Debate na Expomilk: a necessidade de por em prática o que sabemos que precisa ser feito
A principal atração da Expomilk 2003, pelo menos para quem se interessa pelo futuro da produção de leite no Brasil, foi o debate Como ganhar dinheiro no leite?
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Vários fatores contribuiram para o sucesso da iniciativa, a começar pela sua própria concepção, ao lançar mão de um título direto e atrativo (apesar do Roberto Jank não ter gostado) e propor um formato participativo, chamando indústria, produtor, universidade, imprensa e o público para discutir a cadeia de produção de leite no Brasil. Parabéns, portanto, à Leite Brasil, que teve a idéia e organizou o evento, que reuniu algo em torno de 600 pessoas dos vários elos da cadeia do leite (o que deu consistência e representatividade ao mesmo).
Muito mais do que a idéia, o título ou o formato, o que conferiu enorme significância ao evento foi a qualidade do debate, tanto pelas perguntas como pelas respostas dos entrevistados, Roberto Jank, Sebastião T. Gomes e Valter Galan.
No entanto, um evento desta natureza, onde praticamente todos os pontos que freqüentam as mesas de discussão do setor foram abertamente discutidos e debatidos, corre o risco de encerrar-se em si mesmo caso não se construa uma agenda a partir dos pontos debatidos. Certamente, um novo Como Ganhar Dinheiro no Leite? pode e deve ser realizado em 2004, mas seria frustrante se os mesmos pontos fossem eternamente discutidos, sem que tenhamos uma evolução perceptível, o que já ocorreu em muitas outras iniciativas promissoras.
Desta forma, é fundamental que as idéias que ali foram discutidas sejam organizadas e possam ser trabalhadas pelo setor, pois muita coisa boa foi abordada, ainda que o consenso não tenha sido absoluto (e nem poderia ser). O objetivo deste artigo é justamente relacionar estes pontos de forma ordenada, para que haja uma reflexão de todos os envolvidos e possamos de fato caminhar no debate.
Relação produtor/indústria: como não poderia deixar de ser, este tema foi recorrente no debate, ainda mais pela presença de um representante (Galan) da maior empresa captadora de leite no Brasil, a DPA, joint venture da Nestlé com a Fonterra para as Américas. Eu diria que este foi o ponto mais importante do debate. É necessário diminuir os atritos para fazer frente à pressão cada vez maior do varejo. Produtor e indústria estão no mesmo barco, apesar de nem sempre parecer assim. Prefiro optar pela via otimista: a própria participação de uma indústria em um debate como esse, algo impensável tempos atrás, pode sinalizar o caminho no sentido do aumento da transparência. O que pode ser feito de concreto em relação a isso? O Conseleite, no Paraná, pode ser uma solução, ao trazer transparência ao mercado. Marcello Moura Campos Filho, presidente da Leite São Paulo, no entanto, coloca uma questão interessante em uma carta enviada ao MilkPoint: os preços no Paraná estão de fato seguindo o que o Conseleite indica? Os produtores estão satisfeitos? São questões importantes e que precisam ser analisadas, mas de qualquer modo, trata-se de uma iniciativa no sentido de reduzir os conflitos, ainda que haja a necessidade de ajustes aqui e ali. O importante é que produtor e indústria estejam cientes da necessidade de baixar as armas e dialogar, ainda que, para muitos, isso pareça hoje capitulação. Se o Conseleite está funcionando ou não, se é solução universal ou, dadas as diferenças regionais, não se aplica em todos os estados, que se pense em outras formas de reduzir o atrito e nos posicionarmos de forma mais coesa junto ao varejo, o único a ganhar com este conflito. A citricultura, cadeia ainda mais concentrada do que a do leite, se pauta hoje em contratos de longo prazo entre produtor e indústria, de até quinze anos, indexados em caixas de laranja. O que vale é garantir o suprimento de laranja de qualidade, a partir de produtores eficientes e profissionais. Afinal, nenhuma empresa pode ser eficiente se seus fornecedores também não forem. Porque o leite não pode trilhar o mesmo caminho?
