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Ovinocaprinocultura no semiárido: vale a ênfase na prolificidade e no peso da cria ao nascer?

PRODUÇÃO

EM 02/10/2019

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Autores do artigo: 

Aurino A. Simplício, Médico Veterinário, PhD em Ciência Animal, Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (EMPARN), Natal, RN, Brasil.

Kalina M. M. G. Simplício, Médica Veterinária, PhD em Clínica Médica, Professora Adjunta da Universidade Federal de Sergipe, Campus do Sertão, Nossa Senhora da Glória, Sergipe, Brasil.

Resumo

Os caprinos e ovinos produzem alimentos de alto valor biológico e matérias-primas valiosas, como lã, pele e esterco. Ainda, são portadores de forte capacidade de adaptação e rusticidade. Ao se colocar o foco na zona semiárida do País é prudente buscar a otimização da produção sustentável. Neste contexto, o sucesso do sistema de produção em uso deve guardar estreita relação o mercado. O manejo reprodutivo dos rebanhos é visto como a principal atividade geradora de benefícios econômicos, ainda que dispendioso do ponto de vista alimentar e da nutrição.

O semiárido apresenta-se com condições climáticas desafiadoras no tocante a quantidade de água e distribuição das chuvas, resultando na disponibilidade irregular de forragens, fator este limitante para qualquer sistema de produção com ruminantes. A despeito do número de variáveis que influenciam a prolificidade e o peso das crias ao nascer (PCN), existe uma forte tendência à valorização da prolificidade e o PCN. Estes não trarão benefícios positivos se o sistema de produção não favorecer a sobrevivência e o peso corporal das crias ao desmame e no transcorrer das fases de recria e de acabamento. Ainda, o PCN pode afetar, negativamente o desempenho produtivo dos animais. O elevado PCN pode favorecer a ocorrência de toxemia da gestação, de parto distócico, o abandono de cria, a retenção de placenta, a ocorrência de infecção puerperal e a duração do período para a reconcepção pós-parto.

Os caprinos e ovinos apresentam potenciais biológicos para contribuírem, positivamente, para o aumento e a constância da oferta de produtos de excelente qualidade, destacando-se o leite, a carne, a pele, a lã e o esterco e assim favorecerem a geração de emprego e renda. Apesar do marcante potencial reprodutivo, da adaptabilidade e rusticidade dos pequenos ruminantes, muitos são os desafios a serem superados, mas as oportunidades econômicas e sociais não são menores (SIMPLÍCIO et al., 2003; SIMPLÍCIO e SIMPLÍCIO, 2006; SIMPLÍCIO, 2007).

Em adição, independente do tipo de exploração, em especial, para produção de leite, de carne ou de ambos os produtos e da região geográfica, nos dias atuais, não se deve esquecer que a caprino e a ovinocultura estão presentes em todos os estados brasileiros. Esta condição favorece o acesso aos produtos e seus derivados. Ressalte-se, também que para o sucesso dessas explorações é fundamental dar foco nas demandas dos mercados, interno e externo, e não negligenciar a importância do ambiente, do bem-estar animal e do genótipo.

Evidencie-se que explorar animais adaptados favorece o bem-estar animal a custo mais acessível. Ainda, que as instalações são componentes importantes do ambiente e devem ser compatíveis com os objetivos da exploração, com o sistema de produção e com o regime de manejo, isto é, extensivo, semi-intensivo ou intensivo, a ser imposto aos animais. Esses fatores são fundamentais quando se busca a otimização do uso de insumos, o desfrute e a produtividade sustentável, elementos-chave para a eficiência produtiva e a rentabilidade dos sistemas de produção.

O principal custo das explorações de ruminantes está associado à alimentação, pelo que sempre ocorre forte pressão para conseguir a melhor relação custo/benefício. Já o manejo reprodutivo dos rebanhos comumente é a principal atividade geradora de benefícios econômicos, ainda que dispendioso do ponto de vista nutricional. Neste contexto, o semiárido é caracterizado por condições climáticas desafiadoras, em particular no tocante a quantidade de água e distribuição das chuvas, resultando na disponibilidade irregular de forragens, fator este limitante para qualquer sistema de produção com ruminantes (SIMPLÍCIO et al., 1982; MACHADO e SIMPLÍCIO, 1998; MEXIA et al., 2004). Portanto, reforça-se a importância e a necessidade de se planejar e implantar estratégias de alimentação e nutrição quando se explora os ruminantes na zona semiárida do Nordeste Brasileiro.

Para Campos et al. (2017), no semiárido, essas ações podem dar foco no plantio e manejo adequado de forrageiras xerófilas; nos usos de forragem conservada e de resíduos agroindustriais para a suplementação dos animais, objetivando melhorar sua rentabilidade e visando à conservação de forragens que se encontram em abundância no transcorrer da estação chuvosa. Ressalte-se, ainda a importância do uso de mistura múltipla ao longo dos meses do ano, em especial na estação seca.

