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A melhoria da qualidade do leite no atual contexto de mercado

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 18/03/2011

11 MIN DE LEITURA

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Nesse último mês, ganhou força a discussão em torno da efetivação dos novos limites determinados pela Instrução Normativa 51, que regula as normas de qualidade do leite no Brasil.

Há basicamente, duas correntes básicas opinando sobre o tema. A primeira corrente baseia-se em geral nos seguintes argumentos: a melhoria da qualidade é uma necessidade; a não-implantação irá desacreditar a normativa e colocar em risco o trabalho que vem sendo feito desde 2002, quando a primeira versão foi finalizada; a não-implantação penalizará aqueles que investiram e se adaptaram nesses anos todos, favorecendo aqueles que "apostaram" contra a qualidade, ou que não tiveram condições de se adaptar; como em qualquer atividade, os que não se adaptarem deverão procurar outras atividades: porque o leite deve acomodar esses produtores sem condições de produzir de acordo com o que o futuro exigirá? Porque todos precisam produzir leite, independentemente da vocação e do alinhamento às necessidades do mercado atual e futuro?, dirão.

Na trincheira oposta, estão aqueles que argumentam que a maior parte dos produtores não teve e ainda não tem condições de se adequar; faltam recursos, falta assistência técnica, falta capacitação; nesses anos todos, muito pouco ou quase nada foi feito em relação a isso, lembrando que o antigo PNMQL, que norteava a IN 51, incluía fortes investimentos em capacitação, que não ocorreram. Assim, jogar sobre o produtor essa responsabilidade é no mínimo injusto, isso sem contar o fato de não estarmos na Europa ou na Nova Zelândia, onde a rede elétrica sempre funciona, o clima é mais ameno, as estradas são quase todas asfaltadas ou cascalhadas e há tudo o mais que faz com que seja factível ter um leite com padrão europeu ou neozelandês.

À parte os argumentos técnicos que norteiam ambas as posições, há ainda argumentos ideológicos: na primeira corrente, concentram-se principalmente os adeptos do livre mercado, do mérito individual como determinador do sucesso, do leite como atividade econômica como qualquer outra atividade em um sistema capitalista, do processo de concentração que caracteriza outros segmentos e que certamente caracterizará o leite também, trazendo eficiência. Na segunda, está o papel social do leite, que emprega milhões de pessoas; está o produtor familiar, de pequeno porte, desassistido e que será excluído da atividade, como já ocorreu em outros países que não devemos copiar.

Não é objetivo do artigo discutir quem está com a razão, até porque há bons argumentos em ambos os grupos: não há dúvida que é necessário melhorar a qualidade - não há argumento que contra o fato de que o mercado consumidor se tornará cada vez mais exigente e o ambiente de negócios ficará cada vez mais hostil para a má qualidade, ainda que estejamos no início desse processo. Muito menos para o fato de que produzimos alimentos, sendo dever (moral) de quem o faz colocar no mercado produtos de qualidade, que possam ser consumidos sem riscos pela população, e com os teores adequados de nutrientes e com as características orgaolépticas especificadas.

Por outro lado, parece claro que, a reboco da lei, muito pouco foi feito para que a qualidade evoluísse como previsto. A qualidade, de certa forma, é consequência de educação, do ambiente de negócios e da infra-estrutura melhorados continuamente, e não apenas do que determina a legislação.

O ponto em questão aqui é que a qualidade do leite é assunto que vai muito além da IN 51, daí a complexidade do tema e o espaço para diversas opiniões consistentes, ainda que opostas. Como se diz em acidentes de avião, raramente há somente um único aspecto envolvido. É precisamente o caso da qualidade do leite.

Gostaria de iniciar essa abordagem dizendo que, particularmente, não acredito que a lei num caso complexo como esse irá resolver, até porque, até onde eu sei, a IN 51 não é uma lei: a lei é o RIISPOA, datado ainda de 1952 e que não foi atualizado para a IN 51 (a última atualização foi de 1997). Dessa forma, a rigor a IN 51 não tem o poder de lei. Talvez por isso ou pelo fato de não ser viável hoje a sua aplicabilidade plena, a ferro e fogo, pois criaria um colapso no abastecimento, dada a porcentagem de leite fora das especificações, o MAPA, até onde eu sei, nunca autuou nenhum produtor por não se adequar aos limites preconizados pela IN 51.

