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Frequência de tratos, comportamento animal e produção de leite

POR JOÃO PAULO V. ALVES DOS SANTOS

COWTECH

EM 22/07/2003

7 MIN DE LEITURA

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Com que freqüência devemos tratar nossas vacas? Geralmente a resposta a esta pergunta está associada ao número de ordenhas de uma propriedade, ou seja, a disponibilização de alimento fresco antes ou logo após a retirada do leite dos animais ou até mesmo de acordo com instalações, equipamentos, disponibilidade de mão de obra e outros fatores associados ao manejo nutricional de sistemas de produção de leite em confinamento.

Em conversas com produtores em encontros do nosso setor ou visitando propriedades, é bastante comum ouvirmos que "a propriedade x" apresenta bons resultados pois adota o regime de 3, 4 ou mais tratos diários. O fundamento da realização de diversos tratos por dia está associado ao conceito de que "comida sempre fresca" no cocho é um atrativo para os animais, promovendo aumento na ingestão de matéria seca (IMS) e, conseqüentemente, na produção de leite.

Existem dois fatores importantes a serem avaliados nesta discussão (freqüência de tratos Xs desempenho animal):

  1. Quantificar o ganho de produção em função da maior freqüência de tratos

  2. Custo operacional
A pergunta que prevalece é: será que o ganho promovido (se existente) será suficiente para pagar um maior custo operacional e gerar lucro?

Mediante as dúvidas abordadas acima, discutiremos resultados experimentais recentes sobre o tema, realizado por pesquisadores da Universidade de Cambridge (Inglaterra).

No primeiro experimento (dezembro a janeiro) , 40 vacas holandesas alojadas em free-stall foram agrupadas de acordo com idade, produção, composição do leite, peso vivo e dias em lactação e divididas em 2 tratamentos:

Tratamento 1- trato diário

Tratamento 2 - trato alternado (dia sim/dia não)

Ambos os tratamentos receberam dieta na forma de "total mixed ration" (TMR) composta (% do total de MS) por 49% de silagem de gramínea, 35% de cevada laminada, 15% de grãos de destilaria e 1,1% de núcleo mineral vitamínico.

Cada vaca teve seu comportamento avaliado por 48 horas a cada 6 dias, quanto aos itens: tempo de alimentação, tempo deitada ruminando e tempo em pé não ruminando. Além disso, a cada 10 minutos foi avaliada a interação comportamental quanto ao fator agressividade (contato físico entre vacas através de "investidas" com cabeça). Para cada animal, pelo menos 1 vez por semana, foram avaliadas durante 1 minuto a apreensão e mastigação para futura composição da taxa de apreensão e mastigação do alimento. A produção de leite (2 ordenhas) foi avaliada semanalmente, durante todo o experimento (6 semanas). Durante o controle leiteiro foram coletadas amostras individuais de leite para análise de composição (gordura, proteína e lactose). Uma vez por semana os animais foram pesados e avaliados quanto ao escore de condição corporal (ECC - escala de 1 a 5, Mulvany, 1977). Todos os dados foram analisados estatisticamente através de distribuição normal para análise de variância usando modelo linear (interação dos dados e dias).

Tabela 1.


Os dados da tabela acima demonstram que os animais que receberam trato em dias alternados permaneceram mais tempo comendo do que os animais cujo alimento foi fornecido diariamente. O pico de consumo, foi semelhante nos dois tratamentos, ou seja, logo após o trato (8:30hs) e no final da tarde (18:00hs) bem como a distribuição deste ao longo do dia. No entanto, o maior tempo gasto com alimentação pelas vacas que foram tratadas em dias alternados (Tabela 1.) promoveu uma maior IMS média, ou seja, 16,9 kg para alimentação em dias alternados contra 15,8 kg. Tal comportamento, conseqüentemente, gerou uma maior produção para os animais de trato alternado, conforme tabela a seguir:

Tabela 2.


Segundo os resultados do trabalho apresentado, as vacas alimentadas diariamente passaram menos tempo ruminando deitadas (Tabela 1.), permanecendo um período maior em pé não ruminando. Além disso, os animais que receberam trato em dia sim/dia não apresentaram um menor interação agressiva no grupo.

Num segundo experimento realizado pela mesma instituição inglesa de pesquisa, 60 vacas holandesas com média de 3 lactações e 19 dias pós-parto foram submetidas a 3 diferentes tratamentos:

Tratamento 1 - TMR 4 vezes ao dia (TMR4x)

Tratamento 2 - TMR 1 vez ao dia,(TMR1x)

Tratamento 3 - trato sem TMR, 1 vez ao dia (STMR1x)

No tratamento 1 o trato foi realizado diariamente, às 6:00, 10:00, 14:00 e 19:00hs. No tratamento 2 e 3 o trato foi realizado apenas 1 vez por dia às 6:00hs. A dieta fornecida para os animais foi a mesma do primeiro experimento. Foi avaliado o comportamento animal com a repetição dos parâmetros do experimento anterior e com a introdução de alguns novos itens comportamentais como: período de dormência (caracterizado por animais deitados com a cabeça recolhida e focinho junto ao tórax - animais relaxados, quase dormindo) e período dormindo. Todas as avaliações do experimento 1 foram repetidas e a produção de leite, neste experimento, foi avaliada através de controle leiteiro diário nos últimos 4 dias de avaliação de cada período experimental. Todos os dados foram também foram analisados estatisticamente.

