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Escore de sujidade: um bom indicador para os bezerreiros

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E MARINA GAVANSKI COELHO

CARLA BITTAR

EM 31/08/2020

7 MIN DE LEITURA

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Já ouviu falar em escore de higiene ou de sujidade para avaliação da sanidade e higiene dos bezerreiros? Os escores podem ser bons indicativos para  demonstrar se os manejos adotados estão sendo feitos de forma correta, se precisamos e/ou onde devemos melhorar, visando gerenciamento, melhora do bem-estar animal, prevenção de doenças e, principalmente, equilíbrio do uso de ferramentas e manejos com os aspectos econômicos. Quem está envolvido no dia a dia do bezerreiro sabe que limpeza e higiene são fundamentais para alcançar esses objetivos. Bezerros em más condições de alojamento e higiene, apresentam maior incidência de doenças e desse fato em diante, o prejuízo é certo.

A grande dificuldade da utilização de escores está vinculada ao treinamento dos colaboradores e a validação desses métodos. Afinal, atribuir notas para uma ocorrência pode apresentar certa subjetividade, pois diferentes observadores podem dar notas diferentes para uma mesma observação. Além disso, ao tratar do escore de sujidade especificamente, existe uma ampla quantidade de estudos que recomendam diferentes escores com diferentes observações a serem feitas. Isso traz inconstância dos dados e maior possibilidade de dúvidas para aqueles que farão uso desses indicadores: “Afinal, o que é importante observar?”

Recentemente, um grupo de pesquisadores, realizaram um levantamento de diversos escores de sujidade propostos na literatura, mas que não apresentavam comprovação de sua efetividade. Os autores mesclaram diversas dessas pontuações e compuseram um novo sistema de escore. As leituras foram realizadas por meio do uso de tecnologias para avaliação de imagens, associado a comparação da observação por médicos veterinários, de forma a tornar o sistema mais fidedigno e validado.

O sistema de pontuação foi baseado em três zonas de risco, para as quais havia pontuação individual:

  • Barriga (ZRB)
  • Lado (ZRL)
  • Traseiro (ZRT)

A avaliação da porcentagem de sujidade por superfície foi expressa com pontuação de 1 a 3 para cada zona de risco individualmente (Figura 1). A pontuação 1 foi dada quando a cobertura por sujidades variou de 0 a 10% da superfície da área (pouca ou nenhuma sujidade); a pontuação 2 quando entre 10 a 30% (sujidade média); e a pontuação 3 quando a sujidade fosse superior a 30% (alta sujidade). Todos os tipos de sujidade foram considerados exceto partículas secas e soltas como fragmentos de forragem, por exemplo. Para as zonas de barriga e lado, como são visualizados lateralmente, devem ser observadas as duas laterais e a nota do lado mais sujo é a que deveria ser considerada no escore. O total do escore podia variar, portanto, entre 3 e 9.

escore de sujidade bezerros

Figura 1. Planilha para utilização no escore de higiene de bezerros. Cada zona de risco (a: barriga; b: lado; c: traseiro) recebe uma pontuação de 1 a 3. O escore final é a soma da pontuação atribuída a cada zona de risco.

No estudo de validação de Kellermann et al. (2020) foram utilizados 42 bezerros para avaliação da confiabilidade inter-observador e 41 para avaliação da confiabilidade intra-observador. Enquanto a validação intra-observadores avalia se existe diferença no julgamento da sujidade e, portanto, na pontuação dada por diferentes observadores, a validação inter-observador avalia se o observador tem padronização para dar a pontuação conforme a sujidade nas diferentes zonas de risco.

Os bezerros tinham idade entre 0 e 12 semanas e eram alojados em abrigos individuais ou coletivos (variava com a idade) pertencentes a mesma propriedade. Cada bezerro foi avaliado por cada observador individualmente por 3 vezes em ordens aleatórias com intervalos de 4 horas entre observações. Nesses intervalos eram obtidas fotografias de cada zona e de cada lado dos bezerros com posição padronizada predefinida. Todas as 210 fotografias foram utilizadas para validação por método de avaliação de imagem.

As áreas de sujidade de cada fotografia foram calculadas por uso de fotoshop, somando o número de pixels das sujidades visualizadas na imagem dividido pelo número total de pixels da fotografia. Essa soma rendeu a porcentagem de sujidade de cada área atribuindo a nota de 1 a 3 que foram comparadas com as notas atribuídas pelos observadores e submetidas a análise estatística Kappa que atribuiu alta confiabilidade e concordância entre as pontuações obtidas pelas imagens e pelos observadores e entre as pontuações individuais dos observadores (intra-observador).

Para que a aplicação do escore fosse confiável os valores de Kappa deveriam ser entre 0,29 e 0,36, demonstrando concordância inter ou intra-observador de moderada a forte. Quando observamos o escore como um todo, a concordância média foi de 0,83 para avaliação entre observadores (Tabela 1) e 0,77 inter-observadores (Tabela 2). A zona com menor concordância, embora ainda aceitável foi a ZRB. Informações adicionais disponibilizadas pelos autores demonstraram que se o escore tivesse sido considerado do lado mais limpo, 22 de 42 bezerros teriam pontuações mais baixas para ZRB ou ZRL, ou mesmo para as duas.

