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Efeito do manejo de bovinos leiteiros recém-nascidos na mortalidade neonatal

CARLA BITTAR

EM 19/04/2005

6 MIN DE LEITURA

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As taxas de morbidez e mortalidade de bezerros são extremamente importantes nos sistemas de produção de bovinos leiteiros, uma vez que têm grande peso em planilhas de custo. Taxas de mortalidade em torno de 5% são consideradas normais, entretanto, a maior parte das propriedades apresenta índices bastante superiores. Estatísticas nacionais são raras, dificultando a elaboração de políticas de treinamento e transferência de tecnologia para produtores e funcionários envolvidos nesta atividade. Já os inúmeros levantamentos internacionais mostram que as principais causas de mortalidade de bezerros recém-nascidos são o tamanho do rebanho, diarréias, instalações inadequadas, época de nascimento, alimentação, mas principalmente o manejo de colostro.

Diante disso, a equipe do Professor Raul Machado Neto, do Depto. de Zootecnia da ESALQ/USP, realizou levantamento do manejo de bovinos leiteiros recém-nascidos, de forma a identificar as possíveis ações de manejo relacionadas à morbidez e mortalidade de bezerros.

O levantamento foi realizado com o apoio da Cooperativa Central dos Produtores Rurais, Itambé, em 211 rebanhos, escolhidos de forma aleatória e divididos em categorias de produção de leite por dia:

A) 200 a 600 L/d
B) 601 a 1000 L/d
C) ³ 1001 L/d

O levantamento foi baseado em questionário de 30 questões de múltipla escolha, abrangendo aspectos de produção e manejo do recém-nascido, principalmente referente ao manejo de colostro e mortalidade de bezerros. Somente dados de 168 rebanhos puderam ser utilizados para efeitos de análise, uma vez que 43 rebanhos não possuíam controle de dados referentes ao nascimento e morte de bezerros, sendo difícil a determinação da taxa de mortalidade, foco do levantamento. O conjunto de dados foi reorganizado levando-se em consideração taxas de mortalidade alta (>5%) ou baixa (<5%). Os dados foram então analisados, realizando-se o cruzamento do fator mortalidade com os demais fatores levantados através do questionário. Dessa forma foram identificados os fatores mais associados de forma significativa à mortalidade de bezerros (Tabela 1).

Dos fatores investigados, 12 foram associados de forma significativa à mortalidade de bezerros (fatores em negrito). Pode-se dizer, de maneira geral, que o tamanho do rebanho, o manejo do colostro e do aleitamento, instalações, a idade de acesso ao concentrado e a idade ao desaleitamento influenciaram a mortalidade de bezerros na região estudada.

Os dados mostram, de maneira bastante interessante, que rebanhos com maior número de animais, maior número de vacas ou maior número de vacas em lactação apresentam maiores taxas de mortalidade. Em algumas situações, rebanhos com grande número de animais podem apresentar maior dificuldade de manejo, principalmente devido a maior necessidade de funcionários responsáveis por esta categoria animal, a qual não gera lucro em curto prazo. O maior número de bezerros também é problemático quando o sistema de criação de bezerros utiliza instalações coletivas, podendo aumentar a disseminação de doenças.

Os dados do trabalho também mostram de forma clara, a importância do manejo do colostro, tanto seu fornecimento, quanto o tempo entre o nascimento e o fornecimento, e o meio de fornecimento. O importante papel do consumo de colostro por bezerros recém nascidos é conhecido há muitos anos, porém essa atividade ainda é negligenciada por muitos produtores. O colostro tem uma composição um pouco diferente do leite, apresentando menores teores de lactose, mas teores de gordura, sólidos totais, minerais e vitaminas, e principalmente proteína superiores. O maior teor de proteína do colostro se deve principalmente ao maior teor de imunoglobulinas (Ig), ou anticorpos. Para se garantir uma adequada transferência de imunidade, o colostro deve apresentar boa qualidade e ser fornecido logo após o nascimento, ou o mais rápido possível, uma vez que a absorção de anticorpos é reduzida com o passar do tempo. Pode-se notar que a imunidade passiva é dependente da capacidade de absorção de Ig (fator tempo) e da quantidade de Ig ingerida (fator qualidade). O produtor deve sempre fornecer o primeiro colostro uma vez que a concentração de anticorpos se reduz conforme as ordenhas.