De outra forma, acredito que ser oportuna a aplicação da IN 51 como função "educadora" e como sinalizadora do caminho a seguir, em que a melhoria da qualidade é um caminho sem volta. É uma referência, um indicativo de onde queremos chegar, ainda que hoje estejamos longe disso, quando se analisa o todo.

Ainda que a norma não seja lei e a punição seja pouco provável, vale a pena aproveitar a oportunidade para discutir as razões pelas quais a qualidade do leite demora tanto a deslanchar no Brasil. A qualidade do leite não tem evoluído nos últimos anos, como atestam os dados dos laboratórios oficiais. Não é de se chamar a atenção esse fato, considerando a implantação da própria IN 51, o número de ordenhadeiras mecânicas e tanques de expansão vendidos nos últimos anos, o maior acesso à informação, com grande número de cursos, eventos, revistas, sites, televisão e a existência de programas oficiais e não-oficiais de assistência técnica? Com todo esse aparato, e com o fato de que o país mudou muito nos últimos anos, porque a qualidade do leite, esse item sobre o qual todos concordam (que é preciso melhorar) ficou, ao menos segundo os dados oficiais, parada no tempo?

Assim como acredito que a "lei" por si só não resolve, entendo que a valorização da qualidade (e a punição da má qualidade) pela via de mercado, isto é, por programas de pagamento por qualidade, aliados à disponibilização de instrumentos que ajudem o produtor a evoluir, tem grande importância nesse processo.

Porém, isso só será efetivo caso amplamente adotado pela cadeia. E porque, nessas alturas do campeonato, a qualidade ainda não é valorizada como deveria?
Sherlock Holmes, o detetive inglês criado por Conan Doyle, dizia que, na investigação de um crime, tirando as hipóteses mais absurdas, provavelmente analisando-se os motivos mais óbvios a solução seria encontrada. Talvez possamos utilizar essa técnica para tentar responder a essa questão.

Se analisasse a situação dos programas de pagamento por qualidade, Holmes provavelmente concluiria que, tirando a improvável hipótese de um erro estratégico grosseiro na política de aquisição do principal componente de custos de um laticínio por parte de grande número de empresas, provavelmente estamos assim pelo fato de que, para a maioria das empresas, tem sido a estratégia mais interessante, ao menos até agora.

O primeiro aspecto relevante é que o mercado brasileiro tem crescido, e muito, nos últimos anos, fruto da inserção de novos consumidores que ainda buscam incorporar em sua dieta um pedaço de queijo ou, quem sabe, um copo de iogurte a cada dia. Relacionado a esse aspecto há o fato de que, na briga pelo mercado e para atender esse forte crescimento, é preciso ter suprimento garantido de leite. Esses aspectos, aliados à ociosidade da maior parte das fábricas, não criam uma conjuntura muito favorável para a implantação de programas de pagamento oor qualidade, em especial aqueles que criem um diferencial muito significativo entre leite de boa e de má qualidade. A empresa que optar por bonificar a qualidade (e punir a falta dela) corre o risco de perder leite que, via de regra encontra destino, especialmente nos momentos de escassez - e o consumo tem crescido mais do que a produção nos últimos anos.

Ainda, é preciso lembrar que mais de 40% do leite industrializado no Brasil é consumido na forma líquida, em que o aumento do teor de sólidos não traz uma contrapartida em rendimento industrial. Mais ainda: 70% desses 40% sofrem forte tratamento térmico, tornando menos relevantes aspectos como a vida de prateleira, sabor, etc., em comparação ao leite refrigerado, onde pequenas variações de qualidade (seja do produto, seja da cadeia de frio) geram grandes diferenças lá na ponta. Por fim, lembremos que não temos o hábito de consumidor leite puro, de forma de variações de sabor e aparência são mascaradas em comparação ao consumo puro, mais típico da Europa, América do Norte e afins.

