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Fornecimento de sucedâneos: avaliação econômica

CARLA BITTAR

EM 13/06/2005

6 MIN DE LEITURA

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Por Carla Maris Bittar Nussio1

No "Radar Técnico" passado tratamos sobre critérios para a realização do desaleitamento precoce, clique aqui para ler, uma das estratégias para redução do custo de produção de novilhas de reposição. Neste Radar vamos explorar uma outra estratégia durante o período de aleitamento: adoção de dieta líquida de baixo custo.

Após o período de fornecimento de colostro, o bezerro deve receber dieta líquida contendo quantidade e qualidade adequada de nutrientes para esta categoria animal. No Brasil, a maior parte das fazendas fornece leite descarte, proveniente de vacas com mastite e/ou com resíduo de antibióticos. Por outro lado nos Estados Unidos e na Europa, a crescente preocupação com o uso de antibióticos em subdoses tem levado ao uso de sucedâneos ou às práticas de fermentação e pasteurização do leite descarte de forma a reduzir o número de patógenos ou destruir resíduos de antibióticos.

Além dos problemas relacionados ao fornecimento de baixas doses de antibióticos, o fornecimento de leite proveniente de vacas com mastite também pode ser um problema, principalmente quando o sistema utiliza bezerreiros coletivos. Existem evidências de que em bezerreiros coletivos, onde ocorre mamada cruzada, o fornecimento de leite descarte pode aumentar a ocorrência de mastite destas novilhas por ocasião do primeiro parto. Assim, recomenda-se o fornecimento de leite descarte somente em bezerreiros que permitam individualização dos animais, portanto não ocorra mamada cruzada.

O leite é um dos componentes que mais onera o custo de criação de bezerras, representando em torno de 50% do custo total ou até 75% dos custos com manejo e alimentação de uma bezerra desaleitada. Dessa forma, a busca por estratégias que possam reduzir o período de aleitamento (desaleitamento precoce) ou substituir o fornecimento de leite é muito interessante do ponto de vista econômico. A adoção de sucedâneos como dieta líquida é uma destas estratégias. Além da vantagem de se fornecer uma dieta líquida com composição sempre constante, outro benefício do fornecimento de sucedâneos é a independência do aleitamento com relação aos horários de ordenha.

A decisão no uso de sucedâneo deve se basear em seu custo por litro diluído, comparado ao preço do leite vendido à indústria, sua composição e a oferta de leite descarte na propriedade.

Muitos trabalhos mostram que o fornecimento de sucedâneo de baixa qualidade, embora com menor preço por litro diluído, pode reduzir em aproximadamente 50% o ganho de peso de animais quando comparado com animais recebendo leite. Por outro lado, quando se avalia o fornecimento de sucedâneo de boa qualidade, observam-se taxas de ganho de peso muito similares às observadas com o fornecimento de leite.

Nussio (2005) realizou três simulações de custo de produção de bezerras desaleitadas, de acordo com diferentes dietas líquidas (Tabela 2): 1) fornecimento de leite; 2) fornecimento de leite e sucedâneo a partir da 3a semana de vida do animal; e 3) fornecimento de sucedâneo desde o 2o dia de vida. Para fins de cálculos, adotou-se uma redução no custo com sanidade de 8% no caso do fornecimento de sucedâneo a partir da 3a semana de vida, e de 10% no caso do fornecimento de sucedâneo durante todo o período de aleitamento. Utilizou-se o custo de um sucedâneo de alta qualidade (R$ 0,34/L), de forma que o desempenho de animais recebendo sucedâneo não fosse menor do que o observado com animais recebendo leite.

O menor custo de produção de uma bezerra até o desaleitamento foi observado quando se adotou o fornecimento de sucedâneo durante todo o período (R$ 192,56), com um custo diário de R$ 3,21 (R$ 192,56 / 60 dias). Comparando-se com o fornecimento de leite durante todo o período, o fornecimento de sucedâneo resultou em redução de 22,3% no custo final da bezerra desaleitada, mesmo com o aumento no custo com mão-de-obra. O fornecimento de sucedâneo a partir da 3a semana de vida da bezerra também reduziu o custo final da produção deste animal, sendo 17% menor ao observado com o fornecimento do leite durante todo o período. Esta redução seria ainda maior no caso da utilização de sucedâneo de menor qualidade, ou maior inclusão de proteína de origem vegetal, devido ao menor preço do litro diluído. Entretanto, neste caso o desempenho animal poderá ser inferior, resultando em bezerras desaleitadas com menor peso vivo e provavelmente com maiores índices de ocorrência de diarréias.
A simulação de custo de produção mostra que o fornecimento de sucedâneo é uma ferramenta muito interessante no sentido de reduzir custo de criação de bezerras leiteiras. Entretanto, ainda existe grande resistência por parte dos produtores para a adoção desta tecnologia.

