa como é a da Única para o setor da cana; acredito que a Láctea possa fazer o trabalho de mkt com perfeição mas a simbiose com um organismo de defesa dos produtores não tem a liberdade de ações, isenção e flexibilidade que a Única proporciona ao setor da cana como um todo (ainda que o recurso desta tenha origem apenas na indústria, é fato que os benefícios atingem desde o cortador de cana, produtor e o consumidor de açucar e álcool, além do expressivo espaço politico conquistado nos poderes estadual e federal).
Para chegar lá penso que temos que cumprir a etapa de uma proposta como a nova Láctea; com essa consolidação certamente caberia um projeto como a ùnica para o leite.




RAMON BENICIO LIMA DA SILVA

NITERÓI - RIO DE JANEIRO

EM 14/06/2010

Prezado amigo Roberto,

Gostaria que você esclarecesse um aspecto do seu comentário. Quando você fala que a Lactea Brasil foi incorporada ao sistema CNA, o que exatamente isto significa?

A Lactea Brasil poderia assumir um papel do tipo confederação nacional dos produtores de leite? Esta era ideia original quando da criação da Lactea Brasil?

Um grande abraço.
Ramon Benicio
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 14/06/2010

Olá Ramon,

Existe a Leite Brasil, mas a estrutura não é como a do CNI ou da CNA (acho que, no caso do leite, não seria esse o modelo). Na carta do Roberto Jank, há mais informações sobre a Leite Brasil.

Obrigado pelos comentários José Humberto e Antônio Elias.

Abraço