A tabela abaixo traz os países cujos membros enviaram os preços atualizados. Não houve preocupação em avaliar eventuais diferenças na qualidade microbiológica ou nutricional, mas sim comparar os preços do kg de leite nos diversos países.
Tabela. Preços do leite pago ao produtor em diversos países, em US$/kg

Nota-se que a maior parte dos países está na faixa de 26 a 35 centavos de dólar por litro de leite, incluindo os países da Europa e Estados Unidos, que também respondem pela maior parte da produção e do consumo mundial de leite. Na faixa de 16 a 20 centavos, destacam-se a Nova Zelândia, que tem grande importância no comércio internacional de lácteos, e a Índia, maior produtor de leite do mundo (incluindo leite de búfala). Em uma faixa ainda menor, entre 10 e 15 centavos de dólar, encontram-se Austrália, Chile, Lituânia e Uruguai e, finalmente, em uma faixa baíxissima de preços, seguram a lanterna a Argentina, o Brasil e o Zimbabwe.
Obviamente que esta situação reflete o atual momento do câmbio no Brasil e Argentina, pois todos se lembram que há cerca de 4 anos atrás, com a paridade do dólar, real e peso, estávamos, na tabela acima, embolados com a turma dos 26 a 30 centavos, ou, com um pouco de boa vontade, em um patamar intermediário, entre 20 e 26 centavos de dólar.
De qualquer forma, podemos finalmente dizer que temos o leite mais barato do mundo, cerca de 50% do preço recebido pelo eficiente produtor da Nova Zelândia. Mesmo que o câmbio retroceda ou que o aumento de custos que já está sendo sentido (o farelo de soja e o milho que o digam) force uma elevação dos atuais preços pagos pelo leite (com uma retomada da inflação, caso contrário não haverá outro jeito), possivelmente teremos sempre um dos preços mais baixos do mundo.
Mas e daí ?
A pergunta faz sentido. Ter o menor preço do mundo pode ser bom, pois permite competitividade a nível internacional, alavancando as exportações e barrando as importações.
Porém, há algumas ressalvas. Primeiro, os mercados internacionais são altamente distorcidos por subsídios, o que reduz os preços internacionais, anula ou minimiza vantagens competitivas e fazem com que as importações deixem de existir.
Em segundo lugar - e ligado às distorções do mercado externo - ter os menores preços do mundo dificilmente irá coincidir com ter os melhores lucros do mundo... Mesmo em países com custo sabidamente baixo, como a Nova Zelândia, verificou-se enorme redução no número de produtores de 1970 para cá, além de consolidação na estrutura cooperativista, tudo visando manter a competitividade internacional, visto que cerca de 90% da produção deste país são exportados.
Por fim, como o leite é um produto largamente produzido no mundo, e com a tendência do abastecimento dos países ser feito cada vez mais localmente, a porcentagem comercializada internacionalmente é baixa, na faixa de 6% do total. Além disso, os mercados compradores são relativamente restritos, pois os grandes mercados, com alto poder aquisitivo, com Europa e Estados Unidos, têm consumo saturado e já produzem quantidades suficientes ou mesmo excessivas de leite (no caso da Europa).
Em resumo, o discurso que comemora termos o menor preço do mundo deve ser visto com menos ufanismo e com mais reflexão, pois, na prática, pouca coisa positiva tiramos dele.
Melhor seria ter um preço razoável, que tornasse as importações menos atrativas, mas permitisse uma remuneração adequada aos produtores de leite.
