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E por falar em inovação...

Neste mês de junho, em meio a Copa do Mundo, tive a oportunidade de dar uma palestra no Global Dairy Congress, em Istambul, na Turquia. O evento, organizado pela consultoria britânica Zenith, trata principalmente de inovação e empreendedorismo em lácteos, trazendo exemplos de lançamentos e histórias de sucesso do mundo todo.

Global Dairy Congress, Istambul

Tirando o fato de ter de assistir a Brasil e México sozinho em um quarto de hotel e ainda por cima narrado em turco, a experiência em Istambul foi muito interessante, não só pelo evento em si, mas por conhecer essa cidade carregada de história, que já foi sede dos Impérios Bizantino, Romano e Otomano. Istambul é o elo entre Ocidente e Oriente: onde termina a Europa e onde começa o Oriente Médio.

Istambul, em meio ao estreito de Bósforo, separando Ásia e Europa e o Mar de Mármara do Mar Negro

Aprendi que o consumo de iogurte na Turquia é dos mais altos do mundo, acima de 30 kg por pessoa/ano, mais de 4 vezes acima do nosso (7,4 kg) e mais de 3 vezes o norte-americano. Na realidade, iogurte é uma palavra turca e - o leitor já deve imaginar – a iguaria foi mesmo inventada no país.

É da Turquia que, indiretamente, surgiu talvez o caso mais emblemático de sucesso no setor lácteo dos últimos 10 anos. Trata-se da Chobani (www.chobani.com), empresa norte-americana fundada pelo turco Hamdi Ulukaya, que se perguntava porque os iogurtes norte-americanos não eram tão saborosos quanto os de sua terra natal. Insight mais simples, impossível!

Simplicidade, sabor, e origem são as bases do iogurte grego da Chobani

Com base nessa percepção e na oportunidade de adquirir uma fábrica de iogurtes recém-fechada, no estado de Nova Iorque, Hamdi começou a produzir iogurte grego com as características que acreditava. Isso foi em 2005. Hoje, menos de 10 anos depois e faturamento projetado de US$ 1 bilhão/ano em 2014, a Chobani é a líder da categoria nos EUA e a terceira no mercado de iogurtes dos Estados Unidos. Hamdi foi eleito empreendedor do ano pela consultoria Ernst & Young em 2013, feito considerável ao lembrarmos que o segmento em que a empresa atua não está entre os que figuram normalmente em homenagens como esta.

Além da qualidade do produto, a empresa se baseia em ingredientes naturais, uso de leite próximo das fábricas e sustentabilidade, tornando-se a queridinha dos norte-americanos. Criou ainda uma loja-conceito no bairro SoHo, em Mahattan/NY, onde testa novas receitas e se aproxima do consumidor. É interessante notar como a Chobani expande as fronteiras do segmento, como por exemplo em receitas à base de salmão defumado e dill: assim como na Turquia, o iogurte é consumido misturado à comida e não apenas como componente do café da manhã.

Loja-conceito em Manhattan

Outro exemplo interessante vem da empresa Powerful Yogurt (http://www.powerful.yt), do venezuelano Carlos Ramirez, que foi fazer MBA nos EUA e por lá ficou. Ao pesquisar o mercado de iogurtes, percebeu uma série de mitos que criavam oportunidades. Um destes mitos era que produtos à base de proteínas lácteas eram buscados principalmente por “ratos” de academia: na verdade, 80% dos clientes eram pessoas normais, que apenas queriam se sentir melhor quanto às suas opções de consumo. Ainda, descobriu que o mercado de iogurtes gregos era movimentado principalmente por homens, ao contrário das crenças de que seriam mulheres as compradoras.


Com base nisso e com um enfoque de marketing disruptivo, ele lançou o Powerful Yogurt, unindo sabor, ingredientes naturais e da moda (sementes de quinoa e linhaça, por exemplo) e um teor mais elevado de proteína – 25 gramas em cerca de 237 gramas de produto (mais de 10%).

Além disso, a embalagem (além do próprio tamanho) e ações de marketing fazem com que o produto seja direcionado aos homens. Patrocínio de equipes de automobilismo e motociclismo, por exemplo, até a venda em locais próximos a academias de ginástica fazem parte da estratégia de marketing. Como parte da ação, está a campanha “find you innner abs” (ache seus músculos do abdomên, em tradução livre), na qual um ultrassom mostra os músculos do abdômen em pessoas normais, ainda que muitas vezes sob espessa camada de gordura.

Com a iniciativa, Remirez levou o prêmio de melhor iogurte na Global Dairy Award de 2013. O MilkPoint já trouxe matérias sobre a empresa (http://bit.ly/1mgA1Sh), que também foi retratada na palestra sobre Inovação do Professor Antônio Fernandes, da UFV, no II Encontro de Laticínios (Uberlândia, setembro de 2013). Como extensão da categoria, a empresa lançou barras de cereais com o mesmo conceito.

Outro caso interessante foi o recentemente retratado no post de Juliana Santin (http://bit.ly/1okj33V), sobre os iogurtes Nice Dreams, um licenciamento da marca Cheech and Chong, que remete a um filme do final da década de 70 em que dois jovens ganharam fortunas vendendo sorvete com maconha. No caso da linha Relaxation Ice Creams, da Bebida Beverage Company, o produto contém melatonina, valeriana (planta da Europa e Ásia que tem componentes relaxantes), rosa mosqueta e cânhamo (maconha, imagino que em doses aprovadas pelos órgãos reguladores dos EUA).



O objetivo é utilizar o iogurte turbinado com estes ingredientes como um vetor para reduzir o stress e aumentar o bem-estar de quem o consome.