A baixa utilização de sucedâneos no Brasil se deve a vários fatores. O primeiro ponto a ser levado em consideração é a formulação desses produtos. Os primeiros produtos disponíveis no mercado eram de baixa qualidade, não apresentando formulação adequada em termos de fonte protéica e energética. Muitos sucedâneos apresentavam, e alguns ainda apresentam, fonte protéica de baixa qualidade, geralmente à base de soja, sem prévio processamento para redução de fatores antinutricionais e aumento da digestibilidade, o que resultou em redução no desempenho e alta mortalidade. Assim, os trabalhos iniciais com sucedâneos no Brasil apresentaram um alto índice de mortalidade de bezerros, geralmente devido à diarréia, provavelmente decorrente de fatores antinutricionais. Outro problema comum é a inclusão de ingredientes com baixa solubilidade, resultando em sucedâneos de difícil diluição. O sucedâneo não se diluí de forma homogênea, formando grumos e muitas vezes se depositando no fundo do balde de fornecimento, acarretando no desbalanceamento do produto consumido, prejudicando assim o desempenho animal.

Entretanto, a produção de sucedâneos no Brasil recebeu atenção de várias multinacionais, as quais já comercializavam este tipo de produto em outros países. Com a entrada de novas formulações no mercado nacional esperava-se que sistemas de produções de bezerros que adotassem estas não tivessem redução no desempenho de seus animais. Infelizmente isto vem ocorrendo com freqüência. O principal fator limitante para o uso de sucedâneos parece ser a falta de mão-de-obra especializada, capaz de diluir e fornecer este tipo de alimento. A falta de cuidados para que a diluição seja feita com água em quantidade e temperatura ideais geralmente acarreta em menor desempenho animal. Pode-se observar com freqüência funcionários diluindo uma determinada quantidade do pó com mais água do que o recomendado para que um saco de sucedâneo possa alimentar mais bezerros. Entretanto, desta forma o animal tem um menor consumo de matéria seca, tendo seu desempenho reduzido, principalmente durante as primeiras semanas quando o consumo de concentrado não é capaz de compensar este fato.
Outro fator que contribui para a baixa utilização de sucedâneos é a oferta de leite descarte em fazendas leiteiras. Em muitas propriedades, o alto índice de animais com mastite pode resultar em quantidade de leite descarte mais que suficiente para o aleitamento de bezerros. É comum o produtor ter a falsa idéia de que este alimento tem custo zero, uma vez que não poderia ser comercializado, portanto não o considera na composição do custo de criação de bezerras até o desaleitamento. Este produtor, quando se depara com o custo de sucedâneo (custo por litro diluído), tem também a falsa idéia de que o custo de produção será superior.

Os dados apresentados mostram que o fornecimento de sucedâneo, desde que não reduza o desempenho animal, pode reduzir até 22% o custo do animal desaleitado. Entretanto, para que o desempenho não seja afetado de forma negativa, o produtor deve buscar produtos comerciais, de empresas idôneas, com formulações adequadas principalmente no que se refere à fonte de proteína.

Tabela 1: Índices técnicos utilizados para a composição de custos de criação de bezerra até o desaleitamento

 


Tabela 2: Comparação do custo de criação de bezerras recebendo diferentes dietas líquidas, sendo o custo apresentado é para 100 animais, sendo os valores de investimentos, manejo e alimentação expressos em R$/100 bezerras

 


Literatura citada:

Nussio, C.M.B. Avaliação econômica da adoção de sucedâneos no aleitamento de bezerros. Revista Leite DPA, no.47, 2005.

_______________________________________

1Carla Maris Bittar Nussio é Engenheira Agrônoma formada pela ESALQ/USP, atualmente trabalha no Depto. de Zootecnia da ESALQ/USP atuando na área de pesquisa em nutrição de ruminantes e é responsável técnica pelo Laboratório de Bromatologia daquele departamento.




 

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LUCIANO FERES JACOB

SÃO SIMÃO - GOIÁS - EMPRESÁRIO

EM 18/10/2005

Dr Carla,



No meu caso que tenho área para engordar os machos, não faço o descarte dos mesmos. Forneço 4 litros de leite até os 10 dias depois dou leite em pó até os 60 dias. Dos 0 até 60 dias ração à vontade. Após isso fixo em 0,7 kg de ração até os quatro a cinco meses.



Venho de uma família de fazendeiros tradicionalmente criadores de gado de corte e não entra na minha cabeça ter que descartar os bezerros. Este ano confinei uns bois neste lote, tive a primeira geração de bezerros leiteiros criadas por nós, os matei com 590 kg de média. Agora eu te pergunto estou errado?



<b> Resposta do autor: </b>



Luciano,



Assim como você, vários produtores de leite têm criado seus machos tentando uma fonte a mais de renda. Resta saber qual é o custo de produção deste animal. Qual é o custo da arroba produzida? Quanto recebe por ela? Só assim, saberá se está certo ou errado.



Um abraço,



Carla.





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