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Cuidado com sucedâneos de custo muito reduzido: não existe almoço grátis!

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E LUCAS SILVEIRA FERREIRA

CARLA BITTAR

EM 25/01/2010

6 MIN DE LEITURA

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Com a chegada de novos produtos no mercado nacional e a possibilidade de preços de sucedâneos lácteos mais competitivos, a escolha de uma ou outra formulação para bezerros pode ser um desafio. A decisão no uso de sucedâneo deve se basear em seu custo por litro diluído, comparado ao preço do leite vendido à indústria, sua composição e a oferta de leite descarte na propriedade (muito embora isso venha sendo criticado e discutido), além de facilidade no manejo. No entanto, o ponto mais importante a ser avaliado é sem dúvida a composição do sucedâneo.

De maneira geral, para a adequada formulação de um sucedâneo, devem ser utilizados ingredientes que contenham carboidratos, proteínas e gorduras os quais o bezerro seja capaz de degradar. É exatamente neste ponto que algumas empresas pecam, fazendo grandes inclusões de ingredientes menos nobres de forma a baratear a fórmula. A seguir, são listados e discutidos alguns pontos importantes que devem ser considerados pelos produtores e técnicos para esta decisão.

Os primeiros pontos a serem considerados quando se avalia diferentes formulações são:

A idade do bezerro que será aleitado com este produto. Bezerros com menos de 3 semanas não tem o trato digestório pronto para digerir fontes de carboidrato e proteína de origem vegetal, como bezerros mais velhos o fazem;
Como o sucedâneo foi produzido;
Disponibilidade de água quente, no caso de ser necessária, para a diluição do produto;
Adequação dos ingredientes e taxa de inclusão dos mesmos um sucedâneo de boa qualidade deve apresentar em seu rótulo a lista de ingredientes, assim como os níveis de garantia em nutrientes. Normalmente, os produtos mais baratos são aqueles que não têm toda a proteína de origem láctea, devendo-se atentar para isso principalmente quando o objetivo for aleitar bezerros já a partir da primeira semana de vida.

A adequação do ingrediente é sem dúvida o ponto mais importante na escolha de uma formulação e que pode levar o sucesso ao completo insucesso e descrédito nesta tecnologia. É comum produtores e técnicos não acreditarem em bons desempenhos de bezerros aleitados com sucedâneos, principalmente devido ao desastre que foi sua utilização na década de 70. Nesta época, a maior parte das formulações tinha como fonte principal de proteína, a proteína da soja, e resultaram em altas taxas de mortalidade nos sistemas de produção em que foram empregados.

A seguir discutimos brevemente as fontes de nutrientes adequadas para um sucedâneo lácteo de boa qualidade:

Proteína

Os sucedâneos devem conter por volta de 20-22% de proteína, sendo a fonte protéica de origem láctea ou não. A decisão da adoção do tipo de fonte protéica deve se basear em sua digestibilidade, balanço de aminoácidos e ausência de fatores antinutricionais. As proteínas lácteas são as melhores fontes para bezerros jovens uma vez que apresentam alta digestibilidade (87-97%, dependendo da fonte), bom balanço de aminoácidos e ausência de fator antinutricional. Bezerros com menos de 3 semanas de idade devem receber formulas que contenham somente proteínas de origem láctea. Fontes de origem não-láctea podem reduzir a disponibilidade de proteína, além de causarem diarréias alimentares que reduzem o desempenho e aumentam as taxas de mortalidade. Sucedâneos com fontes não-lácteas de proteína também podem ser consideradas adequadas, no entanto, somente para bezerros com mais de 3 semanas de vida.

Uma fonte láctea muito comum nos sucedâneos é o soro de leite, um co-produto da fabricação de queijos. Na lista de ingredientes podem aparecer soro, soro desidratado, ou proteína concentrada de soro (em inglês, WPC). A diferença destes produtos é a quantidade de lactose e minerais removida na secagem ou desidratação do soro. Por exemplo, soro desidratado contém 12% enquanto o WPC contem 80% de proteína. Também existe uma diferença em termos de digestibilidade da proteína de acordo com o tipo de queijo produzido, as temperaturas de secagem, e outros processos de manipulação do soro.