Mesmo no caso de derivados cujo rendimento industrial é grandemente afetado pelo teor de sólidos, como leite em pó e principalmente queijos, a heterogeneidade da cadeia no país, as diferenças de custos da matéria-prima nas várias regiões e a dificuldade do consumidor compreender as diferenças de qualidade criam eventualmente condições em que pode ser mais barato captar leite em bacias menos desenvolvidas, com rebanhos não especializados, porém a custo suficientemente mais baixo, a ponto de compensar as deficiências em qualidade.

Todos esses aspectos fazem com que o pagamento por qualidade, se não implantado "top-down" por um grupo consistentes de empresas líderes, torna-se item sensível para aquela que, isoladamente, optar por esta estratégia. Afinal, em jogo está a principal variável: volume de leite para crescer em um mercado em crescimento. Holmes concluiria, mais uma vez, que não é por acaso que as bonificações por volume sejam mais prevalentes e de maior monta do que as de qualidade: é item mais sensivel, seja pelas questões logísticas, seja por estimular o aumento da produção, itens-chave para as empresas.

É importante reconhecer, no entanto, que esse quadro em que a estratégia de curto prazo prazo prevalece não é a melhor estratégia para o setor no médio e longo prazo, por várias razões.

Primeiro, ainda que o consumidor não tenha um conhecimento exato do que é qualidade, como muitos de nós gostaríamos, ele a valoriza. Todos os episódios envolvendo problemas de qualidade tiveram repercussões e afetaram em maior ou menor gau as empresas envolvidas. O caso de melamina na China, certamente o mais grave dos últimos anos, gerou conseqüências desastrosas para a indústria chinesa, que perdeu grande parte do ímpeto de crescimento. Aliás, o mercado internacional só está nos níveis atuais porque o chinês perdeu a confiança no produto local, sendo necessário importar 400.000 toneladas anuais, ainda que mais caras do que a produção chinesa. Os episódios de fraude há alguns anos envolvendo duas empresas isoladas afetaram o mercado naquele momento, tendo grande destaque na mídia.

Em outras palavras, o consumidor da China, do Brasil e de vários outros países emergentes, onde a população tem cada vez mais acesso a produtos, a alternativas de consumo e a informação, valoriza sim a qualidade e, mais ainda, penaliza a não-qualidade quando ocorrem episódios dessa natureza. E esse comportamento se intensificará. Desta forma, analisando o setor como um todo o fato de que é preciso construírmos um mercado que tenha crescimento sustentável (lembremos novamente da melamina na China), é fundamental que façamos a lição de casa, mesmo que ainda não sejamos tão cobrados pelos professores. Sempre pode haver uma prova-surpresa.



Sob o aspecto de sólidos do leite, tudo indica que a qualidade também precisará ser valorizada. Os produtos que mais devem verificar crescimento no consumo são os queijos e iogurtes, para os quais rendimento industrial é importante. O crescimento do mercado de leite fluido será menor, tanto pelo consumo per capita já ser mais alto, como pelo fato de que a taxa de natalidade está caindo - e é sabido que nas casas com crianças o consumo de fluido é maior. Ademais, a maior parte dos grandes laticínios produz hoje uma variedade de produtos e não apenas leite fluido. Falando em exportação, também tudo empurra para os sólidos, afinal o rendimento industrial é fundamental para a competitividade no mercado industrial. Segundo me foi informado por uma indústria, cada 0,1% a mais ou a menos no teor de sólidos impactaria em R$ 2 milhões/ano a receita desta empresa.

Tudo isso nos sugere que o melhor para as empresas nesse momento não é necessariamente o melhor para o setor no futuro. Mas como, na prática, consegue-se tirar parte do foco do presente e colocá-lo no futuro?

Todas estas questões remetem a ações coletivas, entre empresas e envolvendo inclusive a participação governamental. No que se refere à assistência técnica, é preciso reconhecer que, por inúmeras razões, o modelo até então em prática não funcionou como deveria, talvez em parte pela falta de recursos. Será que não há espaço para novos arranjos, em que, por exemplo, cooperativas e laticínios pudessem captar os recursos, em parcerias público-privadas visando desenvolver seus fornecedores (inclusive com a participação de técnicos da extensão oficial, como no programa Balde Cheio, que têm se mostrado promissor), prestando contas posteriormente mediante os resultados obtidos?

