Elos competitivos, cadeia competitiva

O Conseleite representa uma esperança de começar a solucionar os conflitos mais básicos para que possamos avançar às etapas seguintes. Saiba mais nesse artigo!

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Nessa semana, assisti a um encontro na FAEMG - Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais, onde os técnicos do Paraná envolvidos na concepção e implantação do Conseleite mostraram às lideranças mineiras o funcionamento do conselho, cujo objetivo é conferir transparência ao mercado de leite, através do acompanhamento dos preços de mercado de diversos produtos lácteos, sugerindo valores de referência com base na participação de cada item no custo final do produto (veja mais em www.faep.com.br/conseleite ).

Além das lideranças de produtores de Minas Gerais, participaram representantes da indústria, como o presidente do Sindileite, representantes da DPA (braço de captação de leite da Nestlé), Itambé e outros laticínios.

Como já abordado nesse espaço e em uma das entrevistas recentes do MilkPoint, o Conseleite é uma idéia nova no leite, adaptada de um modelo bem sucedido já aplicado há vários anos no setor sucro-alcooleiro: cerca de 90% da cana paranaense já é transacionada com base nos preços de referência, ou seja, têm um mecanismo de preço ancorado nos valores calculados pelo Conselho.

Não há dúvida que ainda é cedo para dizer se o modelo paranaense é o melhor para que o setor tenha uma convivência mais harmônica entre produção e indústria, ou mesmo que será viável como foi o Consecana. Afinal, tem apenas 4 meses de vida efetiva. Porém, parece claro que o Paraná iniciou um processo que, no mínimo, vem chamando a atenção de outros estados e até de países vizinhos. Mato Grosso do Sul foi o primeiro a procurar conhecer a experiência paranaense; Santa Catarina e Rio Grande do Sul já demonstram também interesse e, agora, Minas Gerais. É possível que o caminho das pedras seja mais tortuoso no Estado que encabeça a produção de leite do país e que apresenta um cenário distinto do Paraná, talvez gerando adaptações no modelo paranaense ou a aplicação regionalizada, dadas as dimensões e particularidades de cada região. Porém, o fato do assunto já ser debatido representa um passo a mais no melhor relacionamento entre indústria e produtor. Se a idéia vingar em Minas, a possibilidade de irradiação para o país inteiro fica bem mais palpável.

Não tenho dúvida que a busca de transparência e do re-equilíbrio de forças na cadeia é o caminho a seguir, partindo-se do pressuposto de que devemos compartilhar os riscos ao longo da cadeia, pelo menos até se chegar no varejo. Temos uma situação sui-generis no mercado de leite: parece sempre ruim para todos, pois o elo que admitir que vive momentos favoráveis de mercado está (ou é essa a percepção) abrindo a guarda para pressões vindas do segmento que não passa ou não acha que passa pelo mesmo momento. Assim, a indústria sempre mostra preocupação e alega dificuldades, o mesmo ocorrendo com os produtores. Claro que há momentos de dificuldades para um, para o outro ou para os dois, porém não faz sentido admitir, ou melhor, não faria sentido admitir que sempre só há momentos de dificuldades. Nessa relação conflituosa e de informações imperfeitas, o produtor, com menor poder de barganha, geralmente leva a pior, mas a indústria muitas vezes colhe também seus prejuízos. Se outras cadeias conseguiram domesticar essa relação, porque o leite não há de conseguir ?

Isso tudo faz com que a relação entre produtor e indústria fique sempre restrita às questões mais imediatas, como o preço no mês seguinte, não discutindo questões estratégicas, como a elevação do consumo, a valorização do leite, a inserção do país no mercado externo, a exploração de canais alternativos de distribuição e por aí vai.

O resultado é o enfraquecimento conjunto dos dois elos e a perda de competitividade na cadeia. Michael Porter, um dos gurus da administração, diz que nenhuma empresa pode ser competitiva tendo uma rede de fornecedores não competitiva. A relação desarmônica de hoje, a falta de sinalização clara em relação às tendências, as mudanças unilaterais e bruscas de preços em vários momentos da história recente do setor não contribuem para que o produtor planeje sua atividade, colocando em risco sua competitividade. No levantamento Top 100 que realizamos há pouco, um número razoável de produtores não soube responder qual seria a sua estratégia em 2003: aumentar a produção, diminuir, manter ou mesmo parar - e estamos falando dos 100 maiores !

Paralelamente, o permanente conflito impede relações de longo prazo, minando a confiança mútua e abrindo espaço para um comportamento oportunista de ambas as partes.

Esse cenário fica ainda mais crítico ao compararmos nossa situação com o que vem ocorrendo em outros países, especialmente Austrália e Nova Zelândia. Com a cadeia articulada, já se faz cenários para daqui a 15 ou 20 anos, cenários estes que vão orientar desde já as ações da produção e da indústria láctea local, tanto em relação à produção para mercados internos como, principalmente, visando as ações no mercado mundial, onde temos a expectativa também de vir a competir.

Por tudo isso, o Conseleite representa uma esperança de começar a solucionar os conflitos mais básicos para que possamos avançar às etapas seguintes, que já estão sendo percorridas pelos nossos principais concorrentes. Se obtivermos sucesso nessa caminhada, a pujança de outras cadeias do agronegócio, que hoje invejamos, pode também fazer parte da cadeia do leite. Caso contrário, o crescimento será incerto e irregular. Parece que estamos acordando para essa realidade, daí nossa enorme expectativa em relação à iniciativa pioneira do Paraná, que começa a ganhar espaço no país.

Clique aqui para ver entrevista sobre o Conseleite
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Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA
MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/04/2003

A implantação do Conseleite no estado de Minas seria o primeiro passo para harmonizar as relações entre o produtor e a indústria funcionando como referência de mercado negociada para a concretização do passo seguinte, a meu ver imprescindível, que seria a contratação do leite in natura.
José Almeida de Oliveira
JOSÉ ALMEIDA DE OLIVEIRA

MAJOR ISIDORO - ALAGOAS - EMPRESÁRIO

EM 12/04/2003

Gostaria de comunicar ao milkpoint que a FAEAL - Federação de Agricultura do Estado de Alagoas mantém contato com a CNA no sentido da implantação do Conseleite em nosso Estado. No entanto, existe a possibilidade veemente em termos de Nordeste. Não medimos esforços no sentido de se colocar em prática essa medida feliz do Estado do Paraná entre nós. Agradecemos pelo comentário oportuno do Marcelo.
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