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Diâmetro dos bicos e temperatura do leite: qual a relação com o beber ruminal?

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E MARCOS DONIZETE SILVA

CARLA BITTAR

EM 28/09/2020

10 MIN DE LEITURA

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Os bezerros, assim como qualquer outro ruminante, são funcionalmente monogástricos durante as primeiras semanas de vida. Durante este período os pré-estômagos dos bezerros são subdesenvolvidos, de forma que a fermentação ruminal não é capaz de fornecer energia suficiente para o desenvolvimento e crescimento dos animais. Dessa forma, nestas primeiras semanas, o leite que é digerido no abomaso é a principal fonte de nutrientes, como gorduras e proteínas.

Quando um bezerro ingere leite, há a ativação de um reflexo nervoso, que estimula a contração da musculatura presente na parede esofágica, formando a partir dessa contratura um “tubo”, chamado de sulco esofágico, popularmente conhecido como “goteira esofágica”. Este “tubo” conduz o leite para o abomaso, evitando que o leite seja direcionado para dentro do rúmen o que ocasionaria sua fermentação e não digestão, acarretando problemas metabólicos. Esse problema de não formação da goteira, ou formação ineficiente, levando leite ao rúmen é conhecido como “beber ruminal”. A entrada de leite no rúmen e sua consequente fermentação por bactérias, resulta em grande produção de ácido lático que será absorvido causando acidose metabólica em bezerros. A acidose metabólica reduz o desempenho animal.

Diversos fatores podem desencadear esse reflexo, incluindo comportamentos de sucção, temperatura do leite, posição da cabeça do bezerro quando ingere a dieta líquida, além da ausência de estresse. No entanto, a falta de familiaridade com o método de alimentação; baixa temperatura do leite e a ingestão em alta velocidade (taxa de ingestão) podem causar falhas no fechamento do sulco esofágico ou até mesmo exceder sua capacidade de fechamento, influenciando para que parte do leite caia dentro do rúmen, o que não é desejado. Ou seja, uma série de fatores pode resultar no chamado beber ruminal, o que afeta negativamente a digestão do leite e utilização de nutrientes pelo bezerro.

Nos primeiros dias de vida do bezerro, a presença de leite no rúmen geralmente não é danosa, principalmente em razão do rúmen ainda não possuir uma população microbiana estabelecida que seja capaz de promover processos fermentativos. Assim, quando há o uso de uma sonda esofágica para a alimentação dos animais, como por exemplo para a administração do colostro, este será depositado no rúmen, mas em poucas horas chegará ao abomaso, onde então sofrerá os processos de digestão. No entanto, para bezerros a partir da segunda semana, já com uma microbiota ruminal estabelecida, a presença de leite no rúmen pode representar um problema. Assim, não se recomenda o uso de sonda esofágica para fornecimento de leite ou sucedâneo.

Alguns estudos já demostraram que a oferta de dietas com volumes de até 6,8 litros de leite (13,2% PV), não causaram o refluxo para o reticulo-rúmen, quando o leite era servido a 38°C e com a utilização de bicos com diâmetro de abertura menor. Atualmente muitos produtores fornecem 8 L/d, em algumas regiões até 10L/d, sem problemas em função do beber ruminal, sugerindo que o volume por si só não é responsável pela ocorrência deste distúrbio. No entanto, muitos fazem uso de fornecimento com bicos mais resistentes, que reduzem a velocidade de mamada; ou ainda adotam aleitamento automático, de forma a dividir o fornecimento em maior número de refeições. Todavia, na rotina do campo, alguns produtores podem não ser tão criteriosos no controle de temperatura de fornecimento do leite. Um outro problema recorrente é o aumento proposital no diâmetro de abertura dos bicos (Figura 1), para acelerar a ingestão dos animais, e reduzir o tempo dispensado com esta tarefa.

Figura 1. Exemplos de bicos e respectivos orifícios encontrados em propriedades comerciais.

Para investigar os efeitos da temperatura de fornecimento do leite e da abertura dos bicos no beber ruminal, Ellingsen-Dalskau et al. (2020) utilizaram imagens radiográficas. Os autores partiram da premissa de que a ingestão de leite em baixa temperatura e em alta velocidade causa fechamento insuficiente do sulco esofágico e, portanto, facilita a passagem do leite para o rúmen. Ainda dentro desse contexto, observaram indicadores comportamentais como dor abdominal ou desconforto decorrente do leite frio ou da alta velocidade de ingestão.

