Mesmo com o acerto das estimativas da CNA, é inegável que o setor careça de informações em tempo real a respeito das condições de produção em cada região, o que gera espaço para opiniões desencontradas, às vezes influenciadas por interesses específicos, além de dificultar o planejamento de empresas e produtores. Freqüentemente, somos contactados por laticínios e empresas de insumos em busca de uma sinalização para os rumos do mercado e da produção para os próximos meses, ficando clara a dificuldade destas empresas em fazer suas previsões. Basta dizer que, até a publicação dos dados do IBGE, havia quem sustentasse queda na produção no primeiro trimestre, em comparação ao ano anterior.
O Gráfico 1 traz a produção mensal industrializada desde 1997. Dezembro de 2002 e janeiro de 2003 foram os dois meses de maior produção industrializada da história. Nota-se, também que, a despeito de momentos de crise e das dificuldades, a produção formal cresce ano a ano (veja por exemplo os dados de março) e a diferença entre safra e entressafra diminui: em 2002, a produção teve pico apenas em novembro, dezembro e janeiro, com os demais meses bastante nivelados. O gráfico 2 reforça essa situação, mostrando que, apesar dos altos e baixos, a tendência é de aumento e de redução das diferenças entre safra e entressafra.


A variação de 5,9% na produção de leite no primeiro trimestre mostra o quanto a atividade é responsiva, dependendo das sinalizações do mercado. Pós-crise de 2001, o cenário, ainda que não ideal, certamente foi melhor em 2002, o que resultou em estímulo à atividade. Dadas as condições de produção, que pode ser alavancada de forma relativamente rápida à medida que a relação preço do leite/preço dos insumos melhora, há espaço para aumentos significativos em curto espaço de tempo, o oposto ocorrendo caso a perspectiva piore. Isso parece óbvio, mas a magnitude da reação é diferente em países com pecuária "madura", nos quais aumentos de 2% são considerados elevados e mesmo assim podem resultar em mudanças dramáticas no preço do leite (os Estados Unidos são talvez o melhor exemplo).
A rápida resposta à produção, aliada à escassez de dados de acompanhamento em tempo real das flutuações da produção e do consumo, pode gerar variações significativas nos preços, o que complica ainda mais o planejamento da atividade e dificulta, por exemplo, contratos de fornecimento de médio a longo prazo entre laticínios e produtores. Por outro lado, mostra o quanto a atividade anda de "freio-de-mão puxado", esperando sinalização para acelerar.
Dentro deste cenário, ganham importância mecanismos de estabilização do mercado, como a inclusão do leite na Política de Garantia de Preços Mínimos, permitindo financiamento para estocagem de eventuais excessos, bem como a abertura de canais de exportação, de forma que o país não fique totalmente dependente das variações do mercado interno.
