A Fazenda Serra Negra produz cerca de 4.600 litros de leite por dia, a partir de 130 vacas holandesas em lactação em regime de confinamento total. O Sr. Alcy, portanto, vai na contramão daquilo que se prega como tendência para a produção de leite no Sudeste brasileiro. Ao que tudo indica, ele está muito longe de liquidar seu rebanho, como tantos outros fizeram e estão fazendo.
Os números obtidos são significativos. Em 1994, ele produziu cerca de 340.000 litros/ano, com média de 4.140 litros/hectare/ano. Em 2002, foram 1.216.000 litros, com média de 14.654 litros/ha/ano. Em 1996, as novilhas encerravam a lactação com 5.438 litros/dia; em 2002, este número subiu para 9.221. A produção média por lactação em 1994 era de 4.328 litros, contra 9.240 litros em 2002. A idade ao primeiro parto era de ineficientes 32 meses em 1996; em 2003, a média está em 22,97 meses, excelente até para padrões norte-americanos. O intervalo entre partos atual está em 407 dias (13 meses e 17 dias), a lactação em média dura 327 dias, a mortalidade de bezerras é de 2,4%, o intervalo entre o parto e primeira inseminação, 87 dias. A média de produção de silagem de milho é de 43,7 toneladas por hectare, nos 63 hectares utilizados com a cultura.
São de fato números muito bons e ajudam a explicar o porquê deste dia de campo ter atraído quase 300 pessoas, a maior parte produtores da região. Antes que se questione, é importante lembrar que não houve aporte de capital externo na forma de emprestímos ou "fundo perdido" de outros negócios da família. Em tempo: leite é o único negócio do Sr. Alcy, cujo crescimento foi gerado pela própria atividade.
Como explicar então o fato da Fazenda Serra Negra parecer um oásis em meio a tantas notícias negativas envolvendo vacas confinadas?
O primeiro (e mais importante) aspecto está justamente no capital humano. A Fazenda é tocada literalmente pelo Sr. Alcy, filhos (Cláudio, Carlos e Luiz) e noras. Eles é que fazem as 3 ordenhas diárias, de acordo com a seguinte rotina:
Tabela 1. Revezamento na ordenha

Percebe-se que o olho do dono, ou melhor, dos donos, está presente no dia-a-dia da fazenda, como ocorre com muitos produtores do Sul do país (onde a produção de leite cresce de modo mais regular) e de outros países de pecuária desenvolvida.
Além disso, pelo que pude observar, o Sr. Alcy tem características bastante importantes para o sucesso de qualquer atividade. Ele recebeu pessoalmente todos os participantes, agradecendo a presença de todos; como todo bom mineiro, é bastante político e sabe "prosear"; cerca-se de profissionais capacitados, como o médico veterinário Casimiro, que assessora a fazenda; busca parceria com empresas privadas que, naturalmente, vislumbram no seu Alcy um cliente importante, porque é formador de opinião e cresceu a partir de muito pouco (a atividade começou em 1968, com 6 vacas que produziam 11 litros), onde muitos outros produtores estão hoje; é bastante orgulhoso do que faz; tem uma habilidade ímpar com números e controles, a ponto de ter todas as informações do rebanho documentadas e, por fim, transmite otimismo e tem atitude positiva.
Pelo que pude perceber, ele prioriza itens que estão diretamente relacionados à saúde financeira da atividade e limita gastos em itens cujo retorno, a seu ver, é duvidoso. A silagem de milho, por exemplo, é de qualidade excelente; ele fornece feno de alta qualidade aos animais em lactação, mas não às novilhas e bezerras; já as instalações são muito simples (ver fotos), com cochos descobertos e piquetes de grama e terra. O maior investimento reside justamente na ordenha recém-adquirida e que conta com extratores automáticos, contribuindo para a redução do tempo de ordenha, melhoria da qualidade do leite e, tão importante quanto, da qualidade de vida de quem ordenha.
O resultado, além da atividade em expansão e do sucesso na venda de animais (eles realizam um leilão anual, com venda de 30 a 40 animais), é um padrão de vida excelente, com casas ótimas e carro na garagem para todos. Tudo isso pago pelo leite.
Não há dúvida que o produtor de leite tem passado por maus bocados nos últimos anos, embora 2003 tenha dado um refresco, apesar dos custos mais elevados. Porém, quem visita a propriedade do Sr. Alcy não deixa de sair de lá com novos conceitos e com uma constatação que não tem como deixar de ser feita: o que define o sucesso de longo prazo não é o sistema de produção, o tipo de alimento ou de instalação, mas sim a qualidade do capital humano envolvido na atividade.




Obs: O dia de campo foi promovido pelas empresas Guabi, DeLaval e Lagoa da Serra, que fornecem seus produtos e serviços à Fazenda Serra Negra.
