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As mega fazendas estão chegando?

No Interleite Brasil deste ano, uma das palestras inéditas foi de Andres Padilla, do Rabobank, sobre a existência de número crescente de mega fazendas de leite, tanto em países com economia leiteira bem estabelecida, como os Estados Unidos, como em países emergentes.

Não há uma definição exata do que seja uma mega fazenda de leite. Nos Estados Unidos, uma primeira aproximação seria as chamadas CAFO – Concentrated Animal Feeding Operations. No caso de leite, são fazendas com mais de 700 vacas em lactação em confinamento, mas essa classificação é feita pensando-se nas questões ambientais – as CAFO seguem restrições bem mais severas.

Larson Acres – mega fazenda no Estado de Wisconsin – viagem técnica MilkPoint 2013





Mas, de forma geral, são fazendas com 5 mil, 10 mil, 20 mil vacas ou até mais, em alguns casos fazendo parte de um conglomerado de unidades que podem chegar a 186 mil vacas em 22 fazendas, como é o caso da China Modern Dairy (http://www.moderndairyir.com/en/index.htm). Nestes casos, os projetos são capitaneados por investidores que podem ter pouca ou nenhuma relação com o setor.

China Modern Dairy

É interessante lembrar que a produção de leite é uma atividade típica de agricultores familiares ou pequenos produtores na maior parte do mundo. Na Índia, por exemplo, são 77 milhões de produtores. As mega fazendas, portanto, são algo novo, que foge à regra quando se analisa a estrutura de produção de leite no mundo.

Quais são os impulsionadores da existência de mega fazendas? Vários são os fatores que podem ser listados para explicar o interesse crescente em mega fazendas, os quais comentaremos a seguir.

As mega fazendas, por um lado, são uma resposta à dificuldade de manter o processo sucessório e mesmo a sustentação econômica de fazendeiros familiares em muitas partes do mundo. À medida que as famílias crescem, os produtores envelhecem e não conseguem expandir suas áreas e seu negócio, ele ou seus filhos acabam em algum momento deixando a atividade, abrindo espaço para empreendimentos empresariais, de grande porte, que têm escala, eficiência no uso de recursos, controle ambiental e capacidade de financiamento. Regiões tradicionais têm mudado seu perfil produtivo, como é o caso de Wisconsin, nos EUA, onde os tradicionais celeiros vermelhos com silos aéreos azuis ou cinzas estão sendo substituídos por grandes free stalls com silos tipo bunker, como é o caso da Rosendale Dairy, que produz 300.000 kg/dia a partir de 7.500 vacas em lactação.

Há outras razões que impulsionam mega fazendas. A elevação dos preços de leite após 2007, ainda que com períodos de baixa subsequentes, certamente é uma variável que contribui para estes novos investimentos. A percepção de que o consumo irá continuar aumentando nas próximas décadas e que a capacidade de resposta dos sistemas tradicionais é limitada sugere que, na média, os preços continuarão atrativos e que produzir leite (e alimentos em geral) volta a ser um bom negócio. Nesse sentido, o capital é atraído para sistemas com alta capacidade de resposta e escaláveis, podendo ser parte da resposta para esse novo cenário.

Certa vez ouvi de um dirigente de uma grande empresa de laticínios que os Estados Unidos eram o único país com capacidade de responder ao aumento de demanda de mais de 200 milhões de toneladas de leite as próximas 2 décadas, e isso não se dava pelas condições naturais, pela facilidade de terras, ou por qualquer outra razão do tipo, mas sim pela capacidade de colocar para rodar fazendas altamente eficientes, padronizadas, escaláveis.

O tipo de sistema empregado em mega fazendas varia de acordo com a região e com as condições climáticas. No Uruguai, por exemplo, a New Zealand Farming Systems (http://www.nzfsu.co.nz/) emprega pastagens em parte irrigadas e com suplementação. Clique aqui e veja o artigo que escrevemos sobre o projeto.

Na Nova Zelândia, os módulos, como no Uruguai, são menores por se tratar de sistemas a pasto (500 a 1000 vacas cada), mas podem fazer parte de conglomerados de maior parte, como é o caso da Crafar Farms (depois denominada Milk New Zealand), de capital chinês, que possui 16 fazendas com 8000 ha e 16.000 vacas no total.

No entanto, as mega fazendas normalmente envolvem sistemas confinados, nos quais a padronização é mais fácil, além de serem mais facilmente escaláveis.

Há, ainda, outras razões que explicam a existência de mega fazendas. Um deles é a busca por melhor qualidade do leite em países que possuem problemas estruturais de coordenação da cadeia produtiva. Um exemplo recente foi a China, que em 2008 foi vítima de uma grave contaminação do leite por adição de melamina, uma substância para aumentar artificialmente o teor de proteína do leite e que gerou casos de insuficiência renal em mais de 300.000 crianças. Um ambiente marcado por centenas de milhares de produtores com baixa tecnologia, transportadores e postos de recepção onde pode haver a adulteração e dificuldades de fiscalização em um país continental e com carências nesse sentido estimularam o governo a fomentar estes grandes projetos, ganhando em garantia de qualidade do leite, logística e eficiência global da cadeia (obs: o leitor certamente já fez alguma analogia entre as condições chinesas e as nossas...).