Tabela 1 – Valores globais de kappa para validação entre observadores do escore de higiene de bezerras realizada por 5 observadores em 3 avaliações considerando 3 zonas de risco: barriga (ZRB), lado (ZRL) e traseiro (ZRT) de n=41 bezerros

Tabela 2 – Valores globais de kappa para validação inter-observadores do escore de higiene de bezerras realizada por 5 observadores em 3 avaliações, considerando 3 zonas de risco: barriga (ZRB), lado (ZRL) e traseiro (ZRT) de 42 bezerros, em comparação com o processamento de imagem (PI)

Como já discutido inicialmente e enfatizado pelos autores, a percepção humana é uma importante ferramenta, mas passível de falha nos métodos de avaliação que utilizam escore. Porém, essa é uma vantagem da metodologia que utiliza porcentagem, pois ela garante um maior intervalo para atribuições de notas, o que diminui a fonte de erros. Métodos que utilizam o tamanho da mão, por exemplo, são muito imprecisos. Ou ainda descrições em sistema de escore como “imperceptível”, “pequeno”, “sujo” são altamente subjetivas. Um exemplo de escore altamente utilizado e validado que se baseia em áreas corpóreas de maior importância e porcentagem da área afetada é a classificação para queimaduras em humanos. A utilização de porcentagem da área avaliada e associada a descrição acordada e predefinida de cada zona, o treinamento dos observadores para que haja concordância das avaliações, garante o sucesso deste sistema de escore.

Algumas dificuldades foram descritas pelos autores para utilização desse escore. Animais recém-nascidos, que ainda estão molhados não devem participar dessa avaliação. Outra dificuldade são as diferentes colorações de pelagem, uma vez que animais com maiores manchas escuras “camuflam” mais a sujidade. Além disso, é necessário um ambiente com alta luminosidade, se necessário, utilizar fontes de luzes.

É importante salientar que, ao se tratar de alojamento e higiene, não só as sujidades por fezes devem ser observadas, mas lama, urina, resíduos de leite, poeira, e outros. Estas outras fontes de sujidade também podem impactar negativamente na saúde dos animais. Assim, esse escore não deve estar exclusivamente vinculado a diarreia.

Apesar dos erros e das dificuldades, o escore de higiene geralmente é aplicado para avaliar animais em relação a outros da mesma propriedade, o que torna o uso dessa ferramenta confiável, mesmo se não avaliada por uso de tecnologia de imagem. O estudo demonstrou alta correlação das informações observadas e, portanto, essa ferramenta pode ser utilizada extensivamente para avaliação da condição higiênica e monitoramento da saúde do rebanho, basta haver treinamento, constância e alguns cuidados.

Referência: Kellermann, L. M.; Rieger, A.; Knubben-Schweizer, G.; Metzner, M. Short communication: Design and validation of hygiene score for calves. Journal of Dairy Science, 103: 3622-3627, 2020.

Comentários

Os sistemas de escore são ótimas ferramentas para o auxilio na tomada de decisões de manejo em sistemas de produção de leite. O sistema de escore mais utilizado e estabelecido é o Escore de Condição Corporal, utilizado para avaliar o status nutricional de vacas em lactação. Embora também seja um sistema de escore de alta subjetividade, tem sido utilizado com sucesso para garantir que vacas recém-paridas tenham reserva corporal adequada para mobilização no pós-parto, mas que não estejam gordas de forma a aumentar os riscos de distúrbios metabólicos. Já com animais em aleitamento, os sistemas de escore de saúde são bastante utilizados e auxiliam não só no diagnóstico de doenças, mas principalmente no treinamento de tratadores que ao utilizarem a ferramenta passar a observar os animais de forma mais frequente e a fazer diagnósticos mais rápidos. No entanto, muitos desses sistemas são laboriosos, com muitos pontos para observação como o escore de fezes, escore de orelha, secreção nasal, ocular e etc. Muitas vezes, o número excessivo de pontos de avaliação acaba fazendo com que a ferramenta não seja adotada, pois requer muito tempo dos colaboradores, além de estar associada a alta subjetividade. Infelizmente, os aplicativos para celular destes escores não estão disponíveis para download no Brasil. No caso do escore de sujidade, transformar a avaliação menos subjetiva, uma vez que a pontuação está associada a uma porcentagem da área afetada, faz com que seja menos variável e facilmente adotada nas propriedades. Este escore pode permitir avaliar se o manejo de cama e a ocorrência de diarreia estão dentro do esperado para um adequado sistema de criação de bezerras, com vistas ao bem-estar, saúde e desempenho dos animais.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

MARINA GAVANSKI COELHO

Mestranda em Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP

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