Cooperativismo: conforme insistiu Roberto Jank, o cooperativismo precisa ser fomentado, mas a partir de uma concepção diferente do que historicamente vem ocorrendo. Jank, de longe o entrevistado mais polêmico do debate, foi direto: Itambé, CCL, Centroleite e Nilza deveriam se fundir para fazer frente às demais indústrias e à concentração no varejo. Tem sido assim em todos os países com produção de leite expressiva. Cooperativismo fraco e fragmentado é o caminho certo para o fim, dada a complexidade do mercado.
Sistemas de produção: esta interminável discussão precisaria ganhar contornos mais concretos. Na opinião de Jank - no ápice da polêmica - há muito modismo, como a questão do leite a pasto. Como bem colocou Teixeira Gomes, não há receita de bolo; cada caso é um caso, dependendo da realidade da região, incluindo o custo de oportunidade. Um sistema extensivo pode se viabilizar em lugar de terra barata, mas perde sentido onde o custo de oportunidade da terra é alto. Se analisarmos os indicadores zootécnicos em São Paulo, fica fácil ver que não há como competir com arrendamento de cana ou laranja. Se continuar assim, nunca será um bom negócio.
Aqui vai novamente a opinião do moderador: está certo que não há recomendação universal e que não há propriedades iguais, mas somos especialmente carentes em referências que possam orientar os produtores, extensionistas e mesmo os laticínios que atuam na extensão. Um trabalho interessante é o realizado por Enio Krug, da Elegê, no sul do país, compilado no livro Os Melhores do Leite, onde as propriedades com melhor desempenho econômico são analisadas quanto aos sistemas de produção e índices zootécnicos. De resto, em grande parte, as análises e as opiniões não são acompanhadas de informações embasadas em números consistentes, o que torna muitas vezes a discussão passional, quando não inócua. Porque não levantar, de forma bem objetiva, o que fazem e quem são os produtores que estão ganhando dinheiro com o leite, em cada região? Desde que milito no setor, há uns 12 anos, a discussão é a mesma, tendo avançado muito pouco, pois nunca é baseada em informações abrangentes, analisadas em um período de tempo longo.
Leite é bom negócio? Esse ponto foi também muito enfatizado no debate, especialmente pelo Prof. Sebastião e pelo Roberto, até com alguma convergência. Para ambos, é preciso ter escala de produção; lucro por litro não quer dizer muita coisa se a escala de produção for pequena. Bom ou mau negócio, depende do custo de oportunidade dos ativos, como terra, capital e trabalho do produtor. Roberto deu um exemplo: o produtor com 25 mil kg de leite/ha e margem de US$ 0,01/litro (ou qualquer combinação que gere US$ 250/ha/ano) tem renda equivalente ao arrendamento para cana, sendo competitivo. Vou aqui discordar um pouco: para ganhar a mesma coisa, muitos produtores vão optar pela cana, com retorno certo e menos trabalho. É isso que ocorre hoje no Sul, com a soja. Embora o leite, se bem explorado, possa até dar mais lucro, é muito mais fácil atingir um valor aceitável de remuneração com a soja.
Futuro do pequeno produtor: cada um a seu modo, todos os participantes indicaram que, ao pequeno produtor, só restam duas alternativas: crescer, com produtividade e qualidade, ou deixar a atividade. Galan amenizou, mencionando a viabilidade dos tanques comunitários, mas por outro lado a DPA tem mudado consideravelmente o perfil médio do seu produtor de leite, que hoje produz muito mais do que produzia há alguns anos. A pequena propriedade pode se manter, desde que com alta produtividade, caso contrário não há margem para manter o produtor e, posteriormente, seus filhos, na atividade. É uma questão de tempo, como ocorreu nos demais países - basta constatar que, além do efeito da escala no custo de produção, vários laticínios pagam preços diferenciados em função do volume, o que levará à perda de competitividade dos pequenos e à diminuição do número de produtores, se depender unicamente do mercado.
