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O que nos conta o ranking dos laticínios de 2010

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 02/05/2011

6 MIN DE LEITURA

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Recentemente, a Leite Brasil divulgou o ranking de laticínios, levando em conta a produção adquirida em 2010. Ainda que a ausência da BRF tenha impacto nos resultados (assim como a Tirol, de Santa Catarina, que certamente figuraria no ranking), como o levantamento é realizado anualmente, é interessante analisar o comportamento desses resultados ao longo dos anos, identificando possíveis tendências.

A tabela 1 traz o ranking, considerando as 12 primeiras em função da padronização do número de indicados, em 4 períodos distintos: 1999, 2004, 2009 e, agora, 2010.

Os laticínios foram classificados de acordo com o capital: as cooperativas em vermelho, as multinacionais em preto e as empresas de capital nacional, em azul (a Parmalat em 1999 era ainda uma multinacional). Um primeiro ponto que chama a atenção nesses 11 anos é que houve pouca alteração se considerarmos a origem do capital. As cooperativas, por exemplo, passaram de 4 empresas em 1999, para 5 em 2004 e 2009, e 4 novamente em 2010.

Pode-se argumentar que o número de empresas não conta toda a verdade, pois seria possível manter 4 ou 5 cooperativas, mas com captação menor. O cálculo da quantidade de leite captada por essas cooperativas daria então uma visão mais clara. O gráfico 1, dessa forma, mostra a porcentagem do leite captado pelas cooperativas ao longo destes anos. A título de exemplo, em 1999 as 4 cooperativas captaram 25,6% do leite das 12 maiores, contra 23,5% no último ano. Uma variação muito pequena se considerarmos o espaço de mais de uma década de grandes transformações na economia.

Tabela 1: Ranking de laticínios pelo levantamento Leite Brasil/CNA/OCB/CBCL/Embrapa Gado de Leite



É evidente que não é possível extrapolar esses dados para o Brasil todo; é uma hipótese possível que as cooperativas tenham uma participação maior entre as pequenas e médias empresas do setor. Um fato a se considerar é que uma das cooperativas listadas - a Centroleite - apenas comercializa o leite, sem processamento; se o objetivo fosse calcular a participação das cooperativas no leite processado, o resultado seria diferente. Também, o mesmo ocorreria se a BRF estivesse presente nos dados.

Não se pode negar, no entanto, que a competição se acirrou nos últimos anos: 2 grupos com grande poder de fogo chegaram para valer, além de outras empresas nacionais que cresceram. As cooperativas precisam modernizar sua gestão, agilizar a tomada de decisão e criar mecanismos de captação de recursos que façam frente a essa nova realidade.

Gráfico 1. Captação porcentual de leite das cooperativas, no ranking das 12 maiores, de acordo com ranking da Leite Brasil/CNA/OCB/CBCL/Embrapa Gado de Leite



É interessante notar também, voltando a tabela 1, que a participação das multinacionais não tem aumentado nesses anos, a despeito do forte crescimento do setor, da economia brasileira e da significativa atração de recursos estrangeiros para empresas de diversos segmentos. Com base nisso - e considerando que o setor continuará crescendo - devemos esperar nos próximos anos a entrada de novos competidores de peso no setor? Ou há problemas estruturais, ou ainda dúvidas sobre a capacidade do Brasil suprir sua demanda crescente de forma competitiva, que têm freiado o desembarque de competidores globais? É uma questão interessante, a ser discutida em outro artigo.

Um outro aspecto que vale a pena analisar é a concentração no setor, um aspecto sensível em um momento de fusões e aquisições, como as verificadas desde 2006. Novamente, uma surpresa. O gráfico 2 mostra que, de 1999 para cá, os números não chamam a atenção comparado ao que a intuição nos indicaria.

Na verdade, analisando os dados das 12 maiores, o setor era mais concentrado em 1999 do que 11 anos depois, embora em ambos os casos os valores indiquem concentração menor do que muitos outros segmentos do agronegócio e do que o próprio setor de laticínios em diversos outros países. Isso indica que o mercado no geral apresenta boa concorrência e, para o produtor, isso é positivo. Indica também que empresas de médio e pequeno porte tem crescido tanto quanto as grandes, em participação porcentual. Há, no entanto, uma tendência de aumento na concentração, que deve se intensificar.

No gráfico 2, analisamos a participação da primeira empresa em relação ao total inspecionado, bem como da segunda+terceira, quarta+quinta, as 5 primeiras e as 12 primeiras. No gráfico 3, a mesma coisa, porém considerando agora a produção total de leite e não apenas a inspecionada (observação: consideramos a produção de 2010 como sendo de 30,652 bilhões - não temos ainda os dados da produção informal para utilizar o valor oficial).