As opções de fontes protéicas não-lácteas incluem proteínas da soja, farinha de soja, proteínas de trigo, batata e plasma animal. A proteína da soja tem baixa digestibilidade e conteúdo em aminoácidos. Além disso, assim como a farinha de soja, pode causar reações alérgicas intestino, reduzindo a disponibilidade de proteína para o bezerro e causando diarréias. Estas duas fontes de proteína são melhor utilizadas por bezerros com idade acima de 3 semanas. A proteína hidrolisada do glúten de trigo é de alta qualidade, econômica, e produzida a partir da farinha de trigo pela separação da proteína e do amido do glúten. Assim como as outras fontes não-lácteas de proteína, tem baixa digestibilidade em bezerros com menos de 3 semanas, mas é adequada para bezerros acima desta idade. No entanto, tem baixa fibra e cinzas, além de conter uma maior porcentagem de proteína quando comparada aos produtos da soja. Além disso, não apresentam fatores antinutricionais que podem causar reações alérgicas, responsáveis por reduzir o desempenho animal.

As proteínas de plasma são fontes únicas que contém albumina ativa e proteínas globulares. Tem um perfil em aminoácidos bastante interessante e valor nutritivo comparável ao leite desnatado e a caseína. O plasma animal é obtido pela centrifugação do sangue podendo ser de origem bovina ou suína. No entanto, já existem restrições no uso deste tipo de ingrediente na alimentação de ruminantes.

Energia

A energia de uma formulação é avaliada pelo nível de gordura que esta apresenta. A porcentagem de gordura de leite integral com base na matéria seca é de 30%. Os sucedâneos devem conter entre 10 e 25% de gordura bruta. Bezerros com menos de duas semanas não conseguem digerir fontes não-lácteas de gordura, de forma que sucedâneos com alta gordura láctea reduzem o risco de diarréias. No entanto, como a gordura de origem láctea tem alto valor comercial, fontes alternativas, como óleo de coco ou de palma. O óleo de coco é o que apresenta maior digestibilidade, mas quando é fornecido como única fonte pode resultar em diarréia e deficiência de ácidos graxos essenciais. Essas fontes de gordura devem sofrer processo de dispersão e homogeneização, com redução de tamanho de partícula de 3-4 m, para seu melhor aproveitamento. Pontos importantes na avaliação das fontes de gordura são o ponto de fusão (decisivo para que a homogeneização e a diluição do pó em água ocorram de forma adequada), o odor, e o perfil de ácidos graxos.

Fibra

A quantidade de fibra de uma formulação é um bom indicativo da inclusão de fontes de proteína de origem vegetal. Quanto maior a inclusão destas fontes, maior será o teor de fibra da fórmula. Os sucedâneos para bezerros com menos de 3 semanas de idade não devem apresentar mais que 0,5% de fibra bruta em sua composição.

Vitaminas e minerais

De acordo com o NRC (2001) os teores dos principais minerais e vitaminas devem ser: Ca: 1,0%, P: 0,7%,vitamina A: 9.000 IU/kg, vitamina D: 600 IU/kg, vitamina E: 50 IU/kg.

De maneira geral, a escolha de um sucedâneo não deve ser tarefa tão difícil quanto possa parecer. Avalie sua composição, que será decisiva no sucesso de sua adoção, seu custo e também o treinamento dos tratadores. Quando o produto tiver o custo muito reduzido desconfie e peça uma análise bromatológica, considerando principalmente os teores de fibra bruta e de amido. Lembre-se, não existe almoço grátis!

Referências:

DAVIS, C.L.; DRACKLEY, J. K. The development, nutrition, and management of the young calf. Ames: Iowa State University Press, 1998. 339 p.
WATERMAN, D.F.; MILLS, J. Evaluating Milk Replacer Quality. Professional Dairy Heifer Growers Association, Pre-Conference Calf Seminar Robert E. James, Virginia Cooperative Extension, 2005.
National Research Council. Nutrient requirement in dairy cattle. 7th ed. Washington : National Academy of Science, 2001. 381p.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

LUCAS SILVEIRA FERREIRA

Engenheiro agronômo formado pela UFSCar e Doutor em Ciência Animal e Pastagens pela ESALQ - USP na área de nutrição e avaliação de alimentos para bovinos. Atualmente exerce a função de Nutricionista de Ruminantes na Agroceres MMX Nutrição Animal

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VITOR LOPES SOUZA RODRIGUES

LAVRAS - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 17/10/2015

Professora Carla, hoje em dia temos muitos sucedâneos no mercado de ótima qualidade. Estou lendo alguns artigos comparando o leite e sucedâneo lácteo. O que estou percebendo é que sucedâneos se aproximam muito do leite. Minha dúvida é, existe algum experimento com um sucedaneo de boa qualidade, seja qual for, em que os resultados foram iguais para animais alimentados com leite e sucedâneo? Tanto em questoes de ganho de peso, consumo de concentrado, tempo para desaleitamento....



Obrigado
DANYEL BALDISSERA

CHAPECÓ - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/10/2014

parabens pessoas como vc carla fazem a diferenca em nosso meio...novamente parabens pelo artigo
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 20/03/2012

Eliane,

Boa tarde!