Pensar no número de produtores, aliás, pode ter um efeito paralisante em relação a diversas ações envolvendo a organização dos produtores. Afinal, organizar 800.000 produtores é uma tarefa impossível, mas quantos de fato representam a produção de leite formal no país? Quantos realmente vêem a atividade de forma empresarial? De acordo com o Top 100, levantamento que fazemos anualmente e que reúne os 100 maiores produtores de leite, estes respondem por 2,2% da produção formal. A Argentina tem 15.000 produtores e produz 8 bilhões de litros ao ano. Será que 10.000 ou 20.000 produtores, que cabem num estádio de futebol, não são responsáveis pela maior parte da produção de leite formal no país? Aposto que sim. Está na hora de pensarmos nessa questão, pois aí pode estar o caminho para ações coordenadas (marketing institucional, informações de mercado, controle de oferta, etc.). Claro que a questão social continuará e deve ser discutida e equacionada em fóruns apropriados, mas pensando em volume de leite, os maiores produtores devem ser responsáveis pela parte mais expressiva da produção.
Marketing institucional: O que limita mais o consumo de leite: falta de marketing institucional ou falta de renda da população? Galan enfatizou a renda, porém sem negar a importância do marketing. Jank, por sua vez, foi taxativo ao afirmar que o marketing é o principal limitante. Acredito que ambos os fatores são limitantes. Sempre que há aumento de renda, há aumento do consumo de leite. Isso não quer dizer que não haja espaço para elevar significativamente o consumo através do marketing institucional coordenado por uma entidade com este objetivo, como a Láctea Brasil. Além disso, marketing institucional não é só propaganda, ainda que esta seja fundamental. É relações públicas com a mídia, com formadores de opinião (médicos, nutricionistas), é defesa do setor, é divulgação de soluções para a indústria, como novas formas de agregar valor aos lácteos, é o fomento às exportações da marca Brasil em outros países. É o momento do setor pensar em como multiplicar o exemplo de sucesso da Láctea Brasil, ou deixar para a próxima geração, como disse o Roberto Jank. Podemos mudar a renda da população? Não, mas o marketing do nosso produto, podemos.
Exportações: todos apontam o Brasil como um potencial exportador para um futuro não muito distante. A DPA, inclusive, dá indícios de que caminha no sentido do pagamento por sólidos, algo muito sensato ao se pensar em exportação de lácteos. Embora Galan tenha dito que, para isso ocorrer é importante que outros laticínios também o façam, o fato é que a empresa patrocinou um concurso leiteiro baseado em sólidos do leite na Expomilk, algo inusitado em eventos deste tipo, além de dizer que a DPA quer pagar por sólidos o quanto antes. São fatos novos e importantes e que podem abrir novas oportunidades de mercado.
Papel do governo: o papel do governo é normatizar e fiscalizar. Também, deve atuar como mediador em câmaras setoriais e evitar que haja abusos como importações desleais. Não cabe ao governo, porém, resolver todos os problemas do setor, como supostamente ocorria na época do tabelamento. (Nota pós-publicação do artigo: políticas compensatórias para os menos favorecidos também são de responsabilidade principalmente do governo, mas o assunto deve também fazer parte das discussões e ações da sociedade). Isso cabe ao setor privado. Conseguiremos? É preciso tentar.
Estes foram, na minha opinião, os pontos mais importantes discutidos no debate. As observações são todas de minha responsabilidade e não tenho a pretensão de ser definitivo. Gostaria, inclusive, de saber a opinião dos nossos leitores, que estiveram ou não no debate (a versão não opinativa será disponibilizada na seção Especiais, nesta quinta, dia 06/11).