Em relação ao pagamento por qualidade, acredito que um caminho possível seria a organização inicialmente das principais empresas de laticínios do país, envolvendo um código de conduta que incluiria um plano comum para melhoria da qualidade do leite visando 100% de conformidade em relação a IN 51 em prazos específicos, talvez acompanhada de um selo de qualidade e investimentos em marketing e educação do consumidor. Se uma quantidade significativa do leite estiver sob compromissos como esse, o mercado tende a mudar. Aconteceu com o café, com o Selo de Pureza, criando um ambiente de negócios mais favorável. Em vários setores, a organização do setor privado tem sido mais importante do que a interferência governamental quando se fala em mudança de padrões. No leite, historicamente, colocamos sempre a responsabilidade de mudança no governo. Mas uma andorinha só, ou duas, não fazem verão. Já 8 ou 10, das grandes, começam a ter uma chance.

Obs: recomendo a leitura do artigo do Prof. Paulo Machado, que aborda a questão sob a ótica da (não) motivação do produtor em mudar.

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MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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MARCIA CAMBRAIA

ITUIUTABA - MINAS GERAIS

EM 08/04/2011

Amigos produtores: ja estamos pagando para produzir o leite com qualidade, a 6m. Fornecemos para Nestlé. Mas ja estamos com assitencia mensal técnica paga pela Nestlé . Mas a realidade somos nós quem a pagamos , as fazendas estão deixando de serem vivas e alegre. Nossos currais jão estão telado, galinhas,
cachorros, porcos animais que sempre existiram tem que ficarem afastados no mínimo 40 metros dos currais, barracão onde se guardava trator , vigotas, sal, ferramentas , hj ñ pode mais. somos pequeno produtor ,produção diaria 200 l,
ordenha, fossa sanitaria para dejetos de animais. Ja estamos recebendo 0,03 centavos a mais por litro , se tivermos todos padrões e classe 1 do leite.Independente do preço de mercado. Recebendo pela qtidade de proteina e gordura . Mas quem sustenta a defasagem do mercado é o pouco gado de corte que a pequena propriedade possui. Mas vivemos exclusivamente da terra, ñ temos outra renda. Estamos nos padroes do leite : mas nos dia de hoje, a maior dificuldade de continuar-mos na Atividade é a mão de obra. porque estamos a 3 km da USINA CNAA. Todos querem estar na Usina e não em currais.
COWTECH - CONSULTORIA E PLANEJAMENTO

LENÇÓIS PAULISTA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 25/03/2011

Marcelo,

Acredito que o aspecto crucial da discussão da IN51, impactos e benefícios gerados pela implantação e cumprimento da mesma é o aumento da rentabilidade do produtor quando se produz um leite de qualidade.

Não consigo fazer distinção entre: leite de qualidade e leite sem qualidade. Para ser leite, "de fato", a qualidade é uma característica intrínseca, ou seja, temos leite e temos um liquido branco qualquer, envasado em embalagem UHT. Para que a atividade seja viável, para que o produtor tenha bons índices, o que é necessário? Em poucas palavras, temos que ter alimento em quantidade e qualidade para as vacas, o ano todo, com conforto, equipamento de ordenha bem regulado, mão-de-obra treinada para realizar a extração do leite e armazenamento refrigerado.

Em outras palavras, qualidade do leite é consequência de sistemas rentáveis ou que estão em busca de rentabilidade. Produzir um leite fora dos padrões mínimos significa perda de capital e no mercado atual, cada vez mais haverá menos espaço para erros. Questão de tempo.