Não seria muito ético de minha parte lhe recomendar um ou outro produto comercial. Acredito que se você seguir as recomendações relativas a um bom sucedâneo, vai encontrar o produto certo.

Att.,

Carla
UBIRATAN TAVARES

UNAÍ - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/03/2012

Bom dia Elaine,

Trabalho em fazendas da minha região com os produtos da Auster Nutrição Animal (Nattimilk E).

Ubiratan Tavares

Unagem consultoria

Ubiratantavares@yahoo.com.br

ELIANE S. MENDES

LORENA - SÃO PAULO

EM 19/03/2012

Dr.Carla entao diante destas informaçoes me ajude . Me passe o nome de um bom sucedanio para que eu possa melhorar a vida de minhas crianças . Tenho um menino que comprei lindo maravilhoso nao teve problema nenhum mas secou me sinto impotente diante de tanto acontecimento que me aborrece . O sucedaneo que uso e o : Presence Nutriçao animal -Lactence Materna . Obrigada Eliane
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 01/03/2010

Caro Carlos,

O Fornecimento de sucedâneo não aumenta barriga dos animais...Normalmente, animais jovens muito barrigudos são resultado de inadequado fornecimento de dieta sólida. Tenho frisado bastante a importância do fornecimento de concentrado para animais em aleitamento, de forma a estimular o desenvolvimento do rúmen. Também tenho repetido que o fornecimento de feno ou de outros volumosos para animais em aleitamento é desnecessário uma vez que os volumosos estão ligados ao desenvolvimento da musculatura do rúmen e aumento da sua capacidade (o que pode deixar os animais com aspecto de barrigudos). O aumento na capacidade de consumo é importante após o desaleitamento, de forma que o fornecimento de volumosos deve ser feito após o desaleitamento ou na última semana de fornecimento de leite.

Bezerras já desaleitadas podem receber cana, embora o manejo de cocho seja muito dificil. Uma vez que a taxa de consumo é baixa, a cana acaba esquentando e os animais deixam de consumi-la.

Quanto a comparação de animais ao pé da vaca e aqueles aleitados com sucedâneos temos alguns aspectos a analisar. Animais ao pé da vaca recebem mesmo menor quantidade de leite?? Não temos como mensurar o consumo de leite destes animais e por isso é comum observar desempenhos bastante variados entre os animais. Outro ponto é avaliar a qualidade do sucedâneo fornecido. Como apontei no radar técnico, é primordial que o sucedâneo seja de boa qualidade, de outra forma, independentemente da quantidade fornecida, as taxas de ganho de peso sempre serão ruins. O leite, embora seja o alimento natural, pode trazer problemas também se aspectos sanitários não foram controlados. Um leite com mastite e resíduoi de antibiótico é pior do que um sucedâneo de boa qualidade, concorda? Então, é preciso avaliar com cuidado as diferenças de desempenho dos animais: será que bezerras ao pé recebem menos leite? será que o sucedâneo é de boa qualidade? Normalmente o leite é mesmo melhor que o sucedâneo, mas se o custo do sucedâneo e a facilidade de manejo compensarem, não existe motivo para deixar de vender leite para fornecer aos bezerros em aleitamento.

Att.,
Carla Bittar
CARLOS SAMPAIO FARIA FILHO

OUTRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/02/2010

Dra Carla bom dia.

Preciso tirar algumas dúvidas :-

1- Esta questão, é uma colocação de algunas Produtores da minha região - O fornecimento de Sucedâneo aumenta a barriga das Bezerras e retarda seu Crescimento ?

2- Posso alimentar as Bezerras com Cana de Açucar ?

3- Tenho exemplos na minha propiedade de Bezerras que são criadas junto ao pé da Vaca, portanto recebem Leite Natural e em quantidades menores do que as que recebem Sucedâneo, apresentam melhor desenvolvimento.
Assim posso entender o que me parace lógico : O Leite Natural é melhor do que qualquer Sucedâneo ?

Atenciosamente

Carlos Sampaio
AP.DBR - Silveiras - SP
LUIS MAURICIO ZENTENO BURELO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/01/2010


Un feliz año 2010 para todos los ganaderos.

Solo hay que agregar que es de vital importancia la calidad del agua para dilución del sustituto. El agua debe ser siempre sin cloro residual. Así que si el volumen de los animales lo permite se deden de considerar diferentes formas de sanitización del agua como los equipos de ozono.

Saludos desde México.
UBIRATAN TAVARES

UNAÍ - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 25/01/2010

Dra. Carla e Dr. Lucas

Parabéns.

Tudo que é bom realmente tem o seu valor, realmente não existe almoço Grátis!
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