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Influência de taxas de crescimento antes e após a puberdade no crescimento e na produção de leite de novilhas leiteiras recriadas a pasto (Parte - 1)

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E BRUNA DA CONCEICAO DE MATOS

CARLA BITTAR

EM 18/06/2007

12 MIN DE LEITURA

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Em um sistema de produção leiteira a taxa de crescimento das novilhas e o peso corporal à primeira parição são considerados pontos chaves para o sucesso deste tipo de exploração, pois influenciarão diretamente os futuros índices produtivos, reprodutivos e econômicos destes animais.

Os valores recomendados para um ótimo peso corporal à primeira parição são variáveis de acordo com a raça utilizada e com o sistema de manejo implantado na propriedade. Para a raça holandesa, em sistemas intensivos com fornecimento de altas quantidades de concentrado, recomendam-se pesos médios entre 540Kg e 650Kg, já em sistema de pastejo os valores admitidos são mais modestos (490-550Kg).

Fêmeas com altas taxas de crescimento podem apresentar desenvolvimento reprodutivo mais rápido, pela obtenção precoce do peso corporal mínimo para a manifestação do primeiro cio fértil, e conseqüentemente um melhor peso à primeira parição em um menor período de tempo. Algumas evidências, no entanto, apontam que altas taxas de crescimento têm um efeito deletério sobre a produção leiteira futura, devido a um possível comprometimento no desenvolvimento do tecido parenquimal da glândula mamária, ou seja, o tecido secretor de leite.

Entretanto, os dados de literatura são inconsistentes sobre os efeitos de um elevado ganho de peso pré-pubertal sobre a produção leiteira, principalmente quando fatores como o peso ao parto e o escore de condição corporal dos animais são considerados na análise dos resultados.

Embora o desenvolvimento do tecido secretor possa ser retardado, em decorrência de um reduzido período até a puberdade em novilhas submetidas a altas taxas de crescimento, não necessariamente ocorrerão efeitos deletérios sobre a produção de leite, principalmente para animais em regime de pastejo onde o seu potencial genético de produção é raramente explorado. Da mesma forma, o aumento no peso vivo de novilhas ao parto é considerado como um fator que resulta em aumento no potencial de consumo de matéria seca dos animais. Entretanto, poucos experimentos foram conduzidos no sentido de definir a relação entre peso vivo ao primeiro parto e produção de leite em sistemas a pasto onde o consumo de matéria seca potencial e conseqüentemente a produção de leite podem ser limitados pelo tempo disponível para pastejo.

Frente à inconsistência dos dados observados na literatura, McDonald et al. (2005), conduziram um experimento com o objetivo de medir os efeitos da alimentação em longo prazo para obtenção de diferentes taxas de crescimento na fase pré e pós-puberdade até o peso a primeira parição e suas possíveis implicações sobre o crescimento e desempenho produtivo e reprodutivo de novilhas Holandesas e Jersey submetidas a regime de pastejo.

Neste "Radar Técnico", serão comentados os resultados observados na fase que compreende o período pré-púbere à primeira parição. No "Radar Técnico"do mês que vem, serão discutidas as possíveis relações existentes entre a influência da taxa de ganho de peso sobre o desenvolvimento da glândula mamária e sobre a produção leiteria durante as três primeiras lactações.

Material e métodos

O estudo foi conduzido na fazenda do Centro Dexcel de Pesquisa de Forragens na cidade de Hamilton, Nova Zelândia, e em 10 fazendas comerciais da região, utilizando-se 645 bezerras das raças Holandesa e Jersey (245 e 400, respectivamente).

Os animais foram trazidos ao centro com 4 dias de idade com média de peso de 37 ± 4,1Kg e 29 ± 4,3Kg para as raças Holandesa e Jersey, respectivamente. Os animais foram mantidos em grupos para uniformização dos pesos, sendo 100 ± 10,5Kg para fêmeas Holandesas e 80 ± 9,5Kg para Jersey, para animais com aproximadamente 100 dias de vida.

Para tal, os animais receberam 2L de leite, duas vezes ao dia, até o vigésimo primeiro dia. Após este período o leite passou a ser fornecido uma única vez ao dia (6L - 5L, respectivamente para as fêmeas Holandesas e Jersey). Concentrado (21% de proteína) foi fornecimento a partir do 7o dia e o acesso a área de pastejo (azevém e trevo branco) foi liberado aos 14 dias.