Abraço!
RENATO CALIXTO SALIBA

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/03/2011

Caro Marcelo,
Parabéns pelo artigo,
Gostaria de dizer que se todos os laticinios, cooperativas fizessem uso da IN 51, e pagassem parte do leite por qualidade, a coisa estaria muito mais evoluida. Em Brasília , somos a única Cooperativa de leite do DF, aqui temos mais 07 laticinios particulares, e somente a Cooperativa tem pago parte do leite por qualidade, onde fazemos uma vez por mes análise no leite de todos os produtores. Temos verificado que alguns dos produtores que não querem ou não conseguem produzir leite com qualidade tem saído da Cooperativa, por serem punidos pela péssima qualidade do leite por eles produzidos e têm ido para outros laticinios, que não tem o controle da qualidade, as ocmpras diretas feitas em Brasília não deixam margem para a qualidade , pagasse o preço cheio e não temos como punir aqueles que produzem leite de má qualidade.. Para tentarmos solucionar este grave problema , além de pagarmos parte do leite por qualidade, temos investido em treinamento, e também em transferencia de tecnologia, onde já instalamos cinco unidades demonstrativas do projeto balde cheio, que aqui tivemos que chamar de BRASILIA LEITE SUSTENTÁVEL, e contratamos quatro tecnicos de nivel superior para transferir a tecnologia das unidades demonstrativas para as unidades assistidas, sendo que cada técnico atenderá até 20 produtores cooperados. E outra maneira de incentivar os produtores em se preocupar com os centavos é fazendo conta, pegamos na nossa análise o melhor preço e o pior preço e fazemos a conta de quanto se perdeu por dia, por mês e por ano , onde a perca é muito grande e tem surtido efeito.
Forte abraço,
RENATO SALIBA
PRESIDENTE DA COOPERATIVA AGROPECUÁRIA DE SÃO SEBASTIÃO LTDA
DISTRITO FEDERAL
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 23/03/2011

Caros André, Paulo Mauricio, Thiago, Julio, Marcello, Julia, Fernanda e Orlando:

Obrigado pelos comentários, que complementam bem meu ponto de vista e a abordagem que fiz sobre essa questão.

Com certeza a discussão é bem mais madura do que no início da IN51, ao menos nesse espaço...:)

Abraços,

Marcelo
ORLANDO MONTEIRO DE CARVALHO FILHO

ARACAJU - SERGIPE

EM 22/03/2011

Elementar meu caro Watson. (permita-me a brincadeira).
Parece haver certo consenso sobre o fato de que o consumidor médio brasileiro, urbano, que possivelmente não se lembra do sabor genuíno do leite in natura, não o consome com tal e sim como algum derivado ou como ingrediente do mesmo. Ao comprar lácteos, considera em primeiro lugar o preço - em geral com descontão nos supermercados para lotes em vencimento - em segundo pela percepção sensorial, sendo os demais atributos de qualidade - inocuidade, valor nutricional e saudabilidade - sequer levados em conta.
Confiança nos sistemas peritos (SIF, SIE, SIM), que presumidamente deveriam assegurar esta qualidade ou simplesmente desinformação? Se nos colocarmos na perspectiva desse consumidor teríamos que aceitar essa lógica. Isso se não conhecêssemos algo dos bastidores da cadeia produtiva.
Ora se o consumidor, por ingenuidade ou desconhecimento não valoriza devidamente a qualidade em seu todo, por ela não pagará mais nem a exigirá da indústria transformadora, que por sua vez estabelecerá a aquisição de matéria prima barata, mesmo de qualidade questionável, como estratégia de base para melhorar seus lucros, já que esta representa de longe o item mais pesado em sua planilha de custos. Na outra ponta da cadeia produtiva o produtor, sem ser bonificado pela qualidade que imprimir ao seu leite, obviamente não estará motivado a fazê-lo somente por razões de consciência ou responsabilidade cidadã. Como regulamentos e leis nem sempre são respeitados em nosso país, então a qualidade não acontecerá, como até agora não o foi, como esperado.
De outro lado, permanece tangenciada na discussão da qualidade do leite, a contaminação por resíduos de pesticidas, desregradamente aplicados na vaca leiteira - carrapaticidas organofosforados para citar como exemplo - além daqueles veiculados na sua alimentação - - que, ao contrário da contaminação microbiana e da CCS e de resíduos de antibióticos, não se relacionam a perdas industriais, o que explica sua "irrelevância" para a cadeia produtiva como um todo.
Em nosso modesto ponto de vista, a qualidade do leite - não só naqueles aspectos relacionados com rendimentos industriais - deveria ser massivamente informada ao consumidor, em campanha educacional com chancela oficial do governo, para que este, devidamente esclarecido, possa remunerá-la devidamente, o que se estenderia ao o final da cadeia, com um produtor bonificado, motivado e, obviamente, treinado.
Gostaria portanto de parabenizar pela abordagem de tema tão relevante e complexo, que merece amplo debate de todos os atores envolvidos na cadeia do leite.