Muitas vezes, a aptidão dos animais para produzir leite, carne e pele de qualidade é limitada tornando-se visível a necessidade de incorporação aos rebanhos de genótipos ou de indivíduos de raças especializadas. Neste cenário, ressalte-se a importância da inseminação artificial (IA), por meio da técnica tradicional e em tempo fixo (IATF) e da transferência de embriões (TE), dentre outras biotécnicas. No entanto, para se usar quaisquer técnicas de manejo, em particular as de ordem reprodutiva em explorações caprina e ovina devem-se avaliar os possíveis resultados esperados com foco nos mercados e na relação custo-benefício (SIMPLÍCIO, 2007; MORAES, et al., 2007).

Ainda, o uso de biotécnicas da reprodução deve, preferencialmente, ser precedido do descarte orientado e das escriturações, zootécnica e contábil, bem como, do estabelecimento de objetivos e metas. Estes pontos, certamente, contribuirão fortemente para a organização e gestão da unidade produtiva e a inserção das duas atividades no agronegócio (SIMPLÍCIO e SANTOS, 2005).

Independente da função explorada e da categoria a que o produtor pertença, familiar ou empresarial, aumentar a produtividade com rentabilidade econômico-financeira deve ser um dos principais objetivos. É importante buscá-la desde que o processo produtivo valorize o equilíbrio agroecológico, a rastreabilidade e a ética, e tenha foco na sustentabilidade econômica e no impacto social positivo. Também é fundamental que os produtores de caprinos e de ovinos, independente da tipologia a que pertençam, isto é, pequeno, médio ou grande adotem postura empresarial, o que favorece o estabelecimento de objetivos, metas e estratégias a serem alcançadas frente as demandas do mercado. Caso contrário, poderá ter sérios desafios na comercialização dos produtos e de seus derivados. Com este enfoque é que se ressalta a importância da organização e da gestão profissional da unidade produtiva (SIMPLÍCIO e SIMPLÍCIO, 2006; MORAES, et al., 2007).

A prolificidade por si só não é um fator determinante para o sucesso da exploração e colocar ênfase excessiva no aumento deste índice só é justificado quando condições de ambiente e bem-estar animal favorecem a sobrevivência e o ganho de peso, em especial, das crias no transcorrer do período de amamentação e nas fases de recria e acabamento (NASCIMENTO et al., 2018).

Considere-se, ainda que os custos de produção e os mercados devem ser favoráveis. Particularmente, na exploração para produção de carne, pele e esterco, a eficiência reprodutiva (ER) deve ser avaliada, preferencialmente pela taxa de reprodução (TR) (ANDRÉ JÚNIOR e SIMPLÍCIO, 2017). Esta aqui conceituada como o número de crias desmamadas por matriz exposta à reprodução, por ciclo de produção. Este, conceituado como o intervalo entre dois partos ou entre dois momentos de desmame.

No entanto, considere-se que a TR é influenciada por diversos fatores, destacando-se, o manejo alimentar; da nutrição; da prevenção de doença e promoção da saúde e reprodutivo; o regime de manejo; as instalações; a umidade relativa do ar e do solo; a temperatura ambiente; a capacidade biológica do macho e da fêmea para se reproduzirem; a taxa de ovulação; a produção e liberação de sêmen de qualidade; as porcentagens de fecundação e de concepção; a sobrevivência embrionária; a ordem de parto; a fertilidade ao parto; a habilidade materna e, a capacidade de adaptação dos indivíduos ao meio ambiente (ODUTOBE, 1996; CEZAR e SOUSA, 2006; CARNEIRO et al., 2016).

No entanto, entre os produtores dos pequenos ruminantes existe a tendência para se valorizar, excessivamente a prolificidade, isto é, o número de crias nascidas viáveis pelo número de matrizes paridas (P) e o peso da cria ao nascer. Ressalte-se que este é fortemente influenciado pelo genótipo, particularmente da linha paterna e aquela pelo genótipo, pela ordem de parto, pela condição corporal das matrizes e reprodutores à época do acasalamento ou da inseminação artificial, pelo estádio de saúde dos animais e por fatores ambientais (Tabelas 1 e 2).

Em princípio, considere-se, que os dois últimos atributos não trarão benefícios positivos se o sistema de produção em uso e a produção de leite das matrizes não favorecerem, positivamente, a sobrevivência e o peso corporal das crias ao desmame e no transcorrer das fases de recria e de acabamento. Ainda, o peso ao nascer pode funcionar, negativamente, afetando assim os desempenhos reprodutivo e produtivo dos animais submetidos ao sistema de produção.  

Principalmente, quando se mantém foco na precocidade sexual das fêmeas e, por conseguinte, o primeiro acasalamento é feito quando a cabrita ou a cordeira apresenta peso corporal inferior a 60,0% do peso das matrizes adultas e o sistema de produção em uso deixa a desejar. Isto, em particular, no tocante aos manejos alimentar, da nutrição e da prevenção de doença e promoção da saúde. O peso ao nascer elevado, também, pode favorecer a ocorrência de toxemia da gestação, de parto distócico, o abandono de cria, a retenção de placenta, a ocorrência de infecção puerperal, o aumento de custo, a duração do período para a reconcepção pós-parto, dentre outros aspectos, negativos.

Por fim, lembra-se que na zona semiárida brasileira a certeza está por conta da não ocorrência anual de uma quadra chuvosa regular, em especial, no tocante a quantidade de água e a distribuição das chuvas ao longo dos meses do ano.

Referências bibliográficas

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