Este estudo mostrou também que propriedades que realizavam o fornecimento de colostro de maneira artificial (mamadeira ou sonda) e no período correto, apresentaram menores taxas de mortalidade. Este fato deve estar relacionado ao controle da quantidade de colostro fornecida, aspecto importante para a adequada aquisição de imunidade passiva. Ou seja, o adequado manejo de colostro está associado de forma significativa com menores taxas de mortalidade de bezerros.

Da mesma forma, o meio de fornecimento de leite também afeta de forma significativa à mortalidade de bezerros. O levantamento mostrou que propriedades que realizam o aleitamento de forma artificial (mamadeira ou balde) apresentaram menores taxas de mortalidade. Embora em alguns rebanhos o aleitamento artificial seja de difícil implantação, principalmente devido à necessidade da presença do bezerro para a ordenha da vaca, o aleitamento artificial apresenta vantagens: controle da quantidade ingerida e menor ocorrência de diarréia. Por outro lado, exige maior disponibilidade de mão-de-obra, adequação de instalações, controle de temperatura do leite fornecido e higienização de utensílios.

A origem do leite também foi um fator significativo na mortalidade de bezerros. O trabalho demonstrou que a mortalidade foi superior em propriedades onde os bezerros recebem (ou mamam) o leite da própria mãe ou ainda de vacas com mastite. Segundo os autores, propriedades que fornecem leite de várias vacas ou leite em pó aos seus bezerros apresentam maior nível de tecnificação e, portanto, realizam melhor controle da quantidade e qualidade da dieta líquida fornecida.

Outro fator que foi associado de forma significativa à mortalidade de bezerros foi o tipo de instalação utilizado. Durante a fase de aleitamento, é importante que as instalações de bezerros sejam secas, ventiladas, limpas, com sombra, e que permitam acesso fácil e adequado ao alimento e a água. Existem inúmeras opções de instalações para bezerros em aleitamento, desde de bezerreiros fechados e coletivos até casinhas individuais confeccionadas com os mais diversos materiais. Entretanto, ao adotar determinado tipo de instalação deve-se objetivar os itens acima, sem esquecer que os agentes causais das diarréias são transmitidos via oral/fecal. Devem ser evitadas a superpopulação de animais e a adoção de sistemas que não individualizem os mesmos. Das instalações relacionadas neste trabalho, a casinha individual foi a que apresentou menor taxa de mortalidade de bezerros.

Também muito interessante, é a significativa associação do fornecimento de concentrado com a mortalidade de bezerros. Muitos trabalhos têm mostrado que o desenvolvimento do rúmen, mais precisamente de papilas, é dependente principalmente da presença de alimentos sólidos no rúmen, e conseqüente produção de ácidos graxos voláteis resultantes de fermentação. Assim, a disponibilidade de concentrado para o animal desde a primeira semana de vida é indispensável e possibilita o desaleitamento precoce, importante ferramenta na redução de custos.

Este trabalho demonstrou que vários fatores estão associados de forma significativa com a mortalidade de bezerros. A criação de animais jovens deve ser considerada como parte importante do sistema de produção de bovinos leiteiros, uma vez que tem grande peso na planilha de custo. Práticas para redução de taxa de mortalidade incluem não só calendário de vacinações e vermifugação, mas também bom manejo de colostro, aleitamento adequado e fornecimento de concentrado visando desenvolvimento ruminal e desaleitamento precoce.

Levantamentos como este devem ser realizados com mais freqüência, pois representam subsídios para a criação de políticas de treinamento e programas de pesquisa com o objetivo de melhorar o manejo de bovinos leiteiros jovens, aumentando a eficiência dentro do sistema de produção de leite.