FERNANDA CAROLINA FERREIRA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 21/03/2011

Parabéns pelo artigo. É muito bom quando somos levados à reflexão, principalmente em se tratando de um tema tão complexo e de tantas abordagens diferentes.

Trabalho em Rondônia e, embora eu tenha chegado no estado há pouco menos de 2 meses, já sinto os diversos desafios de se trabalhar num estado onde mais de 80% do leite captado (em torno de 2 milhões de litros por dia) são provenientes de pequenos produtores, localizados em assentamentos, onde as "estradas asfaltadas, energia constante, facilidade de acesso" e outros são ainda uma sonho, em muitos casos. A qualidade do leite é um grande desafio a ser trabalhado e, conforme muito bem discutido no tema e comentado acima, não se trata apenas de cumprir o que está no papel.

Temos tecnologia disponível. Tecnologia não que diz respeito a adoção de tecnificação e práticas que exigem alto investimento e capacitação especializada. Temos práticas simples, ajustadas ao nosso clima, as nossas práticas, ao nossos sistema de produção, e que não são adotados. No nosso caso, rege o pagamento pelo volume, muito bem expostas as razões pelo Dr. Marcelo. Entretanto, grande parte do nosso leite vai para a fabricação de mussarela. Esse contexto ressalta, mais uma vez, a importância da indústria ter como meta a qualidade do leite, a capacitação de produtores e a obteção de leite de qualidade. Ações como o programa descrito pelo colega Paulo Maurício B. Basto da Silva, focando não apenas bonificar ou penalizar, mas educar, são fundamentais para o desenvolvimento sustentável de um sistema onde possam coexistir pequenos produtores e qualidade do leite.
JÚLIA D. LIMA DIAS

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 21/03/2011

Parabéns ao Milkpoint pelo artigo. Vou indicar a leitura a toda a equipe técnica que integro.

A curto prazo o mais interessante para os laticínios é captar leite de qualidade boa, medíocre ou ruim, tanto faz, tudo junto, e colocá-lo em produtos sem muita diferenciação para um mercado consumidor que demanda cada vez mais e mais.

A médio/longo prazo é racional pensar que o consumidor tenderá a preferir produtos mais elaborados, que são muito afetados pela qualidade.

A questão para mim é: quando? quando será o ponto de inflexão? Nenhuma empresa captadora de leite em sã consiência deixará de captar leite hoje, elaborar produtos que tem mercado hoje, vender hoje e gerar receita hoje, se existe essa possibilidade, mesmo se a matéria prima não atenda à norma x ou y. Quando a qualidade deixará de ser um tema moral, ou de oportunidade futura para de fato virar algo vale dinheiro para a indústria? Acredito que a única força capaz de provocar essa inflexão seja o mercado. Só quando não houver o que fazer com leite de qualidade fora de padrões estabelecidos é que isso vai mudar. Não é o caso agora. Tenho dúvidas se será um dia, ou pelo menos muitas dúvidas de quando será.

Mas sei que no campo, no dia a dia na fazenda, não é possível melhorar todos os aspectos de qualidade exigidos do dia 30 de junho para o dia 1 de julho só porque essa data está escrita em algum lugar. E o produtor jamais o fará se isso não fizer diferença significativa na sua renda e/ou se não dispor de capital para o invstimentos necessários para as adequações (e são necessários, e vão muito além de comprar tanque e ordenhadeira mecânica. Aliás tanque e ordenhadeira mecânica, por si só, não são garantia de nada, sobretudo essa última). Para quem milita na assistência técnica ao produtor em qualidade a quase quatro anos e trabalha em uma empresa que adota tabela de valorização da qualidade a mais tempo ainda o sentimento é de inadequação ao momento vivido.
MARCELLO DE MOURA CAMPOS FILHO

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/03/2011

Meu caro Marcelo

Eu algumas vezes convidei Holmes em meus artigos para desvendar mistérios do nosso setor leiteiro.