Ainda, um outro cenário que contribui para o interesse nas mega fazendas é o que envolve locais sem forte histórico em produção de leite eficiente e coordenada. Via de regra, são regiões onde o consumo cresce, mas que não possuem tradição no desenvolvimento da atividade leiteira. Assim, fazendas de grande porte são instaladas até com o intuito de servirem como modelo para outras propriedades e, assim, gerar um novo perfil de produtor e de produção, mais eficiente, com capacidade de resposta e com garantia de maior qualidade. As fazendas de alguns laticínios na Índia, China e Brasil (ex: o projeto da Fonterra em Goiás) aparentemente foram criados com esse objetivo.

Em outros casos, as mega fazendas já são concebidas em projetos verticalizados, visando atingir os mercado locais ou mesmo exportação de leite a determinados mercados.

Há, porém, diversos desafios para o estabelecimento de mega fazendas. Primeiro, a existência de grandes áreas contíguas, com terras a preço competitivo, que possam receber unidades com 5.000, 10.000, 20.000 vacas. Considerando altas produtividades por área, uma propriedade com 10.000 vacas necessitaria algo em torno de 4.000 hectares para a produção de alimentos (ou a produção terceirizada de volumosos, sem dúvida um desafio em locais sem histórico dessa prática). A disponibilidade de água, de energia, a questão dos dejetos, as licenças ambientais, o maior controle por parte das autoridades, pressões da sociedade (esse vídeo aqui mostra a pressão que esses empreendimentos podem sofrer http://www.youtube.com/watch?v=yBrHdxUwLVc), tudo isso reveste-se de importância considerável em um empreendimento desse porte. Ainda, a existência de equipamentos e serviços locais para fazendas desse porte e, dependendo da região, animais, são desafios adicionais.

O Brasil é, naturalmente, um alvo interessante para mega fazendas. Temos terras (ainda em custos favoráveis em algumas regiões), água, alimentos. Temos um histórico de sucesso e eficiência em outras cadeias do agronegócio. Não faz sentido produzir o milho, a soja e o algodão aqui para exportá-los para que outros países produzam leite.

Há pelo menos um projeto que envolve mega fazendas no Brasil em fase de pré-implantação, envolvendo unidades com 25.000 vacas, produzindo 1 milhão de litros/dia. Em breve, traremos mais informações sobre essa iniciativa.

Enquanto isso, veja um mega projeto de leite no mundo:

Almarai, com 7 fazendas, com total de 1 bilhão de litros anuais. Veja vídeo de uma das fazendas, Al Badiah Dairy Farm, com 22.500 vacas em lactação: 


 

ARTIGO EXCLUSIVO | Este artigo é de uso exclusivo do MilkPoint, não sendo permitida sua cópia e/ou réplica sem prévia autorização do portal e do(s) autor(es) do artigo.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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TRUEMILK AGRONEGÓCIOS

CASTRO - PARANÁ

EM 03/07/2015

Acredito também que a evolução genética esta andando a passos largos , o genôma veio para ficar e acelerar isso , os pensamentos dos produtores estão diferentes a 10 anos atrás , e quem não acompanhar pagará caro pelo erro !!!
ANTÓNIO LUIZ GOMES

SANTARÉM - SANTARÉM - PESQUISA/ENSINO

EM 02/10/2014

Artigo muito interessante, mas tema assustador: mais um setor econômico em que o poder se concentra em cada vez menos mãos. Estamos no ano internacional da agricultura familiar. Preferia um futuro onde esta tivesse a primazia.
DIOGO VRIESMAN

CARAMBEÍ - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/09/2014

Parabéns pela matéria Marcelo.

Também acreditamos que isso é o futuro!

Não muito distante!



Abraços!
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/09/2014

Prezado Marcelo Pereira de Carvalho: Parabéns pelo excelente artigo. Venho denunciando isso faz algum tempo: o futuro da pecuária leiteira mundial não está nas mãos de pequenos produtores, mas, sim, dos megaprodutores que vão tomar o lugar daqueles, com suas altíssimas produções e profissionalismo. Quem não crescer, perecerá.

Um grande abraço,



GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

ALFA MILK

FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG

=HÁ NOVE ANOS CONFINANDO QUALIDADE=

http://www.fazendasesmaria.com

Facebook: Semaria Faz
ALEXANDRE ROCHA VALERIANO

EM 29/09/2014

Marcelo,

Parabéns pela reportagem.

Complemento com a Almarai e Al Safi na Arabia Saudita que possuem 65.000 e 45.000 vacas respectivamente. Este números foram do ano passado quando estive na Al Safi e a média das 45.000 vacas era 42 litros/dia.
JUNIOR LUIZ PIMENTA

CACHOEIRA PAULISTA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/09/2014

ótima reportagem,parabéns