Finalizando, acredito que o setor saiu mais forte do debate. Resta saber se vamos assimilar e colocar em prática o que foi discutido - e que sabemos ser necessário fazer.
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SÃO PAULO - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 14/11/2003
Gostaria de comentar este assunto: mais uma vez quero te parabenizar pelo evento. Mas gostaria de salientar uma coisa:
As cooperativas em nossa região, Ibiúna (SP), iniciaram no século 20, +- 1916, com a imigração japonesa.
Tínhamos um japonês que plantava batata, juntou com outro que plantava alface, que juntou com outro que plantava cebola e assim por diante.
Montaram uma Cooperativa onde todos trabalhavam e juntos vendiam. A Cooperativa foi crescendo de 5 para 20 cooperados até 100 cooperados. Antes, o primeiro japonês era o Presidente, o segundo Vice, o terceiro Tesoureiro e assim se revezavam e tudo ia bem.
Como a coisa cresceu, os primeiros não tinham mais tempo de tomar conta. Assim, como já tinha um bom faturamento, contrataram um Administrador, formado nas melhores escolas do Brasil ou do exterior.
O Administrador, moço e bom de cabeça, tem duas maneiras de ganhar dinheiro. Ou ele ganha na compra ou ganha na venda.
Ele é contratado pela Cooperativa, não consegue aumentar o preço de venda, pois o mercado não permite. Ele só pode tirar dinheiro dos cooperados. Ou seja, quebra as pessoas que o geraram. Isto foi visto em todas as Cooperativas.
No caso do leite, as pessoas não se aperceberam totalmente disto. No nosso curso (online sobre Gestão da Rotina), apareceram pessoas discutindo variações do valor do leite de 0,02 centavos. Se fôssemos donos do MacDonalds, R$ 0,02 por hamburger seria importante, mas para 1.000 litros/dia a variação seria de R$20,00.
Continuo acreditando que o leite dá lucro a longo prazo. Produzo leite e embalo na fazenda. Estávamos sendo bloqueados pelo varejo, abaixamos o preço. Nosso slogan é " Leite com gosto de Leite. O sabor de antigamente, beba leite Ibiúna" estamos vendendo tudo. Estamos a procura de mais vacas.
Abraços
João Procopio
LONDRINA - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 13/11/2003
<b>Resposta Roberto Jank Jr.</b>:
Espero não ter deixado aos leitores do MilkPoint a mesma impressão que teve o Sr. Marcelo Resende.
Deixei claro no debate que as soluções para produção primária são individuais. Recomendei e apresentei um retorno adequado sobre capital investido, se alcançarmos produtividades de leite entre 20 e 30 ton/ha/ano. Em nenhum momento mencionei o valor de R$ 2,90/litro (ou U$ 1,00/litro), deve haver confusão na casa da vírgula; meu número era U$ 0,01(um centavo) de margem por litro, possibilitando R.S.C justificável para nos equipararmos ao arrendamento de cana de açucar em SP.
Quanto custa produzir e qual o modelo de produção são temas para outro debate; não fez parte do que discutimos em 30/10 na Expomilk. Não falei sobre meu sistema de produção a não ser pontualmente, quando questionado. Modestamente afirmando, conheço bem a pecuária leiteira no Brasil e em várias situações de sucesso em outros países. Me coloco à disposição para o debate construtivo e espero ter sido claro em minhas observações.

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 11/11/2003
O título do debate me pareceu excelente, mas fiquei desapontado: li duas vezes e não consegui encontrar nenhuma referência concreta de como ganhar dinheiro com o leite. Será que vai ser com o novo imposto para marketing?
Tem gente ganhando com o leite mais que com a cana, mas talvez isso seja apenas um modismo. Enfim, sua iniciativa de identificar quem ganha dinheiro e como o faz me parece utilíssima, tomara que possa concretizá-la. Entretanto, o que se vê é que os que ganham dinheiro produzindo leite não tem vez na mídia. Deve haver alguma explicação.