Parabens pelo seu artigo, onde deixa clara a questão da qualidade do leite no Brasil, e por trazer Sherlock Holmes para decifrar mais esse enigma do setor leiteiro.

Relmente enquanto a indústria de forma gera e o Governo tratarem a questão da qualidade do leite como"coisa para inglês ver" evidentemente não teremos efetivamente qualidade.

Fingir que se quer qualidade do leite, por parte da indústria e do Governo, pode trazer facilidades em função da realidade do momento presente certamente trará tremendas dificuldades no futuro para o setor leiteiro nacional. É preciso que sejam estabelecidas parcerias público privadas para o desenvolvimento de fornecedores de leite para que possam produzir, não só leite de qualidade, mas na quantidade que País precisa e ainda para que possamos exportar aproveitando as oportunidades que o mundo oferecerá a médio prazo para realmente competitivos na produçao de alimentos.

Como diria Sherlock Holmes: elementar meu caro Watson.

Grande abraço

Marcello de Moura Campos Filho



JULIO SIMÕES MARCONDEE

JAÚ - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/03/2011

Meus amigos!
Meus parabéns a todos, Marcelo Pereira de Carvalho e André Gonçalves Andrade pelo brilhante texto e excelentes colocações!
Mas vejo, ainda, um grande trabalho pela frente a ser executado em relação ao assunto abordado, principlamente no que diz respeito aos pequenos produtores.
Há um grande desinteresse e falta de vontade e de iniciativa em relação à mudanças e às adaptações ao novo cenário do agronegócio do leite. Ao longo destes dois últimos anos estamos promovendo capacitações, reuniões encontros e demonstrações das exigências encontradas na IN51 e as alternativas para o enquadramento nesses requisitos, mas ainda é grande a resistência por parte de muitos às novas regras do mercado leiteiro. Entendo que isso seja uma questão cultural e faço um paralelo a isso ao uso do cinto de segurança em veículos, uso do capacete nas motos, e uma série de outras exigências que foram aos poucos tornando hábito na vida do brasileiro. A medida que isso for tocando no bolso do produtor, ou ele se adequa, ou (infelizmente) vai acabar saindo da atividade.
Acho que as exigências são passíveis de serem executadas, mas no entanto tenho convicções que ainda há um longo caminho de educação, mudanças comportamentais e culturais tenham que ser trabalhadas com nossos sofridos produtores de leite.
Um grande abraço a todos
E um passo à qualidade do leite!
THIAGO PETROLINI

MONTE APRAZÍVEL - SÃO PAULO - MÍDIA ESPECIALIZADA/IMPRENSA

EM 18/03/2011

Senhor Marcelo, parabéns pelo artigo escrito e parabens pela indicação do artigo do professor Machado que é fantastico. Eu sou veterinário recem formado e durante a graduação tive o prazer de produzir um trabalho de conclusão de curso sobre qualidade de leite, abordando na região de São José do Rio Preto uma pesquisa microbiologíca e também de qualidade do produto, sendo que em minhas visitas as propriedades para coleta de material, conversavamos muito sobre o intusiasmo que o professor Machado abordou, tanto os proprietários como os proprios funcionários mostravam-se desacreditados do setor, sendo que nosso produto nao consegue agregar valor, e mesmo aqueles que obtinham propriedades tecnificadas com grande investimento em seu produto nao se motivavam a continuar. Sendo que pelo menos em minha região, a agregação de solidos totais em seu produto nao tras melhorias no faturamento da fazenda, sendo que mesmo que você tenha um produto de qualidade inferior se o Laticínio A nao quizer o seu leite a empresa B o recolhe.
Para conseguirmos melhorar a qualidade do Leite no Brasil antes de mudarmos a cabeça do Produtor temos que mudar a conduta da empresas. As grandes assim já o fazem mais são as de médio e pequeno porte que acabam atrasando o nosso cresmimento.
Muito obrigado pelo espaço grande Abraço...
PAULO MAURICIO B. BASTO DA SILVA

JARAGUÁ DO SUL - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/03/2011

Prezado Marcelo,

Muito bom artigo.