Após a obtenção do peso proposto, as fêmeas foram alocadas em 3 diferentes sistemas de alimentação, com projeções de ganho de peso pré-estabelecidos para novilhas Holandesas e Jersey, respectivamente até que apresentassem peso vivo de 200 e 165Kg:

1.Alta taxa de crescimento (A1): Ganhos de peso entre 0,80 e 0,65 Kg/d;
2.Média taxa de crescimento (M1): Ganhos de peso entre 0,60 e 0,50 Kg/d;
3.Baixa taxa de crescimento (B1): Ganhos de peso entre 0,40 e 0,35 Kg/d.

As avaliações de peso corporal, perímetro torácico e altura da cernelha foram realizadas no início (dia 7) e no final deste período experimental. O peso corporal foi avaliado semanalmente até 400 dias, e quinzenalmente após este período.

Os animais permaneceram neste manejo até atingirem 200 e 165Kg de peso, respectivamente para novilhas Holandesas e Jersey. Estes valores foram escolhidos por serem valores aproximados nos quais as fêmeas, de ambas as raças, estariam iniciando a puberdade em sistemas de manejo baseados em regime de pastejo. Sendo então novamente realocadas em dois diferentes grupos de manejo alimentar, com diferentes projeções de ganho de peso para Holandesas e Jersey:

1.Alta taxa de crescimento (A2): Ganhos de peso entre 0,70 e 0,60 Kg/d;
2.Baixa taxa de crescimento (B2): Ganhos de peso entre 0,50 e 0,40 Kg/d;

Este período estendeu-se até as fêmeas completarem 22 meses, quando retornaram a seus rebanhos de origem, com confirmação positiva de prenhez.

As avaliações de peso corporal, perímetro torácico e altura da cernelha foram realizadas no início (dia 7) e no final de cada período experimental. O peso corporal foi avaliado semanalmente até 400 dias, e quinzenalmente após este período. A condição de escore corporal foi medida no início e ao final do período 2.

Os pastos eram predominantemente compostos por azevém e trevo branco. Cada grupo de animais que formava um tratamento pastejou separadamente em piquetes de 0,4ha, e uma área diferente foi utilizada para ajustar taxa de lotação instantânea (animais/ha/d), de forma a obter valores de consumo de matéria seca e conseqüentemente, as taxas de ganho de peso pré-estabelecidas. Interessante ressaltar que estas taxas de ganho foram obtidas somente através do manejo da disponibilidade de forragem para cada grupo.

Com relação ao manejo reprodutivo, o estro de todas as novilhas foi sincronizado aos 15 meses utilizando-se um dispositivo intravaginal comercial, contendo 1,9g de progesterona e 10 mg de estradiol. Todas as fêmeas que apresentaram sinais de estro foram inseminadas. O diagnóstico de gestação foi realizado através de apalpação retal 33 dias após a primeira inseminação.

Resultados e discussão

A ingestão de energia metabolizável durante o primeiro período experimental foi de aproximadamente 44, 36 e 33 MJ/d para bezerras Holandesas submetidas aos sistemas de manejo A1, M1 e B1, respectivamente. Para as fêmeas Jersey os valores foram 40, 32 e 28 MJ/d, para os sistemas A1, M1 e B1, respectivamente. Em relação ao segundo período as médias de consumo foram 94 e 54 MJ/d para novilhas holandesas (A2 e B2, respectivamente) e 85 e 52 MJ/d para fêmeas Jersey.

Os valores observados para a taxa de crescimento foram inferiores aos propostos no início da pesquisa, para ambas as raças, conforme Tabela 1.

Tabela 1. Taxa de crescimento (Kg/d) de novilhas Holandesas e Jersey em sistema de pastejo com diferentes disponibilidades de forragem.


O peso corporal aos 6 meses de idade das novilhas, a altura na cernelha, o perímetro torácico e o escore corporal no final do primeiro período aumentaram com o incremento na dieta (Tabela 2). Como planejado, não houve diferença entre tratamentos no peso vivo ao final do período 1, embora tenha ocorrido um pequena mas significante redução na altura na cernelha e no perímetro torácico com o aumento na taxa de crescimento dos animais.

Tabela 2. Peso Corporal, altura da cernelha, perímetro torácico e escore corporal de novilhas Holandesas e Jersey aos 6 meses de idade, no final do período 1, aos 15 meses e no final do período 2 (22 meses), submetidas a diferentes taxas de crescimento nos períodos 1 (B1, M1, A1) e 2 (B2, A2).