Gráfico 2. Concentração no setor de laticínio, de acordo com ranking da Leite Brasil/CNA/OCB/CBCL/Embrapa Gado de Leite - % da produção inspecionada



Gráfico 3. Concentração no setor de laticínio, de acordo com ranking da Leite Brasil/CNA/OCB/CBCL/Embrapa Gado de Leite - % da produção total



Novamente, a ressalva da BRF e da Tirol: com elas, acredito que a participação das 12 principais atingiria algo próximo a 46% da produção inspecionada e 31% da total, indicando uma concentração maior, mais ainda em níveis modestos. Contra essa ressalva, vale o fato de que nos rankings anteriores algumas empresas também não estavam presentes, como é o caso da Italac, que já deveria ocupar a posição que ocupou no ranking 2010, de forma que a comparação deste trabalho entre os anos continua válida.

Um outro dado interessante de se analisar é a participação do leite de terceiros, o chamado leite spot. O gráfico 4 traz a evolução deste índice. Não temos os dados de 1999, mas nota-se uma elevação do spot de 2004 para os últimos 2 anos, atingindo 22,6% em 2010. É válido notar que a estratégia varia entre as empresas. As cooperativas, logicamente, têm uma porcentagem menor, ao passo que algumas das demais empresas, maior. O caso mais emblemático é o da líder DPA, que vem trabalhando com cerca de 38% do leite captado de terceiros.

Gráfico 4. Participação do leite spot no total adquirido pelas 12 maiores, de acordo com ranking da Leite Brasil/CNA/OCB/CBCL/Embrapa Gado de Leite



Por fim, analisemos a evolução da produção por produtor. É nesse índica que reside a principal evolução. As 12 maiores tiveram crescimento de 128% na produção diária de seus produtores (gráfico 5), e o crescimento tem sido constante: de 108 kg em 1999, para 187 kg em 2004, 227 kg em 2009 e finalmente 247 kg em 2010.

Gráfico 5. Evolução na produção por produtor, considerando as 12 maiores, de acordo com ranking da Leite Brasil/CNA/OCB/CBCL/Embrapa Gado de Leite



São dois os principais fatores por trás desse crescimento. Primeiro, os bônus por volume, que norteiam a estratégia de captação de leite dos laticínios. Segundo, o crescimento da renda per capita, do emprego e do custo de oportunidade da mão-de-obra, que força a maior produção por módulo produtivo.

Torsten Hemme, coordenador do IFCN, que monitora custos de produção de fazendas no mundo inteiro, fez uma observação interessante: em lugares onde o custo da mão-de-obra é de US$ 0,20/hora (Paquistão, Índia), 2 vacas são suficientes para manter um produtor, dado o baixíssimo custo de oportunidade do trabalho; em lugares onde o custo é de US$ 2,00/hora, já são necessárias em média 20 vacas; e, finalmente, se o custo é de R$ 20,00/hora, o produtor precisa ter 200 animais para obter a renda compatível com essa remuneração. Essa constatação sugere que teremos um incremento significativo no módulo de produção de leite, considerando que o país apresenta incremento da renda nas camadas mais pobres, fruto do aquecimento da economia (e dos programas governamentais de auxílio à renda).

Ainda nesse quesito, é oportuno comparar a evolução do módulo de produção de quatro empresas, sendo duas cooperativas e duas multinacionais: Itambé, Centroleite, Nestlé/DPA e Danone (a Danone não figurava entre as 12 em 1999, mas temos os dados pois naquela edição foram listadas as 15 maiores). O gráfico 6 mostra que todas elas tiveram incremento no módulo de produção, mas as multinacionais apresentaram resultados bem superiores às cooperativas. De certa forma, isso era esperado até em função do caráter mais social da atividade cooperativa e de eventuais dificuldades políticas decorrentes de uma estratégia mais agressiva de remuneração por volume mas, sem dúvida, representam um fator adicional de desafio às cooperativas, uma vez que uma menor produção por fazenda indica custos de transação mais elevados.

Gráfico 6. Evolução na produção por produtor, considerando 4 empresas do setor, de acordo com ranking da Leite Brasil/CNA/OCB/CBCL/Embrapa Gado de Leite

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 26/12/2012

Caro Homilton, desconhecemos qualquer informação nesse sentido. Em que revista você viu essa informação?
HOMILTON NARCIZO DA SILVA

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/12/2012

Temos uma pequena cooperativa em crominia,go, cuja capitação diária de l8000litros dia, e fornecemos para a LBR, e no mes passado tivemos um problema no pagto, dentro do prazo estipulado, mas logo resolvido, e li uma noticia em uma revista, que a mesma está a venda, e isto,nos preocupa, gostaria de se possivel , alguem que estivesse mais informações, pra me repassar, pois faço parte do conselho fiscal e tenho por obrigação estar informado para repassar aos conpamheiros cooperados.