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 10/11/2003
João Gandolfi

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 09/11/2003
síntese precisa e interessante feita sobre o encontro como ganhar dinheiro no leite. Impossibilitado de comparecer, tive oportunidade de saber o que foi tratado, e seus comentários trouxeram algo a mais, de maneira que a minha frustração por não participar foi compensada pelo que li.
Confesso que não esperava ver o tema proposto com o título sugestivo, e por isso a Leite Brasil também está de parabéns pela iniciativa.

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 08/11/2003

MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 08/11/2003
Os hospitais são os produtores de leite que, para não fecharem, aceitam receber preços que não pagam seus serviços. O dia que os hospitais pararem de atender, o plano de saúde terá que chegar às empresas e dizer: não posso continuar cobrando esses preços, não há mais hospitais que queiram atender. Aí os compradores de planos terão que reajustar os valores.
No caso do leite os grandes supermercados se dão ao direito de colocar o preço de venda lá embaixo porque os laticínios fazem uma concorrência predatória entre si e, com isso, não podem pagar melhor ao produtor.
Concordo que, enquanto isso, sobreviverão os de maior escala de produção e melhor qualidade. Mas só durante algum tempo! Quando surgem oportunidades melhores abandonam o que foi ao longo do tempo uma tradição regional ou familiar.
A era global, queiramos ou não, nos obrigará a rever os conceitos e as posturas frente a todas as atividades, inclusive aquelas diretamente ligadas à qualidade de vida, à educação dos filhos, da vida em família, etc.
Sintetizando o meu sentir, diria: o avanço tecnológico e a desorientação que ele trouxe para a sociedade está gerando a decadência da cultura vigente que, por sua vez, forçará o surgimento de uma nova cultura baseada em conceitos universais mais sólidos. Desculpe ter me alongado. Renovo os meus cumprimentos à equipe MilkPoint que muito admiro. José Alberto da Silveira
TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - COMÉRCIO DE CAFÉ (B2B)
EM 08/11/2003
Não posso deixar de parabenizar o Sr. Valter Galan e a DPA pelo simples fato de ter participado do debate. Espero, sinceramente, que este seja um dos passos iniciais, e novamente citando Roberto Jank, se crie uma agenda, no sentido de, estabelecer um mínimo de coordenação na sua cadeia de suprimentos, baseando-se no conceito, que você bem abordou Marcelo, de que o desenvolvimento de uma cadeia passa pela contemplação das necessidades de todos os seus elos.
Quero também tocar no ponto da tal "competitividade", levantada numa das cartas que, assim como esta, comentaram seu artigo. E enfatizar a questão da competição com outras atividades (soja, cana, eucalipto - aqui em nossa região), que possuem, dentre as vantagens comparativas, a menor exposição aos recorrentes e desgastantes conflitos existentes na cadeia do leite. Não basta apenas ser remuneradora, a atividade leiteira deve ser atraente também por oferecer segurança quanto à possibilidade de obtenção da rentabilidade e, se possível, gerar aporrinhações com menor freqüência do que hoje ocorre. Apenas a título de exemplo, sem querer bater na mesma tecla, ou reacender conflitos, não consigo me conformar em ter que continuar a ligar para o cliente de nosso leite solicitando regularidade na coleta, o que fiz exatamente antes de sentar frente ao computador para ler a atualização semanal do MilkPoint.
Que este debate tenha, realmente, iniciado novos tempos!

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 08/11/2003
Caro Marcelo
Parabens pelo artigo, e principalmente pelo título "Debate na Expomilk : a necessidade de por em prática o que sabemos que precisa ser feito".
Todos produtores de leite sabem que são necessárias melhores relações entre produtor/indústria, fortalecer o cooperativismo, escolher sistemas de produção adequados ao mercado e principalmente à realidade técnico/econômica do produtor, resolver o problema do pequeno produtor num país com problemas sociais e dificuldades de geração de empregos, que é necessário fazer o marketing institucional do leite, que é importante exportar, que o governo precisa normatizar, regular e agir como mediador em câmaras setoriais e evitar abusos de poder econômico e importações desleais.