Referências

Machado Neto, R.; Faroni, C.E.; Pauletti, P.; Bessi, R. Levantamento do manejo de bovinos leiteiros recém-nascidos: desempenho e aquisição de proteção passiva. R. Bras. de Zootecnia, v.33, n.6, p.2323-2329, 2004.

Tabela 1. Aspectos de produção e manejo e seus efeitos na mortalidade de bezerros leiteiros.
 


Adaptado de Machado Neto et al., 2004.

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JULIO GONZALES MONZON

MÍDIA ESPECIALIZADA/IMPRENSA

EM 11/12/2005

Asesoro establos con mas 200 vacas en produccion y uno de los problemas que teniamos era mortalidad elevada en terneros recien nacidos y la causa principal era por diarreas; con pruebas de laboratorio, encontramos : E, coli, Rotavirus, cristosporidia.Comenzamos a trabajar en el manejo desde el nacimiento, dandole calostro al ternero apenas nacian ni bien la vaca lo terminaba de lamer ,la cantidad de calostro que le dabamos era el 10% del peso corporal , mas o menos 4 litros al igual que desinfectabamos el ombligo inmediatamente de nacido. Y la mortandad a bajado a menos del 2% es cierto que cuesta el personal pero los beneficios economicos son mayore cuando no se tratan y no se mueren los animales el calostro se lo administrabamos con biberones
LUCIANO FERES JACOB

SÃO SIMÃO - GOIÁS - EMPRESÁRIO

EM 18/10/2005

A senhora esta de parabéns pelo trabalho. Tudo que foi dito na matéria corresponde 100% com o que ocorre na minha fazenda, estava intrigado com o fato dos bezerros que são criados pela mamadeira estarem melhor dos que os que são criados mamando na mãe, fato este que foi muito bem explicado pelo artigo.



Gostaria de receber mais matérias relacionadas ao assunto pois estou estudando a possibilidade de se individualizar a criação dos bezerros, vi uma matéria aqui no MilkPoint e gostei muito daquele com tela de sombrite. O que a senhora me diz sobre aquele tipo de bezerreiro?



Grato pela atenção



<b>Resposta do autor:</b>



Caro Luciano,



Sem dúvida a possibilidade de individualizar bezerros em aleitamento deve reduzir muito dos problemas comumente observados com animais jovens criados em baias coletivas ou em piquetes. Bezerreiros baseados em telas de sombrite onde os animais ficam presos ao chão, sem contacto com outro animal, têm sido utilizados mais recentemente em substituição as casinhas tropicais, principalmente por uma questão de custo.



Tem funcionado bem, mas no período das águas se o cocho de concentrado não for coberto, como ocorre com as casinhas, o animal não tem alimento em boas condições e que estimule o consumo.



Atenciosamente,



Carla Bittar

MATOZALÉM CAMILO

ITUIUTABA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 26/04/2005

A equipe do Professor está de parabens por este trabalho realizado. Os resultados são bastante coerentes com nossas observações a campo. Me surpreendí apenas com relação à cura do umbigo. Ela não foi relacionada como fator que interfere na mortalidade. No meu entendimento a cura mal realizada ou a não cura do umbigo interfere diretamente na taxa de mortalidade.



<b>Resposta do autor:</b>



Minha observação prática também mostra que a cura do umbigo realizada de

forma inadequada está altamente relacionada com a mortalidade de

bezerros. O umbigo está ligado a várias estruturas, inclusive ao fígado

do bezerro. Portanto, infecções decorrentes de cura inadequada tornam-se

um grande problema para o animal. É provável que as propriedades

estudadas jé tenham protocolo de cura de umbigo bem definido e portanto

as mortes observadas não tenham relação com este problema e sim com os

outros relacionadas na tabela do artigo. De qualquer maneira, é sempre

bom frisar que a cura do umbigo é uma das tarefas indispensáveis a se

realizar logo após o nascimento do bezerro. Um abraço Carla Nussio.
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