Durante o World Dairy Summit 2025, em Santiago, no Chile, um dos assuntos que apareceu em mais de uma palestra foi a Geração Alpha, ou simplesmente Gen Alpha. Eu, que sou da Geração X (do finzinho dela, quase Millennial!), confesso que já estava cansada de falar das Gerações Y e Z, aquelas que, como todo mundo já sabe, mudaram completamente o mercado de alimentos e bebidas.
Mas agora chegou a vez da Alpha e, finalmente, começamos a entender melhor quem são eles e como pensam. Nascidos entre 2010 e 2024, eles têm hoje entre 1 e 15 anos. Uma geração que ainda está crescendo, mas que já mostra um comportamento muito diferente de todas as anteriores.
A maioria dos dados que vou apresentar são de um levantamento que a Abacus Data fez para o Dairy Farmers of Canada (DFC). Embora os dados sejam do Canadá, pode-se fazer uma conexão com o Brasil, já que essa é a geração mais homogênea do planeta, como destacou outro painel do evento. Crianças e adolescentes da Alpha nasceram com a internet nas mãos em um universo digital globalizado. Eles consomem os mesmos conteúdos, jogam os mesmos games e formam opiniões com base em referências semelhantes, não importa o país.
No Brasil essa geração já representa 20% da população, já têm suas preferências formadas e já participam nas dinâmicas de decisão de compra doméstica. Por isso, é importante já acompanhar o que eles pensam para identificar formas de manter a aceitação social do leite neste grupo.
A vida cotidiana da Alpha é marcada por pontos que se entrelaçam: hiperconectividade e exposição precoce a temas sociais. Eles crescem com internet “na ponta dos dedos”; plataformas de vídeo e de entretenimento são parte do dia a dia. YouTube, TikTok, streaming de áudio e jogos são consumidos rotineiramente (Figura 1).
Figura 1. Hábitos de mídia da Gen Alpha.
Fonte: Abacus Data.
Esse ecossistema de telas molda não só o que lhes entretém, mas também como aprendem sobre alimentação, saúde e meio ambiente. É através das propagandas entre um vídeo e outro do Youtube ou no meio dos games que eles descobrem sobre várias coisas.
Com isso, esse público pensa em grandes temas desde cedo: 43% dizem refletir sobre o tratamento dos animais com frequência, 39% sobre exercício físico, 36% sobre paz mundial e 30% sobre nutrição (Figura 2). Ou seja, é uma geração precoce em consciência social e ambiental. Essa sensibilidade representa tanto um risco, pela possibilidade de dúvidas sobre práticas de produção, quanto uma oportunidade, já que valorizam transparência e comprovação. Para eles, contar uma história bonita não basta. É necessário comprovar.
Figura 2. Grandes temas que preocupam a Gen Alpha.
Fonte: Abacus Data.
Entre as fontes que eles consideram confiáveis para informações sobre saúde e nutrição dos lácteos, a família lidera (67%), seguida por profissionais de saúde (58%), e depois pelos próprios produtores (40%).
Professores representam 37%, enquanto criadores de conteúdo na área de saúde e organizações relacionadas ao setor ficam por volta de 29% cada um. Isso indica que iniciativas de comunicação precisam envolver a família e os profissionais de saúde como multiplicadores de credibilidade. Além disso, os dados mostram que o produtor tem voz, mas precisa aprender a falar em formatos que a geração reconheça como legítimos.
É por isso que o DFC estruturou uma campanha de forma multifacetada, investindo em locais e experiências em que os adolescentes estão socialmente engajados. Cinemas e shoppings viraram palcos de interação social, onde ações de marca se associam a experiências positivas.
Figura 3. Campanha do DFC com foco na gen Alpha.
Fonte: DFC.
Uma ação interessante foi a parceria com a Cineplex, onde 7,8 milhões de pacotes de pipoca foram distribuídos com o selo Blue Cow. A simples associação do logotipo a experiências positivas de lazer ajudou a aumentar em 7,75% a receita total de manteiga no período da campanha.
No ambiente digital, o DFC investiu em jogos e vídeos curtos, alcançando 25 milhões de impressões e engajando jovens que interagiram com conteúdos que tratavam de valores ligados ao leite, à fazenda e à sustentabilidade. A ideia foi normalizar o consumo de lácteos em espaços sociais, conectando o produto a valores que importam para eles, como amizade, diversão, confiança e bem-estar animal.
Como essa geração toma decisões sobre o que comer ou onde consumir?
Primeiro, eles são influenciadores dentro da própria família: 43% ajudam nas compras e grande parte participa ativamente das escolhas de lanches. Segundo, o fator social pesa: quando saem com amigos, a decisão sobre o que pedir ou compartilhar tem forte componente de pertencimento. Assim, eles tendem a evitar alimentos que sejam motivo de exclusão do grupo. Terceiro, a validação vem muitas vezes do “motor de consenso”: ver outras pessoas aprovando um conteúdo, comentários positivos e múltiplas fontes alinhadas fazem com que a informação seja considerada mais confiável. Mas, preocupa a forma como conferem a veracidade das informações: privilegiam quantidade ao invés de qualidade. Essa dinâmica explica porque comentários, avaliações e criadores locais têm papel decisivo na formação de opinião.
Por fim, é importante mencionar que essa geração tem uma simpatia nata pelos produtos lácteos: uma parcela considerável da geração declara gostar do leite e dos derivados (25% amam, 30% gostam, 18% gostam pouco e apenas 4% não gostam). Além disso, muitos advogam a favor dos benefícios dos lácteos.
Mas, essa preferência depende da confiança em práticas éticas e sustentáveis. É por isso que campanhas que apenas celebram consumo sem responder dúvidas concretas sobre práticas e impactos tendem a produzir pouco efeito.
A estratégia que se impõe é dupla: reforçar benefícios (nutricionais, sociais) e, simultaneamente, documentar e demonstrar práticas responsáveis de bem-estar animal e atenção ambiental, de forma narrativa e empírica.