Para a realização do estudo, foram utilizados 15 bezerros (9 machos e 6 fêmeas) da raça Norueguês Vermelho, que é de dupla aptidão. A pesquisa foi realizada na Norwegian University of Life Sciences (Oslo), onde os bezerros foram alojados. Inicialmente, exames clínicos foram realizados para padronização do lote de animais e utilização na pesquisa. Os bezerros foram distribuídos em baias coletivas, considerando sempre os grupos de origem.

Para as avaliações foram utilizados 2 diferentes diâmetros de abertura dos bicos (2mm e 19mm; exemplos na Figura 2); e três temperaturas de fornecimento do leite (8º, 13º e   23°C). Os animais tiveram livre acesso a feno, água e concentrado. O programa de aleitamento adotado foi de 2 litros de leite integral 3 vezes ao dia, nos dias em que os animais não foram submetidos aos testes, e os horários de aleitamento foram às 08:00, 13:00 e 18:00h. No entanto, o volume variou de acordo com o dia de teste (Tabela 1). A idade média dos bezerros foi de 18,5 dias e variou entre 9 a 27 dias no início do experimento. O peso corporal médio foi de 54,9 kg, variando de 45,5 a 71,0 kg quando da chegada à instalação de teste.

Figura 2. Imagens ilustrativas de diferentes diâmetros de abertura de bicos, para o aleitamento de bezerros, onde A; 1mm, B; 2mm, C; 22mm. 

Essas imagens acima não correspondem aos mesmos bicos utilizados no trabalho de Ellingsen-Dalskau et al. (2020), mas ilustram diferentes diâmetros de bicos, para melhor entendimento do trabalho.

Para adaptar os bezerros à baixa temperatura de fornecimento, todo leite, com exceção do momento do teste, foi fornecido a uma temperatura de 23°C. A adaptação ao alojamento e a temperatura do leite, foram de 2 dias. Os testes foram realizados no 3ª e 5ª dia após a chegada nas instalações do experimento (Tabela 1).

Tabela 1. Cronograma diário das quantidades de leite fornecidas para o estudo de bezerros e ações realizadas como parte do experimento

Para a realização das radiografias foi adicionado sulfato de bário (BaSO4; Mixobar Colon, Bracco SpA, Milão, Itália; 1 g / mL) ao leite, como contraste, na proporção de 6:1 para a observação radiográfica. As radiografias abdominais foram realizadas antes, durante e 10 min após a ingestão do leite com o contraste, para investigação da presença de leite no rúmen (Figura 2). Assim, foi possível observar se o diâmetro do orifício dos bicos e a temperatura do leite resultaram em beber ruminal.

A padronização da velocidade de ingestão foi realizada com os 2 bicos de borracha, utilizados para alimentar todos os animais. Os registros do fluxo de leite pelos diferentes diâmetros do bico foram de 1,5 L/min para o diâmetro menor (2mm) e 3,2 L/min para o diâmetro maior (19mm). A velocidade de mamada foi avaliada para cada bezerro, assim que o animal iniciou o consumo de leite.

Figura 2. Radiografia abdominal (cabeça orientada para a direita) realizada após o bezerro ter ingerido 4 L de leite a 8°C através de bico com maior diâmetro de abertura (19mm). Observe que o material radiopaco está presente no abomaso e nenhum é visível no rúmen.

De forma inesperada, os resultados obtidos nesse trabalho, não encontraram evidências da presença de leite no rúmen, mesmo quando os animais foram aleitados com leite frio e em alta velocidade de ingestão. Isso demonstra que o fechamento da goteira esofágica ocorreu de forma eficiente nesta situação. Baseados nos resultados obtidos, os autores sugerem que a temperatura mínima de fornecimento de leite aos bezerros, sem que isso influencie a entrada de leite no rúmen, seja de 8ºC. Qualquer produtor sabe, no entanto, que não é uma boa ideia fornecer leite em temperatura tão baixa.

A ingestão do leite na temperatura de 8°C, provocou tremores por frio em alguns animais, logo após o término da ingestão, indicando uma queda na temperatura corporal. Deve-se considerar que o local onde foi realizado a pesquisa tem temperaturas menores, o que pode influenciar a termo regulação do animal. A ingestão de leite frio pode levar a redução no crescimento, devido ao uso de parte da energia consumida para elevar a temperatura do leite ingerido, como já dito anteriormente; além de representar um estresse adicional, quando os animais já são criados em regiões de clima frio. Além de tremores, durante o aleitamento, não foram observados sinais comportamentais com a conotação de dor ou desconforto, baseados nos pontos de avaliação de comportamento.

