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Pagamento por qualidade: Qual o número mínimo de amostras ?

POR LAERTE DAGHER CASSOLI

CLÍNICA DO LEITE/AGRO+LEAN

EM 29/10/2013

5 MIN DE LEITURA

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Laerte Dagher Cassoli

Há cerca de dez anos esta pergunta começou a ser feita, visto que algumas indústrias iniciavam seus programas de pagamento por qualidade. Na época também era estruturada a RBQL (Rede Brasileira de Controle de Qualidade do Leite) o que permitiu que as análises pudessem ser feitas por entidades neutras e isentas, trazendo maior confiabilidade ao processo. Naquela época, foram desenvolvidos trabalhos de pesquisa com o objetivo de definir qual seria o número mínimo de amostras para classificar corretamente a qualidade do leite de um determinado produtor. Alguns anos se passaram, o número de indústrias que pagam por qualidade aumentou e a pergunta continua sendo feita, em especial pelos produtores. Neste artigo vamos retomar este tema e responder a pergunta. Desejo a todos uma excelente leitura.

Os programas de pagamento por qualidade e frequência de amostragem

Avaliando as 364 indústrias que monitoram a qualidade do leite junto a Clínica do Leite – ESALQ/USP, identificamos que 48 delas (13%) já adotam programas de remuneração pela qualidade (Gráfico 1). Se olharmos o número de produtores, este número já sobe para 34% dos produtores (Gráfico 2).




Gráfico 1. Distribuição das indústrias em função da adoção de PVQ


Gráfico 2. Distribuição dos produtores em função da adoção de PVQ
 

Ou seja, apesar de apenas 13% das indústrias possuírem um PVQ (Programa de Valorização da qualidade do leite), são indústrias com maior número de fornecedores, o que acaba representando 34% dos produtores.

Quando analisamos o número de coletas realizadas (Tabela 1) notamos que das 48 indústrias que pagam por qualidade, 17 delas realizam apenas 1 (uma) coleta por mês, enquanto que acima de 4 amostras por mês temos somente 7 indústrias.

Tabela 1. Frequência de amostragem




O conceito de amostragem

Considerando que a indústria faça coleta a cada 48h, durante um mês temos 15 coletas de leite na fazenda. Para que possamos classificar, com 100% de certeza, a qualidade do leite vendido à indústria durante o mês, o correto seria coletarmos uma amostra a cada remessa de leite, ou seja, 15 amostras por mês. Desta forma teríamos certeza da qualidade do leite que é de fato comprado pela indústria, seria um “mundo ideal” mas que já é feito em outros países.

Por outro lado, podemos lançar mão do processo de “amostragem” para estimar a qualidade do leite entregue num determinado período. Ou seja, das 15 remessas de leite feitas à indústria durante o mês, poderíamos realizar a coleta em apenas algumas remessas. A qualidade aferida nestas amostras seria representativa de todo o leite vendido durante o mês, com uma certa “margem de erro”.

Vamos analisar o exemplo abaixo de uma fazenda em que foi feita a coleta diária de uma amostra para determinação do teor de gordura. No Gráfico 3, podemos observar a variação no teor de gordura. O teor médio de gordura das 30 amostras é de 3,35%. Sabendo que amostramos todos os dias, sabemos que este valor é o valor “real” para o teor de gordura. Agora vamos imaginar que a indústria realizasse somente 1 (uma) amostra no período e que a coleta foi feita no dia 17/03. O teor de gordura observado nesta amostra foi de 3,13%. Ou seja, o valor de gordura obtido pelo processo de amostragem seria de 3,13%, abaixo do valor “real” de 3,35%.

Por outro lado, imagine se a coleta tivesse sido realizada no dia 19/03. O teor de gordura nesta amostra foi de 3,48%, superior a média “real” de 3,35%. Nesta situação a fazenda poderia ser classificada numa faixa superior e receber além do que deveria pelo litro do leite.

Por outro lado, se considerarmos a coleta no dia 23/03 o teor de gordura foi exatamente igual ao teor de gordura “real”. Ou seja, com uma única amostra durante os 30 dias conseguiríamos classificar o produtor corretamente.

Se formos aumentando o número de amostras coletadas temos a chance de aproximar cada vez mais o valor “observado” do valor “real”. Mas qual seria este número mínimo de amostras para termos uma certa segurança na classificação do produtor ? Um aspecto importante que afetará o número mínimo é a “variação natural” que ocorre ao longo do mês nos resultados. Este variação pode ser expressa por um indicador chamado de coeficiente de variação (CV %).



Gráfico 3. Variação diária do teor de gordura de uma fazenda (Exemplo).