FP1 = Fim do primeiro período experimental (100-200Kg PV, para Holandês e 80-165 Kg para Jersey);
FP2 = Fim do segundo período experimental (200 ou 165 Kg a 22 meses, para fêmeas Holandesa e Jersey, respectivamente);
Hol = Novilha holandesa;
Jer = Novilha Jersey.

A extensão do período 1 decresceu conforme o aumento na taxa de ganho dos animais. Para novilhas holandesas com peso inicial de aproximadamente 100kg, 200kg foram alcançados após 135, 200 e 267 dias para as taxas de ganho alta, média e baixa, respectivamente. Já para as novilhas Jersey, com peso inicial de 80kg e peso final de 165kg, o período 1 teve duração de 140, 176 e 267 dias para as taxas de ganho alta, média e baixa, respectivamente.

O peso vivo aos 15 e aos 22 meses aumentou linearmente com o aumento na taxa de crescimento durante os períodos 1 e 2. No final do período (22 meses) as diferenças de peso entre os tratamentos foram altas. Para novilhas Holandesas, observou-se 27 e 43Kg de diferença de peso entre os tratamentos com alta e média taxa e os de média e baixa taxa de ganho de peso, respectivamente. Em relação a novilhas da raça Jersey, a diferença foi menos expressiva, 20-34Kg, respectivamente para a mesma situação. Entre raças, a diferença no peso corporal foi de 70Kg, quando submetidas a altas taxas de ganho (A2) e 56 Kg, em baixas (B2).

No tocante a performance reprodutiva, o peso inicial a puberdade não diferiu entre os tratamentos (251 ± 25,4 e 180 ± 24,0 Kg, respectivamente para novilhas Holandesa e Jersey). Conforme relatado por Foldager et al (1988), a idade a puberdade foi inversamente relacionada a taxa de ganho de peso durante ambos os períodos experimentais.

Tabela 3. Idade a puberdade (dias) de novilhas Holandesa e Jersey submetidas a diferentes taxas de ganho de peso.


Como conseqüência do atraso no início da puberdade de novilhas submetidas à baixa oferta de alimento, as taxas de crescimento pré-púberes foram positivamente associadas com a proporção de fêmeas ciclando no período planejado para a cobertura (100, 98 e 81% para novilhas Holandesas e 98, 96 e 68% para Jersey, com as taxas de ganho A1, M1, B1, respectivamente). Apesar das diferenças no peso corporal, o período de concepção não foi afetado pelo tratamento ou pela raça (13 ± 2.4 dias). Da mesma forma, a taxa de concepção durante o período de reprodução (10 semanas) não foi afetado pelo tratamento imposto (93% para fêmeas Holandesas e Jersey).

Os valores de peso vivo ao parto estiveram dentro do recomendado em literatura somente para novilhas em altas taxas de crescimento durante os períodos 1 e 2, conforme mostra a Tabela 4. De acordo com estes dados, novilhas holandesas ou Jersey quando recriadas a pasto devem ser submetidas a altas taxas de crescimento através de alta disponibilidade de forragem de boa qualidade para que alcancem peso ao parto adequado de forma a maximizar a produção de leite futura.

Tabela 4. Peso ao parto de novilhas submetidas a diferentes taxas de crescimento nos períodos pré e pós-puberdade.


Com base nestes dados, em sistemas sazonais de criação (como é o caso da Nova Zelândia), onde a primeira parição deve ocorrer obrigatoriamente aos 24 meses, o ganho de peso parece não influenciar o manejo reprodutivo, embora essa intervenção seja provavelmente mais requerida como estimulador do início da puberdade e estro em fêmeas criadas em sistemas alimentares deficientes. Uma das principais razões para o crescente interesse sobre o manejo de novilhas em crescimento e desenvolvimento baseia-se na possibilidade de antecipação do período reprodutivo e como conseqüência redução do período não produtivo destas fêmeas.

Em sistemas não sazonais de criação, um baixo ganho de peso no período pré-pubertal poderá promover um atraso na idade a primeira parição. Neste estudo, não foi possível avaliar a extensão deste efeito devido à sincronização do estro, no entanto em um estudo conduzido por Van Amburgh et al. (1998), a redução no inicio de estro foi de 2 dias para todas as novilhas submetidas a baixo ganho de peso e de 12 dias para as fêmeas submetidas a baixo ganho de peso que vieram a parir.

