A redução no nível de atividade econômica, divulgado pelo IBGE, é um fator de preocupação adicional ao mercado de leite.
O comércio varejista teve queda recorde de 11,31% no faturamento de março em relação ao mesmo período do ano anterior, reflexo dos altos juros, da inflação e do desemprego, que limitam o poder de compra da população e desaquece a economia. Foi a maior queda verificada pelo IBGE desde que começou a divulgar a pesquisa, em janeiro de 2001. No ano, o varejo apresenta retração de 5,98%.
São Paulo, principal centro de consumo, foi o Estado que mais pressionou o indicador para baixo em função do seu peso, mas em valores porcentuais, teve menor retração do que outros Estados: 10,79%, contra 14,55% no Rio de Janeiro, 11,83% em Minas Gerais e 14,23% na Bahia (o Rio Grande do Sul apresentou queda de 10,22%).
A notícia não deixa de ser preocupante para o setor de lácteos. O segmento de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo sofreu queda ainda maior, de 13,06% no faturamento em comparação a março do ano passado (Folha Online, 14/05/03).
Outra mostra da retração da economia é a queda da arrecadação de ICMS, que vem surpreendendo o secretário da Fazenda de São Paulo, Eduardo Guardia, que se diz preocupado com o nível de atividade, que se reflete diretamente no imposto, principal fonte de arrecadação dos Estados. Segundo Guardia (Valor Econômico, 16/05), houve piora em abril e maio, destoando do primeiro trimestre. No acumulado do ano em comparação a 2002, em valores corrigidos pelo IGP-DI, a queda real é muito próxima do valor computado para a redução do comércio varejista de março de 2002 para março de 2003: 11,5%.
Na semana passada, em artigo publicado no MilkPoint (Pressão à vista), Maurício Palma Nogueira, da Scot Consultoria, informou que alguns agentes do mercado acreditam em aumento dos estoques de leite por parte das indústrias, fato que, se confirmado, pode pressionar os preços para baixo em plena entrada de entressafra. Ele mostra ainda que, em um mês, os preços de leite no varejo aumentaram 12%, aumento considerável levando-se em conta o curto período de tempo analisado.
Fica fácil compreender que, aumento de preços no varejo aliado à redução da atividade econômica (incluindo retração do próprio comércio varejista) não é uma combinação que se sustenta por muito tempo. Ou a atividade precisa ser retomada - e para isso deve-se pensar em redução de juros, entre outras medidas visando o aquecimento da economia - ou a pressão para redução nos preços de lácteos vai ser real.
Nogueira aponta ainda que houve um descolamento entre os preços no atacado e no varejo, cuja margem se elevou para 16,3% contra 11% nos 12 meses anteriores, em um momento em que produtores e indústrias sentem-se esprimidos entre altos custos e a dificuldade de obter preços compensadores. Esta "estratégia" do varejo, se é que pode se falar assim, já teve final conhecido em outras ocasiões: pressão para redução dos preços no atacado, a começar por empresas com marca mais fraca e menor poder de barganha, com reflexos nos preços ao produtor.
A baixa atividade parece refletir-se também nos dados divulgados nessa semana, relativos às importações e exportações de lácteos. Apesar da significativa queda do dólar nesse ano e da entrada da entressafra, as importações de leite em pó despencaram 77,7% em abril. Não se pode dizer que a queda em abril reflete reversão de uma tendência de alta histórica nessa época. Nos últimos 4 anos, apenas em 2002 houve elevação das importações de março para abril. De qualquer forma, a magnitude da queda nas importações, em um momento de oferta interna tida como ajustada e câmbio mais favorável à importação, merece registro.
É certo que as cotações de lácteos no mercado internacional estão bastante elevadas, se comparadas com o ano anterior. Como bem colocou Vicente Nogueira, da CBCL, a disponibilidade externa de leite é baixa. Argentina, Uruguai, Austrália e Nova Zelândia, países competitivos, não têm grande quantidade de produto para exportação no momento, ao passo que o leite em pó da Comunidade Européia chega aqui a mais de US$ 2.400/tonelada, encarecido pelo imposto e importação e tarifas anti-dumping. No entanto, os preços externos já estavam elevados no início do ano, quando o câmbio estava bem menos atrativo à internalização de lácteos.
Também, há quem sustente ter havido aumento da captação de leite no período, afinal o cenário para o produtor melhorou em relação ao mesmo período do ano passado ou retrasado, sendo este um fator de estímulo, ainda que as informações que nos chegam não sejam totalmente consistentes (em matéria realizada na semana passada pelo MilkPoint, algumas empresas e entidades de produtores reportaram queda na captação acumulada do ano, ao passo que outras indicaram estagnação ou mesmo acréscimo).
É necessário termos os dados do IBGE para confirmar ou não a hipótese de maior produção no primeiro quadrimestre que, caso verdadeira, contribuiria para a maior disponibilidade interna de leite, reduzindo as importações.
No final das contas, é difícil estimar o que tem maior peso na redução das importações de leite: disponibilidade externa reduzida e preços externos inflados, da disponibilidade interna aumentada, ou da retração do consumo e da atividade da economia, tema central deste comentário.
O momento é de atenção, com um olho na fazenda ou na indústria e outro no mercado de lácteos e no noticiário econômico, onde pode estar a pista de como estarão os preços e as vendas do setor nos próximos meses.
O nível de atividade econômica e o mercado de lácteos
A redução no nível de atividade econômica, divulgado pelo IBGE, é um fator de preocupação adicional ao mercado de leite. Saiba mais sobre a atividade do setor.
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