Estudo de campo para definir a variação dos dados (coeficiente de variação)

Realizamos um estudo com 502 fazendas em que verificamos o coeficiente de variação amostral (CV %) para os parâmetros como gordura, proteína, CCS e CBT (contagem bacteriana total).

Na Tabela 2, as fazendas foram separadas em 3 grupos de acordo com o CV, considerando variação baixa, média e alta. Notamos que os parâmetros de CCS e CBT são os que apresentaram maior variação, enquanto que a proteína é o que menos varia. O valor do grupo alto é onde temos cerca de 75% das fazendas. Exemplo: para gordura, 75% das fazendas possuem variação de até 8% para gordura.

Tabela 2. Coeficiente de variação amostral observado em 502 fazendas



A informação do CV é uma peça chave para se calcular o número de amostras mínimo.
Sabemos que alguns fatores podem afetar o CV como:

- número de vacas em lactação: quanto maior o número menor deve ser o CV
- manejo nutricional: quanto mais estável for a nutrição dos animais, menor será o CV
- manejo de ordenha: quanto mais estável for o manejo, menor será o CV

Calculando o número mínimo de amostras

Além da informação do CV amostral, outra informação também é necessária para se definir o número mínimo, que é a amplitude da classe utilizada no pagamento por qualidade. Quanto menor for a amplitude, maior terá de ser o número de amostras.
Utilizando uma equação estatística específica, conhecendo-se o CV e amplitude da classe é possível definir o número mínimo de amostras.

Abaixo um exemplo para a análise de gordura. Se considerarmos uma classe com amplitude de 0,15 unidades (de 3,30 a 3,45), e considerando o grupo alto (que contempla 75% das fazendas) precisaríamos de pelo menos 3 amostras no mês.

Tabela 3. Número mínimo de amostras para teor de gordura em função do CV e amplitude da classe para fazenda com teor médio de 3,50%


Tabela 4. Número mínimo de amostras para teor de proteína em função do CV e amplitude da classe para fazenda com teor médio de 3,15%


Tabela 5. Número mínimo de amostras para CCS em função do CV e amplitude da classe para fazenda com CCS média de 250 mil.



Tabela 6. Número mínimo de amostras para CBT em função do CV e amplitude da classe para fazenda com CBT de 100 mil.



Ainda neste projeto, simulamos o que aconteceria com estes 502 produtores se por exemplo, o número de amostras fosse reduzido de 4 para 1 amostra/mes. Com esta redução mais de 80% deles mudaria de classe e consequentemente receberiam um valor diferente. Uns para mais, outros para menos.

E qual seria portanto o número mínimo de amostras ? Depende. Como podemos observar o número de amostras será função do CV e também da amplitude da classe. Se fosse fazer uma recomendação geral, pelo que temos observado nos programas de valorização da qualidade (PVQ), seria recomendável trabalhar com 3 ou mais amostras por mês.




 

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CLÍNICA DO LEITE

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/11/2013

Olá Paulo,

Bom dia, agradeço pelo comentário e por compartilhar a sua experiência.

Podemos separar a variação da medição (teor de proteína) em 2 componentes:

a) Variação metrológica/incerteza de medição: é a variação que pode ocorrer inerente ao processo de análise. Por exemplo, no caso de proteína, temos uma variação máxima associada de +/- 0,07 unidades. Ou seja, uma amostra com proteína de 3,30%, se analisada n vezes ao longo do tempo, pode apresentar variação de 3,23 a 3,37. Por isso, quanto maior o no. de amostras coletadas no mes, maior a certeza de que o valor médio obtido representará fielmente o leite entregue no mes, pois esta incerteza sempre é ora para mais, ora para menos. Se uma empresa faz somente 1 amostra para pagamento por qualidade, por exemplo, ai não temos como isolar este efeito.

b) Variação da composição do leite: Você está certo em dizer que a proteína varia pouco, é um dos componentes mais estáveis, junto com a lactose. Esta variação pode ocorrer por alguns motivos que listo abaixo:

- rebanho com poucos animais em lactação (por exemplo < 20), cada vaca tem uma contribuição muito grande com o leite do tanque, e a mudança da população de vacas em lactação tem peso nesta situação.

- amostragem sem dúvida alguma é um ponto critico. Seria interessante analisar a variação dos outros componentes em especial a gordura, componente mais sensível a falhas na homogeneização.

- mais de 1 tanque na fazenda é outro "problema". O leite que acaba ficando em cada um é não exatamente o mesmo e pode ser um fator complicador. O recomendado tecnicamente, seria a coleta de uma amostra da cada tanque, e depois no calculo do resultado médio de qualidade, fosse feita uma média ponderada pelo volume de cada tanque. Algo simples de ser feito, se a empresa possui um sistema de informação adequado. Quando isso não acontece, acabamos retirando um pouco de leite de cada tanque para montar uma amostra "composta".