Conclusão

Um bom planejamento no período de recria de novilhas leiteiras poderá promover altos índices de retorno econômicos futuros. Quando estes animais são submetidos a taxas de ganho de peso mais elevadas, apresentam redução no número de dias para início da puberdade e da idade a primeira cria, resultando em uma redução nos dias não produtivos destes animais e, por conseguinte, antecipando e elevando o período de retorno econômico destas.

Referências

Macdonald, K,A.; Penno, J.W.; Bryant, A.M.; Roche, J.R. Effect of feeding level pre and post-puberty and body weight at first calving on growth, milk production, and fertility in grazing Dairy cows. J. Dairy Sci. 2005. v. 88. p. 3363-3375.

Leitura Sugerida

Radar Técnico - 21/02/2007 - Razões para monitorar o crescimento de novilhas leiteiras. Clique aqui para ler.

Comentários

Os autores mostram que altas taxas de ganho de peso são possíveis sem suplementação com concentrado quando se aumenta a disponibilidade de forragem de alta qualidade, como o azevém e o trevo branco. Infelizmente não temos como trabalhar com estas plantas na maior parte de nosso país, utilizando então plantas com qualidade inferior mas ainda com grande potencial para possibilitar boas taxas de ganho de peso animal, desde que sejam manejadas de forma adequada.

Entretanto, tem-se que fazer uso de suplementação concentrada para manter boas taxas de ganho de peso de forma a não atrasar em demasia a idade à puberdade e conseqüentemente a idade ao primeiro parto, índices que podem alterar de forma significativa o sucesso econômico da exploração leiteira. Ainda que somente com o aumento da disponibilidade de forragem, os autores demonstraram que taxas de ganho de peso superiores afetam de forma significativa a idade a puberdade, podendo reduzir o período improdutivo destes animais em crescimento.

Outro ponto importante, e que afeta a produção de leite durante a lactação, é o peso ao parto. As recomendações em literatura sugerem pesos à parição de 550 e 480 kg para animais da raça holandesa e Jersey, respectivamente. Estes pesos à parição só foram obtidos quando os animais tiveram alta disponibilidade de forragem durante os períodos pré e pós-púbere, quando apresentaram maiores taxas de crescimento.

Estes dados sugerem que em nossas situações, é pouco provável que taxas de ganho de ganho capazes de reduzir idade à puberdade e, conseqüentemente, além de peso ao parto adequados, somente com a utilização de pastagem. Por outro lado, como foi apresentado na introdução, altas taxas de ganho durante a fase pré-púbere podem afetar o desenvolvimento da glândula mamária de novilhas e assim reduzir o potencial de produção de leite destes animais.

No próximo radar técnico, com a segunda parte do artigo, vamos avaliar se as taxas de ganho de peso observadas com o aumento da disponibilidade de forragem afetaram a produção de leite destes animais até a 3ª lactação.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

BRUNA DA CONCEICAO DE MATOS

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 08/05/2008

Juliana,

Não tenho nenhum modelo de ficha para novilhas mas é simples montar uma. Você deve incluir na ficha informações importantes sobre a novilha como identificação (no., nome e no. de resgitro, se for o caso, é dados da genealogia como no. e nome do pai e da mãe), data e peso de nascimento, datas previstas para as diversas vacinas e vermifugações, e acompanhamento do crescimento do animal. Durante o período de aleitamento o interessante e fazer pesagens frequentes pois o ganho de peso indica se esta fase está sendo bem realizada na propriedade. Lembre-se que a fase de aleitamento tem um alto custo diário. Também é importante manter registro de problemas sanitários das novilhas e isso permite fazer uma avaliação geral dos animais nas diferentes fases e identificar problemas recorrentes.
Após o desaleitamento as pesagens podem ser mensais. Se houver possibilidade também é interessante fazer uma avaliação de escore de condição corporal e tomar medidas como a altura na cernelha e perímetro torácico.
Att.,
Carla Bittar
JULIANA SOFIA

PASSO FUNDO - RIO GRANDE DO SUL - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 06/05/2008

Gostaria de Fazer uma ficha para novilhas até o seu primeiro parto (como peso a desmama, monitoramento de peso e sanidade). Vocês tem alguma ficha para utilizarmos como modelo?

ROMERO GOMES SARAIVA

JOÃO PESSOA - PARAIBA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/07/2007

O assunto abordado neste artigo é de relevante importância para criadores preocupados em repor seus plantéis a um custo menor e com qualidade conhecida. Vem ao encontro de nossa necessidades atuais, sendo de fácil assimilação e com objetividade. Estaremos acompanhando tudo o que for publicado pela dra. Carla Bittar. Parabéns.