Tabela 3.


De acordo com os resultados apresentados pela pesquisa, o padrão de IMS ao longo do dia foi semelhante ao experimento 1, ou seja, picos de consumo nos tratos da manhã e no final da tarde. O fato interessante a ser destacado, no caso dos animais que receberam 4 refeições diárias(TMR4x), foi a redução do tempo gasto com alimentação . Concomitantemente, a taxa de apreensão foi maior (mais bocadas/unidade de tempo). O mesmo comportamento ocorreu com os animais do TMR1x. Um outro fator interessante a ser destacado na tabela 3, refere-se a agressividade dos animais. No primeiro experimento, os animais submetidos a trato diário mostraram-se mais agressivos e produziram menos leite. No segundo experimento, os animais TMR4x também foram mais agressivos do que os tratamentos com apenas 1 trato diário (TMR1x e STMR1x) o que dá suporte a hipótese de que a oferta regular de forragem pode ser um fator desestabilizador.

Tabela 4.


No primeiro experimento, o aumento na concentração de gordura do leite, no caso de tratos alternados (dia sim/dia não) está associado a maior ingestão de matéria seca, mais precisamente em função da maior extensão da digestão da fibra associada ao maior tempo de ruminação dos animais deitados. O segundo experimento demonstrou que a produção de leite não pôde ser associada a maior ingestão de alimento (tratamentos TMR1x e STMR1x). Em ambos experimentos, a redução da concentração protéica do leite pode ser atribuída à diluição em função do maior volume de leite produzido.

Resumindo os dados apresentados neste artigo, podemos concluir alguns "pontos" importantes relativos ao número de tratos empregados em propriedades leiteiras. Os números revelados por este trabalho sugerem que:

  • Quanto maior for a freqüência de tratos, maior a competição entre animais, o que, ao contrário do que muitos imaginavam, atua como um redutor de IMS, podendo afetar negativamente a produção de leite (experimento 1)

  • Apesar de não afetar o desempenho produtivo dos animais, neste caso particular, a redução na IMS com o aumento do número de tratos diários é um fator importante a ser mensurado (experimento 2)

  • O fornecimento de tratos mais esparsos (dias alternativos, experimento 1), pode promover um aumento na produção de leite em função da maior extensão da digestão da fração fibrosa da dieta, além de promover menor estresse (competição)
A publicação de outros trabalhos referentes a comportamento animal tem demonstrado que a oferta de alimento para bovinos está associada a um aumento da agressividade entre os animais (Arnold and Grassia, 1983; Jezierski and Podluzny, 1984 citados por Phillips and Rind, 2001). Segundo Mistleberger, 1994, bovinos têm a capacidade de prever o fornecimento de alimento quando este é realizado uma, duas e, em alguns casos, até três vezes ao dia, o que não ocorre com outros mamíferos que não conseguem associar refeições com intervalos superiores a 26 horas. Desta forma, segundo Johannesson e Ladewig, 2000, a variação no momento do fornecimento de leite para bezerros, no intuito de eliminar a capacidade de previsão da refeição, resultou num aumento no consumo de concentrado destes animais, provavelmente pela estimulação da procura por alimento. Tal tendência pôde ser associada ao comportamento das vacas no experimento 1, ao receberem alimentação em dias alternados (maior consumo e produção de leite) e também no experimento 2 (maior consumo) no caso dos tratamentos efetuados apenas uma única vez a dia.

Comentários do autor: este tema é bastante polêmico devido ao conceito estabelecido envolvendo a relação IMS e desempenho animal. No entanto, os dados apresentados neste trabalho, em particular, tenderam para uma realidade diferente. Não podemos nos esquecer sempre da origem dos ruminantes. Foram animais que, para fugirem de predadores, pastejavam com voracidade e velocidade nas savanas, de modo a ingerir a maior quantidade possível de alimento para, posteriormente, se esconderem na mata e digerirem o alimento (surgimento e desenvolvimento de estômago adaptado, plurilocular). Logo, analisando este conceito evolutivo, podemos efetuar uma lógica comportamental com o resultado do tratamento mais produtivo do primeiro experimento. Da mesma forma, não podemos nos esquecer de conceitos importantes como a qualidade do material fornecido aos animais e o tempo de permanência/decomposição destes no cocho como inibidor de consumo. O objetivo deste artigo não é afirmar, em hipótese alguma, que o melhor caminho, segundo a pesquisa, hoje, seria a redução do número de tratos. O foco se dirige a atenção para aspectos comportamentais importantes como os apresentados pelos pesquisadores de Cambridge, que estão também diretamente associados ao custo operacional de sistemas de produção com animais confinados. Sendo assim aguardamos mais resultados experimentais conclusivos para melhor elucidarmos este tema.

Fonte: J. D. Science, 84:1979-1987.

JOÃO PAULO V. ALVES DOS SANTOS

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