Como presto serviço para uma empresa de porte menor, entendemos duas coisas:
1) Qq mudança no mercado de lácteos tem que partir das empresas - não podemos esperar mudanças em grande escala de produtores rurais;
2) Esperar a ação fiscalizadora e punitiva do MAPA nunca resolveu e não vai resolver;

O mercado busca sempre o equilíbrio e a inovação e iniciativas, mesmo que pequenas podem ajudar. No nosso caso, implantamos numa região piloto, o Pagamento de Leite por Qualidade, projeto diferenciado de algums empresas, pois trata de um conjunto de condições básicas (sanidade, qualidade higiênica e qualidade de composição) incentivando ao produtor a atuar de forma a buscar suas metas, podendo ser bonificado de forma representativa. E a assit técnica focada para ajudar a conseguir isso. Ou seja, assist técnica com equipe própria e parceiros.

Trabalhei com indústrias de café e é fato que o selo de pureza elevou o consumo de café no Brasil e foi eliminando do mercado empresas e produtores "ruins". O recente selo de qualidade lançado em 2.004/05 busca uma melhoria adicional significativa. Para o leite é uma idéia que concordo.

Para as questões éticas sempre será complicado, porém, devemos tentar mudar o cenário no campo e entre indústrias, porque, realmente, algumas situações depreciam a cadeia de lácteos.

ANDRÉ GONÇALVES ANDRADE

ROLIM DE MOURA - RONDÔNIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 18/03/2011

Caro colega Marcelo Pereira de Carvalho,

Parabéns pelo artigo. Foi muito feliz na forma de abordar um tema tão complexo.

Diria que mais que um problema da qualidade do leite, um problema da qualidade do setor leiteiro como um todo.
Penso que para haver mudanças é preciso existir antes de tudo "VONTADE".

Os velhos paradigmas permanecem: falta de assistência técnica, capacitação, conhecimento, etc. Se olharmos para a educação em nosso país, vamos "talvez" entender o porquê.

Lendo o artigo sugerido do Prof. Paulo Machado fui remetido a uma reflexão:
O fator MOTIVADOR.
A inversão de volores em nossa sociedade está impregnada nos setores político, empresarial, trabalhista e se isso ocorre é porque a sociedade como um todo aceita e isso é o retrato dos seus valores.
Hoje o principal fator motivador do ser humano é: eu diria que em sua grande maioria (fator financeiro, econômico).
Nossa economia cresce mais que nosso nível de conhecimento. Quem não percebe que o embora estejamos vivendo em uma época onde a informação é rápida, os meios de comunicação são fantásticos, o quesito conhecimento entre os mais jovens tem se mostrado cada vez menores. A educação está cada vez pior. Tem muita gente que conclui o ensino médio sem saber ler e interpretar um texto! Tem gente que sai da faculdade sem saber escrever! E isso se reflete no restante.
Não se trata aqui de ser pessimista. Mas REALISTA.
As adversidades no setor existem e foram muito bem abordadas em seu artigo.
Resta-nos então aguardar a "VONTADE" dos grandes em iniciar as mudanças, que vai gerar a vondade de novos oportunistas entrarem no setor e ocupar os espaços criados como sempre aconteceu. A não ser que a VONTADE do setor seja definada de forma clara através das regras que chamamos de lei. E se quebrarmos o velho paradigma: "de que as leis são feitas para serem quebradas" por: leis são feitas para serem cumpridas.

Cumprir a IN 51 por todo setor seria um bom começo. Mas não suficiente para melhorar o setor nos moldes que se faz necessário para todos os envolvidos.

Penso que passar a obrigação para a iniciativa privada seria uma boa alternativa (alias isso já está incluído na IN51 - "o estabelecimentos é obrigado a implantar e manter um programa de educação continuada dos participantes", mas os custos deveriam ser abatidos dos tributos.
Enfim, existem inúmeras oportunidades para o setor lácteo brasileiro, mas parece faltar VONTADE.
Os motivos da falta de VONTADE é um trabalho para o nosso Sherlock Holmes. Esperamos que ele encontrar os motivos para nós encontrarmos as soluções.

Um forte abraço.
MilkPoint AgriPoint