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A importância do fator humano na criação de bezerras leiteiras

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E GLAUBER DOS SANTOS

CARLA BITTAR

EM 23/01/2015

4 MIN DE LEITURA

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Em sistemas de produção de leite modernos o contato do homem com os animais é cada vez mais intenso, independente da categoria animal. A consequência dessa maior interação é que a resposta dos animais, seja em produção, reprodução ou sanidade, está diretamente ligada ao comportamento do manipulador. Assim, manipulações positivas como acariciar, chamar pelo nome ou conversar podem ser retribuídas com melhorias em índices de desempenho animal.

Em situação de medo ou dor, a fisiologia do animal passa por alterações envolvendo aspectos do sistema nervoso e endócrino, os quais comandam a liberação de hormônios como o cortisol. A elevação nos níveis de cortisol na corrente sanguínea é um dos indicadores de estresse e baixo bem-estar, além de correlacionar-se negativamente com o desempenho animal. Com a identificação de comportamentos que interferem na relação medo-produtividade podemos fornecer oportunidades de melhorias no processo, através de mudanças na atitude e comportamento dos colaboradores para com os animais.

Pesquisas anteriores com vacas em lactação mostraram aumento na produção de leite (19%), melhoria no desempenho reprodutivo (23%), aumento nos parâmetros de bem-estar animal e melhor interação homem-animal (HEMSWORTH et al., 2000; BREUER et al., 2000; BERTENSHAW et al., 2008). Segundo os autores, substratos utilizados no dia-a-dia (glicose, aminoácidos, hormônios, etc.) seriam desviados da rota normal em resposta ao fator estressante, consequentemente interferindo no desempenho animal.

Bertenshaw e colaboradores (2008) estudaram diferentes graus de interação homem-animal com novilhas na fase de recria e avaliaram a subsequente produção de leite das mesmas. Estes autores concluíram que o contato positivo com novilhas, por pelo menos 30 minutos por dia durante as últimas 6 semanas da gestação, reduz dificuldades na ordenha e facilita a descida do leite.

Avaliando a percepção de produtores no processo produtivo do leite, pesquisadores concluíram que os produtores tem consciência dos problemas que comprometem a produção, mas que a remuneração pelo produto é mencionada como motivo para que a adoção de novas práticas no processo produtivo não sejam adotadas. No entanto, práticas como os hábitos de higiene pessoal, por exemplo, não envolvem desembolso direto, grande dispêndio de tempo e são determinantes na obtenção de um produto de qualidade, no caso do leite, ou de animais saudáveis e aptos a diferentes desafios, no caso da manipulação de bezerras.

Aparentemente a otimização da gestão em fazendas leiteiras abrange mais do que a disseminação de informações técnicas sobre as melhores práticas de gestão. Envolve também a percepção do problema e a mudança de atitude por parte de produtores e colaboradores (JANSEN et al., 2010). Neste mesmo sentido, acredita-se que com treinamento e conscientização de responsáveis pela criação de bezerras poderiam auxiliar na obtenção de animais mais saudáveis e com bem-estar. Mudando, por exemplo, os protocolos de higienização de utensílios utilizados para o aleitamento dos animais, ou ainda na limpeza e organização geral das instalações, pode-se reduzir a população de microrganismos patógenos, reduzindo assim as taxas de morbidade e mortalidade.

Pesquisas correlacionando a atitude e comportamento de produtores com relação à eficiência do processo de colostragem em bezerras leiteiras ainda não foram publicadas. É sabido que o sucesso no processo de transferência de imunidade passiva depende de vários fatores, no entanto, o comportamento do produtor tem papel fundamental na tentativa de diminuir falhas que possam ocorrer. Os tratadores são os responsáveis por identificar a qualidade do colostro, oferecer o colostro na quantidade e tempo corretos, além de manter o colostro isento de microrganismos contaminantes.

O comportamento dos tratadores também afeta o desempenho dos animais após o período de colostragem. Segundo De Passillé et al (1996), bezerros podem desenvolver medo de seus tratadores em virtude de tratamentos aversivos, fato que pode levar os animais a reduzir a ingestão de matéria seca, apresentar diarreias e, consequentemente, baixo desempenho. A atitude dos tratadores pode ser influenciada pelo nível de formação, de capacitação técnica e de conhecimento da importância da atividade desenvolvida, além do nível de satisfação com seu trabalho.

Atitude pode ser definida como “... uma coletânea de cognições, crenças, opiniões, e fatos positivos ou negativos (FREEDMAN et al., 1970); ... o ponto de vista de uma pessoa em relação a algo (MCCARTHY & PERREAULT Jr, 1997); ... uma predisposição subliminar da pessoa, resultante de experiências anteriores, da cognição e da afetividade, na determinação de sua reação comportamental em relação a algo (MATTAR, 1997); ... uma organização duradoura de processos motivacionais, emocionais, perceptivos e cognitivos em relação a algum aspecto do nosso ambiente (HAWKINS et al., 2007).” Assim, a atitude está ligada a três componentes: o cognitivo, que diz respeito as crenças, fatos e informações acerca de um determinado objeto; o afetivo, que se refere as emoções ou sentimentos direcionados a um objeto; e o comportamental que inclui a postura em relação a determinado objeto. A importância de se estudar a atitude reside no fato de que ela pode predizer comportamentos.

Com o treinamento, muitas vezes alteramos o comportamento de tratadores, mas precisamos pensar também em como alterar a atitude destes em relação a criação de bezerras e novilhas.

Referências

BERTENSHAW, C.; ROWLINSON, P.; EDGE, H.; DOUGLAS, S.; SHIEL, R. The effect of different degrees of ‘positive’ human–animal interaction during rearing on the welfare and subsequent production of commercial dairy heifers. Applied Animal Behaviour Science, v. 114, p. 65–75, 2008.
BREUER, K.; HEMSWORTH, P.H.; BARNETT, J.L.; MATTHEWS, L.R.; COLEMAN, G.J. Behavioural responses to humans and the productivity of commercial dairy cows. Applied Animal Behaviour Science, v. 66, p. 273-288, 2000.
De PASSILLÉ, A.M.; RUSHEN, J.; LADEWIG, J.; PETHERICK, C. Dairy calves' discrimination of people based on previous handling. Journal of Animal Science, v. 74, p. 969-974, 1996.
FREEDMAN, J.L.; CARLSMITH, J.M.; SEARS, D.O. Psicologia social. São Paulo: Cultrix, 1970. 228 p.
HAWKINS, D.I.; MOTHERSBAUGH, D.L.; BEST, R.J. Comportamento do consumidor: construindo a estratégia de marketing. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. 125 p.

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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