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A agricultura e o Brasil urbano

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 06/04/2000

6 MIN DE LEITURA

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Marcelo Pereira de Carvalho

A agricultura brasileira vem sofrendo perda acumulada de rendimentos na última década. As principais razões para tal situação são os juros elevados, a brusca abertura de mercados, o real sobrevalorizado e uma condução política não propriamente voltada à agricultura.

Mesmo sendo considerada a âncora verde do Plano Real, seja por ser símbolo dos baixos preços, segurando a inflação, seja pelos superávits comerciais que o setor gera, a agricultura brasileira, que emprega 25% da força de trabalho, não dispõe do espaço que deveria no cenário politico-econômico.

Desde a década de 60, o Brasil vem se tornando aceleradamente um país urbano, concentrando nas grandes cidades o capital e, com ele, o poder. Esta migração do poder e do capital não seria grande problema caso houvesse riqueza suficiente no meio urbano para subsidiar a agricultura, o que em geral ocorre nos países desenvolvidos. Ainda, seria menor problema se houvesse alguma sensibilidade e interesse da sociedade urbana - dominante - em relação ao campo. Ocorre que nenhuma das situações acontece no Brasil. Se, por um lado, a adoção de subsídios é impensável no momento, o distanciamento entre o campo e a cidade merece uma análise mais profunda.

Um primeiro ponto que chama a atenção é o teor das notícias relativas à agricultura veiculadas pelos meios de comunicação. São freqüentes as matérias sobre desmatamentos, poluição ambiental, uso desenfreado de "agrotóxicos", alimentos contaminados (lembram-se do leite com piretróides ?), calotes em dívidas, exploração do trabalho e outras mais que povoam a televisão, os jornais e as revistas em uma espécie de cruzada de proteção ao consumidor urbano. Não é objetivo agora discorrer sobre o mérito de tudo o que é divulgado; além do mais, é evidente que se deve desmatar ou poluir menos e produzir alimentos mais saudáveis. O problema é que vai se definindo, de um lado, o estereótipo do latifundiário inescrupuloso como símbolo da agricultura moderna brasileira. Aos olhos da grande massa, agricultura tecnificada e competência, gestão moderna ou preocupações sociais e ambientais possivelmente não fazem parte do mesmo dicionário.

Tal propaganda negativa vai criando junto à população urbana um sentimento de insatisfação e desprezo que resulta em insensibilidade e desinteresse para com os problemas do setor rural. " O leite está caro ? Vamos comprar leite argentino ou uruguaio, melhor e mais barato". O consumidor, quem paga a conta e define o que comprar, não sente o menor apego ao produtor nacional, o que torna a globalização especialmente perversa. Esta falta de apego ao campo, em última análise, vai desobrigando o governo a defender a bandeira agrícola, pois nem a mídia nem a sociedade em geral prestam atenção aos seus problemas. É uma pressão a menos a conter nos momentos mais críticos.

Estas implicações contrastam com o que observamos em novembro último, na reunião da OMC, quando os europeus defenderam a multifuncionalidade da agricultura como razão para a continuidade dos subsídios, ou seja, não se trata apenas da produção estratégica de alimentos, mas da preservação ambiental, da ocupação da terra, da manutenção de belas paisagens, da tradição e história de cada povo.
É um enfoque que, acima de tudo, fortalece os agricultores europeus.

Mas não basta apenas reclamar ao governo maior espaço; cabe à própria agricultura a árdua tarefa de sensibilizar seu consumidor e ocupar o espaço perdido. O primeiro item a ser melhorado é o poder de articulação do setor. Salvo raras exceções, o agricultor têm tendência associativa muito tímida. No caso do leite, a principal associação congrega menos de 5% do total de produtores do país. Fica difícil fazer muito com este nível de representatividade.

Recentemente, em uma palestra para produtores de leite, um produtor se indignava contra o descaso e a falta de proteção do setor leiteiro. "Ninguém faz nada pelo produtor", dizia ele. E tinha razão. A começar, muito provavelmente, por ele próprio. Na semana passada, vimos produtores de leite mexicanos jogando leite na rua e na prefeitura de uma cidade do interior; em fevereiro, a Índia elevou suas tarifas de importação de leite em pó, apesar do volume importado ter sido em 1999 quase 10 vezes menor do que no mesmo período no Brasil. Não que jogar leite na rua seja propriamente o caminho a ser seguido; o fato é que produtores mexicanos se organizaram e obtiveram projeção internacional. Quem viu televisão na semana passada pode não saber como anda o produtor brasileiro, mas saberá que o mexicano está sendo prejudicado por importações desleais. Como mencionou um professor de zootecnia nos EUA, "representamos menos de 2% da população votante do país; se não nos organizarmos e batalharmos pelas nossas causas, aos interesses dos outros 98% sempre prevalecerão."

