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Feno: um mercado ainda pouco explorado no Brasil

POR DUARTE VILELA

PRODUÇÃO

EM 21/08/2019

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O comércio mundial de feno nos últimos 20 anos sofreu notável expansão devido à combinação de vários fatores, mas dois deles se destacam: as graves limitações no uso da água, principalmente nos países localizados na Ásia e no Oriente Médio, e o aumento global na demanda por proteínas de origem animal, notadamente lácteos. O crescimento no consumo per capita na região Ásia-pacífico é notório, onde se concentra 51% da população mundial e 31% dos lácteos consumidos no mundo.


Megafardos de feno de alfafa em armazéns aguardando exportação

Ao analisar as megatendências mundiais para 2050, como a integração econômica regional, os países devem aprofundar a integração regional, econômica e política e, eventualmente, tomar medidas para formar um bloco político-econômico a exemplo do Mercosul-UE e as negociações bilaterais Brasil-Ásia. Com relação à agricultura, há a busca pela diversificação agrícola, evoluindo de grandes produtores de commodities para grandes exportadores com maior valor agregado e as Mudanças nas Fronteiras dos Mercados com o surgimento de novos mercados tendo em vista que algumas regiões do mundo já atingiram seu potencial máximo enquanto outras ainda apresentam potencial inexplorado, a exemplo da China. Neste contexto, o mercado de feno pode também ser incluindo nessa análise tendo em vista seu potencial ainda pouco explorado no Brasil.

O mercado mundial de feno é dominado pela alfafa, seguido pelas gramíneas de alta qualidade, como as bermudas (Cynodon dactylon), aveia (Avena sativa), Timóteo (Phleum pratense), capim-sudão (Sorghum bicolor (L.), azevém perene (Lolium perene (L.)), entre outras). Em 2018, cerca de 8,5 milhões de toneladas métricas (MT) foram comercializados no mundo por um valor global próximo a US$ 2,7 bilhões de dólares. Os principais fornecedores foram os Estados Unidos (4,5 milhões de MT), Austrália (1,14 milhões de MT), Espanha (0,94 milhões de MT), Canadá (0,34 milhões de MT) e Itália (0,26 milhões de MT). Os maiores importadores foram Japão, China, Coreia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, responsáveis por 84% da demanda mundial. A partir de 2018 houve expressivo aumento na demanda de feno da China, dos Emirados Árabes e da Arábia Saudita.


Processe de fenação de alfafa

O número total negociado no mundo, apenas com feno de alfafa, foi próximo de seis milhões de toneladas em 2018, com uma área plantada de 32 milhões de hectares, sendo os Estados Unidos o principal fornecedor (55%), seguido por Espanha (9%), Canadá (5 %), Itália (3%) e França (2%). Na América Latina, com área plantada de 4,5 milhões de hectares, se destaca a Argentina, com quatro milhões de hectares (ha), seguido pelo Chile - 170 mil ha, Peru - 120 mil ha, Uruguai - 70 mil ha e o Brasil, com 40 mil ha ou menos, mas com grande potencial de expansão da área de produção, haja vista a possibilidade de se expandir ainda mais nos biomas Cerrado e Caatinga.

A alfafa além de produzir excelente feno, tem funções de múltiplos usos a exemplo do pastejo com vacas de alto valor genético para produção de leite.

 


Pastejo em alfafa em São Carlos/SP


Pastejo em alfafa em Campo Belo/MG

 

A Argentina, que ocupa o 9º lugar em volume de comércio de feno, já exporta US$ 13,3 milhões de dólares. No Brasil, mesmo contando com grandes vantagens comparativas frente a outros países, como clima favorável, disponibilidade de terras agricultáveis, recursos humanos qualificados e novos mercados surgentes, pouco se sabe sobre as estatísticas de mercado, mas acredita-se ser praticamente nulo. Porém, apesar de ser um mercado ainda pouco explorado no Brasil, poderá apresentar grandes avanços nos próximos anos, apesar de precisar fazer o dever de casa em algumas áreas.