Ainda que, neste caso específico e mesmo no exemplo do Powerful Yogurt provavelmente os produtos teriam dificuldades de serem registrados por aqui, o evento me deu a percepção de que inovamos pouco no Brasil.

Apesar de termos nichos potenciais de mercado nas diversas classes sociais, a tendência dos laticínios é pela commodity, caminho que via de regra não apresenta final feliz. Essa discussão é especialmente importante em momentos em que as margens estão baixas – e os dados indicam que parecem ser estruturalmente baixas em alguns produtos, exceto em raros momentos de escassez.

Licenciamento de tecnologias, parcerias estratégicas, investimento em P&D e foco em marketing (incluindo inteligência de marketing) são os caminhos para se reverter esse quadro. No entanto, poucas são as empresas que já perceberam isso e investem em inovação. A maioria, quando muito, copia tendências consolidadas achando que é inovação. Na maior parte das vezes, já não é mais.

Que empresas estão, de fato, estudando o mercado, identificando oportunidades, ousando em lançamentos não ortodoxos? Claro, há a questão da regulamentação, que parece aqui muito mais restritiva do que em países como os Estados Unidos. Para isso, é fundamental que o setor se organize e procure influenciar os legisladores, caso contrário dificilmente teremos nossas Chobanis por aqui.
 

ARTIGO EXCLUSIVO | Este artigo é de uso exclusivo do MilkPoint, não sendo permitida sua cópia e/ou réplica sem prévia autorização do portal e do(s) autor(es) do artigo.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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RAIMUNDO JOSÉ CAZOLA

EM 06/07/2014

achei seu artigo muito interessante pois na verdade devemos inovar de acordo os habitos alimentares locais e por conseguinte fazelos publicos quicaz globalizalos desde que justifiquemos com uma sustentañçao cientifica que abone para a saude humana em geral. trabalho em formulañçao e produçao de leites e derivados a varios anos e tenho ensaiado algumas inovañçoes mas no meu Pais Angola o mercaco lacteo ainda se bate por expansao territorial e popupacional pelo que .e mais facil receber o que vem de fora como novo doque aquilo que se cria localmente.
NEI ANTONIO KUKLA

UNIÃO DA VITÓRIA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 03/07/2014

Somente para ilustrar, li um artigo em que um técnico durante uma feira de agronegócios falava que em sua visita à Itália a cerca de 20 anos, os sistemas de ordenha que hoje estamos empregando no Brasil, lé era realidade naquela época.

Precisamos inovar!

Não somente em desenvolvimento de produtos, mas em equipamentos, uso de tecnologia. O caminho é grande, porém as oportunidades de fortalecimento são inúmeras.
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 02/07/2014

Obrigado pela participação Elvio, Marcelo Rezende, Wagner e Marcelo Duarte.



Um outro ponto que colocaria na questão é, em minha opinião, a baixa interação entre entidades públicas de pesquisa e as empresas. Essas entidades podem contribuir muito para o desenvolvimento e licenciamento de novos produtos.



Ainda, a busca por parcerias com empresas que possuem tecnologias e produtos inovadores é outra forma de alavancar inovação.
ELDER MARCELO DUARTE

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 02/07/2014

Marcelo, muito bem !

Com certeza seu artigo contribui para despertar na indústria brasileira mais investimentos em inovações, criando novas categorias de lácteos.

Quanto a regulamentação restritiva no Brasil, acho que avançamos muito nos últimos anos, e associações de classe como a recém criada VIVA LÁCTEOS podem contribuir com o Ministério da Agricultura, modernizando esses regulamentos.
WAGNER BESKOW

CRUZ ALTA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 01/07/2014

Gostei muito de teu artigo, Marcelo, tanto no estilo do relato (conseguiste transportar o leitor para lá) como na mensagem principal.



Aqui nos falta inovação, sim. Digo, honesta e de interesse do consumidor, pois de outro tipo temos de sobra, que daria para exportar.



O mundo conhece, olha, avalia e extrai componentes do leite que aqui nem se sonha ainda. Para quem se interessa por esta área, recomendo assinar a newsletter do http://www.dairyreporter.com (canto direito superior). Vale a pena.



Acredito em nosso potencial, mas acho que nesse caso está adormecido pela complacência. Guardadas as astronômicas proporções e reconhecidas as diferenças, algo parecido tem acontecido com os EUA, não na falta de inovação, mas em ter historicamente um mercado domestico vasto que lhes bastava. Tudo mudou quando a necessidade de exportar bateu à porta e olha eles aí hoje...


MARCELO DE REZENDE

LONDRINA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 01/07/2014

Parabéns pelo artigo, Marcelo!



Em 2005 visitamos a cooperativa Tatua na Nova Zelândia e a sensação foi a mesma retratada por você: aqui no Brasil inovamos muito pouco, investimos muito pouco na pesquisa e no desenvolvimento de produtos e por isso fugimos muito pouco do comum.



Um abraço.
ELVIS LUÍS BASSO

SANTO ÂNGELO - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 01/07/2014

Muito bom Marcelo, acredito que o leite no brasil tem um longo caminho para remunerar bem produtores e industria (os que mais reclamam das margens), falta qualidade na matéria prima e uma industria que agregue valor através de produtos inovadores e com qualidade superior e claro com investimentos pesados em marketing. Afinal vejo uma agregação de valor em bebidas alcoólicas e refrigerantes fantásticas, produtos que "prejudicam a saúde".



"Leite em pó e UHT deve ser a ultima alternativa da industria com o leite, pois não agregam valor, onde o leite deve ser transformado nos mesmos em ultimo caso e não como principal objetivo da empresa. (gosto de empresas que tem seu portfólio bem diversificado).