Em segundo lugar, quando o setor consegue se articular, nem sempre o resultado é favorável. Vejam o exemplo do caminhonaço em prol do perdão das dívidas ocorrido no ano passado. Não cabe aqui entrar no mérito da questão mas, aos olhos urbanos e com o apoio da mídia, ficou a imagem de que, com o país quebrado, o dólar nas alturas, o desemprego em alta, a popularidade do governo em baixa, os ricos ruralistas queriam ... perdão de dívidas !

O resultado prático foi um surto de indignação geral patrocinado pelos meios de comunicação. Veja o que escreveu o ex-Ministro Maílson da Nóbrega, em sua coluna na Folha de S. Paulo, entitulada "A maligna bancada ruralista": "A bancada ruralista é um dos mais terríveis males do sistema político brasileiro (...) "é uma vistosa demonstração de subdesenvolvimento político. Seu poder de barganha deriva da ameaça de votar contra o governo". Ou ainda "os ruralistas constituem uma combinação perversa de corporativismo cartorial, visão antiquada sobre a política agrícola e indisciplina partidária".

Com este ibope, não foi difícil para o governo, mesmo extremamente fragilizado, dizer um vitorioso "não" aos produtores. Até capitalizou em cima do fato, pois a sociedade e a mídia estavam com ele, fato raro naquele momento. Por um instante, toda a agricultura brasileira foi resumida a meia dúzia de "devedores contumazes", como afirmou o presidente, aproveitando-se da instabilidade política para, na base da truculência, ganhar algum em causa própria.

É evidente que botar a boca no trombone pode, por vezes, ser necessário e efetivo. É evidente também que muita gente ali tinha razão em suas solicitações. O inadmissível foi, em um raro momento de exposição, a agricultura voltar para casa mais uma vez com bem menos do que se supunha conseguir e com a imagem arranhada.

Um terceiro ponto a ser comentado é a exploração de nichos de mercado. No caso do leite, é freqüente a argumentação de que a população não tem tradição de beber leite e, portanto, fica difícil diferenciar a qualidade do produto junto ao mercado, o que é em parte verdade. Mas, se fosse assim tão definitivo, não teríamos os leite enriquecidos com ômega-3, teor reduzido de lactose, etc., sendo anunciados na mídia e com preços bem mais altos. Isto mostra que, mesmo não tendo tradição de beber leite, uma parcela da sociedade está disposta a trilhar novas experiências no consumo de lácteos. É provável que esta parcela esteja também disposta a consumir um leite de melhor qualidade, caso alguém (produtores articulados, mídia, empresas) sinalize algo nesta direção.

A reversão definitiva da imagem da agricultura não é simples, tampouco rápida. Passa, enfim, pela educação nas escolas urbanas que, em sua grande maioria, não promovem qualquer contato de seus alunos ao meio rural. Talvez este seja o investimento mais difícil a ser feito e o de retorno mais demorado. Contudo, se bem sucedido, é provável que seja o de impacto mais duradouro no resgate da credibilidade do setor e colocação deste em seu devido lugar.

Em resumo, a agricultura (e especificamente o setor leiteiro) precisa se articular melhor, incrementar seu marketing visando uma exposição mais favorável, se inserir de vez no mercado de produtos diferenciados e investir na educação das gerações futuras para que possa desfrutar da grandeza que sempre esperou ter. Mas sem esquecer de fazer a lição de casa, procurando melhorar a qualidade dos alimentos, usar defensivos de forma mais racional, preservar o ambiente e criar condições de trabalho satisfatórias aos envolvidos com a atividade.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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WELINGTON LUIZ ALVES

CONSELHEIRO LAFAIETE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/06/2009

Este artigo vem de encontro com o que é realidade sobre a falta de organização dos produtores de leite. Por isto devemos unir e mostrar a verdadeira realidade do produtor.
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