Para o mercado mundial de feno, principalmente, megafardos recompactados, é importante desenvolver novas máquinas de fenação, melhorar o método de processamento e de armazenamento, além de trabalhar na qualidade do produto. Tipificar a qualidade do feno é uma exigência do mercado e deve ser compatível com o mercado mundial, sendo a análise de qualidade feita em laboratório credenciado, ter o certificado emitido por órgão competente confirmando que a qualidade de cada expedição é de acordo com as especificações mencionadas na proforma. O certificado fitossanitário emitido por autoridade competente de saúde do governo também pode ser exigido. Todos os documentos devem ser preparados em inglês e enviados em lotes pelo correio.

Para exemplificar, o comércio de megafardos de alfafa recompactados, com 800 a 850 kg, qualidade “supreme” (existem também o “prime” e o “good”), a tabela que acompanha o lote vem normalmente com as seguintes especificações:

Além destas especificações ainda podem ser exigidos a isenção de fungos, tamanho do corte, nível máximo de aflatoxina (10 ppb), livre de OGM (alguns países exigem este certificado) e de radiação, o grau de maturidade, precoce (“pré bloom” e hastes bem macias) e ainda o tipo de secagem, se ao sol ou artificialmente. Seria muito importante desenvolver novas técnicas de desidratação e gerar tecnologias industriais de secagem artificial para outros derivados industriais, como cubos, pellets e farinados. Outra ação importância tanto para os mercados internos e externos é gerar sistemas de rastreabilidade.

No caso da alfafa, o melhoramento genético específico para os trópicos (transgenia) e a produção de sementes nacionais, são temas que também devem permear uma agenda de pesquisa. É essencial estudar o uso de polinizadores eficientes e, em alguns casos, contemplar a domesticação e o uso comercial de espécies polinizadoras nativas. Melhorar o valor nutritivo, não somente diminuindo a concentração de fibra, particularmente lignina, mas também aumentando o teor de carboidratos não estruturais é importante.

Com menor teor de lignina, seja por meio de melhoramento tradicional (alfafa HiGest) ou por engenharia genética (alfafa HarvXtra), que já se comercializam nos Estados Unidos e poderão, em breve, difundir para alguns países latino-americanos. Isso não somente aumenta a digestibilidade da planta, mesmo em estágio avançado de floração, como também diminui a produção de metano entérico pelos animais em pastejo, com consequente mitigação das emissões de gases de efeito estufa.

No manejo em sistema de rotação de cultura entre leguminosa e gramínea, a exemplo do sistema alfafa-milho ou mesmo alfafa-algodão pode-se considerar vantajoso pelo benefício de se incorporar nitrogênio residual deixado pela alfafa na cultura subsequente, reduzindo o custo de produção, tanto pelo incremento na produção da gramínea quanto pela redução no gasto com fertilizante nitrogenado. É importante avaliar a viabilidade econômica desta tecnologia, pois há escassez de dados dessa natureza em muitos países tropicais, mas ela surge como mais uma opção de negócio para os produtores nacionais de grão e fibras.

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REINALDO

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 28/10/2019

Prezados Enos,

Informa o seu e-mail que vou lhe repassar literatura.
LAUDENIR BASSO

BARRA DO RIO AZUL - RIO GRANDE DO SUL - ESTUDANTE

EM 05/11/2019

Dr. Reinaldo!
Aceito o material de literatura para ampliar meus conhecimentos sobre o assunto. laudejb@gmail.com
Gratidão!
ENOS ALEXANDRE DA SILVA

NOVO PROGRESSO - PARÁ

EM 28/10/2019

A PRODUÇÃO É RENTAVEL, MAS COMO POSSO TER INFORMAÇÕES DE COM PLANTAR CUIDAR E COLHER EXISTE ALGUÉM NO MERCADO QUE POSSA AJUDAR AS PESSOAS!!
ANTÔNIO RICARDO EVANGELISTA

OUTRO - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 28/10/2019

Sou produtor de feno, com formação em agronomia, pós graduação em forragicultura tendo atuado em ensino e pesquisa e extensão nestas área até pouco tempo. Estou a disposição para contribuir e nossos contatos e-mail aricardo@ufla.br e celular 35999791217
RUI DA SILVA VERNEQUE

