Estocolmo, junho de 2003: o leite brasileiro, sob o olhar dos outros

O evento promoveu o inédito encontro, reunindo 250 pessoas de 35 países para discutir as perspectivas mundiais da cadeia produtiva do leite. Saiba mais aqui!

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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Entre os dias 11 e 13 de junho, tive a oportunidade, junto com outros brasileiros, de participar do evento Hamra 3D, perto de Estocolmo, na Suécia. Hamra é a fazenda da DeLaval, empresa sueca da área de equipamentos de ordenha e que promoveu o inédito encontro, reunindo 250 pessoas de 35 países para discutir as perspectivas mundiais da cadeia produtiva do leite (mais detalhes podem ser vistos em Hamra 3D - Novas Dimensões no Desenvolvimento da Produção de Leite). 3D é a abreviação do nome do encontro - Three Dimensions in Dairy Development (Três Dimensões do Desenvolvimento da Produção de Leite), a saber: o produtor, o consumidor, o animal.

Hamra 3D teve a participação técnica da FAO, órgão das Nações Unidas com foco em alimentos e agricultura, e bateu pesado nos subsídios que são conferidos aos produtores locais e que distorcem o mercado. Essa foi a primeira surpresa que tive: não esperava, de forma alguma que, em um evento dentro da Europa, patrocinado por uma empresa européia, houvesse um posicionamento tão claro contra os subsídios, mesmo que a participação da FAO assim o sugerisse. Em agosto passado, em um evento dentro da sede da própria FAO, em Roma, pude perceber o incômodo que este assunto gerava entre os participantes. Desta vez, não. Os subsídios foram execrados, com posições do tipo "é uma vergonha dar US$ 2,00 por vaca por dia na forma de subsídios, enquanto milhões de pessoas vivem com menos do que isso" (Marit Paulsen, do Parlamento Europeu). O próprio CEO da DeLaval, Joakim Rosengren, colocou a empresa do lado dos que preferem ver um mercado mais livre, evitando as distorções que contribuem para a manutenção das desigualdades existentes.

Claro, não sejamos totalmente ingênuos. Levando-se em conta que o mercado europeu está estagnado, com tendência de declínio, qualquer empresa que tenha plano de crescer (alguma não tem?), deverá olhar para os países emergentes. Logo, partindo desse pressuposto e considerando que os subsídios e o protecionismo dos países ricos limita o desenvolvimento dos países emergentes, fazem todo sentido posicionamentos desta natureza por parte das empresas, mesmo que européias. No entanto, mesmo assim, trata-se de uma posição no mínimo corajosa, visto que a maior parte da receita da DeLaval é gerada na Europa.

Segundo conversas que tive, parece haver também a busca por uma nova ordem após os atentados de 11 de setembro, Guerra do Iraque, etc. Os europeus parecem (em itálico, porque são apenas impressões) mais sensibilizados a essa questão, e o alívio da pobreza e da fome mundial pode ser um passo importante nesse sentido. Fome, por sinal, foi um tema muito enfatizado, o que era de se esperar, dada a participação da FAO, representada pelo seu diretor geral, Jacques Diouf, e Michael Griffin, da divisão de lácteos da entidade. Seguindo essa linha, ficamos bastante surpresos com a repercussão do Programa Fome Zero no exterior. Com algum exagero, mas nem tanto, pode-se dizer que o mundo está acompanhando avidamente o desenrolar do programa, bem como do governo Lula, que caiu nas graças do mundo. Diouf disse a um dos brasileiros presentes que está acompanhando o Fome Zero de perto (já conhecia o projeto antes) e que, dependendo dos resultados, o Fome Zero pode ganhar uma versão mundial. Nada mal.

Mas o Brasil não esteve em evidência apenas pelo Fome Zero; foi um dos 5 países analisados no evento, com 4 apresentações e um vídeo retratando fazendas de leite, leite informal, cenas urbanas, etc, feito pela empresa no ano passado, em visita ao país. Os outros países foram a Nova Zelândia, os Estados Unidos, a Rússia e a União Européia.