Realmente, se não todos, a maioria dos produtores sabe o que é necessário e que é preciso colocar em prática o que precisa ser feito.
Se o que sabemos que precisa ser feito não for feito, quem é o maior prejudicado no agronegócio do leite? Obviamente é o produtor, o elo mais fraco da cadeia pela sua desorganização e falta de união. São, portanto, os produtores os que mais têm que lutar para o que é preciso fazer seja efetivamente feito!
Sabemos "o que fazer". Precisamos discutir "como fazer". A minha sugestão é que não esperemos um ano, um próximo debate na Expomilk, para começarmos a discutir "como fazer". Vamos começar já esse debate, nas cooperativas e associações de produtores, nos sindicatos rurais e na CNA, e até entre grupos de produtores conhecidos. Vamos começar a fazer já esse trabalho da porteira para fora que o produtor sabe que é necessário e que precisa fazer, mas que tem relegado a um plano muito secundário em função do produtor procurar ganhar mais produtividade e resultados da porteira para dentro.
Diz um velho ditado popular que uma andorinha sozinha não faz verão. Da mesma forma o produtor sozinho, por melhor que seja a produtividade que consiga da porteira para dentro, continuará amargando preços vis por seu leite. Foi assim em todo século passado. E sabem por que? Por que se o produtor não tiver poder político e poder econômico, todo ganho de produtividade e resultado que tiver lhe será subtraído, repassado para os elos fortes da cadeia, que tem força política e econômica.
Isso é realidade no mundo real, principalmente no mundo globalizado que cada vez mais concentra poder econômico e poder político.
É preciso que o produtor não só filie às associações de produtores, cooperativas, sindicatos, mas efetivamente participe das mesmas. Vamos começar já a debater nessas entidades "como fazer" o que prescisa ser feito.
E tendo decidido como fazer o que precisa ser feito, vamos estar unidos, juntos com nossas associações, cooperativas e sindicatos, nos articulando e nos mobilizando, ganhando força política e econômica necessárias para lutar para que o que precisa ser feito seja efetivamente feito. De forma geral os produtores de leite se queixam da realidade que vivem. Se os produtores não se unirem para lutar, para conseguir que seja feito o que é necessário fazer, e mudar a realidade em que vivemos, não podemos esperar que os outros elos da cadeia que façam isso por nós.
E para isso precisam fazer, além de um bom trabalho da porteira para dentro, fazer um bom trabalho da porteira para fora, que começa sem dúvida com a filiação e participação dos produtores nas suas entidades, para debater e decidir como fazer o que precisa ser feito.
Marcello de Moura Campos Filho
Presidente da Leite São Paulo

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 07/11/2003
PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 06/11/2003
Pra mim, a síntese de tudo está numa palavra, repetida inúmeras vezes pelo Roberto durante o debate: competitividade. Ou o produtor torna-se, urgentemente, competitivo no setor, ou vai ter que procurar outra forma de ganhar dinheiro, e com certeza há formas bem menos complexas do que produzir leite.
Mas pra quem gosta da atividade, e em tudo o que fazemos há um componente emocional, não há outra saída. E ser competitivo não significa produzir leite mais barato, mas aumentar a lucratividade do seu sistema, participar ativamente da organização de cooperativas fortes, contribuir significativamente para o marketing institucional do leite, dentre outras coisas.
Ficar reclamando do preço e do governo é cair no lugar comum, ninguém vai chegar a lugar nenhum se insistir na mesmisse.
Parabéns à Leite Brasil pela iniciativa. Também concordo que é fundamental preparar uma agenda a partir de encontros como esse, para que a energia gerada no debate não se dissipe no ambiente, ela precisa ser transformada em ações positivas para se conseguir mudanças significativas no setor.