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 28/08/2019

Primeiramente parabenizo meu colega Dr. Duarte pelo excelente artigo. Muito bem escrito, objetivo e esclarecedor. Penso que o momento é muito oportuno para lançar ao debate este tema, porque no Brasil vemos claramente tendência de crescimento da utilização de alimentos conservados e a demanda para exportação porde ser mais um incentivador . O feno tem vantagens por permitir transportar maiores quantidades de matéria seca por volume em relação a silagem. Além disso, temos as questões técnicas que justificam tal preferência. O que se espera é que os órgãoes de pesquisa e os de fomento possam dar maior apoio ao desenvolvimento tecnológico deste setor, especialmente com a utilização da alfafa, pelas vantagens que ela representa para o nosso grande Brasil.
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 28/08/2019

Dr. Rui, suas palavras são incentivadoras e compartilho com suas colocações. Falta de incentivo é generalizada e em todos níveis, inclusive chegando ao ponto de opiniões pessoais interferirem na pesquisa e no desenvolvimento da cultura. Isso é lastimável, mas serve de incentivo para ir em frente.
LAUDENIR BASSO

BARRA DO RIO AZUL - RIO GRANDE DO SUL - ESTUDANTE

EM 26/08/2019

Caros colegas,

Infelizmente a cultura alfafa é tratada com descaso no Brasil, tentei pesquisar sobre irrigação em alfafa, mas infelizmente não pude levar à diante por não ser uma cultura de "relevância".
Tive a oportunidade de acompanhar a importância que a alfafa tem no EUA, para alimentação bovina de corte, realmente estamos àquem em conhecimento e uso desta tecnologia.
Acredito muito no potencial, porém precisamos de pesquisas e de pessoas dispostas a produzir.
Pretendo trabalhar na produção dessa cultura, pois acredito no seu potencial.
Grato!
ANTÔNIO RICARDO EVANGELISTA

OUTRO - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 26/08/2019

Neste assunto levantado pelo amigo Duarte, dois temas que sempre defendemos/trabalhamos, as leguminosas, no caso a alfafa, de importância indiscutível e o feno, recurso forrageiro muito importante em grande parte do mundo e, no Brasil, é pouco pesquisado e difundido e em função disto participa pouco das dietas de bovinos de leite. Qualquer iniciativa de apoio a projetos que explorem/aprofundem nestes temas será bem vinda. ( Antonio Ricardo Evangelista, professor aposentado da UFLA e pequeno produtor de feno)
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 26/08/2019

Caro amigo professor Evangelista, defensor nato da cultura da alfafa, enquanto professor da UFLA era defensor do processo de fenação e pesquisa em alfafa. Um dos primeiros trabalhos desenvolvidos no Brasil sobre potencial de produção de leite a pasto de alfafa como alimento exclusivo para vacas com potencial de produção de 6 mil kg/lactação foi desenvolvido no campo Experimental da Embrapa em Coronel Pacheco na década de 1990, quando se conseguiu a pasto a produção de 20kg de leite/vaca/dia com zero de concentrado.
REINALDO

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 22/08/2019

Prezados colegas,

Exemplifico abaixo o sistema de produção preconizado para gado de leite inserindo alfafa como parte da dieta:

Época da seca: alfafa + silagem de milho + concentrado
Época das águas: alfafa + capim-tanzânia + concentrado

O que se recomenda é a alfafa participar com 30 a 40% da matéria seca consumida, o que corresponde a aproximadamente 6 kg MS de alfafa/animal.

Principais vantagens de se utilizar alfafa como parte da dieta.
 Reduz a utilização de concentrado, que representa ao redor de 60% do custo da alimentação;
 Permite a utilização de concentrado com menor teor proteico;
 Reduz o custo de produção;
 Reduz a utilização da silagem na época da seca;
 Reduz o potencial de timpanismo;
 Reduz a aplicação de fertilizante nitrogenado;
 Reduz a estacionalidade da produção de forragem;
 Reduz a sazonalidade da produção;
 Aumenta a lucratividade da atividade;
 Aumenta o teor de gordura no leite, por possuir fibras longas que as bactérias ruminais transformam em ácidos graxos, precursores da gordura;
 Melhora as propriedades químicas (fixação biológica do nitrogênio), físicas (aeração e drenagem) e biológicas do solo;
 Aumenta a produção de matéria seca da cultura subsequente;
 Reduz a contaminação do lençol freático com nitrato;
 Reduz a poluição ambiental por diminuir a produção de metano.
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 22/08/2019