Além disso, observações de campo mostram relação de baixa temperatura de fornecimento de leite com ocorrência de diarreias e pneumonia. A diarreia é normalmente relacionada à ingestão de leite em baixas temperaturas, no entanto a ocorrência de diarreia foi mais frequentemente observada após ingestão em bicos com maior diâmetro de abertura (19mm). Estes dados indicam que surgimento de diarreia está mais relacionada a alta velocidade de ingestão do que à temperatura de fornecimento do leite.

Com relação ao tempo médio de mamada, foram gastos 160 seg e 111 seg nos bicos de menor e de maior diâmetro de orifício, respectivamente (Tabela 2). Por outro lado, o consumo médio de leite foi maior para os animais que utilizaram o bico de orifício menor diâmetro (2mm), independentemente da temperatura de fornecimento, muito embora não tenha havido diferença significativa (Tabela 2).

Tabela 2. Comparação da temperatura de fornecimento do leite em relação a velocidade de ingestão(seg)  e ao volume ingerido (L); resultados expressos como médias com 95% de significância.

Ao contrário do esperado, a baixa temperatura do leite não prejudicou o fechamento da goteira esofágica, mesmo quando o leite foi servido a uma alta velocidade de ingestão. Esses resultados também permitem dizer que bezerros podem ser alimentados com grandes volumes de leite sem que isso cause a entrada de leite no rúmen. Nos testes os animais receberam 4L em uma única refeição, o que pode ser considerado um grande volume ao se considerar a idade dos animais.

Normalmente, para estimular o fechamento da goteira esofágica, é recomendado que o leite seja fornecido aproximadamente a 38°C, próximo da temperatura corporal do animal. Mas, de acordo com os resultados encontrados, o fornecimento de leite a 8°C foi suficiente para induzir o fechamento da goteira. Isso indica que uma baixa temperatura do leite por si só não causa o “beber ruminal”. No entanto, manter sempre a mesma temperatura ao fornecimento do leite é o mais importante nesse processo. Os bezerros, assim como os ruminantes adultos, gostam de rotina, ou seja, facilmente apresentam o comportamento aprendido. Portanto, manter um regime alimentar padronizado, incluindo temperatura do leite fornecido, é vital para garantir o fechamento adequado da goteira.

Deve-se considerar que os bezerros são capazes de reduzir a velocidade de ingestão, reduzindo potencialmente o risco de que o leite caia no rúmen. No entanto, apesar dos resultados do presente estudo, não se recomenda alimentar bezerros utilizando bicos com diâmetros mais largos. Além do controle do fluxo de mamada pelo bezerro não ser muito eficiente, os bicos com aberturas maiores não suprem de forma eficiente a necessidade do comportamento natural dos bezerros de sugar. Assim, como o trabalho mostrou, os menores tempos de mamada podem afetar o comportamento de bezerros, aumentando por exemplo as mamadas não nutritivas. O estímulo de sucção diminui gradualmente durante os 10 minutos após a refeição e é independente também do nível de saciedade. Portanto, sugere-se aos produtores que fazem o aleitamento dos animais utilizando bicos que não cortem ou alarguem a abertura dos mesmos, na tentativa de economizar tempo na operação de aleitamento.

Os resultados deste trabalho colocam em xeque a abertura dos bicos, que definem a velocidade de mamada, e também a temperatura do leite como fatores de risco para ocorrência de “beber ruminal”. Este problema está certamente mais relacionado a manejos de fornecimento de leite em balde, principalmente quando os animais não foram bem treinados para tal. Embora estes fatores possam não estar ligados ao beber ruminal, estão sim relacionados a outros problemas como ocorrência de diarreias, principalmente quando existe variação diária na temperatura de fornecimento; e também menor desempenho, devido ao aumento da exigência energética do animal. Assim, adote bicos com adequado diâmetro de orifício, permitindo maior controle de velocidade de mamada pelos bezerros. Embora possa aumentar o tempo de alimentação, resulta em maior desempenho e menor morbidade dos animais. Além disso, mantenha constância na temperatura de fornecimento do leite. Bezerros gostam de rotina!

Referência

Ellingsen-Dalskau, K.; Mejdell, C. M.; Holand, T.; Ottesen, N.; Larsen, S. Estimation of minimum tolerated milk temperature for feeding dairy calves with small- and large-aperture teat bottles: A complementary dose-response study. In Press. J. Dairy Sci. 103 https://doi.org/10.3168/jds.2020-18460

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

MARCOS DONIZETE SILVA

Mestrando em Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP

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