Parte da delegação brasileira

Apresentamos (Prof. Luis F. Laranja, Prof. Vidal Pedroso de Faria, Maurício S. Coelho e eu), em linhas gerais, o potencial de crescimento da produção no Brasil e a expectativa de que possamos ter um papel mais importante no mercado mundial de lácteos, em algum momento de nosso futuro não muito distante. Mostramos que, embora sofrendo a competição de outras culturas de exportação, o leite pode competir, desde que em fazendas bem manejadas, além do que o leite, por utilizar em geral áreas pequenas, consegue gerar renda suficiente, o que nem sempre ocorre com culturas que demandam escala de produção. Mostramos, ainda, que o leite é uma importante fonte geradora de empregos e renda no campo, fomentando o desenvolvimento rural e, portanto, devendo receber atenção especial do governo, através de programas estratégicos de compra e distribuição de leite, linhas de crédito, educação e extensão rural e infra-estrutura.

É interessante, no entanto, procurar entender o que os estrangeiros pensam do Brasil. A empresa promotora do evento, com certeza, acredita no potencial do país, caso contrário não abriria espaço a ele no evento, mas e os produtores, empresários, técnicos, jornalistas ? O que pensam eles do Brasil ?

Ao procurar essa resposta, a realidade está longe de ser a que imaginamos (o que, por um lado, é positivo). Talvez isso seja normal, afinal, o agronegócio lácteo está longe de apresentar a consistência que tem a soja e o citros, para ficar em alguns exemplos caseiros. Vendo a apresentação da Rússia, a sensação é a mesma. Cerca de 57% da produção vem de rebanhos de 1 a 2 vacas, mas nosso colega russo disse acreditar que a Rússia poderá alimentar o mundo. Pode ser verdade, mas não deixa de soar um tanto quanto exagerado. Talvez seja essa a percepção dos outros em relação a nós, alimentada pela falta de informações sobre o Brasil.



Apresentação do Prof. Vidal Pedroso de Faria

À exceção dos neozelandeses, de longe os mais preparados para competir, com visão global muito definida, os demais pouco sabem e parecem pouco querer saber do Brasil. O norte-americano, em um dos extremos da escala de interesse e conhecimento global, só se lembra dos estrangeiros quando pisa na ordenha e vê que suas vacas são ordenhadas por mexicanos, guatemaltecos e afins. Têm um sistema de produção extremamente intensivo, onde escala de produção e maximização da produção por vaca são altamente necessários, se vêem às voltas com problemas decorrentes da poluição ambiental pelos dejetos, têm custo elevado (recebendo abaixo de US$ 0,24/kg, não há quem sobreviva) e são voltados para o enorme mercado interno, o que explica a postura de certa forma desinteressada em relação ao resto do mundo.

O produtor neozelandês, esse sim, parece acompanhar de perto o que acontece em nosso país. Vários já estiveram por aqui e tem gente que já comprou terra. Desconfio que, caso o Brasil desabroche algum dia para o mercado internacional de lácteos, os neozelandeses terão alguma participação.

Procurando algo para finalizar o artigo, lembrei-me de uma pergunta que uma cidadã européia me fez, em uma das minhas apresentações:"o Brasil quer exportar; a Rússia, também; a Nova Zelândia já exporta e quer expandir sua participação. Por outro lado, nosso mercado interno diminui. Em resumo, quem vai importar?"

A pergunta faz todo sentido ao lembrarmos que o comércio mundial de lácteos movimenta entre 5 e 6% da produção total, com previsão de atingir apenas 8% no futuro próximo. Mas Ásia, norte da África e alguns países da América Latina se constituirão em bons mercados, desconsiderando, no curto prazo, a possibilidade de exportar para Europa e América do Norte em volume significativo.

No entanto, como me fez lembrar a cidadã européia, o que puxará o crescimento da nossa produção será o aumento da demanda interna por leite, daí a importância do aumento da renda da população, de ações de marketing institucional e de programas como o Fome Zero. O futuro, de fato, é aqui.



Vacas pastando em Hamra
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Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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