Abraços Homilton
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 09/05/2011

Olá Guanambi, não sei ao certo, mas uma possibilidade seria uma concorrência na captação de leite nas regiões em que a Itambé atua, principalmente de empresas de UHT, que puxaram o mercado nos últimos anos. Essas empresas podem atrair produtores de maior porte com preços mais atraentes. É uma possibilidade.
RENATO S. MACHADO POMPÉU-MG

POMPÉU - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 06/05/2011

Respondendo a pergunta do Guanambi,





a Itambé perdeu muitos produtores depois da crise financeira intenacional pois ficou posicionada em preços um pouco abaixo das concorrentes.


Isto deu gás para que os concorrentes assediassem  e levassem os grandes produtores. Atualmente a empresa está mais focada no mercado interno mas ainda não vemos movimento de retomada de volumes.


GUANAMBI SILVA JUNIOR

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/05/2011

Marcelo Carvalho,
Mas como podemos explicar a queda no volume de leite dos produtores da Itambé?
A produção de leite não vem crescendo a uma taxa de 3 a 5% ao ano desde 1990?
Não era para pelo menos o volume de leite por produtor da Itambé ter se estabilizado?
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 03/05/2011

Obrigado Edson! A Danone tem uma situação especial, pois não capta muito leite e tem uma linha de produtos bastante específica, de alto valor agregado. Pode, portanto, ter uma política própria de captação, o que explica o alto volume por produtor.
CLEMENTE DA SILVA

CAMPINAS - SÃO PAULO

EM 03/05/2011

Marcelo, meus Parabéns novamente, por mais uma" ressonância", agora não mais radiografia, em função da clareza sob todos os aspectos relativos a produção e industrializaçaõ de leite nesses últimos 11 anos. Há algum tempo passado, eu fiz uma menção em relaçaõ a Danone, por perceber que com todo o potencial que a empresa tem, estavam dormindo no Brasil, há mais de vinte anos. Entretando, essa dormência é justificável, uma vez que em função da linha de seus produtos, que exigem muita qualidade na matéria prima, eles não tinham muito espaço, nem oferta de produtos num raio que lhes garantisse um leite fresco de alta qualidade. Por isso, creio que aquietaran-se na região do Sul de Minas e Leste Paulista, todos esses anos. Agora, com a melhoria da qualidade num raio mais amplo ao redor de sua industria, vejam o salto que estão dando! A Nestlé, sempre foi e será por muitos anos a lider absoluta no Brasil, em função de conhecerem este país muito melhor que nós brasileiros, há quase 100 anos, por isso, colocaram e ainda colocam suas unidades de captação, condensação e acabamento, nos pontos mais estratégicos e mais: nunca deixam o produtor a ver navios. A Itambé é outra gigante, embora praticamente dentro de Minas e um pedacinho de Goiás, continuará  crescendo sem dúvidas, já que fujiu daquele circulo vicioso de velhas cooperativas, passando a ser uma empresa de captação,industrialização e distribuição do produto acabado, agregando valor ao leite, muito embora eu não acredite que o produtor usufrua dos lucros da Industria. Outra empresa embora regional que trabalha sério e que vem subindo no ranking a olhos vistos é a Embaré, especialista em doces e balas de leite, obviamente está diversificando muito para crescer e vai crescer muito. Outras, vão continuar na gangorra do sobe,  desce, algumas desaparecem, outras renascem e assim vamos. Me assusta entretanto é a posição da LBR, resultado de duas fusões para mim muito duvidosas, pois sabendo como começaram, não posso crer que tenham solidês para suportarem sem o BNDES por de trás. Quanto a BRF, Outro produto de fusão desesperada, até foi bom que não conste do ranking. A Tirol de treze Tilias uma empresa antiga, ragional até bem poucos anos, está se projetando através de bons produtos, mas infelizmente como a maioria das outras, está apelando para o UHT. A propósito, até a Nestlé está entrando nessa. Muito desse leite é resultado de cooperativas que não têm capacidade de industrialização e colocam esse leite no chamado Spot. O correto seria que cada cooperativa de porte, tivesse competência para dar um destino mais digno a um produto tão importante como o leite.


Finalizando: Marcelo, a maioria delas, mentem sim, e não fornecem dados corretos.


Eu ainda pediria a gentileza de dois especialistas em números, meus amigos Ramon Benício da Silva e Antonio Elias da Silva para comentárem e darem opiniões sobre este tema.


Abraços,


Clement
PEDRO HENRIQUE L. DE AMORIM

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/05/2011

Paulo Fernando,


Se não me engano ela não divulga esses dados.
PAULO FERNANDO ANDRADE CORREA DA SILVA

VALENÇA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/05/2011

Porque a ausência dos dados da BRF?
EDSON AGOSTINHO TOMAZELLA

SANTA FÉ - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/05/2011

Parabéns Marcelo, muito bom trabalho, mas o que me chamou mas atenção foi o crescimento da produção por produtor da Danone, seguida pela DPA, acredito que o fomento destas empresas deve ser mais estimulante para o produtor.


Um abraço


Edson.
MilkPoint AgriPoint