Um grande abraço,

Laerte
PAULO F. STACCHINI

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/11/2013

Olá Laerte,

assisto algumas fazendas aqui na região de São Carlos/Araraquara e o que tenho observado são variações muito grandes nos resultados de sólidos (gordura e proteína) mesmo dentro do intervalo de um mês, quando não foram observadas mudanças na alimentação, número e quantidade de vacas lactantes, % de primíparas, e manejo da ordenha. Nós sabemos como técnicos como é difícil manipular o teor de protéina do leite até mesmo em experimentos especificamente delineados na área de nutrição com objetivos específicos de verificar o efeito da dieta na % de proteína do leite. Então, fico me questionando, como podem ocorrer variações tão abruptas no teor de proteína em intervalos de 7 a 15 dias, sem nenhuma mudança de lotes e manejo alimentar? Mesmo não tendo um rigoroso controle quanto ao consumo diário de MS de todos lotes dos rebanhos destas fazendas, você acredita que seja normal verificarmos por exemplos variações nos teores de proteína iguais a estas (3.32% em 05/10; 3.03% em 10/10; 3.13% em 22/10 e 3.23% em 26/10)? A variação no teor de proteína no intervalo de 5 dias (05/10 p/ 10/10) foi de praticamente 10%. Até que ponto, o aumento de produção provocado pelo uso de BST pode impactar nos valores de proteína do leite? Poderia existir um efeito de diluição se a amostra de qualidade coincidir com o pico de produção após a aplicação de BST, 4-7 dias após a aplicação? Quanto desse coeficiente de variação pode estar associado a qualidade de amostragem (treinamento e/ou mudança dos responsáveis pela coleta, tempo prévio de agitação do leite no tanque, profundidade em que é retirada a amostra, etc.)? Grato por sua valiosa colaboração,

Paulo - COWTECH CONSULTORIA
CLÍNICA DO LEITE

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 03/11/2013

Olá Eduardo,
Boa noite,
Agradeço o envio do comentário.
Temos estudos neste sentido, e o que temos observado é que não existe diferença significativa para sólidos, se a amostra for analisada em até 5 dias, mesmo sem refrigeração. Em relação a localização do lab, estamos investindo num sistema de logística que cresce a cada ano. Atualmente estamos com uma frota de 7 veículos refrigerados rodando mais de 70.000 km mês, que recolhem as amostras das indústrias e também de produtores (amostras individuais) e trazem até a Clinica. Por exemplo, no caso de Patos de Minas temos 4 coletas por mês em "pontos de apoio" e sem custo para o produtor enviar amostras individuais (como é o seu caso). Por enquanto, caminharemos com esta estratégia.
Um abraço,
Laerte
CLÍNICA DO LEITE

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 03/11/2013

Olá Raoni,
Agradecemos pelo seu comentário,
Neste estudo que citamos, calculamos qual era o valor médio (mix) do litro do leite considerando 1 ou 4 amostras da empresa. Apesar de mais da metade do produtores mudar de classe, não existe diferença alguma no valor médio. Ou seja, aumentando de 1 para 4 amostras, os produtores são reclassificados, ora para cima, ora para baixo. Para a empresa não faz diferença aumentar a frequência de coleta, mas com isso ela passa a fazer uma distribuição mais justa aos produtores. Quanto ao custo, podemos considerar um valor ao redor de R$ 7,00/análise. Se aumentar de 1 para 3, por exemplo, ficaria um custo adicional de R$ 14,00 por fazenda aproximadamente.
Um abraço,
Laerte
EDUARDO AMORIM

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/11/2013

Parabéns ao prof. Laerte pelo artigo muito esclarecedor principalmente para entendermos parte das variacões nos resultados das análises de leite. Gostaria de um artigo sobre a influencia do tempo entre a coleta e a data da analise e o teor de sólidos, analisando dois cenarios, em que as amostras sao transportadas refrigeradas desde a fazenda e outro sem refrigeracao apenas com o conservante. Há alguma possibilidade da Clinica do Leite instalar uma unidade em Minas? Grande abraço. Eduardo Amorim
RAONI BENI CRISTOVAM

DRACENA - SÃO PAULO - ZOOTECNISTA

EM 03/11/2013

Ótima matéria Laerte!

Gostaria de passar uma sugestão de simulação de fazer 1 amostra e 3 amostras e o quanto isso impactaria no fim do pagamento mensal de um laticínio, incluindo os custos devido ao aumento de amostras, fazendo no mínimo 3 coletas ao invés de 1.

Obrigado.
LEGALIZE CONSULTORIA ALIMENTAR

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 31/10/2013

Ótimo artigo.
MilkPoint AgriPoint