Caro colega Reinaldo, a alfafa realmente é um super alimento volumoso e com propriedades de múltiplos usos na agroindústria. Acredito que o investimento numa agenda de pesquisa à semelhança do que está publicado nos Anais. 2nd World Alfalfa Congress, Córdoba, Argentina, 2018, intitulado "Research priorities and future of alfalfa in Latin America" (http://www.worldalfalfacongress.org/) e no artigo publicado neste site (MilkPoint: https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao/alfafa-e-o-seu-potencial-para-expandir-a-pecuaria-na-america-latina-207385/) sobre o seu potencial para expandir a pecuária, publicado em 22/03/2018, retratam bem todo este contexto.
ALFREDO RIBEIRO DE FREITAS

SÃO CARLOS - SÃO PAULO

EM 22/08/2019

Um excelente trabalho com um diagnóstico profundo da importância e da situação da cultura da alfafa e do feno dessa cultura no mundo e principalmente no Brasil. É difícil entender o porquê que essa cultura se encontra num estágio primitivo aqui. O nosso País é quase um continente, com excelentes condições de solo e de clima, sendo um dos grandes responsáveis pela produção de alimentos no mundo. É o terceiro maior produtor mundial de leite, em milhões de toneladas em 2017, a nossa produção foi de 33,7, vindo atrás apenas dos EUA (97,7 ) e da India (83,6). Temos excelentes instituições ligadas à agricultura e à pecuária, como a Embrapa e as universidades. Com foco na produção de leite e derivados, essas instituições devem dar prioridades à cultura da alfafa e a produção de feno no Brasil. É fundamental priorizar a viabilidade econômica dessa cultura com pesquisas direcionadas ao melhoramento genético para os trópicos, polinizadores eficientes e produção de sementes nacionais (Alfredo Ribeiro de Freitas. Pesquisador aposentado da Embrapa).
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 22/08/2019

Reinaldo, muito bem colocado. Temos que lembrar todos estes assuntos estão abordados em um manual escrito por nós, mas infelizmente por burocracia interna ainda não publicado. Ainda mais há boas colocações no Anais do Congresso Mundial de Alfafa realizado em Córdoba, Argentina, em novembro de 2018.
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 22/08/2019

Caro Paulo, compreendo sua colocação, mas temos que pensar em nosso potencial em terras, clima e tecnologias. Afinal somos um país jovem no Novo Mundo e com muito ainda a aprender!
REINALDO

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 22/08/2019

Duarte, parabéns pelo excelente artigo, soube abordar o tema com objetividade e maestria.

Listo abaixo os projetos que considero prioritários para viabilizarmos a utilização de alfafa no País:

 Melhoramento genético da alfafa para os trópicos.
 Tecnologias para produção de sementes de alfafa nos trópicos.
 Manejo de plantas daninhas em cultivos de alfafa nos trópicos.
 Potencial de utilização da alfafa como parte da dieta nos trópicos.


Quatro ações precisam ser feitas pela Embrapa e de forma incisiva:

 Buscar parceria com as universidades, estimulando-as a inserir alfafa na sua grade curricular;
 Precisamos implementar um forte programa de transferência de tecnologia e de comunicação para inserir alfafa como opção forrageira para animais de alto potencial genético no País;
 Publicar livros que abordem o cultivo e as diversas formas de utilização da alfafa;
 Organizar Workshop mostrando o potencial de utilização da alfafa nos trópicos.

Não há dúvida do potencial forrageiro da alfafa nos trópicos. Chegou o momento de fazermos acontecer!! Para aumentar a produtividade de leite no País só há dois caminhos: usar animais de alto potencial genético e forrageira de qualidade!!
PAULO VITTORAZZE

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - ESTUDANTE

EM 21/08/2019

Como sempre o brasileiro é o atrasado da história. O povo de algumas regiões do Brasil ainda vive na época do Brasil Colônia, são os famosos extrativistas. O brasileiro é o povo mais cego e sem vontade de trabalhar, para eles chorar e viver a custa de governos é melhor, rende mais sem trabalhar. Etá povinho.
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 22/08/2019

Caro Paulo, é compreensível sua colocação, mas por outro lado acredito em nosso país pelo seu potencial em terras, clima e tecnologias. Afinal ainda somos um país jovem em termos de nação, um Novo Mundo e com muito a aprender.